Artigos

Publicado em número 172 - (pp. 13-21)

A vida vence a violência

Por Pe. Pedro Luiz Stringhini

No dia 30 de maio de 1992, um menino foi morto por vigias de uma fábrica de chocolates, enquanto procurava chocolate para comer, no lixo em frente à fábrica. Estava com fome.

Esse é um dos infinitos exemplos de violência que se presencia em nosso país. Fato particularmente revoltante, sintetiza por si só diversos aspectos ou tipos de violência: o abandono das crianças, a fome, fruto das desigualdades e injustiças (noticia-se que 20 por cento das crianças do país sofrem as consequências da subnutrição), a defesa cega e absurda da propriedade privada, as arbitrariedades da polícia, a discriminação racial (No caso acima, tratava-se de uma criança negra)…

Outros exemplos ajudam a formar o grande rosário das injustiças, diante das quais a Igreja — que a boa nova do evangelho liberta e transforma — se pergunta o que fazer e como minimizá-las. É angustiante desconcertante ver o nosso país colocado em último lugar na América Latina em termos de crescimento e produção de bens elementares de que o povo tem necessidade. Vergonha ainda maior é pensar na injustiça distribuição da renda e da terra: Por que existe tamanha diferença entre os salários dos pouquíssimos que recebem tanto e o da maioria que não ganha o suficiente para a cesta básica? Por que a reforma agrária não acontece e a terra continua concentrada nas mãos de poucos e violentos latifundiários?

Clama aos céus o desperdício, em celeiros do governo, de tantas toneladas de alimentos que serviriam para matar a fome de tantos irmãos. Grita às consciências a existência da chamada indústria da seca, isto é o desvio, para os bolsos de ricos políticos proprietários da terra no Nordeste, de verbas destinadas a construir poços artesianos. “Enquanto o povo lavrador, morando nas caatingas, cai desfalecido e morre por falta deste líquido precioso e aos poucos raro, outros, no mesmo Nordeste, mergulham em piscinas de luxo, construídas para armazenar o suor dos pobres e dar prazer às banhas dós enricados[1].

São pertinentes as afirmações da Pastoral dos Migrantes de que não é a seca, mas a cerca que causa a miséria do povo nordestino, o mais pobre do país; e que a seca ou chuva por si só não causam nem riqueza, nem pobreza; e mais, como se explica que a seca causa miséria a tantos e tanta riqueza a alguns?

As questões são infindáveis: são desperdiçados recursos construindo obras vistosas, dispendiosas, dispensáveis e não se constroem escolas, investindo numa educação que proporcione a formação da consciência e que exercite a criança, o adolescente, o jovem, na prática da cidadania. Que dizer da falência do sistema de saúde, imerso em corrupção e fraude? Como imaginar que se possa roubar a previdência, que deveria tratar do que há de mais fundamental no que se refere à defesa da vida e da saúde?

Toda essa situação de desrespeito à dignidade da pessoa humana verifica-se, sobretudo, nas grandes cidades, cujo crescimento desordenado as torna despreparadas para abrigar o grande contingente de migrantes em busca de moradia. Em São Paulo, por exemplo, não obstante iniciativas louváveis de solução para o problema da moradia, como os mutirões (atendendo dez mil famílias no período de 1989-92) e os assentamentos (o maior deles no Jardim da Conquista, zona Leste, com sete mil famílias), permanece o problema das favelas e, pior, o dos cortiços; além do grande contingente de pessoas que vivem nas ruas, debaixo dos viadutos e marquises. São conhecidos como sofredores de rua.

Pode-se afirmar que a raiz da violência é de fundo ético. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na assembleia deste ano, refletiu o tema da ética na política e nas instituições. Somente haverá tais princípios éticos a partir de uma educação sólida e da formação da consciência de cada pessoa. Tal formação se dá inicialmente na família, passando também pela escola, pela comunidade eclesial e pela sociedade como um todo. Ao grande esforço de conscientização acerca dos direitos humanos e da situação de opressão e cerceamento das liberdades políticas, feito na época do regime militar, e das exigências atuais de nova ordem ética, a Igreja do Brasil, as Igrejas locais, comunidades, escolas católicas, entidades, são chamadas hoje a empreender, ao mesmo tempo, iniciativas concretas no campo educacional, profissionalizante, de acolhida ao menor de rua, à criança e juventude em geral. É uma questão de prioridade.

 

1. A violência e opressão no Antigo Testamento (AT)

A Bíblia, do começo ao fim, narra situações de violência, aquelas praticadas pelo povo, e, principalmente, a que vem da parte dos que exercem autoridade diante do povo — reis, chefes, imperadores —, dos que detêm o poder e que se tornam não defensores, mas opressores do povo. A monarquia de Israel foi um sólido exemplo desta situação. Os reis praticavam arbitrariedades, justificadas inclusive a partir de uma autoridade que, segundo eles, exerciam em nome de Deus.

A Sagrada Escritura é pródiga em apresentar exemplos de violência exatamente porque sua mensagem central é aquela em que apresenta a imagem de um Deus que defende o povo, que está ao seu lado para livrá-lo das garras dos violentos, das armadilhas dos malfeitores, para libertar seus filhos da opressão.

O AT traz exemplos da violência fratricida, como na história em que Caim mata Abel e na história de José, o filho mais novo de Jacó, que foi vendido pelos irmãos. O livro do Êxodo mostra a violência do Faraó em confronto com os hebreus escravos no Egito: “Impuseram a Israel inspetores de obras para tornar-lhe dura a vida com os trabalhos que lhe exigiam. Os egípcios obrigavam os filhos de Israel ao trabalho e tornavam-lhes amarga a vida com duros trabalhos: a preparação da argila, a fabricação de tijolos, vários trabalhos nos campos, e toda a espécie de trabalhos aos quais os obrigavam” (Ex 1,11a.13-14).

Completando o trecho acima (v. 12) a ação de praticar violência é expressa pelo verbo hebraico ’anah, que significa oprimir, afligir, humilhar; um verbo de uso abundante no livro do Êxodo: “Não afligirás (’anah) o estrangeiro nem o oprimirás (lhs), … não afligireis nenhuma viúva ou órfão. Se o afligires e ele clamar por mim, eu o escutarei (Ex 22,20-22). É da raiz hebraica desse verbo que deriva o substantivo anaw = pobre, oprimido; e o adjetivo ani = pobre, aflito.

Há outro vocábulo hebraico que designa com força a situação de violência. Trata-se da palavra hamas[2], vocábulo cuja maior incidência no Antigo Testamento está nos livros proféticos (33 vezes) e nos livros sapienciais (Jó, Salmos e Provérbios = 26 vezes).

Em Jz 9,24, hamas é traduzido como violência ou crime cometido por Abimelec: um fratricídio através do qual assassinou os setenta irmãos, os filhos de Jerobaal. Jeremias fala poeticamente sobre a violência cometida contra o povo exilado, ligando à palavra violência o derramamento de sangue: “A violência (hamas) contra mim e minha carne sangrenta (caiam) sobre Babilônia, diz a moradora de Sião, e o meu sangue (caia) sobre os habitantes da Caldeia, diz Jerusalém” (Jr 51,35). Segundo o autor, “Jr 51,35 refere-se à ação sangrenta da Babilônia sobre Jerusalém. A habitante expressa-se desejando que o hamas feito contra ela, isto é, o seu sangue, recaia sobre os habitantes da Caldeia. Hamas identifica um derramamento de sangue”.

Profetas como Amós, Oseias e Miqueias identificam o mal como sendo a violência praticada contra os camponeses que têm suas terras confiscadas: “Ai daqueles que planejam iniquidade e que tramam o mal em seus leitos! Ao amanhecer, eles o praticam porque está no poder de sua mão. Se cobiçam campos, eles os roubam, se sacas, eles as tomam; eles oprimem o varão e sua casa, o homem e sua herança” (Mq 2,1-2). A palavra de Iahweh dirigida a esses opressores é uma palavra de ameaça; Deus não tolera tal violência “ai daqueles que vendem o justo por prata e o indigente (ebyon) por um par de sandálias (Am 2,6); “ai de vós que esmagais o indigente e quereis eliminar os pobres (aniwey — plural da raiz anaw) da terra” (AM 8,4).

A leitura atenta do AT mostra uma estreita relação entre violência e pobreza. A maior violência é a injustiça que gera a pobreza e a miséria. É interessante notar que a Bíblia não fala abstratamente da opressão; fala de oprimidos, contando para isso com uma vasta terminologia para designá-los. “As palavras que mais utiliza para falar de pobres são ani (80 vezes) e anaw (25 vezes). Ambas provêm de uma raiz verbal que significa “vergar” ou “ser vergado”[3].

Outra palavra para designar os pobres na Bíblia é ebyon (65 vezes). Ebyon é aquele que deseja, um insatisfeito, uma pessoa cuja insatisfação resulta de suas privações, … é aquele que deseja alimentar-se ou vestir-se… o indefeso, o oprimido que reclama justiça, uma pessoa que reclama socorro contra a injustiça”[4]. Há também a palavra dal (48 vezes), que “vem de uma raiz verbal que significa ‘ser magro, ser fraco, ser mal constituído fisicamente’. Dal é uma pessoa física ou socialmente fraca, uma pessoa que não tem peso na sociedade: ‘Vós que oprimis os fracos (dal) e esmagais os indigentes (ebyon)’… (Am 4,1)[5].

 

2. Jesus e a violência em seu tempo

No NT, a ação de Jesus vai-se dar igualmente num contexto de injustiça, opressão e violência. Politicamente predominava o império romano, e o sistema econômico vigente era o escravagismo. “Prisioneiros de guerra, camponeses endividados, populações capturadas e vendidas nos mercados, os escravos representam o instrumento principal de trabalho; sem salário, considerados pelo direito romano como mercadoria, impiedosamente explorados, eles são a base da economia. No campo, são a principal mão de obra das grandes propriedades”[6].

Outro aspecto da opressão que esmaga os pobres na Palestina do tempo de Jesus é o peso da instituição religiosa, cujo centro é o templo de Jerusalém. Segundo Jorge Pixley, “Jesus viu o templo de Jerusalém e os mestres fariseus da Galileia como o antagonismo principal ao Reino de Deus, cujo tema principal era que Deus é rei e podemos esperar seu Reino como uma nova e mais perfeita sociedade. Jesus creu que a principal opressão era a dos religiosos judeus mais que a dos romanos”[7].

Nesse contexto situam-se as controvérsias de Jesus com os fariseus (Mc 2-3). Jesus está preocupado com o bem da pessoa; eles estão preocupados com a observância da Lei do sábado. Por isso Jesus lhes responde com frases do tipo: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27); ou: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar?” (Mc 3,4). Mas os escribas e fariseus diziam: “Ele blasfema” (Mc 2,7); ou: “Ele está possuído por um espírito impuro” (Mc 3,30).

A instituição religiosa do templo impõe ao povo cumprimento de preceitos religiosos e tributos. Os preconceitos religiosos são exigidos a partir da Lei da pureza. O judeu que não cumpre tais preceitos, configurados sobretudo no Levítico, corre o risco de ser considerado impuro, o que significa ser considerado pecador público e segregado do convívio social.

Exemplo claro de tal segregação é o caso do leproso. Não é à toa que um dos grandes sinais messiânicos entre os elencados nos evangelhos é a purificação de leprosos (Mt 11,5; Lc 7,22). Jesus, rompendo com o esquema da pureza ritual num gesto de denúncia da discriminação, deixa que o leproso se aproxime dele, toca-o e declara: “Sê purificado” (Mc 1,40-45). Partindo de valiosos manuscritos, boa parte das traduções atuais (Bíblia Pastoral, por exemplo) afirmam no v. 41 que Jesus, vendo o leproso, ficou cheio de ira (orghistheis). A escolha faz sentido, partindo do fato de que toda a situação gritante de injustiça deve causar, como causou em Jesus, repugnância, uma espécie de ira santa e o desejo de inversão ou subversão de tal ordem de coisas.

Outras traduções (como a Bíblia de Jerusalém, por exemplo) optaram pela expressão em que se lê que Jesus ficou movido de compaixão (splanchnitheis). O verbo splanchnizomai significa ter compaixão ou piedade e exprime, em grego com muita força, o sentimento de Jesus diante da violência. É o verbo semanticamente ligado ao movimento de repugnância causado por uma situação que mexe com as vísceras, com o ventre e com o coração, considerado, em linguagem metafórica, a sede dos sentimentos[8].

Somente os sinóticos usam esse verbo, e o usam para exprimir os sentimentos de Jesus quando vê a multidão com fome de pão: “Tenho compaixão da multidão, pois já faz três dias que está comigo e não tem o que comer” (Mc 8,2); ou com fome de instrução: “… ficou tomado de compaixão, pois estavam como ovelhas sem pastor e começou a ensinar-lhes” (Mc 6,34; Mt 9,36); ou com doenças (Mt 14,14; 20,34). É também usado para exprimir a tristeza de Jesus solidário diante da morte do filho da viúva de Naim (Lc 6,13), a misericórdia do bom samaritano (Lc 10,33) e o sentimento do Pai (figura de Deus) que espera o filho voltar: “Ele estava ainda ao longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço cobrindo-o de beijos” (Lc 15,20).

Jesus conhece bem a situação do seu povo; ele vive em seu meio e participa de sua vida. Alegra-se nos momentos de festa e sobretudo diante de situações em que a pessoa humana se liberta de um sofrimento, doença, fome, perturbação. Ao mesmo tempo, sofre com os que sofrem, chora diante da morte, como no caso de Lázaro (Jo 11,1-44) e olha os fariseus e escribas com “um olhar de indignação, entristecido pela dureza do coração deles” (Mc 3,5), pois não são capazes de se alegrar com a libertação de quem está oprimido pela doença, pelo pecado, pela discriminação e por toda a sorte de injustiça. A alegria de Deus é a vida dos seus filhos: “era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois teu irmão estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado” (Lc 15,32).

Diante da violência que esmaga o povo, do fardo “da Lei e das observâncias farisaicas que a sobrecarregavam ainda mais” (cf. nota da Bíblia de Jerusalém para Mt 11,28), que lhe pesa sobre os ombros, Jesus afirma: “Vinde a mim todos os que estais cansados, sobrecarregados, sob o peso do vosso fardo… porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois meu jugo é suave, e meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Jesus inaugura um novo tempo: “Cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15); “não apenas questiona, mas mina a ordem social, o mundo religioso e mental no qual necessariamente a maioria dos homens, de fato, é considerada desprezível. O compromisso de Jesus com os párias físicos, sociais e religiosos é força de ruptura que não se contém”[9]. O valor máximo para Jesus é a defesa da vida e da dignidade dos filhos de Deus.

 

3. A vida vence a violência

A realidade ou experiência da vida fala mais alto que os discursos sobre a vida. O nascimento de uma criança proclama por si mesmo a força da vida. Uma pessoa que se recupera de grave doença ou de grave acidente proclama em silêncio o valor da vida. A mensagem do NT tem seu ponto alto na experiência da ressurreição de Cristo, vivida pelos apóstolos e pelas mulheres a partir daquela manhã em que encontraram o túmulo vazio; experiência vivida e em seguida transmitida a “todas as nações” (Mt 28,19) a partir da comunidade primitiva.

A ressurreição é a experiência que prepara Pentecostes e a vinda do Espírito Santo, que elucida a ressurreição. Entretanto, a ressurreição de Cristo só pode ser compreendida se se parte do fato histórico da sua morte-martírio. Os termos gregos martyria (testemunho) ou martyrion (testemunho radical que torna a pessoa mártir) ajudam a tirar da morte de Jesus a conotação sacrifical de que era necessário o derrama­mento de sangue, como único meio (de acordo com as leis levíticas) de expiação, de redenção. O que conta em Jesus é o testemunho e a fidelidade ao Pai e à causa do Reino.

“Jesus, ao assumir convicta e radicalmente a sua missão, não a realiza prescindindo das contingências, das instituições e até mesmo das contradições humanas. Assim, sendo obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,8), vai até as últimas consequências, até o martírio, denunciando toda a violência e preconizando que ninguém mais deveria precisar derramar sangue, pois no Reino de Deus não pode haver injustiça nem violência, haverá, sim, “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1 -7)[10].

Realidade nova, vida nova, utopia, Reino de Deus, ressurreição da carne, são expressões que encontram eco, ou que no mínimo se contrapõem à situação de sofrimento, violência e morte presentes no dia a dia. Por isso são, ao mesmo tempo, profeticamente anúncio e denúncia das injustiças; são o clamor de uma nova ordem. Daí a afirmação de que o Deus da vida “ressuscita Jesus dentre os mortos, reabilita-o na história e o faz ser vivente” (Ap 1,18), com um corpo que não mais experimenta a morte (1 Cor 15,40-48)… A ressurreição de Jesus reabilita o valor da vida corpórea, da corporeidade, da vida humana real”[11].

O discurso de Pedro liga a ressurreição de Cristo ao Jesus histórico, cuja missão — a pregação do Reino — realizou por meio de sinais (milagres) que revelam que Deus é Pai, Senhor da vida. Com veemência Pedro proclama: “Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele entre vós, como bem o sabeis. Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pelas mãos dos ímpios. Mas Deus o ressuscitou libertando-o dos laços da morte” (At 2,22-24). O anúncio central (kerygma) da Igreja primitiva, no-lo anuncia Paulo no capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras e ressuscitou ao terceiro dia” (vv. 3-4); e “assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (v. 22).

O evangelho de João relata sete sinais — o termo para designar milagre em João é semeion — realizados por Jesus: as núpcias de Caná (2,1-12), a cura do filho do funcionário real (4,46-53), a cura do enfermo na piscina de Betesda (5,1-47), a multiplicação dos pães (6,1-15), Jesus caminhando sobre as águas (6,16-21), cura de um cego de nascença (9,1-41) e a ressurreição de Lázaro (11,1-43). João afirma que Jesus realizou outros sinais (Jo 20,30) e muitas outras coisas que, “se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam” (21,25). Se, pois, o evangelista escolheu sete, é pelo fato de serem os mais significativos para mostrar que Jesus liberta e dá vida.

A multiplicação dos pães é o cenário a partir do qual Jesus afirma: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,35.48); e: “Eu sou o pão vivo” (v. 51). A longa narrativa da cura do cego do capítulo 9, em que Jesus repudia a cegueira dos judeus (“Se fôsseis cegos não teríeis culpa; mas como dizeis: Nós vemos! vosso pecado permanece”), prepara as afirmações de Jesus no capítulo 10: “Eu sou a porta das ovelhas” (v. 8). “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (v. 10); “Eu sou o bom pastor (vv. 11.14). Com o episódio da ressurreição de Lázaro, em que Jesus afirma: “Eu sou a ressurreição e a vida” (11,25), começa a anunciar a Páscoa em que pela morte seria glorificado e afirma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (14,6).

Os sete sinais são ilustrações da mensagem que João apresenta no prólogo (1,1-18), ou seja, interpretam afirmações fundamentais sobre a VIDA, como: 1) a verdade sobre o verbo pré-existente desde a criação do mundo: “O Verbo, no princípio, estava junto de Deus” (v. 2), e: “Nele estava a vida” (v. 4) —este versículo pode também ser traduzido como: o que foi feito nele era a vida; 2) a verdade sobre o mistério da encarnação: “E o verbo se fez carne e habitou entre nós” (v. 14); 3) o mundo e as trevas se lhe contrapõem: “A luz brilhou na treva, mas a treva não o recebeu” (v. 5); “… estava no mundo, o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o conheceu” (v. 10). As palavras-chave são, por um lado, as que expressam a vida: Princípio — Verbo — Deus — Vida; e, por outro, as que expressam a oposição à vida: treva — mundo — o que era seu (a casa de Israel) e os seus (o povo judeu).

Nessa contraposição, a vida vence a violência e a morte, do mesmo modo que a luz vence a treva, a verdade supera a mentira, o conhecimento supera a alienação. Jesus mostra isso através de sua pregação, dos seus milagres e da sua ressurreição. A Igreja, fecundada pela vinda do Espírito Santo, continua a obra Jesus Cristo cumprindo sua missão de evangelizar, ou seja, levando a boa-notícia (evangelho) que muda as mentalidades e transforma as estruturas da sociedade.

 

4. A defesa da vida nos milagres de Jesus

Vencer a doença (física e psíquica), a fome, a discriminação (a impureza ritual, a lepra), a morte, são sinais concretos de que “o tempo (kairós) se completou e o Reino de Deus está se aproximando” (Mc 1,15). O poder (dynamis) de Deus se faz presente na pessoa de seu Filho, que se abaixou (se humilhou), fazendo-se pequeno até a morte (Fl 2,6-8); solidarizando-se com os fracos, humildes, pobres e marginalizados. A sua exaltação (Fl 2,9; Hb 1,3c.4) é a vitória desses mesmos pequenos, que colocam nele sua fé e encontram nele o alívio de suas dores (Mt 11, 28-30).

Os relatos de milagres mostram a atenção especial de Jesus para com as mulheres, como na cura da hemorroíssa e da filha de Jairo (Mc 5,21-43), e na ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17). Outros milagres denotam sua atenção aos estrangeiros: é o caso da cura da filha de uma mulher sírio-fenícia (Mc 7,24-29) e a purificação dos dez leprosos, em que um era samaritano (Lc 17,11-19).

A prática de Jesus é libertadora; sua ação vai de encontro ao apelo de justiça, solidariedade, organização e promoção humana. Exemplo disso são os seis relatos apresentados pelos quatro evangelistas sobre a multiplicação dos pães. Sua ação visa a construção de uma sociedade igualitária, em que haja partilha dos bens, especialmente a partilha de pão. O maior escândalo do mundo é a fome, principal raiz da violência.

Criticando as instituições religiosas de Israel (conforme já foi abordado na questão do sábado — Mc 2,27; 3,4 — e na cura do leproso — Mc 1,40-45),Jesus, através dos milagres, vislumbra uma nova sociedade. Nela, o excluído, escravo, alienado — como no caso do endemoninhado de Gerasa, que vivia sob “grilhões e algemas perambulando pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedras” (Mc 5,4­-5) — passa a homem livre, na plenitude da vida. No final desse episódio, “viram o endemoninhado sentado, vestido e em são juízo, aquele mesmo que tivera a Legião” (v. 15)[12].

Também a relação entre Jesus e o que solicita o milagre se dá de forma nova. Jesus quebra as barreiras, estende a mão (Mt 8,3; Mc 1,41; Lc 5,13), toca o doente (Mt 20,34; Mc 7,33; 8,22) e se deixa tocar (Mc 6,56; Lc 6,19). A pessoa é valorizada, é chamada a participar, a estar presente, a dar sua adesão, o seu reconhecimento, a fazer sua profissão de fé e a proclamar o fato, a anunciar a notícia, a Palavra (Lc 5,15; Mc 5,20).

Nos milagres, Jesus realiza a libertação integral da pessoa, liberta da doença e perdoa os pecados (Mc 2,10-11). O resultado dos milagres de Jesus é sempre a vitória do Reino de Deus sobre o domínio de Satã, do homem são e saciado sobre o doente e faminto, da nova sociedade que acolhe e reintegra sobre a que discrimina e exclui, da fé e confiança sobre a incredulidade, do homem livre e consciente sobre o alienado e escravo, da utopia sobre a fatalidade, da vida sobre a morte.

 

5. Evangelização que gera e defende a vida

Evangelização é o anúncio da Boa-Notícia que gera e preserva a vida. No evangelho de João, falar de Vida significa falar de Verdade (alétheia) e conhecimento (gnósis). A defesa da vida passa pela busca da verdade; e o segredo do verdadeiro conhecimento é o emergir da verdade que desmascara a opressão, que vence a injustiça e que liberta.

Conhecimento é a possibilidade de experimentar aquilo que a razão formulou (ciência) ou que está subjacente no íntimo de cada ser humano, embora ainda não explicitado. Esse processo se dá pela consciência (syneidesis). O apóstolo Paulo diz que o conhecimento (ciência) produz a boa consciência, e a boa consciência produz a liberdade (1Cor 8,7-13; 10,23-30). A liberdade é a mais alta expressão da vida. Nos últimos anos, a Igreja procurou, em sua ação evangelizadora, desenvolver um processo de conscientização, ou seja, o esforço de proporcionar um conhecimento acerca da realidade de injustiça social que se constitui no primeiro passo para a ação libertadora dessas mesmas injustiças. Quem é consciente (conscientizado) é já potencialmente livre; e um povo livre não tolera tiranos nem corruptos. Paulo apóstolo exorta a não se caminhar “na futilidade dos seus pensamentos, com entendimento entenebrecido, alie­nados da vida de Deus pela sua ignorância e pela dureza dos seus corações… insensíveis” (Ef 4,17-19), e sim a renovar-se pela transformação da mente e revestir-se do homem novo, na justiça e santidade da verdade (Ef 4,23-24).

À alienação o apóstolo Pedro chama de corrupção resultante da concupiscência (2Pd 1,4), e disso fomos libertados, por isso exorta a se progredir da fé ao conhecimento, do conhecimento ao amor fraternal (filadelfia) e do amor fraternal à caridade (agape) (2Pd 1,5-7). “O verdadeiro conhecimento se dá a partir da experiência do amor; tal é o modo como o filho pequeno conhece com intensidade a sua mãe; isto é, como mãe e filho, se conhecem profundamente porque profundamente se amam” (D. Luciano Mendes). O amor é tanto mais profundo quanto mais se torna doação, renúncia, busca de justiça, martírio, conforme exorta o apóstolo Pedro: “Se sofreis por causa da justiça, bem-aventurados sois! Não tenhais medo… estando sempre prontos a dar a razão da vossa esperança” (1Pd 3,14-15).

No conhecimento de Deus e do amor que gera a vida encontra-se o objeto da evangelização, a qual tem por princípio fundamental a defesa da vida; o evangelho contém a força que vence a violência; ele apresenta alternativas eficazes para a renovação das consciências e transformação da sociedade: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). A exortação apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo, Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI (1975), apresenta os fundamentos da evangelização, alguns dos quais abaixo relacionados:

1)   a evangelização se dá pelo testemunho (martyria): “evangelizar é, em primeiro lugar, dar testemunho, de maneira simples e direta” (n. 26); pois “evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma” (EN 15);

2)   a evangelização é uma proclamação de que “no seu Filho, ele (Deus) amou o mundo; no seu Verbo encarnado, ele deu o ser a todas as coisas e chamou os homens para a vida eterna” (n. 26);

3)   o evangelho interpela “a vida pessoal e social dos homens… a vida internacional, a paz, a justiça e o desenvolvimento” (n. 29);

4)   o evangelho é uma mensagem de libertação de tudo o que condena os povos pobres “a ficarem à margem da vida: carestias, doenças crônicas e endêmicas, analfabetismo, pauperismo, injustiças nas relações internacionais e especialmente nos intercâmbios comerciais, situações de neocolonialismo econômico e cultural…” (n. 30);

5)   o evangelho é uma mensagem capaz de modificar “os critérios de julgamento, os valores que contam, os centros de interesse, as fontes inspiradoras e os modelos da vida da humanidade” (EN 19).

6)   “o Reino que o evangelho anuncia é vivido por homens profundamente ligados a uma determinada cultura” (EN 20), por isso a evangelização “não pode deixar de servir-se de elementos da cultura e culturas humanas” (idem).

 

6. A defesa da vida na pós-modernidade

A prática pastoral da Igreja, através da qual se da a evangelização, não pode ser feita sem levar em consideração o contexto social e cultural no qual as igrejas (dioceses) estão inseridas, portanto um plano de pastoral deve levar em conta a realidade local. Contudo, e quiçá sobretudo, o contexto mundial determina a ação evangelizadora e missionária da Igreja a fim de que “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens deste tempo, dos pobres sobretudo e de todos os que sofrem, sejam também as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo(GS 1).

Hoje a pastoral deve levar em conta o grande fenômeno da pós-modernidade. A modernidade, este longo período da história da humanidade que vem desde o iluminismo e revolução francesa (século XVIII), é uma etapa que vem chegando ao seu final e originando direcionamentos diversos daqueles que a constituíram e pelos quais ela se pautou. Pode-se fazer um balanço dos resultados que a modernidade produziu e perguntar se condizem com aquilo a que se propôs, uma vez que “a modernidade caracterizou-se por uma confiança quase ilimitada na razão humana, capaz de conduzir o ser humano ao progresso e por meio deste à felicidade”[13].

Questiona-se hoje a infalibilidade da assertiva acima proclamada. A razão tem seus limites, e não percebê-los é prova de irracionalidade; o progresso é um diagnóstico de efeitos colaterais (destruição da natureza, lixo atômico, morte dos rios, efeito estufa), e a felicidade só existe quando, partindo do dado racional, se atinge o humano, em que reside o divino, pois “não há nada de verdadeiramente humano que não encontre eco no coração de Cristo” (GS 1). Na construção da fraternidade universal repousa a vocação divina do homem e a resposta à indagação acerca do “destino último das coisas e da humanidade” (GS 3).

A crítica à modernidade é o que Enrique Dussel: chama de transmodernidade. Parte do princípio de que a modernidade caracterizou-se por ser essencialmente — eurocêntrica, com uma cosmovisão ideológica e religiosa idealizadas (desde Hegel) a partir dos interesses de uma pequena porção geográfico-étnico-cultural que é a Europa. Do ponto de vista econômico, o progresso, a técnica e o desenvolvimento funcionam como fator determinante das relações sociais. Para Dussel, há que se buscar meios urgentes para a superação dos fracassos da modernidade, que é o risco de destruição do planeta e do ser humano, especialmente pela fome.

Em suma, a modernidade ameaça a vida; e o caminho de superação terá de ser através de soluções mais arrojadas, se bem que mais modestas e mais eficazes, mais humanitárias, mais participativas e sobretudo a partir das “minorias” étnico-culturais, que no planeta constituem a maioria dos seres humanos. Os pobres, os negros, os índios, os menores, as mulheres, não são absolutamente minorias. Minoria são os poucos beneficiários das conquistas da modernidade.

Do ponto de vista bíblico, é necessário um retorno aos sábios, com sua indagação sobre o sentido da vida, do universo e da atividade humana. Partindo da razão para obter respostas sobre quem é Deus e quem é o homem, “a indagação sapiencial dos sábios não eliminou o mistério de Deus, mas o exaltou”[14]. Sendo pessoas de fé, os sábios têm consciência de que “também a verdade que provém da razão é sempre uma luz que vem de Deus; … os sábios lançam uma ponte entre fé e razão”[15].

Os sábios da Bíblia foram capazes de fazer a correlação entre razão e mistério de Deus, entre razão e experiência; mostram que o mistério de Deus e sua ação se manifestam a partir da história. O Deus da Bíblia é o Deus do Êxodo, que se torna conhecido quando diz: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12), “Eu vos farei sair… libertar-vos-ei da escravidão e vos resgatarei… tornar‑vos-ei por meu povo e serei o vosso Deus (Ex 6,6.7).

Sábios como Coélet (Eclesiastes) e Jó, livros como os Salmos e Provérbios são capazes de fazer a ligação entre razão e fé, entre revelação de Deus e experiência humana, mesmo a partir dos fatos negativos da existência. Lendo-os sob a ótica atual, percebe‑se a crítica que fazem à modernidade em afirmações como: “Se Iahweh não constrói a casa, em vão labutamos seus construtores; se Iahweh não guarda a cidade, em vão vigiam os guardas (Sl 127,1); ou: “Quem ama o dinheiro, nunca está farto de dinheiro, quem ama a abundância, nunca tem vantagem. Isso também é vaidade” (Ecle 5,9).

Jó é aquele que, a partir do sofrimento, passa da ideia da retribuição mecânica da sabedoria tradicional à experiência do mistério do Deus vivo, que se revela a partir das contradições históricas. Essas contradições “se tornam, na investigação sapiencial, caminho de revelação: não somente uma prova para a fé, mas uma purificação para a fé”[16].

 

Conclusão

Numa reflexão sobre a vida e a violência que a ameaça, uma conclusão será a de encontrar algumas pistas pastorais. Há que se levar em conta situações em que tais ameaças não aparecem e não perder de vista a realidade urbana, pois as cidades são hoje os espaços vitais. Em direção a elas chega sempre mais gente na ilusão ou esperança de que nelas haja mais possibilidade de sobrevivência e realização. Nesse sentido, alguns aspectos devem ser levados em consideração:

1) A opção pelos pobres é evangélica e será sempre o princípio que norteará a ação pastoral. Nas três parábolas do capítulo 14 de Lucas, Jesus proclama que são felizes os pobres (“Feliz aquele que tomar refeição Reino de Deus!”, v. 15). É feliz quem opta pelos pobres, melhor dizendo, os que optam pelo “pobre” (o pobre enquanto a classe dos marginalizados): “Feliz serás, então, porque não têm como retribuir” (Lc 14,14).

Na parábola da escolha dos lugares (Lc 14,7-11), há um conselho: “Quando alguém te convidar para uma festa de casamento, não te coloques no primeiro lugar, pois pode ser que alguém mais digno do que tu tenha sido convidado…”. Não é difícil perceber quem são esses mais dignos: a perícope anterior mostra que Jesus está dizendo isso “na casa de um dos chefes fariseus” (Lc 14,1) na presença dos “legistas e fariseus” (v. 2). Quem são os mais dignos que essa gente? A resposta vem por meio das duas parábolas seguintes: escolha dos convidados (“quando deres uma festa chama pobres, estropiados, coxos, cegos”: v. 13) e a do grande banquete (“vai depressa pelas praças e ruas da cidade, e introduz aqui os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos”: v. 21). Estes são os mais dignos.

2) A partir da reflexão sobre os sábios na Bíblia e sobre a modernidade, emerge a necessidade de valorização do tempo presente[17], ou seja, defender a vida naquelas circunstâncias em que ela se manifesta. Os pobres experimentam mais a sabedoria do Sermão da Montanha, que diz que “a vida é mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa” (Mt 6,25). Enquanto prossegue a luta pela sobrevivência, enquanto se busca conquistar condições mais dignas, celebra-se o que já foi conquistado, “se ama, se come, se bebe, casa-se, e dá-se em casamento” (Lc 17,27). É verdadeira a afirmação: “Quem, com suas preocupações, pode prolongar, por pouco que seja, a duração de sua vida?” (Mt 6,27).

Não se trata somente de um programa ou uma estratégia, mas de uma mística: “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã” (Mt 6,33-34). Trata-se de “um realismo sóbrio e sereno que tempera tão bem a vida”[18], pois “a demora será longa. Enquanto se espera, é preciso viver”[19], visto que “há um momento para tudo e um tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ecle 3,1). Esse realismo deve impelir a Igreja a caminhar num duplo sentido: o de buscar, com as força pensantes da sociedade, soluções por meio de projetos político-sociais e o de ajudar pequenas comunidades localizadas a organizar pequenos projetos de formação humana, profissional e iniciativas que respondam às necessidades imediatas das crianças, jovens e adultos. Isso vale especialmente para a periferia, que hoje está em quase todo o lugar.

3) A busca do conhecimento, da verdade, da sabedoria (que no NT é o próprio Cristo), hoje, sobretudo no Brasil, passa pela busca dos valores éticos. Ética significa agir guiado pela consciência, que é “a voz interior que ilumina nossos atos livres, mostrando o que é certo e o que é errado. Quem age contra a própria consciência percebe, ao mesmo tempo, o desacerto que comete ao fugir do dever. É essa consciência que nos faz captar a necessidade de sermos fiéis ao bem e evitarmos o mal”[20].

 

A preocupação da Igreja no Brasil, com relação à questão ética, se evidencia neste momento em que os valores que norteiam a conduta do cidadão e o impelem a buscar o bem comum têm sido violados em nosso país. Deste modo, cresce a corrupção, a busca de privilégios pessoais e o descrédito nas instituições. Crescem as injustiças e a marginalização, sendo violadas a consciência individual e social e a fidelidade aos deveres. “O rompimento dessa fidelidade quebra a coerência interior, violenta a própria dignidade… que está na base do agir humano”[21].

Por fim, afirma que o apelo ético, ou seja, a coerência em seguir “a voz e a luz da consciência, leva-nos a captar em nós a presença do próprio Deus, a quem devemos a vida e a dignidade de nossos atos livres. A Ética abre-se, assim, à dimensão religiosa”. A missão da Igreja evangelizadora tem, pois, tríplice dimensão: social, ética e religiosa.

O lugar privilegiado para a evangelização é a comunidade cristã, na qual as pessoas se reúnem como família e como irmãos, guiados por princípios que visam o bem comum, como filhos de Deus e em busca de comunhão que tem sua base no mistério da comunhão trinitária. O momento celebrativo da partilha do pão eucarístico, ponto alto da vida da comunidade, é continuado e tem seu eco na partilha do pão da solidariedade. É o momento de a Igreja viver seu missionarismo, a fim de que o rebanho não pereça por falta de pastores e possa continuar atualizada a afirmação: “Vós sois a raça eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo de sua particular propriedade(1Pd 2,9).



[1] Fernando Altemeyer Jr., in O São Paulo, 3/6/93.

[2] O estudo deste vocábulo foi enriquecido com a tese doutoral do Pe. Celso Pedro da Silva, intitulada “O mal de Nínive – implicações do vocábulo HAMAS na leitura do livro de Jonas” (1991).

[3] A. Rebré, A libertação do oprimido no Antigo Testamento, Col. “Mundo do Trabalho” 2, Ed. Paulinas, São Paulo, 1982, p. 12.

[4] Idem, p. 13.

[5] Idem.

[6] Michel Clévenot, Enfoques materialistas da Bíblia, Paz e Terra, 1979, p. 72.

[7] Jorge Pixley, A história de Israel a partir dos pobres, Vozes, Petrópolis, 1991, p. 128.

[8] Lidell & Scott, Dizionario illustrato greco-ita­liano, Felice Le Monier, Florença, 1975.

[9] José Cárdenas Paliares, Um pobre chamado Jesus, Col. “Temas Bíblicos”, Ed. Paulinas, São Paulo, 1988, p. 27.

[10] Pedro Luiz Stringhini, “A questão do sacrifício na carta aos Hebreus”, in Ribla 10, Vozes, Petrópolis, p. 84.

[11] Benedito Ferraro, Cristologia em tempos de ídolos e sacrifícios, Ed. Paulinas, São Paulo, 1993, p. 92.

[12] Uma análise completa deste milagre encontra-se em Ana Flora Anderson e Gilberto Gorgulho, Milagres, gestos de vida e liberdade, publicações do CEPE (Centro Ecumênico de Publicações e Estudos Frei Tito).

[13] Paulo Fernando Carneiro de Andrade, “A condição pós-moderna como desafio à pastoral popular”, in REB 53, fasc. 209, março de 1993, p. 100.

[14] P. Rossano, G. Ravasi e A. Girlanda, Nuovo dizionario di teologia biblica, Ed. Paoline, Torino, 1988, p. 1.368.

[15] Idem, p. 1.367.

[16] Idem, p. 1.368.

[17] Paulo F. Carneiro, op. cit., p. 111.

[18] Paulo Ferreira Valério, “O papel do conselheiro na literatura sapiencial”, in Estudos Bíblicos 37, Vozes, 1993, p. 18.

[19] Idem, p. 22.

[20] D. Luciano Mendes de Almeida, artigo publicado na Folha de S. Paulo, 2/6/93.

[21] D. Luciano Mendes, idem.

Pe. Pedro Luiz Stringhini