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Publicado em novembro-dezembro de 2014

Um novo “fundamento antropológico” para a teologia, a pastoral e a espiritualidade

Por Pe. Nicolau João Bakker, svd

A evolução biológica e a evolução cultural não percorrem caminhos paralelos. Na verdade, estão profundamente inter-relacionadas. Desmoronou-se o antigo paradigma que opunha natureza a cultura. Isso é uma evidência das novas ciências, que põem em nova perspectiva quase toda a ação pastoral da Igreja.

Introdução

Se existe um “novo” fundamento, deve existir um “antigo” que parece estar necessitando de algum tipo de reparo ou substituição. De fato, esse antigo fundamento existe. É tão antigo quanto a própria tradição judaico-cristã. Ele tomou forma quando os autores bíblicos do Gênesis elaboraram o maravilhoso relato sobre a criação do universo, do mundo e dos seres humanos. Talvez seja o relato bíblico mais conhecido universalmente e o que mais profundamente plasmou a alma popular. Seguramente, reflete o modo de pensar dos judeus no tempo da monarquia de Saul, Davi e Salomão. Sua composição literária não visava ser um ensinamento científico, já que sua intenção era apenas religiosa. Nem por isso deixa de ser um relato do que, cientificamente, era senso comum nas lideranças religiosas da época.

A qual ponto o relato dá grande destaque? Sem dúvida, cabe um lugar central à posição que o ser humano ocupa em meio a todas as demais criaturas. Ressoam com solenidade as palavras de Gn 1,27: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou, homem e mulher ele os criou”. O Criador dá uma atenção toda especial ao primeiro casal: insufla-lhes nas narinas o “hálito da vida” (2,7) e dá-lhes grandes responsabilidades, entre as quais “dar nomes” (2,19) aos animais da terra e aos pássaros do céu, além de “cultivar e guardar o jardim de Éden” (2,15). Infelizmente, diz o texto, “Deus os expulsou do jardim de Éden” (3,23) porque não agiram de acordo com sua responsabilidade.

Esse grande destaque dado pela Bíblia ao ser humano recebeu imenso reforço da cultura grega. Muito antes de Jesus, os filósofos gregos, especialmente Aristóteles (†322 a.C.), já tinham colocado o ser humano no topo de todos os seres existentes, definindo-o como “animal racional”. Para os gregos, apenas a razão humana elevava o ser humano acima das coisas meramente materiais. Quando os primeiros cristãos foram expulsos das sinagogas judaicas e começaram a formar suas próprias comunidades cristãs, foi este o caldo de cultura encontrado. Muitas vertentes da época manifestavam até desprezo pelo corpo. Os gnósticos e os maniqueístas, por exemplo, fizeram uma separação radical entre matéria e espírito, corpo e alma, valorizando apenas o espiritual.

Para se fazerem entender, os “Santos Padres”, as lideranças cristãs mais fortes da Igreja primitiva, usaram a linguagem do seu tempo. Sempre é assim: o modo de pensar, em cada época, tem seu próprio modo de falar. Os primeiros tratados teológicos, os primeiros movimentos espirituais, como também a primeira ação pastoral da Igreja, todos, em conjunto, manifestam grande estima pelo espiritual e certo desprezo pelo corpo e pelas coisas materiais. De modo particular, santo Agostinho (†430) colaborou muito para sacramentar de vez o que podemos definir como “o primeiro fundamento antropológico”: o ser humano é “imagem de Deus” por ser uma criatura de natureza racional, mas trata-se de uma natureza “decaída”, pois, pelo pecado, a natureza humana vive num estado permanente de obscurecimento que só pode ser vencido pela graça de Deus.

Quando falamos de fundamento “antropo-lógico” – ser humano, em grego, é “anthropos” –, falamos, concretamente, do “modo de conceber” o ser humano. No decorrer dos séculos, a Igreja fala do ser humano, preferencialmente, como imagem de Deus, e os filósofos laicos ressaltam, preferencialmente, a natureza racional do ser humano. Mas mesmo quando nossos teólogos e místicos apresentam o ser humano como imagem de Deus, quase sempre o fazem baseando-se em santo Anselmo (†1109) e são Tomás de Aquino (†1174), que deram grande destaque à razão como importante instrumento de apoio à fé. Os filósofos laicos da Modernidade deixarão a fé de lado e seguirão o caminho trilhado por Descartes (†1650). Para este, apenas a razão, por ser não material, eleva o ser humano acima das coisas materiais. Apenas a razão faz do ser humano um “sujeito”, e todo o resto é “objeto”, que só será conhecido quando submetido a uma análise racional rigorosa. Por esse fundamento antropológico, o ser humano se tornou um ser isolado de tudo, inteiramente acima – e até “dono” – do restante da natureza.

Determinado modo de conceber se traduz em determinado modo de agir. O fundamento antropológico que, de forma muito rudimentar, esboçamos acima criou, de fato, não apenas o mundo que temos, mas também a Igreja que conhecemos, com sua teologia, sua espiritualidade e sua ação pastoral correspondentes. Hoje, com muita frequência, ouvimos dizer que o mundo está em crise, como também a própria Igreja. O que está acontecendo? Acontece que exatamente esse antigo fundamento antropológico do crer e do agir está mudando radicalmente, e, com feições cada vez mais claras, está surgindo um novo. O objetivo deste artigo é trazê-lo à tona, e isso para evitar que nossa Igreja se transforme, como observava Jesus, na “figueira seca” (Lc 22,29-33), deixando de produzir frutos.

1. Que novo fundamente é este?

Durante alguns milênios, já dissemos, apenas o ser humano era considerado “imagem” de Deus. Da mesma forma, apenas ao ser humano se atribuía uma “alma”. Sem dúvida se trata de expressões lindíssimas que ressaltam, com propriedade, o lugar muito específico que ocupamos na grande corrente de vida que a Terra produziu. Aos olhos da Bíblia, tudo o que Deus criou foi “bom”, mas, apenas quando foram criados Adão e Eva, Deus viu que foi “muito bom” (Gn 1,31). Na cultura da época – judaica, grega ou romana –, o que distinguia o ser humano de todo o resto das criaturas era a razão. Por sua capacidade de raciocinar, as primeiras escolas filosófico-científicas da Grécia, e depois as romanas e cristãs, consideravam o ser humano “semelhante” a Deus ou às divindades. E até muito recentemente, devido à sua capacidade de raciocínio, o ser humano era considerado essencialmente diferente das plantas e dos animais.

Pois é exatamente essa antiga concepção antropológica que as ciências modernas deitam por terra. Aos olhos dessas novas ciências, especialmente da biologia evolutiva, não existe uma diferença essencial entre a alma humana e, digamos, a alma das plantas ou animais ou de qualquer outra criatura viva. O que difere uma da outra é apenas o grau de complexidade. A alma de todos os seres vivos é a mesma: é a própria Vida. No decorrer de alguns bilhões de anos, a vida foi evoluindo sobre a face da Terra, tornando-se cada vez mais complexa até desenvolver o cérebro humano, que, sem dúvida, é a estrutura mais complexa que podemos encontrar. A rigor, portanto (e isso para quem tem fé), não apenas o ser humano é imagem de Deus, mas qualquer ser vivo, por mais insignificante que (aparentemente) possa parecer. Na história da Igreja, os místicos, mais intuitivos, entenderam isso bem melhor do que nossos teólogos, mais racionais.[1] Veja-se o exemplo de são Francisco de Assis.

Mas como deixar isso mais palatável, uma vez que a grande maioria das lideranças eclesiais, religiosas ou leigas teve pouca ou nenhuma formação nesse campo das ciências? De fato, é mais do que urgente incluir o item “concepção de vida” na pauta da formação permanente (teológica e espiritual) das nossas lideranças e do povo cristão em geral. Para vir ao encontro dessa necessidade urgente, tracemos o desenvolvimento do cérebro humano – ou da racionalidade – nos últimos 750 milhões de anos.

Não há discussão a respeito. Dizem, todos os entendidos, que nós, os atuais seres humanos, pertencemos à espécie sapiens. Com nosso cérebro superdesenvolvido, o planeta Terra viu surgir uma diversidade extremamente rica de culturas, um desenvolvimento tecnológico que parece não ter limite e um conhecimento vasto e profundo de quase todos os segredos da natureza e do universo. Mas esse nosso supercérebro é muito recente. Comprimindo todo o tempo do desenvolvimento da vida sobre a Terra em apenas uma hora, nossa espécie sapiens surgiu agora, nos últimos segundos do último minuto!

Esse ser maravilhoso que imaginamos que somos não foi colocado por Deus no paraíso do jeito que a Bíblia sugere. Na verdade, somos descendentes do gênero Homo, seres muito parecidos conosco que viviam na Terra entre 500 mil e 150 mil anos atrás. Todos esses diferentes gêneros foram extintos. Um deles, o Homo erectus – isto é, “o que anda de pé” –, foi, provavelmente, nosso parente mais próximo. Porém, se nosso cérebro atual mede 1.500 cm3, o do Homo erectus tinha apenas 1.100 cm3. Com o passar do tempo, o cérebro humano foi evoluindo mais, tornando-se mais complexo e integrando novas habilidades.

E esses companheiros do Homo erectus, de onde vieram? Não há dúvida. Todos foram descendentes da família dos hominídeos, os tais macacos-homens ou homens-macacos, de diversos tipos (sempre bípedes), que habitavam a Terra desde 4 milhões de anos atrás. Seus cérebros eram bem menores. Mesmo assim, esses nossos parentes foram suficientemente espertos para inventar a pedra lascada e, uns 750 mil anos atrás, descobriram o fogo. Já aparecem melhores estratégias de caça coletiva, linguagem mais apurada e muito maior afeto familiar, especialmente entre mãe e filhos, fruto de um processo de criação muito longo.

E esses hominídeos, de onde vieram? Seguramente, não de extraterrestres. Sempre trilhando o caminho silencioso da seleção natural (com base nas mutações genéticas), como descobriu o grande naturalista Charles Darwin (†1882), os hominídeos são todos descendentes da ordem dos primatas. Os primatas (com cérebro de 500 cm3) puderam desenvolver-se logo depois do grande desastre ecológico – provavelmente um meteorito gigantesco – que, há 65 milhões de anos, extinguiu da Terra os dinossauros e, com eles, 11% de todas as formas vivas do nosso planeta. Partilhamos com os primatas não apenas um cérebro, mas também muitas outras características, como olhos mais centralizados e polegares oponíveis, que nos ajudam muito a viver melhor.

É este o novo fundamento antropológico: nossa “alma” não veio do céu, mas da terra. Deus não nos deu a alma num momento mágico, insuflando-a para dentro do nosso corpo, como sugere o relato do paraíso, nem no momento da concepção, como ainda reza a fé cristã. Usando a linguagem da fé, mas respeitando os dados da ciência, devemos dizer que Deus fez tudo isso de modo ainda mais maravilhoso. Deus permitiu que a Vida fluísse, em primeiro lugar, do próprio universo, quando este, 4,5 bilhões de anos atrás, gerou a Terra, e depois, das entranhas da Terra, sempre adaptada às circunstâncias, Deus fez a Vida fluir, de forma auto-organizativa e com inimaginável diversidade e criatividade.

Durante dois bilhões de anos, a vida unicelular e depois pluricelular (bactérias e protistas) venceu – não sem inúmeros reveses – todos os desafios de um meio ambiente em constante transformação, estabilizando a atmosfera terrestre e inventando todas as tecnologias biológicas que ainda hoje nos permitem viver, entre as quais a obtenção de energia por meio da fermentação, da fotossíntese (nas plantas que comemos) e da respiração aeróbia. Nossa carga genética e nosso metabolismo atuais ainda revelam, com perfeição, o aprendizado desses bilhões de anos. E quando as condições o permitiram, a vida animal surgiu. A inteligência, uma característica da própria vida, em nós evoluiu para o estágio da autorreflexão ou da consciência. Podemos reagir ao nosso meio destruindo-o ou aperfeiçoando-o. E exatamente aí entra o papel da teologia, da espiritualidade e da ação pastoral.

2. Consequências teológicas do novo fundamento antropológico

Algumas questões-chave das indagações teológicas atuais têm relação direta com o novo fundamento antropológico acima esboçado. Vejamos algumas.

2.1. Fim das certezas dogmáticas e início do diálogo cultural

A evolução biológica e a evolução cultural não percorrem caminhos paralelos. Na verdade, estão profundamente inter-relacionadas. Desmoronou-se o antigo paradigma que opunha natureza a cultura. Isso é evidenciado pelas novas ciências. Durante alguns milênios, como vimos acima, existia uma fé quase cega na “superioridade” absoluta, quase divina, da razão. A Modernidade aprofundou ainda mais essa concepção quando, com Descartes, fez uma separação radical entre a “res cogitans” (o eu que pensa) e a “res extensa” (a coisa pensada). Impôs-se, dessa forma, a “antropologia cultural”: tanto a Igreja quanto a ciência, cada uma a seu modo, habituaram-se a conceber e valorizar o ser humano apenas levando em conta sua perspectiva racional/cultural.

A biologia evolutiva mostra que é a mente que faz a cultura, sim, mas é igualmente a cultura que faz a mente. Cérebro e cultura se desenvolveram juntos, em mútua relação. Cultura e genética se influenciam mutuamente. O grande cérebro nasceu com base na complexidade cultural crescente e não vice-versa, como sempre se pensou. No decorrer do longo processo de hominização, os agrupamentos “humanos” se viram, permanentemente, inseridos em um meio ambiente muito hostil e diante de crescente complexidade sociocultural em termos de vivência, convivência e sobrevivência. Interferências ecológicas, genéticas, sociais e culturais coproduzem o ser humano.

Mutações genéticas levam a novos hábitos. Os chimpanzés, até hoje, nascem com 70% do cérebro já desenvolvido; o ser humano, apenas com 23%, o que prolonga enormemente o tempo de infância e adolescência. Surge, desse modo, nova “cultura familiar” e, concomitantemente, regressa o comportamento inato ou genético. Um cérebro maior gera novas competências linguísticas, lógicas e inventivas, e essa crescente complexidade cultural, por sua vez, age sobre as bases filogenéticas, favorecendo mutações que aumentam as potencialidades do cérebro. Novos hábitos se tornam estruturas inatas, passando para a herança genética e recalcando os comportamentos estereotipados. A cada passo diminui-se a dependência generalizada do meio ambiente e aumenta-se a complexidade social a ser transmitida culturalmente de pais para filhos. Para muitos, esse processo de hominização ainda não terminou. A interação entre cultura e cérebro continua, e, ao que parece, sem direção definida.

A Igreja (católica) construiu suas certezas dogmáticas vendo no ser humano, dotado de razão, a imagem e semelhança de Deus. Um ser humano capacitado para entender a Revelação divina, mas sujeito a uma autoridade eclesiástica que garante a veracidade desse entendimento. A ciência também acreditou na total superioridade da razão para construir suas próprias certezas. O novo fundamento antropológico veio mostrar que nem a Igreja recebeu as verdades prontas do céu nem a ciência construiu suas certezas com o recurso exclusivo da razão. Tudo foi fruto de longo e penoso processo de aprendizagem cultural, deslanchado desde o início pelo imperativo máximo da própria Vida: auto-organização.

A consequência teológica é imediata: chega ao fim a era das certezas dogmáticas e nasce a Igreja do diálogo. A força da Igreja já não está na sua certeza doutrinal, mas na imensa riqueza de sua tradição espiritual. Sem o “mito da superioridade”, como nos lembrou o teólogo americano Paul F. Knitter, é essa riqueza que justifica a nossa universalidade e unicidade, tão enfaticamente defendidas pela Congregação para a Doutrina da Fé na declaração Dominus Iesus (2000). Todas as tradições religiosas do mundo perfazem o mesmo caminho: buscar sentido e construir Vida em meio às ambiguidades da realidade ambiental e sociocultural. O diálogo se impõe, com respeito e humildade, mas também sem falsa modéstia. Temos muito a oferecer. Felizmente, embora ainda com as suspeitas de Roma, nossa teologia, nas últimas décadas, tem feito grandes avanços nessa direção.

2.2. A “função reparadora” da religião

Numa máquina, qualquer desordem nas engrenagens a faz parar. Num ser vivo, é o contrário: da desordem se faz ordem. Já dissemos que vida é auto-organização. Bom exemplo disso encontramos nos primeiros passos da vida sobre a face da Terra. Há aproximadamente 3,5 bilhões de anos, a atmosfera terrestre era totalmente diferente da atual. Não existia oxigênio nem camada de ozônio. Os primeiros códigos genéticos em fase de formação sofreram o impacto violento da radiação ultravioleta do sol que ainda incidia diretamente sobre a terra. Frequentemente, os genes se danificavam. O próprio processo bioquímico auto-organizativo dentro do código genético reagiu à desordem, inventando as “enzimas reparadoras”, até hoje presentes, e muito importantes, em qualquer processo vital.

À medida que os hominídeos se transformaram no Homo sapiens, grande desordem se instalou. Ficaram mais para trás o paleocéfalo, herança dos nossos antepassados reptílicos, o mesocéfalo, herança dos nossos primeiros parentes mamíferos, e o neocéfalo, herança dos mamíferos superiores e dos primatas que evoluiu para a grande massa neocortical do sapiens. São agora 1.500 cm3 de bilhões e bilhões de neurônios, e trilhões e trilhões de sinapses, com grande capacidade de interconexões em todas as direções. Embora frágil e instável, podendo ser ofuscado (por exemplo, pelos impulsos afetivos), o córtex superior do nosso cérebro exerce enorme influência sobre nosso pensar e agir, interrompendo a vivência natural harmônica com o meio ambiente.

Surgiu o que os antropólogos chamam de “brecha antropológica”: a consciência subjetiva (que confunde o real com o imaginário) pode sobrepor-se inteiramente à consciência objetiva (que compreende o real). Não existe qualquer dispositivo na consciência que diferencie a verdadeira consciência da falsa. Da mesma forma que não existe qualquer dispositivo interno no cérebro que diferencie a visão alucinatória da percepção visual real. Como o pensamento, também o comportamento humano pode desligar-se inteiramente dos padrões genéticos. Na vida humana, ordem e desordem convivem em tensão permanente. Os incessantes desafios ambientais e a crescente complexidade sociocultural exigiram um novo cérebro muito mais criativo. E ele veio.

Surgiu assim um novo ser humano. Um ser com novas aptidões e necessidades psicoafetivas, que agora ri quando as coisas dão certo e chora quando contrariado. Um ser cujo eros já não está circunscrito à época do cio, como nos primatas, mas pervaga o corpo todo o tempo todo. Um ser que se pergunta de onde vem e para onde vai, que cria deuses, anjos e demônios numa impressionante diversidade cultural. Enfim, um ser humano sensível ao belo e ao feio, ao certo e ao errado, sempre, de alguma forma, em busca de “ordem” em meio a tantas desordens e dúvidas.

Muitos darwinistas convictos, especialmente entre os atuais militantes ateus, veem a religião como fruto do mundo imaginário acima mencionado. Uma fantasia. Quem observa a religião “de fora”, apenas racionalmente, pode facilmente chegar a essa conclusão. A religião serviu – e ainda serve –, de fato, para os mais deploráveis desvios. Mas para quem olha a religião “de dentro”, ou na perspectiva de uma real experiência mística, o mundo da imaginação cede lugar a fortíssima realidade. No fundo daquilo que chamamos “alma” – e onde repousa, acreditamos, o próprio Espírito de Deus –, o ser humano encontra energias jamais imaginadas. Todas as pessoas religiosas, de qualquer religião, usam essas energias para pôr “ordem” na desordem. Nós, cristãos, somos privilegiados porque nossa tradição religiosa é riquíssima e acreditamos que, em Jesus, Deus nos mostrou um exemplo perfeito. Em certo sentido, a religião é como a enzima reparadora à qual nos referimos. Ela nos liga (ou re-liga) ao Deus em que cremos, à natureza que nos gerou e que continuará nos amparando se soubermos respeitá-la e nos liga novamente aos nossos irmãos e irmãs, restabelecendo a ordem cada vez que fazemos alguma desordem. Essa religião “reparadora” não é uma fantasia, mas a herança sagrada que faz parte da essência da própria Vida.

3. Consequências pastorais do novo fundamento antropológico

O novo fundamento antropológico põe em nova perspectiva quase toda a ação pastoral da Igreja. O limitado espaço deste artigo nos obriga a ser sucintos, mas vejamos alguns exemplos.

3.1. A “alfabetização ecológica” no processo da evangelização

Há poucas décadas, ninguém falava em ecologia. O antigo fundamento antropológico não permitia descobrir sua importância. E quando o mundo acordou para a questão, a Igreja continuou dormindo o sono dos justos. Com base no fundamento antigo, para a Igreja, o que importava era a alma, não o corpo. “Salva tua alma!”, proclamava-se dos púlpitos. A espiritualidade dos primeiros séculos se voltava prioritariamente para o “outro mundo”. Depois veio a “fuga do mundo”. A teologia da Igreja, durante 2 mil anos, priorizou a vida do espírito, a razão e a doutrina. Até hoje nossa catequese visa, basicamente, a um indivíduo desligado de seu meio ambiente. No novo fundamento antropológico, esse indivíduo não existe. Não é possível salvar a alma sem o corpo, ou o indivíduo sem seu contexto sociocultural. Nem se salva a sociedade descuidando do meio ambiente. Está tudo irremediavelmente interligado e interdependente.

Nas escolas, o meio ambiente já está na agenda; na Igreja, ainda não. Criamos analfabetos ecológicos. Do ponto de vista da “salvação”, trata-se de verdadeiro desastre pastoral. Atenção! Para nós, não basta ensinar ecologia simplesmente. Importa anunciar o Evangelho da Vida, em todos os momentos da nossa catequese e evangelização. Para dar Vida plena, ou abundante (cf. Jo 10,10), ao ser humano, precisamos preservar a Vida como ela é: fruto e dependente da natureza, e preservada apenas em fidelidade a ela.

As renovadas teologias da criação e da salvação, unidas, apresentam-nos a “cartilha da alfabetização ecológica” que estava faltando. Ela, seguindo uma sugestão de Fritjof Capra, pode ser resumida em seis pontos: 1) a “Teia da Vida” (que Deus criou) é uma “rede” onde tudo é interdependente; 2) nos ecossistemas da Vida, tudo é “cíclico”, tudo se renova sem deixar lixo, pois tudo é “reciclado”, e a morte é apenas uma dimensão da Vida; 3) a Vida não é feita de competição, mas de “parceria”, pois há uma cooperação generalizada em todos os níveis (células, organismos, ecossistemas); 4) a Vida na Terra depende basicamente da “energia solar”, transformada em energia química pela fotossíntese, que sustenta todos os ciclos ecológicos; 5) a Vida sobrevive graças à “diversidade” (biológica e cultural), pois é ela que permite a recuperação das desordens e desequilíbrios naturais e culturais; 6) existe um “equilíbrio dinâmico” na Vida, pois os inúmeros elos de realimentação na rede lhe permitem recuperar a estabilidade quando ocorrem desordens e flutuações.

3.2. A recuperação pastoral do corpo

Ainda em 1958, nós, noviços devotos, recebemos do nosso mestre espiritual um pequeno “flagelo” para castigar o nosso corpo a fim de preservá-lo de todas as tentações deste mundo. Sem chance, a proposta já não “pegava”. O novo fundamento antropológico já mostrava sua cara. Neste, o corpo (desvalorizado) já não é separado da alma (supervalorizada). A alma, se quisermos continuar falando dela, continua importante, mas como dimensão específica do corpo. Acima falamos da “brecha antropológica”, isto é, da capacidade da mente de entrar, com muita facilidade, no mundo da imaginação, da fantasia. Com a secular sobrevalorização da mente, a teologia da Igreja (sem grande sucesso no meio popular!) elaborou doutrinas pouco simpáticas ao corpo. Mas é exatamente o corpo que faz a alma cantar ou chorar! Se o corpo não é tocado, a alma não canta. É um instrumento só.

O mundo secular, séculos afora, guerreou pelo progresso material. A Igreja não vestiu a camisa nem do capitalismo nem do socialismo. Apenas o progresso espiritual interessava. O espírito, porém, não precisa de pão, o corpo sim. Apenas o novo fundamento antropológico que une corpo e mente permitiu à Igreja descobrir a importância da sobrevivência corporal. Do pão e do corpo. A nova pastoral se alimenta das teologias do corpo: corpo faminto (teologia da libertação), corpo sexuado (teologia do gênero), corpo não discriminado (teologia afro), corpo preservado (ecoteologia) etc. Há mais: uma pastoral que esquece o corpo (na sua realidade individual, social e ambiental) não condiz com Jesus Cristo. Esquece a boa-nova do Reino.

Por receio de romper com uma tradição muito sagrada, o magistério da Igreja e muitas lideranças eclesiais bem-intencionadas costumam defender a Vida com base no enfoque da “alma eterna”, vinda diretamente de Deus, a qual habitaria nosso corpo. Esse modo de pensar fica patente na intransigência da Igreja com relação ao aborto, à prática homossexual, ao sexo fora do casamento, à proibição dos meios anticoncepcionais, à eutanásia e a muitas outras questões ligadas ao nosso corpo. Tudo entra na lista das graves proibições porque seria contra a “natureza humana”. Na concepção do mais influente teólogo do passado, são Tomás de Aquino (†1274), cada criatura deve comportar-se de acordo com sua “lei natural”, isto é, a lei que corresponde à sua natureza, criada por Deus, e que o ser humano pode conhecer quando faz bom uso da razão.

São Tomás, como as demais lideranças religiosas da época, estava preso ao fundamento antropológico do seu tempo. Não há o que criticar. Todas as nossas concepções têm sempre o colorido do tempo em que vivemos. A concepção antropológica do nosso tempo, porém, é muito diferente da de são Tomás. A mente é tão corpo quanto o restante do corpo. É a aptidão do corpo – de qualquer corpo vivo – de relacionar-se com seu meio (ambiental e sociocultural) e perceber o que constitui uma ameaça à Vida ou o que a faz prosperar. A “alma” é a própria Vida que nos anima. Em muitos sentidos, podemos identificá-la com o próprio Deus, mas aí já é uma questão de fé e não de ciência. Todas as proibições morais tradicionais da Igreja, à luz do novo fundamento antropológico, recebem novo olhar, de grande alcance prático. Permanece, e até se reforça, a intransigência em defesa da Vida, mas não se trata de defender apenas uma presumida alma eterna desligada do corpo. Entram em cena, também, as psicoafetividades da pessoa humana, as exigências da vida em sociedade e a incondicional necessidade de preservar a Vida no planeta Terra.

3.3. Novo enfoque para a pastoral sociotransformadora

Edgar Morin,[2] um dos mais eminentes antropólogos da atualidade, em seu livro Terra-Pátria (Ed. Sulina, 2005), lamenta o que considera um equívoco das religiões e ideologias tradicionais que ofereceram ou uma salvação celeste (os cristianismos tradicionais), ou uma salvação terrestre (as esquerdas tradicionais), ambas inexistentes, na opinião do autor. Com base na nova concepção antropológica, ele propõe (sem ironia) o “Evangelho (não da Salvação, mas) da Perdição” (cap. 8). Ninguém pede para nascer nem para morrer. A Vida na Terra evolui sem rumo definido e, inexoravelmente, terminará quando se esgotar o atual ciclo de energia do Sol. Estamos, portanto, “perdidos”. Ainda assim, ele diz, não se trata de uma marcha para o abatedouro. Ideias-guia são bem-vindas, e viver bem vale a pena. Finalizando seu raciocínio, o autor se pergunta: “Será que não se poderia degelar a enorme quantidade de amor petrificado em religiões e abstrações, voltá-lo não mais ao imortal, mas ao mortal?… O apelo da fraternidade não se encerra numa raça, numa classe, numa elite, numa nação… Mas por que evocar a palavra religião? Porque temos necessidade para levar adiante a hominização…” (p. 172).

Morin não acredita em religiões, mas leva muito a sério a religiosidade. Do ponto de vista da ciência, não existe nem objetivo, nem projeto, nem planejamento na natureza (não consciente). Para Morin, isso não significa que a vida seja arbitrária e sem sentido, como afirma a escola mecanicista do neodarwinismo. Sobretudo a vida social (consciente) depende em grande parte dos significados oferecidos. E aí entra um novo enfoque para a pastoral social. Em qualquer nível (célula, órgão ou organismo), a vida biológica sobrevive graças à recepção de permanente fluxo de energia (basicamente, oxigênio, água e insumos). A Vida lida com esse aporte de energia de forma autônoma ou auto-organizativa.

A vida social do ser humano consciente se organiza com base numa nova energia: significados! Não significados impostos de fora, por alguma hierarquia ou doutrina. Não se controla um ser humano como se controla uma máquina. Entre milhares de significados oferecidos, ele seleciona autonomamente o que lhe parecer melhor. Mas, como vimos, sua mente é, digamos, um tanto “ilusória”. Se de todos os lados (direita, esquerda, sindicatos, movimentos) vem como único significado importante o ter, o consumir, o desfrutar etc., sua consciência imaginária pode facilmente perder de vista o próprio fundamento antropológico que anseia por Vida plena (integrada). Cabe à pastoral social da Igreja lembrar ao ser humano (e aos governantes!) que o objetivo da Vida não é simplesmente “ter”, mas, tendo o necessário, relacionar-se saudavelmente (em redes ecossociais) e “ser”.

[1] Para conhecer melhor a história da espiritualidade cristã dentro do antigo e do novo fundamento antropológico, sugerimos uma série de artigos de nossa autoria publicados na Revista Grande Sinal (a partir de maio/junho 2012).

[2] Para o embasamento deste artigo, usamos em parte o ainda valioso livro de Edgar Morin O enigma do homem (Jorge Zahar, 1979).

Pe. Nicolau João Bakker, svd

Missionário do Verbo Divino, svd, sacerdote, formado em Filosofia, Teologia e Ciências Sociais. Atuou sempre na pastoral prática, tanto rural quanto urbana. Foi educador no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (SP). Lecionou Teologia Pastoral no Itesp (SP). Atualmente, atua na pastoral paroquial de Diadema (SP). Além de cartilhas populares, publicou artigos pastorais diversos na REB, na Vida Pastoral e na Grande Sinal. E-mail: nijlbakker@hotmail.com