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Publicado em Maio-Junho de 1984

Eclesiologia católica aberta para o ecumenismo

Por João Rezende Costa

Eclesiologia é o esforço de razão que todo homem de fé faz, lançando mão dos recursos instrumentais racionais de que dispõe, no sentido de entender e aprofundar seu conhecimento dos dados da fé referentes ao significado e estrutura que Jesus quis atribuir à sua Igreja. Trata-se de um pensamento humano (ainda que iluminado pela fé) sobre a Igreja, e, porque humano, pode ser inadequado, estreito e rígido. Como consequência, pode vir a atrapalhar o desempenho de uma pastoral adequada, que sempre depende da nossa ideia de Igreja, e, em particular, a pastoral específica que visa conseguir que todos os cristãos e todas as Igrejas cristãs cheguem a realizar concretamente a unidade que Jesus quis e quer para a sua Igreja aqui na terra.

Por isso importa refletirmos sobre alguns enfoques de eclesiologia, já bastante firmes ao nível de declarações do magistério da Igreja Católica ou da teologia, que de modo particular sirvam para abrir a Igreja e seus esforços na direção do ecumenismo. Este significa precisamente o empenho que todos os cristãos devem fazer no sentido de reobterem a unidade perdida.

Falarei para católicos e do ponto de vista católico, honestamente admitindo e concedendo que os outros cristãos discutam os nossos pontos de vista no diálogo ecumênico, uma vez que, aí, nenhuma Igreja tem por princípio direito de “enfiar goela abaixo” os seus pontos de vista às outras Igrejas sem que sejam cotejados com a vontade de Jesus mesmo, sobre sua Igreja. Porque, como veremos, termo e critério da reunificação da Igreja é Jesus mesmo e não nenhuma Igreja das atuais na precisa forma em que se encontra. A vontade de Jesus sobre a sua Igreja há de ser buscada por todas as Igrejas, inclusive pela Igreja Católica. E também esta deixa a desejar.

1. Equilíbrio entre o elemento “institucional” e o elemento “mistérico” na Igreja

Polo de referência e centro da Igreja é o próprio Mistério do Pai pelo Filho no Espírito, por graça acessível a cada cristão em um contato e encontro direto e imediato, do qual vive ou é convidado a viver na fé, esperança e caridade, expressando-se essa na globalidade de seus relacionamentos com o mundo, com os homens e como mundo enquanto organizado pelos homens (sociopolítico-econômico-cultural). Trata-se, em outros termos, da graça em suas várias vertentes de referência e encarnação. A eclesiologia há, pois, de se centralizar no “mistérico”, que é sua referência última e fonte de seu equilíbrio.

Contudo, a Igreja não é apenas este mistério de profundidade, e inefável adequadamente. É também visível, encarnada em grupos, organizada, com pessoas e assembleias que celebram ritos e exercem atos externos. Trata-se do aspecto visível, societário e “institucional” da Igreja. Envolve encargos no grupo, leis, normas, costumes, tradições, formulações doutrinais sobre o Mistério e a Fé como encontro com este Mistério, bem como ritos e sacramentos. Em uma eclesiologia equilibrada, todo o aparato institucional e visível deverá ser o sacramento do “mistério”, ou seja, sinal e instrumento dele, lugar onde ele deve brilhar e instrumento que deve a ele servir para que aconteça para os homens. Encontramos essa doutrina em Lumen Gentium 8, no nível do magistério conciliar da Igreja: Aí se afirma que Jesus, único Mediador, constituiu e sem cessar sustenta (veja o imediatismo e a atualidade de sua ação!) aqui na terra a sua Igreja — comunidade de fé, esperança e caridade (eis o aspecto “mistérico”!), como organismo visível (eis o aspecto “institucional”!), “pelo qual difunde a verdade e a graça para todos” (eis a referência essencial do “institucional” ao “místérico”!).

Acrescente-se o aspecto que falta ao Vaticano II de modo geral na Lumen Gentium, ou seja, corrija-se sua pouca percepção da Igreja como processo entregue à liberdade e colaboração dos homens; superando-se essa deficiência, diríamos antes: organismo visível, “pelo qual deve — porquanto nem sempre acontece ou só acontece imperfeitamente — difundir a verdade e a graça a todos”. Sempre dependerá, portanto, de que o “institucional” se deixe julgar e corrigir pelo “mistérico”, sofrendo as adaptações devidas para que sirva ao “mistérico” para os homens de determinado tempo e cultura. Não há quem não veja que todas as Igrejas cristãs — sem excluir a Católica — apresentam falhas quer na vivência do “mistérico” quer na referência essencial do “institucional” ao “mistérico” como o lugar de sua transparência e de serviço a ele!

2. A Igreja é realidade complexa composta do “institucional” e do “mistérico”

Este ponto é outra afirmação importante sobre a Igreja, para encaminhar uma eclesiologia a abrir-se ao ecumenismo. É outra afirmação da Lumen Gentium 8 logo em seguida ao que precedeu: A Igreja constitui-se necessariamente dos dois aspectos, do “institucional” e do “mistérico”, indissoluvelmente unidos, de forma que “a sociedade provida de órgãos hierárquicos e o corpo místico de Cristo, a assembleia visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja enriquecida de bens celestes, não devem ser consideradas duas coisas, mas formam uma só realidade complexa, em que se funde o elemento humano e o divino” (em nossa linguagem: o “institucional” e o “mistérico”). Existem elementos essenciais dos dois lados.

Houve correntes protestantes que, sob o desespero de se conseguir a unidade quanto aos elementos “institucionais”, vieram a situar a pertença à Igreja de Jesus somente no nível do “mistérico” invisível, reduzindo os elementos “institucionais” a meras criações humanas, diversas e igualmente legítimas (o que equivalia a eliminar o problema ecumênico, que precisamente busca a unidade visível). E os católicos, por sua vez, dominados há séculos por uma consideração unilateralmente apologética e jurídica do “institucional”, com frequência atribuíram valor quase mágico ao “institucional” exterior, que por si só já conteria e daria o “mistérico” sem exigência da fé e mudança de vida. Eles também erraram no justo equilíbrio entre o “institucional” e o “mistérico”.

3. A pertença à Igreja em consequência destes princípios

Estas considerações sobre a necessária referência do “institucional” ao “mistérico” na Igreja pesam enormemente para abrir a Igreja e a eclesiologia ao ecumenismo, porque possibilitam posicionamento mais equilibrado quanto ao tema da pertença à Igreja de Jesus, que se torna muito mais matizada e flexível.

Consideremos como se apresenta em Lumen Gentium 15 o tema da pertença à Igreja de Cristo. Fala-se de pertença mais ou menos plena, levando-se em conta tanto o elemento “mistérico” como o “institucional” e com acentuação preponderante do primeiro: o ser Igreja de Jesus tem a ver com os dois aspectos, mas o “mistérico” goza de maior importância. E tem tanto mais importância que pode ocorrer na ausência e no meio das deficiências do “institucional”, como várias vezes se nota, quer no que se refere à pertença dos católicos à Igreja de Cristo, quer no que se refere à pertença dos cristãos não católicos. Consideremos estes dois pontos:

3.1. A pertença dos católicos à Igreja de Cristo

Lumen Gentium 14 diz: “São incorporados plenamente à sociedade da Igreja os que, tendo o Espírito de Cristo, aceitam a totalidade de sua organização, e todos os meios de salvação nela instituídos, e na sua estrutura visível — regida por Cristo através do Sumo Pontífice e dos Bispos — se unem com ele pelos vínculos da profissão de fé, dos sacramentos, do regime e da comunhão eclesiástica. Não se salva, contudo, embora incorporado à Igreja, aquele que, não perseverando na caridade, permanece no seio da Igreja ‘com o corpo’, mas não ‘com o coração’. Lembrem-se todos os fiéis da Igreja que a condição sem igual em que estão se deve não a seus próprios méritos, mas a uma peculiar graça de Cristo. Se a ela não corresponderem por pensamentos, palavras e obras, longe de se salvarem, serão julgados com maior severidade”.

Comentemos alguns aspectos deste texto: A pertença à Igreja é medida por critérios quer do nível “mistérico” quer do “institucional”: 1) O “mistérico” vem sob o termo de “ter o Espírito de Cristo”, “perseverar na caridade”, permanecer na Igreja “com o coração”. 2) O “institucional” ocorre nos termos tradicionais: professar externamente a plenitude das formulações doutrinárias definidas de fé, admitir todos os sacramentos, e aceitar o governo do Papa e dos Bispos. Mas note que também estes elementos, e não só o “mistérico”, são chamados de dons de Cristo à sua Igreja, “peculiar graça de Cristo” é partilhar deles. E no fim do texto vem a séria advertência, que implica que estes elementos “institucionais” estão ordenados à graça ou ao “mistérico” ou ao “ter o Espírito de Cristo”, ao viver na Igreja “com o coração”.

Disso podemos concluir:

1) Mesmo católicos podem muito bem não realizar esta pertença plena à Igreja; mesmo atualmente são poucos os católicos que compreendem tudo e realizam tudo o que faz parte da compreensão oficial da fé e da Igreja; nem todos dispõem de todo o “institucional” da Igreja Católica (por ignorância, por falta de ministros suficientes etc.); e, sobretudo, podem não realizar a pertença plena à Igreja por não viverem a graça ou o “mistérico”. E, uma vez que viver a graça ou o “mistérico” admite mais ou menos, a pertença dos católicos à Igreja de Jesus pode ser mais ou menos plena sob este prisma também.

2) A pertença à Igreja de Jesus por parte dos cristãos não católicos pode ser menos plena sob o ponto de vista do “institucional” católico, e contudo pleníssima, e até mais plena do que a de muitos católicos, sob o ponto de vista da participação do “mistérico”, que é o que mais importa; com menos elementos “institucionais”, do ponto de vista católico, tornaram-se mais santos, fazendo assim talvez fulgurar mais fortemente que tudo é dom de Cristo e não mérito humano nem força de instituições humanas, fazendo-nos os católicos acordar para o fato de que também o “institucional” não passa de dom de Cristo.

3.2. A pertença dos cristãos não católicos à Igreja de Cristo

Também neste caso a pertença mais ou menos plena se mede segundo o critério do “institucional” possuído mais ou menos abundantemente e do “mistérico” vivido mais ou menos intensamente. Em Lumen Gentium 15 lemos: “Por muitas razões a Igreja sabe-se ligada aos batizados que são ornados com o nome cristão, mas não professam na íntegra a fé ou não guardam a unidade da comunhão sob o Sucessor de Pedro. Muitos deles honram a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida. Mostram sincero zelo religioso. Creem com amor em Deus Pai onipotente e em Cristo Filho de Deus, Salvador. São assinalados pelo batismo no qual se unem a Cristo. E até reconhecem e aceitam outros sacramentos nas próprias Igrejas ou comunidades eclesiais. Não poucos entre eles possuem mesmo o Episcopado, celebram a Sagrada Eucaristia e cultivam a piedade para com a Virgem Mãe de Deus. Acresce a comunhão de orações e outros benefícios espirituais. Temos até com eles certa união verdadeira no Espírito Santo, que também neles opera com seu poder santificante por meio de dons e graças, tendo fortalecido a alguns deles até à efusão do sangue”.

4. A Igreja Católica não se identifica pura e simplesmente com a Igreja de Cristo

O que viemos considerando nos leva a um ponto da eclesiologia do Vaticano II, que constitui como que a chave para a abertura operada na visão eclesiológica e ecumênica católica. Trata-se da não identificação pura e simples da Igreja Católica com a única Igreja de Cristo. Em Lumen Gentium 8 lemos ainda que a “única Igreja de Cristo… constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele…”.

Evitou-se de propósito dizer neste texto que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo, senão teríamos as portas fechadas para admitir a eclesialidade cristã das outras Igrejas cristãs não católicas. O Vaticano II quis esta formulação bem matizada, sem rígida identificação da Igreja Católica com a Igreja de Cristo. A única Igreja de Cristo não é a Igreja Católica sozinha, pois que não é simples e excludentementea Igreja de Cristo, mas esta “subsiste nela” — com certeza em maior plenitude, segundo sua convicção — e “fora de sua visível estrutura se encontram vários elementos de santificação e verdade, que, como dons próprios da Igreja de Cristo, impelem à unidade católica”. Assim sendo, a única Igreja de Cristo não goza de unidade, não é una, está dividida, sendo participada em maior ou menor medida. E o movimento ecumênico visa precisamente conseguir que a única seja una, ou a unidade da única.

5. A Igreja Católica diante dos não católicos

Estes princípios possibilitam um olhar positivo da Igreja Católica para os cristãos não católicos, individualmente ou em suas Igrejas e Comunidades. A Igreja Católica (quero dizer também concretamente: os católicos) encontra, apesar da desunião, laços importantíssimos e básicos de unidade que, por causa da fidelidade do Senhor à Aliança com o seu povo, de que ele nunca se arrepende, jamais são rompidos.

Além de Lumen Gentium 15, é particularmente significativo o que se diz em Unitatis Redintegratio 3, que passo a expor quase literalmente:

a) “Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão com a Igreja Católica. Algumas vezes não sem culpa dos homens de ambos os lados. Contudo, os que agora nascem nestas Comunidades e são imbuídos da fé em Cristo não podem ser acusados do pecado de separação, e a Igreja Católica os abraça com fraterna reverência e amor.”

b) Os que creem em Cristo e receberam devidamente o batismo estão em certa comunhão, ainda que imperfeita, com a Igreja Católica. A comunhão é imperfeita, porque existem discrepâncias de ordem doutrinal, disciplinar, sacramental e de estruturação da Igreja. Há, contudo, comunhão, porque permanece a fé fundamental em Cristo: “justificados pela fé no batismo”, eles são incorporados a Cristo e com razão se honram do nome cristão, e são reconhecidos pelos católicos como irmãos.

c) Dos elementos ou bens, de cujo conjunto se edifica e se vivifica a Igreja, alguns — e até mesmo muitíssimos e exímios — podem existir fora do âmbito visível da Igreja Católica, como: a Palavra escrita de Deus; a vida da graça; a fé, esperança e caridade; e outros dons interiores do Espírito Santo, bem como elementos visíveis e institucionais. Todas estas coisas, que provêm de Cristo e conduzem a Cristo, são realidades da única Igreja de Cristo (UR 3) e impelem à unidade católica (LG 8).

d) Os cristãos não católicos realizam também não poucas celebrações cristãs, que, de várias formas segundo a diversa condição de cada Igreja ou Comunidade, sem dúvida podem gerar a vida da graça e introduzir na comunhão salvífica.

e) E as próprias Igrejas ou Comunidades cristãs não católicas enquanto instituições possuem — apesar de, do ponto de vista católico, apresentarem deficiências — significado e importância no mistério da salvação e o Espírito Santo não se recusa usá-las como meios de salvação, cuja força se deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja Católica.

6. Autocrítica e autorreforma da Igreja Católica

Esses princípios levaram a Igreja Católica à autocrítica e à proposta da autorreforma. E, com isso, reconhece implicitamente que não pode ser, no estado em que se acha, termo do movimento ecumênico e ponto de chegada dos outros cristãos à unidade. Ela também não está plenamente na unidade. Anotemos os seguintes pontos:

a) Reconhece defeitos e infidelidades nos seus membros, clérigos e leigos. E faz sérias advertências, como a que vimos em Lumen Gentium 14, ao tratar da pertença dos católicos à Igreja. E “também em nossos tempos não ignora a Igreja quanto se distanciam entre si a mensagem que profere e a fraqueza humana daqueles aos quais o evangelho foi confiado” (GS 43).

b) Reconhece-se coculpada no pecado de separação das comunidades cristãs (UR 3 e 7).

c) Reconhece-se sempre na necessidade de purificar-se e renovar-se (LG 8, GS 42, UR 4), e até fala de necessidade de reforma perene de si (UR 6).

d) Deve renovar formulações da doutrina e fé: “uma coisa é o depósito da Fé ou as verdades e outra é o modo de enunciá-las, conservando-se, contudo, o mesmo significado e a mesma sentença” (GS 62; cf. UR 6). Fala da reforma da Liturgia (SC 21).

7. À guisa de conclusão: Nenhum ecumenismo de retorno. Nenhum proselitismo

A teologia católica, indo além dessas posições conciliares e baseada na experiência concreta dos encontros ecumênicos com os outros cristãos e Igrejas cristãs, chegou a concluir que se devem eliminar todo ecumenismo de retorno à Igreja Católica pura e simplesmente, bem como toda forma de proselitismo religioso (e pseudoevangélico) para a própria denominação ou confissão. As duas posições são inadequadas e estéreis e escondem pressupostos danosos em última instância para a obtenção da unidade.

A Igreja Católica não propõe hoje um ecumenismo de retorno ao seu seio na forma em que se acha, e por várias razões:

Primeiramente, porque quem não saiu não pode simplesmente retornar; os cristãos não católicos nasceram e foram socializados cristã e religiosamente em suas denominações e não têm culpa nenhuma na separação secular (UR 3).

Em segundo lugar, pretendê-lo seria contra a consciência e liberdade religiosa destes irmãos, pois equivaleria impor-lhes pontos de vista que atualmente pensam não deverem assumir — que se pense na desastrosa prática do Direito antigo de exigir juramentos contra a consciência do cônjuge não católico nos matrimônios mistos!

Em terceiro lugar, porque a própria Igreja Católica reconhece-se pecadora, falha, imperfeita, carente de purificação, renovação e reforma. Não vê-lo seria cegueira ou presunção! E também não deixa de enxergar falhas nas outras Igrejas. Constatou-se que a Igreja de Jesus não está realizada em nenhuma Igreja das atuais de modo perfeito e como modelo acabado para todas as outras. É preciso adquirir humildade perante a própria denominação. Intransigência absoluta não tem mais cabimento e, se feita em nome de Deus, é blasfêmia.

Seria da mesma natureza e igual presunção o proselitismo religioso (e pseudoevangélico) para a própria denominação, como se ela fosse a fina flor da fidelidade ao cristianismo, sem erro e sem defeito, a realização plena de tudo o que deve ser e ter a Igreja de Jesus. O proselitismo barato, o anticatolicismo acirrado, o antiprotestantismo estreito, tudo isso é propaganda falaz que envolve elementos sectários e antiecumênicos. Qualquer Igreja que se achar que sozinha realiza toda a eclesialidade (e fidelidade!) querida por Jesus, todo o “mistérico” e o “institucional” queridos por Jesus, fica impermeável ao ecumenismo e a este trabalho de busca comum e dolorosa da unidade pela troca mútua das riquezas que cada Igreja recebeu e chegou a viver da parte do Senhor. Julgo não errar inteiramente afirmando que ainda existem, apesar do Vaticano II, camadas não pequenas de católicos que ainda pensam da Igreja Católica em termos mais ou menos parecidos com isso.

O ecumenismo de retorno ou o proselitismo antiecumênico pressupõem alta ideia de si mesmo e cega presunção. É o caso de lembrar Jesus: “andais por terra e por mar para fazer um prosélito e, quando conseguis conquistá-lo, o tornais duas vezes mais digno da geena do que vós!” (Mt 23,15). É indisposição à revisão de vida, é impenitência, é recusa de “conversão” e desobediência ao Senhor da Igreja!

Mesmo do ponto de vista católico, o termo da caminhada ecumênica não é a Igreja Católica pura e simplesmente na forma em que hoje se apresenta. O termo da unidade está além de todas as Igrejas atuais, é uma forma futura de unidade e catolicidade a ser gerada ainda pelo Espírito de Deus, e não sem a colaboração e conversão dos homens e de muita coisa do “institucional” das Igrejas. Não se tratará de uma supra-Igreja, ou de uma mera federação de Igrejas ou de uma das atuais engolir as outras em si. Como vai ser essa unidade final tem desafiado todo prognóstico, ainda não há modelos acabados e realizados do que será a Grande Igreja da Reunião dos Cristãos.

O termo da caminhada ecumênica é o próprio Cristo e sua vontade sobre o ser da Igreja. Cada Igreja porta dons genuínos da Igreja de Cristo e levará para a unidade final as riquezas de Cristo que vieram a brilhar mais no seu seio como dom para os irmãos das outras Igrejas, que gratas os receberão; e não quererá que nenhuma Igreja deixe qualquer dom genuíno de Cristo para trás e sem partilhá-lo.

Cada Igreja carrega também defeitos pessoais e institucionais. Haverá de testar sua fidelidade e adequação à vontade de Cristo com respeito à sua Igreja — confrontando-se com a Palavra de Deus, com as posições das outras Igrejas e com as necessidades dos homens — passando vigorosamente à renovação e reforma que se requer de cada uma.

Por fim, “toda renovação da Igreja consiste essencialmente numa fidelidade maior à própria vocação. Essa é, sem dúvida, a razão do movimento para a unidade. A Igreja peregrina é chamada por Cristo a essa reforma perene. Dela necessita perpetuamente como instituição humana e terrena” (UR 6). A unidade, disto temos certeza, se fará na escuta e fidelidade ao Senhor da Igreja.

João Rezende Costa