Artigos

Publicado em março-abril de 2015

Nossa “pastoral líquida” e a “nova paróquia” que queremos

Por Nicolau João Bakker, svd

Desde o início do segundo milênio, nossa Igreja sempre se apresentou como uma instituição sólida, hierarquicamente bem estruturada, com limites geográficos bem definidos, com um governo central de poderes amplos e incontestáveis, com doutrinas e normas universais rígidas. A modernidade e a chamada “pós-modernidade” arranharam esse modelo por todos os lados. Procurando pistas para situar-se diante desse contexto, é importante valorizar o legado do Vaticano II.

Introdução

O título já deixa bem claro quem mais me inspira neste artigo: Zygmunt Bauman, o grande pensador polonês da atualidade. Para esse autor, a nossa assim chamada pós-modernidade se caracteriza, antes de tudo, pela perda de solidez das antigas instituições, tradições e convicções, como fica evidente nos seus “best-sellers” Amor líquido, Modernidade líquida e Vida líquida. Na introdução a um dos seus livros mais recentes, Tempos líquidos (2007), Bauman elenca alguns dos efeitos mais deletérios do processo – agora consolidado – da cultura atual: as antigas organizações sociais, mais estáveis, dissolveram-se e as novas não oferecem a mesma estabilidade, pois elas “decompõem-se mais rápido que o tempo que leva para moldá-las”; da mesma forma, as instituições tradicionais e os padrões comuns de comportamento perderam sua capacidade de pautar as rotinas individuais, pois tudo “se dissolve” no grande “viveiro de incertezas” que marca nossa modernidade avançada.

O mundo à nossa frente, então, está perdido? O autor afirma que não pretende oferecer soluções, mas apenas apontar para os sintomas da doença. Cada um ou cada uma de nós que tire as suas conclusões e calcule com quantos paus vai fazer sua canoa. É o que vamos tentar fazer neste artigo. Vou falar da nossa “pastoral líquida”, mas, em vez de apontar apenas para os sintomas, gostaria de também apontar para possíveis soluções. Bauman, porém, alerta-nos: a “globalidade” é agora a marca principal do nosso mundo, e as soluções locais – as únicas que estão ao alcance das nossas mãos –tornam-se inviáveis à medida que, cada vez mais, se confrontam com impedimentos globais. Com essa perspectiva em mente, olhemos agora para alguns dos problemas pastorais que mais nos desafiam.

  1. Que Igreja queremos?

Estamos ainda na comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II (1962/65). A constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, talvez tenha sido o documento mais esperado de todo o Concílio. Após décadas de grande efervescência renovadora nas áreas bíblica, litúrgica, ecumênica, social e teológica, todos sonhavam com uma Igreja inteiramente renovada. Sem dúvida merece destaque o persistente trabalho intelectual do eminente teólogo francês Yves Congar (†1995). Condenado por Roma, foi consolado pelo cardeal Suhard: “Não se preocupe, irmão, daqui a 20 anos todos pensarão como você!” Tornou-se, de fato, o grande “eclesiólogo” do Concílio, tendo sido feito cardeal por João Paulo II, em 1994. Que grande mudança ocorreu?

1.1. Da eclesiologia “sólida” para a eclesiologia “líquida”

Desde o início do segundo milênio, nossa Igreja sempre se apresentou como uma instituição sólida, hierarquicamente bem estruturada de alto a baixo, com limites geográficos bem definidos em dioceses e paróquias, com um governo central de poderes amplos e incontestáveis e com doutrinas e normas universais rígidas, enfim, com todo um aparato que lhe dava uma conotação de perpetuidade, sacralidade e inquestionabilidade. Passada a primeira fase mais “carismática” da Igreja – mais fiel ao Espírito de Pentecostes – e tendo sido vítima, na fase posterior, de grande ingerência estatal, especialmente depois que o imperador Teodósio I, em 380, fez do cristianismo a religião oficial do Império Romano, a Igreja começou a reclamar, crescentemente, maior autonomia espiritual em relação aos poderes públicos. A assim denominada “reforma gregoriana”, do papa beneditino Gregório VII (†1085), é vista como o início de longa fase em que a Igreja inverte o jogo e começa a exercer forte controle – não apenas espiritual – sobre os poderes públicos. Os papas se tornam as autoridades máximas do continente europeu.

O cristianismo vai se “inculturando”, primeiramente no império e depois em meio aos povos “bárbaros” que conquistaram o território. Aos poucos a religiosidade cristã se torna tão natural quanto o ar que se respira. As sociedades se sucedem. As culturas locais variam e a piedade popular se adapta a elas, mas, em seu conjunto, a cristandade é fruto de uma única concepção de Igreja: ela é como uma “sociedade perfeita” – no seu governo, na sua doutrina, na sua legislação e organização e na sua conduta moral –, e é a ela que todas as sociedades devem se submeter. Todo o segundo milênio é marcado, preponderantemente, por uma única eclesiologia: a Igreja, tal qual se apresenta, é fundada e intencionada por Jesus. Sua verdade é única, sua lei santa e sua conduta são, basicamente, impecáveis. Uma eclesiologia mais sólida do que essa é dificilmente imaginável.

A modernidade veio arranhar esse modelo por todos os lados. Na sua essência, a modernidade é a substituição da hegemonia da Tradição da Igreja pela hegemonia da Razão humana. A partir do século XIV, um número crescente de intelectuais – primeiro do Renascimento, depois do Iluminismo – e, também, de representantes das ciências começa a “relativizar” ou até combater o pensamento e o poder hegemônicos da Igreja. Dentro da própria Igreja, o muito apreciado legado de são Tomás de Aquino (†1274) também começa a produzir frutos. Não pode haver oposição entre a fé e a razão, opinava Tomás, pois ambas se originam em Deus. A verdade é “a conformidade da coisa com a inteligência”. A fé precisa da razão. Uma falsa interpretação da realidade leva a uma falsa concepção de Deus (error circa creaturas redundat in falsam de Deo sententiam). Em termos de eclesiologia sólida ou líquida, podemos dizer que são Tomás, com essa postura, inventou o liquidificador. Nos séculos seguintes, os teólogos da Igreja partirão cada vez mais não da autoridade doutrinal eclesiástica, mas da própria racionalidade científica.

No século XIX, J. A. Möhler (†1838), da famosa escola teológica de Tübingen (Alemanha), ressalta que o lado visível, institucional, da Igreja não é o principal. Ela depende, substancialmente, do lado invisível e místico, quer dizer, da presença e ação do Espírito. Em REB 291/2013, Antônio Luiz Catelan Ferreira faz breve resumo do processo. Sensível ao clima cultural do tempo – o romantismo da época põe em evidência a historicidade e a dimensão vital, interior, do ser humano –, Möhler busca inspiração na Igreja dos primeiros séculos. Encontra uma Igreja “encarnada”, de muitas faces, sim, mas, fundamentalmente, um só “corpo místico de Cristo”. Sua reinterpretação da Igreja-sociedade já manifesta claramente a racionalidade teológica – a “liquidificação” – em andamento. A eclesiologia do século XX – também chamado “século da Igreja” – deve muito ao trabalho de Möhler. Surgem novas concepções de Igreja à medida que se fortalecem os movimentos bíblico, litúrgico, ecumênico e social. A encíclica Mystici Corporis, do papa Pio XII (1943), unindo as dimensões societária e mística, representa um marco de superação, mas, de forma alguma, representou um ponto final. M. D. Koster (em Ekklesiologie im Werden, Paderborn, 1940), nessa mesma época, já propõe substituir a noção de corpo místico pelo de “povo de Deus”. A teologia do laicato e uma crescente preocupação social estão em busca de uma definição menos espiritualizante e mais existencial. Logo antes do Vaticano II, J. Hamer (em L´Église est une communion, Paris, 1962) propõe o conceito de “comunhão”, considerado mais apto a expressar a união entre os elementos exteriores e interiores da Igreja, além de ser mais fiel às noções bíblicas de koinonia e communio.

O Concílio Vaticano II recolhe todo esse processo de renovação. Não apenas a Lumen Gentium, mas praticamente todos os documentos conciliares revelam um novo rosto de Igreja: uma Igreja menos autoritária e mais aberta para ouvir; uma Igreja não prioritariamente hierárquica, mas ministerial; uma Igreja não acima do mundo, mas encarnada nele, atenta aos sinais do tempo; uma Igreja menos dogmática e mais dócil à voz do Espírito, audível na voz do povo (sensus fidelium); uma Igreja mais ecumênica, abrindo espaço para uma salvação além-fronteiras; uma Igreja que abre as portas para a responsabilidade leiga; uma Igreja fiel ao princípio da colegialidade e da comunhão; uma Igreja toda ela servidora, nascida do batismo; uma Igreja sem estados de perfeição, mas com vocação universal à santidade; uma Igreja pobre, comprometida com os pobres; enfim, não uma Igreja-sociedade, mas uma Igreja-comunidade, Povo de Deus a caminho. Uma Igreja não fechada em sua Tradição, mas, como dizia Congar, sempre aberta a se refazer todos os dias; fiel, sim, à Palavra revelada, mas também fiel ao Deus que continua se revelando no coração da história e no coração do povo. O padre Libanio, de saudosa memória, chamou essa mudança eclesiológica de “passagem do geocentrismo hierárquico para o heliocentrismo de povo de Deus”. O mesmo Libanio observa, porém, que, no Sínodo de 1985, o teólogo Ratzinger, descontente com o “democrático” conceito de Povo de Deus, o substituiu pelo da comunhão!

Mais importante do que fazer citações cansativas, parece-me importante relembrar aqui a tese central de Zygmunt Bauman: na modernidade, tudo que era sólido – tradições, doutrinas, comportamentos – torna-se líquido, pois tudo é submetido a um processo pluriforme e ininterrupto de racionalização. A cada tempo o seu quinhão. Águas passadas não voltam mais. Cada cidadão e cada cidadã conquistaram, para sempre, o sagrado direito de ter sua opinião e de viver em conformidade com ela. Na modernidade, a Igreja da “Tradição” cede lugar à Igreja da “opção”, e as opções eclesiológicas, hoje, são muitas. Um verdadeiro “supermercado”, diria P. Berger.

1.2. A eclesiologia líquida na América Latina e no Brasil

Medellín (1968), todo o mundo reconhece, foi a adaptação criativa do Vaticano II ao contexto latino-americano. Qual Igreja – ou eclesiologia – Medellín propõe? Lembro, com nitidez, o clima da época. Nos seminários, durante o Concílio, ainda se ensinava o modelo da Igreja “sólida”. Não era de bom tom questioná-lo. Mas havia inúmeras indagações no ar. No Brasil, jornais, rádio e TV noticiavam exaustivamente as “reformas de base” que se faziam necessárias. Havia, porém, sério “perigo comunista”. Em São Paulo, meu professor de dogma havia comentado a tal “teologia das realidades terrestres” e o documento conciliar Gaudium et Spes insistia numa leitura atenta aos sinais dos tempos. Era preciso reformar a liturgia e abrir espaço para efetiva pastoral dos leigos. Enviado à minha primeira paróquia, no litoral paulista (Vale do Ribeira), em 1965, não tive dúvida: era preciso transformar as 30 capelas rurais postas aos meus cuidados em verdadeiras comunidades. A palavra “comunidade”, na época, ainda era um pouco estranha ao contexto pastoral, mas era preciso transformar “capelas” (de desobriga) em autênticas comunidades de fé e vida, com leigos/as formados/as para assumirem as celebrações dominicais, além de muitas outras responsabilidades. É o que se fez no Vale do Ribeira em toda a atual Diocese de Registro. Que saudade do dinamismo daqueles bons tempos!

Quanto ao modelo de Igreja, o documento de Medellín veio apenas confirmar o que já estávamos fazendo: formar “comunidades de base”! Muitas vezes, mais sonho que realidade, mas, sem dúvida, um novo jeito de fazer Igreja. A CNBB pedia que se fizesse “pastoral de conjunto” e lá íamos nós, em equipe, padres, irmãs e leigos, sem olhar fronteiras paroquiais, fazendo, durante três dias, “batidas” pelas vilas, visitando o povo nas casas, nas roças e, à noite, fazendo reuniões em qualquer barracão disponível. Haveria animação para formar uma comunidade de verdade? Em caso afirmativo, nova comunidade era iniciada. Nas tradicionais “capelas” já existentes, outras adaptações eram feitas. Em relativamente pouco tempo, todo um novo estilo de ação pastoral se constituía. Em toda a diocese, embora ainda não se usasse a expressão, paróquias se transformavam em “comunidades de comunidades”. Aos poucos, em toda a América Latina e especialmente no Brasil, a Igreja adotou “novo jeito de ser Igreja”. Puebla (1979) cunhou definitivamente o nome: “comunidades eclesiais de base” ou o “modelo-CEBs”.

Mas as CEBs nunca foram o único modelo eclesial almejado. Em muitíssimos lugares, especialmente nas cidades, a pastoral foi seguindo os moldes antigos. Em alguns lugares, mais tradicionais, ficou imperando o “modelo-irmandade”, cabendo ao clero o papel básico da “desobriga”. Em muitos outros lugares, com presença mais permanente do clero, perdurou o “modelo-sociedade pia” (ultramontano), com a vida paroquial muito marcada pelo Apostolado da Oração, pela Legião de Maria, pelos Vicentinos, pelos Congregados e Filhas de Maria. Especialmente nas cidades maiores, estava fortemente presente também o “modelo-classe média”, com “movimentos” diversos e atividades pastorais renovadoras, porém longe da agitação sociotransformadora que caracterizava as CEBs.

Não é difícil perceber em tudo isso as reações pastorais aos três grandes medos históricos da Igreja hierárquica: o protestantismo, o modernismo e o marxismo/secularismo. Foram, contudo, inúteis as barreiras levantadas. A razão sempre acaba vencendo, e é bom que seja assim. Qualquer autoritarismo acima da razão apenas desumaniza. Nem Jesus impôs aos discípulos uma fé sem razão (cf. Jo 6). Tanto o protestantismo quanto o modernismo e o secularismo ajudaram a Igreja a ter uma posição mais amadurecida sobre as verdades eternas (“sólidas”). A modernidade, com seus múltiplos enfoques filosóficos, com seu processo científico ininterrupto e com sua necessidade, como dizia o papa João XXIII, de sempre adaptar a linguagem aos novos contextos culturais, sem dúvida “liquidificou” aquilo que parecia sólido. O papa Bento XVI ainda se queixava da “ditadura do relativismo”, mas haverá de conformar-se. O trem da história, na verdade, nunca parou e, ao que parece, nunca vai parar.

  1. Que paróquia queremos?

A pós-modernidade, ou a modernidade avançada, como preferimos, veio acrescentar apenas mais suco ao liquidificador. A globalização, com sua mídia implacável e sua comunicação instantânea, rapidamente vem criando novo ser humano, o Homo globalis. Ciência, tecnologia, comportamentos, crenças, tudo agora é provisório, moda. O que importa é captar a onda do momento. Desfez-se a força social das coletividades que, ainda recentemente, pautavam o comportamento social. O que pode fazer um sindicato, além de burocratizar-se, quando as empresas já não se interessam pelas “reservas” de mão de obra, mas apenas pelos intelectualmente ou tecnologicamente preparados? De que vale um movimento de moradia, ou qualquer outro, por mais bem assessorado que seja, quando o poder público local está de mãos atadas, inteiramente na dependência de investimentos financeiros cujo controle escapa a qualquer poder político? Só nos resta – pensam muitos – partir para o tudo ou nada. A Igreja – aparentemente paralisada – apenas observa.

2.1. As CEBs voltarão?

Faz poucos meses, fui convidado para um “encontro de CEBs” na própria região onde atuo (Diadema-SP). Nos últimos cinco anos, as CEBs, que já foram prioridade máxima, nunca entraram na pauta da nossa assim chamada “reunião mensal do clero”. Nem ouço falar delas, a não ser quando se aproxima um encontro estadual ou nacional. O convite veio, espontâneo, sem nenhuma interferência clerical. Na tradicional cobertura de cima de uma típica casa popular, expressão-símbolo do operariado latino-americano, encontrei 50 antigas lideranças das CEBs, quase todas ainda envolvidas em atividades pastorais ou, em menor número, políticas. Prepararam uma “mística” envolvente, cheia de saudosa memória do passado e também de sonhos acerca de uma nova Igreja e de um novo país. O clima mais perceptível, no entanto, era o de forte desânimo. Onde estão os padres entusiasmados com as CEBs?

Não pude contribuir muito naquele momento, mas pude oferecer uma esperança. Disse-lhes que os bispos estavam lançando um documento sobre a “nova paróquia”, destinada a ser “comunidade de comunidades”. Havia analisado, em profundidade, essa proposta (Estudos da CNBB 104) e publiquei um artigo a respeito em REB 291/2013. O documento deixa o assunto no ar: as CEBs voltarão? Sem dúvida, não da mesma forma. Não é segredo para ninguém que a Cúria romana fez – e continua fazendo –persistente e lastimável combate a elas. Um livro recente (CEBs e os desafios do mundo contemporâneo,  São Paulo: Paulus, 2012) é muito revelador a respeito. No Documento de Aparecida (2007), a parte mais revisada por Roma foi a parte das CEBs, assinada por 70 bispos a favor e 57 contra (DAp 178-180)! O belo texto original: “Elas (as CEBs) têm sido uma das grandes manifestações do Espírito na Igreja da América Latina e Caribe depois do Vaticano II” foi simplesmente eliminado. Em outros, mudou-se, sem mais nem menos, o conteúdo. Onde estava escrito: “Depois do caminho feito até agora, com sucesso e dificuldades, é o momento de uma profunda renovação desta rica experiência eclesial em nosso continente, para que não percam sua eficácia missionária, mas a aperfeiçoem e cresçam de acordo com as exigências novas dos tempos”, o texto foi revisado para: “Em seu esforço de corresponder aos desafios dos tempos atuais, as comunidades eclesiais de base terão o cuidado de não alterar o tesouro precioso da Tradição e do Magistério da Igreja”. Os bispos, por respeito e obediência a Roma, costumam não externar seus sentimentos a respeito, mas imaginamos que se sentiram profundamente humilhados com tal tratamento. Dificilmente as CEBs voltarão, nem mesmo renovadas, se a Cúria romana mantiver o cerco dessa forma.

2.2. Como “setorizar” a paróquia?

Quando refletimos sobre a pastoral das CEBs, é preciso levar em conta seu processo histórico. E quando os bispos pedem para “setorizar” a paróquia, transformando-a em “comunidade de comunidades” (DAp 304-313; DGAE 56-64 e 98-105; Documentos da CNBB 100, 8, 244-256), é preciso tomar cuidado para não confundir alhos com bugalhos. De qual “comunidade” estamos falando? As ciências sociais fazem clara distinção entre comunidades (marcadas pela estabilidade e por uma “comum-unidade”) e grupos primários (marcados pela volatilidade e pela parcialidade). A Igreja é constituída não de qualquer comunidade, mas de comunidades “eclesiais”. O que é “eclesial” depende muito da eclesiologia que adotamos, e já vimos que, nos nossos “tempos líquidos”, as concepções variam bem mais do que nos “tempos sólidos”. Sérgio Ricardo Coutinho, assessor do Setor CEBs da Comissão Episcopal Pastoral para o laicato, da CNBB, indica (no livro acima citado) “os cinco C’s das CEBs”: círculos bíblicos (viver da Palavra), catequese (nas diferentes faixas etárias), celebração (centrada na eucaristia), Conselho Pastoral Comunitário (união das diferentes coordenações) e compromisso sociotransformador (assistência social e pastorais sociais). A “eclesialidade” (Evangelii Nuntiandi, 58; Puebla 640-650) depende da presença dessas cinco características ao mesmo tempo. Nenhum grupo ou pastoral específica, por si só, é comunidade. Nenhum movimento que priorize determinada espiritualidade ou linha pastoral, por si só, é comunidade. Nem uma capela (rural ou de bairro urbano), por si só, é uma comunidade eclesial de base, quando nela se realiza apenas a sacramentação tradicional feita pelo padre. Renovar a paróquia, em conformidade com os critérios conciliares, requer muito mais do que isso.

A relação polêmica entre CEBs e paróquia não é de hoje. O Plano Pastoral de Conjunto (1965-1972) já insistia numa renovação paroquial mediante a criação de “comunidades de base”. Os planejamentos seguintes aprofundam essa mesma proposta. As Diretrizes de 1975/78 falam, pela primeira vez, em “comunidades eclesiais de base”. O Documento 25 da CNBB (CEBs no Brasil, 1982) se tornou o grande marco de referência, chamando as CEBs de “um novo modo de ser Igreja”, expressão usada ainda na conclusão do Documento 92 (Mensagem ao povo de Deus sobre as CEBs, 2010). Assumindo Medellín 15,10, faz das CEBs “o primeiro e fundamental núcleo eclesial […], célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização e, atualmente, fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” (Introdução).

Em Roma, porém, o clima é outro. Paulo VI, na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (1975), ainda destaca as CEBs como “esperança para a Igreja universal”, porém já ressalva: somente aquelas que “brotam e desenvolvem-se […] no interior da Igreja”, e não aquelas marcadas por “um espírito de crítica acerba em relação à Igreja” (EN 58)! Duas suspeitas rondam a praça de São Pedro: falta de solidez eclesiológica – Roma insiste ainda na assim chamada “eclesiologia de cima” (= “sólida”) – e, principalmente, possível “ideologização” (uso político) da fé. Em Puebla (1979), os bispos falam bem das CEBs, mas não deixam de dizer que “critica-se a falta de formação adequada aos agentes, deixando algumas lideranças serem ideologizadas pela tendência secularizante” (DP 630). Em Santo Domingo (1992), fortemente controlado pela Cúria romana, as CEBs deixam de ser “células iniciais de estruturação eclesial” e voltam a ser “células vivas da paróquia” (SD 61). Para o “novo” Direito Canônico (1983), de fato, apenas a paróquia é “célula inicial”.

Ultimamente, nos documentos da CNBB e de Aparecida, fala-se das CEBs, no meu entender, de forma parcialmente equivocada. Hoje, a presença dos “movimentos” é mais forte na Igreja, e surgiram as “pequenas” e “novas” comunidades. Em diversos documentos têm-se posto as CEBs em pé de igualdade com essas novas expressões comunitárias (Doc. 100 da CNBB: 132-134, 231-236, 244-256; cf. DP 111 e 644; SD 58; DAp 178-180; DGAE 2011/15: 58; EG 29). O grande perigo dessa postura eclesiástica (demasiadamente “líquida”) é levar as CEBs a uma teologia desencarnada e uma espiritualidade descomprometida. É interessante comparar novamente o texto original e o revisado do DAp 179. Dizia o texto original: “Elas (as CEBs) poderão revitalizar as paróquias desde o seu interior, fazendo das mesmas uma comunidade de comunidades”. O texto revisado diz: “Atuando dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias, fazendo delas uma comunidade de comunidades”. Entendo que a paróquia, sem dúvida, pode crescer em espiritualidade e “vivência comunitária” por meio de movimentos e novas formas de associação comunitária, mas em nenhum desses movimentos ou associações se concretizam, ao mesmo tempo, “os cinco C’s das CEBs”, como acima assinalado. Apenas nas CEBs encontramos, apesar de todas as deficiências, a “eclesialidade plena”, e é por isso que somente elas merecem ser intituladas como “células iniciais de estruturação eclesial”. Quando se pretende “setorizar” a paróquia, essa distinção é fundamental.

Há quem queira dar às CEBs o “monopólio da eclesialidade”. O Doc. 25 da CNBB já alertava a respeito. De fato, nenhuma CEB é Igreja quando isolada das demais. A Igreja é “comunhão” na sua essência. Numa perspectiva mais teológica (e histórica), apenas a diocese é “comunidade de comunidades”. A paróquia deve ser vista mais como estrutura intermediária de “serviço”. Do ponto de vista eclesial, o bispo diocesano é o ponto de encontro primário das comunidades eclesiais, e as paróquias intermedeiam as diferentes pastorais que expressam e dão concretude a essa unidade.

Por isso, “setorizar” a paróquia é, antes de tudo, criar CEBs, o que não elimina – muito pelo contrário! – a possibilidade de nelas haver “vivências” espirituais e comunitárias diversas, mais ao encontro de, por exemplo, gostos pessoais, idades e níveis de formação. Especialmente este último ponto me parece particularmente relevante. Em termos de reflexão pastoral, existe uma lacuna a respeito. O clima e a prática espirituais e pastorais com os quais as pessoas se alimentam variam substancialmente de acordo com os graus de escolarização e engajamento profissional. O mundo secularizado nos dá essa lição. Como envolver, pastoralmente, as pessoas – muitas vezes da classe média/alta – que adquiriram maior liderança intelectual e profissional? O fator “afinidade humana” é vital em qualquer comunidade. Nossas CEBs tradicionais são fortemente “locais”. Como polos dinâmicos de reflexão, vivência e ação – apenas possíveis por meio de “convivência” –, não vemos como possa ser diferente. Mas talvez tenhamos de abrir mais portas para CEBs “regionais”, de estilo mais “urbano”, reunindo pessoas cujas afinidades não se dão em âmbito local. Ainda assim, não vejo como isso possa “funcionar” concretamente sem um polo local de encontro e dinamização dos “cinco C’s das CEBs”. Quem sabe caberá, nesses casos, uma volta à “Igreja doméstica”?

  1. Apostemos no papa Francisco

Gostaria de encerrar esta reflexão fazendo uma aposta na sabedoria pastoral do papa Francisco. O fato de ter vindo “do fim do mundo” pode ser decisivo para uma saudável “volta à grande disciplina” conciliar. Depois do Concílio, e a partir do Concílio, a vetusta teologia sólida do passado se fragmentou. Hoje, são muitas as teologias. Além da teologia europeia, já podemos falar de uma teologia africana, asiática e latino-americana, inclusive com suas vertentes locais. Da mesma forma, o “rosto” da Igreja. Cada “povo de Deus” tem direito à sua fisionomia própria. Voltamos a dizer: tudo que era sólido se tornou líquido, também na ação pastoral da Igreja. Não há nenhum mal nisso, como não há nenhum mal na modernidade em si, ainda que sejam muitos os desafios. Quanto às CEBs, é minha convicção que o “esquecimento” delas não é, em primeiro lugar, fruto da reação conservadora dentro das nossas próprias Igrejas, mas, muito mais, fruto da atitude obstinada do Vaticano que amedronta nossos bispos. É simplesmente inviável setorizar as paróquias e criar ampla rede de comunidades dentro dela sem nova abordagem teológica e pastoral do ministério ordenado (ou sem romper a “jaula de ferro ministerial”, como diria P. Suess). A “nova paróquia” que a CNBB propõe exige dos atuais padres que se transformem em super-homens. Uma ilusão. Super-homens não existem. Muito mais realista – além de mais evangélico – é retomar a tradição original e entregar a “direção” das comunidades, ainda que seja de forma temporária, às mãos de homens e mulheres “de boa reputação e repletos do Espírito e de sabedoria” (At 6,3 e 13,1; 1Cor 12).

O papa Francisco, na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium (32), afirma querer governar de acordo com o princípio conciliar da colegialidade e dar maior autonomia às Conferências Episcopais, “incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal”. Apela a uma “conversão pastoral do papado e das estruturas centrais da Igreja universal”. Por meio de pesquisa, fez uma consulta aos diversos continentes acerca de algumas normas eclesiásticas que interferem profundamente nas sensibilidades humanas. Na atual conjuntura eclesial, existe óbvio hiato entre o senso de fé, o “sensus fidelium”, do povo cristão – e do mundo em geral – e a postura sólida, obstinada, da Cúria romana. Depois de diversas fracassadas reformas da Cúria romana após o Vaticano II, o pequeno grupo de cardeais nomeados pelo papa dará conta do recado? O sínodo a ser concluído este ano significará a ruptura de um cerco milenar ou o fim de uma grande esperança? No momento em que escrevo, ainda não há resposta, mas uma coisa é certa: quando menos se esperar, o Espírito Santo soprará com força, e as portas e janelas da Igreja se abrirão para iniciar um novo futuro!

Nicolau João Bakker, svd

Missionário do Verbo Divino, sacerdote, cientista social e pastoralista. Atuou sempre em paróquias, rurais e urbanas. Durante diversos anos lecionou Pastoral no Instituto de Teologia de São Paulo (Itesp) e coordenou programas contra a violência urbana e de formação de lideranças numa ONG de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP/CL), São Paulo. Atualmente atua na pastoral paroquial de Diadema-SP. E-mail: nijlbakker@hotmail.com