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Publicado em Novembro - Dezembro de 2017

A estética da Fé pelas mãos do Povo das CEBs

Por Elinaldo Meira

Sou professor, por profissão e por crença de que a educação transforma a gente em coisa melhor. Digo isso porque essa convicção se fortaleceu no seio das CEBs, ainda menino, na Comunidade São Judas Tadeu, no Jardim Bonança, parte da então Paróquia Nossa Senhora Aparecida, do Jardim Helena Maria, periferia de Osasco. E também sou artista visual, condição essa que se realiza em conjunto com a docência. E, mais uma vez, foi nas CEBs onde me encontrei nesta escolha que levo pela vida adiante. Nelas nasceu o professor, o artista, o fotógrafo-retratista, a compreensão política e a opção pelo povo, o mesmo de onde venho. Eis o nosso começo de prosa, e que possa ser um convite, para que cada um, em sua comunidade, possa fazê-lo no intuito de localizar o quão importantes foram e têm sido as comunidades eclesiais de base na construção da identidade de seus participantes ou dos que nelas um dia estiveram.

E o que é “estética”?

Estética é tanto uma compreensão sobre o que é arte, se assim quisermos estudar um objeto artístico, quanto aquilo que é criado e que sirva para representar – por meio da música, da pintura, da escultura, da arquitetura, do vídeo, da dança, do desenho e de tantas outras coisas – um pensamento, uma ideia, um valor, uma cultura, uma crença etc. Ou seja, quando tratamos de estética, estamos tratando de formas de representação por meio da atividade artística. Nesse sentido, optei por chamar este relato de “A estética da Fé pelas mãos do Povo das CEBs” porque desejo falar sobre as formas de representação artística em que a Fé se faz presente pela prática (a praxe) do Povo de Deus.

A Fé é um ato estético

O povo dos sertões, quando intenciona dizer algo para que pensemos a respeito, diz que vai puxar um causo. Jesus Cristo também usou deste princípio, porque toda parábola é em si um causo e um jeito gostoso de envolver a todos numa conversa. Pois bem, segue meu causo.

Foi numa Sexta-Feira Santa nos anos de 1990, em Osasco, no extremo da cidade, no Jardim Bonança, quase divisa com outro bairro da periferia, o Jardim Portal do Oeste II. Eu era participante de uma das CEBs, a da Comunidade São Judas Tadeu. Habitava em muitos de nós o espírito da Teologia da Libertação, que muito nos fazia compreender criticamente as nossas vivências como jovens, filhos de migrantes nordestinos ou de caipiras, todos nós trabalhadores, militantes de movimentos sociais ou estudantis.

Cantar, cantava-se: “Sou, sou teu, Senhor! /Sou povo novo, retirante e lutador./ Deus dos peregrinos, dos pequeninos,/ Jesus Cristo redentor (…) Para a terra prometida/ o povo de Deus marchou./ Moisés andava à frente;/ Hoje Moisés é a gente/ Quando enfrenta o opressor (…)”. Entoavam-se as cantigas de Zé Vicente, como este “Bendito dos romeiros”, ao som de violões e tambores, de pandeiros e de vozes diversas nos sotaques que se dispunham a servir ao Povo de Deus nos fins de semana.

E volto de novo ao causo da Sexta-Feira Santa. A imagem daquela procissão do Cristo Morto foi, creio, minha primeira experiência estética significativa e multicultural, que mais tarde me lançaria aos estudos acadêmicos em Artes sobre as formas de o Povo viver a experiência visual da Fé.

Aquele cortejo em marcha de consagração me contava sobre singularidades, sobre cor, formas, técnicas, expressividade individual e coletiva, símbolos, intervenção no espaço urbano. Entoava-se a Deus do melhor jeito possível, cheio de belezuras. A procissão tinha um destino, que era chegar à Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Helena Maria: uma boa caminhada, mas talvez pequena a um povo que sempre caminhou levando consigo Deus sobremaneira vivo nos atos de devoção.

Sim, a Fé é um ato estético! Aquela procissão se constituía enquanto obra coletiva, em movimento, a qual era acrescida a cada jornada de mais cores, de mais formas, de mais Povo, e mais sons. Cada comunidade trazia ao cortejo novos materiais como faixas, fitas coloridas, velas acesas, cantorias, adornos, símbolos de Fé. Tudo isto transformava a marcha sagrada em obra visual. O Povo caminhava pelas ruas de terra, pelas ruas de asfalto, pelas favelas, pelas incontáveis ladeiras da zona norte de Osasco; pés calçados, pés em chinelos, Povo em atitude. Anos mais tarde, entenderia, pelas coisas que vim a aprender nos estudos acadêmicos, que o conjunto das performances (atividades) daquele grupo, e de outros tantos que tive a oportunidade de ver, era uma poética, a póiesis (ποίησις) ensinada pelos gregos, que quer dizer “um produzir que dá forma, um fabricar que engendra, uma criação que se organiza, ordena e instaura uma realidade nova (…)” (NUNES, 2002, p. 32). Criação aqui deve ser entendida como aquela atitude que dá nova forma àquilo que existe, mesmo que num primeiro momento não seja a coisa que virá a ser. Exemplifico isto: um pedaço de madeira não é uma cruz; largado num canto, sempre será um pedaço de madeira. Mas, se eu juntar dois pedaços desta madeira, cruzá-los, decorá-los e levar para a procissão, deixará de ser apenas pedaço de madeira e será símbolo de toda uma grande história de lutas com Cristo ao lado do Povo de Deus.

O Povo das CEBs sempre percebeu que a utilização daquilo que estava ao alcance das mãos, a materialidade, quando revista, quando repensada, se transformava em objetos estéticos que falariam ao Povo sobre esperança. Há tempos tenho pensado sobre as formas que o Povo tem para representar os elementos sagrados por meio dos materiais próximos. Em Piracicaba, interior de São Paulo, onde estudei a Festa do Divino, o Espírito Santo é representado em forma de pomba. Para quem conhece um pouco das tradições cristãs, de primeira talvez diga que a pombinha do Divino diz respeito à imagem da ave que aparece no batismo de Cristo (Lc 3,21-22). A resposta estará correta, embora incompleta. Não é objetivo deste texto discutir toda a simbologia que envolve as representações do Divino Espírito Santo. Rapidamente, no entanto, caberia dizer algo a respeito para que adiante pensemos sobre a importância dos estudos estéticos na praxe do Povo das CEBs.

Oficialmente, somente em 1745 o papa Bento XIV “promulgou Constituição reconhecendo como figuração regular a que representa a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade sob o símbolo de uma pomba. A origem dessa simbologia encontra-se no Evangelho de São João (Jo 1,32-33) que assinala a participação do Espírito Santo naquele episódio sob a forma de uma pomba, que, descida dos céus, abre as asas sobre a cabeça de Jesus” (MUSEU…, 1983, p. 30). A pomba é o primeiro destes elementos simbólicos da Festa do Divino, o outro figurado sempre atrás da pomba serão “as línguas de fogo”, referência ao Pentecostes (At 2,1-4), quando da presença do Espírito Santo entre os apóstolos reunidos no Cenáculo.

Dois aspectos precisam ser retomados: o primeiro diz respeito à utilização daquilo que está às mãos, ou seja, sobre os materiais utilizados para representar a Fé. Hoje é muito comum vermos as pombinhas do Divino confeccionadas em metal; nem sempre foi assim, já que a primeira materialidade do Povo, ainda mais a do Povo dos interiores do Brasil, de quem herdamos a maioria das festas religiosas, por certo foi a madeira, usada para a confecção de santos e representações do Divino. Volto, portanto, e acrescento algo àquilo que dizia linhas antes: o Povo reconhece naquilo que está ao alcance das mãos a forma sagrada, como se, em termos práticos, apenas tivesse revelando a obra oculta por uma camada material. Ao utilizar (ou ao reutilizar) materiais para fins de representação religiosa, renova o voto de aliança com Deus de maneira criativa, participando, desta forma do ato criador (Gn 1). O artista visual, o artesão da pedra, da madeira, do ferro, do material reciclado, que extrai da matéria a forma sagrada, traduz com suas mãos as histórias e as tradições do Povo do Deus. Não importa se este contexto é rural ou urbano, estas traduções revelam fatos de cultura, o modo como Deus se faz presente na vida social.

O segundo aspecto diz respeito aos estudos de estética na praxe das comunidades de base. E aqui segue uma proposta: observar como o Povo de sua comunidade representa, ou trata, pela arte, as formas sagradas.  Ao observar estas marcas próprias, é possível identificar elementos que falem sobre origens, valores culturais e modos de expressão da Fé. Este exercício equivale a uma leitura em que se observará como os temas bíblicos, a tradição cristã, são interpretados. Se somarmos este levantamento feito em cada comunidade, e se apresentadas dentro de um encontro, por exemplo, paroquial, ter-se-á um panorama tão importante quanto qualquer outro censo para as reflexões que se queiram fazer. Quem sabe tal exercício não motive, em termos de paróquias, a organização de mostras de arte sacra, a revelação de talentos e uma rede de colaboração entre artistas.

Ainda dentro desta perspectiva, a leitura de textos e a discussão sobre arte são bem-vindas, desde que não se tornem uma obrigação enfadonha. A arte tem de ser amiga da caminhada do Povo das CEBs e ser parte integrante da aceitação de um espírito que age na participação popular e nas tarefas apostólicas; a arte, primeiramente, deve servir à promoção da beleza e à apreciação.

Num passado, naquilo que chamamos de Idade Média, a arte serviu como instrumento didático e catequético. A maior parte do Povo não sabia ler, não tinha também acesso direto à Bíblia; logo as pinturas, por exemplo, cumpriam função de ilustração da história. Não acreditamos ser esta, hoje em dia, a única função da arte. Na prática das CEBs, a arte ajuda a representar melhor os valores culturais e artísticos expressos pelo Povo de Deus; é tanto expressão coletiva quanto individual de quem a produz. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) dizia que a Arte estimula a vida. E isso parece ser bem verdade se pensarmos que a arte, ao traduzir pensamentos, ideias, textos e necessidades do Povo, convoca a vida a pensar sobre a própria vida e aquilo que age sobre ela.

Se puderem, visitem o Santuário Nacional de Aparecida. Na atualidade, o seu interior é um gigantesco convite a pensar sobre o que aqui tratamos. A ambientação interna é assinada pelo artista visual Cláudio Pastro (1948-2016). Cada pedaço dessa grande obra, além de nos remeter a diversos textos bíblicos, propõe-nos pensar sobre a história do catolicismo no Brasil e na América Latina,  direciona-nos às ações pastorais e às lutas sociais, fala-nos de nosso folclore, da fauna e da flora brasileiras. Como toda boa obra de arte, requer tempo de apreciação: não basta passar os olhos pelas cores que nos chamam a atenção num primeiro momento, cabe olhar de perto, perguntando-se por que determinada informação foi tratada daquela forma e por que, assim elaboradas, são formas sagradas.

Embora eu tenha situado a decoração interna do Santuário Nacional de Aparecida como obra de grande dimensão, no chão de cada comunidade eclesial de base, nas paredes de cada salão que se torna capela – e digo isto pela experiência e observação próprias narradas no começo deste texto –, o coletivo promove o jeito de ser Igreja pela expressão estética e materialidade disponível ou conquistada. Deus, tornado matéria artística, é síntese do que o artesão entende como divino. É, portanto, um ato poético, pois, ao dar forma, ao aplicar cor ao objeto que representará a Fé, dá-se um ato de criação. O objeto que antes fora apenas tecido, linha, tinta, pedaço de madeira, flor de plástico, parafina, ferro etc. é conduzido de seu estado de indeterminação para o estado de realidade plástica plenamente determinada. Assim foi que percebi, mas só anos depois entendi, que, naquele “causo” que contei lá atrás – o da procissão rumo à Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Helena Maria, em Osasco, pelas mãos daqueles que conduziam respeitosamente e decoraram o andor em honra ao Cristo morto –, levavam não apenas o corpo representado do Salvador, mas também o imaginário e a arte que nos povoam e dão força à caminhada, conferindo mais vida ao evento, justificado pelas mãos esperançosas do Povo, que produz a beleza.

 

Bibliografia

MUSEU DE ARTE SACRA DE SÃO PAULO. Catálogo. São Paulo: Banco Safra/Melhoramentos, 1983.

NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. 5. ed. São Paulo: Ática, 2002.

Elinaldo Meira

Professor na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação – FAPCOM. Doutor em Artes pela Unicamp. E-mail: meira.elinaldo@gmail.com