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Publicado em Setembro - Outubro. Ed.323 - Ano 59

“Nenhum ser humano pode modelar um Deus” – Uma leitura de Sb 15,7-19

Por Shigeyuki Nakanose

Introdução

No Brasil, o número de bilionários também cresceu, passando de 31 para 43. Hoje, cinco bilionários brasileiros têm patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população do país. Ao mesmo tempo, no mundo existem 815 milhões de subnutridos, o que significa que uma em cada seis pessoas não tem alimentação suficiente para ser saudável e manter uma vida ativa. E, em cada seis segundos, uma criança morre por causa da fome ou de doenças a ela relacionadas.

No Egito, os governantes e os poderosos promoviam a religião oficial. Fabricavam ídolos e incentivavam seus cultos para fins lucrativos (Sb 15,12), alienando, explorando e escravizando o povo. Por isso, o autor do livro da Sabedoria, escrito, no final do século I a.C., na colônia judaica de Alexandria, no Egito, condena o culto aos ídolos, ou seja, a religião dos governantes: “Nenhum ser humano pode modelar um deus que lhe seja semelhante” (Sb 15,16b). Quais são as conse­quên­­cias de adorar ídolos? De que forma a nossa fé no Deus da vida nos ajuda a rejeitar os ídolos que a sociedade atual nos impõe?

  1. Fabricantes de ídolos para fins lucrativos na história de Israel

O historiador deuteronomista descreve a obra do rei Josias: “Josias eliminou também os que evocam os mortos, os adivinhos, os deuses domésticos, os ídolos e todas as abominações que se viam na terra de Judá e em Jerusalém, para cumprir as palavras da Lei escritas no livro que o sacerdote Helcias encontrou na Casa de Javé” (2Rs 23,24; cf. 2Cr 34,7).

Por volta do ano 620 a.C., o rei Josias executou uma reforma nacionalista e expansionista para fortalecer e aumentar a riqueza e o poder (cf. 2Rs 22-23). O principal programa era consolidar o templo de Jerusalém como único local de culto em todo o Israel, colocando Javé como a divindade oficial, oprimindo e destruindo os santuários do interior e até matando pessoas. Para isso, combateu e condenou as outras divindades, seus cultos e suas imagens como “falsas”, ou seja, “ídolos”, sem deixar de incluir nessa condenação até “os deuses domésticos”, muito difundidos e cultuados nas famílias e aldeias camponesas.

Intolerância, condenação e perseguição contra outras religiões e divindades também fazem parte da realidade de nossa sociedade. Basta recordar algumas notícias nos meios de comunicação, por exemplo: “Ataque reivindicado pelo EI (Estado Islâmico) mata padre em igreja na França”; “Vítima de intolerância religiosa, menina de 11 anos é apedrejada na cabeça após festa de candomblé” etc. Até hoje, os fundamentalistas do cristianismo, do islamismo e de outros grupos condenam, como “idolatria”, outras religiões, suas imagens, cultos e templos. E no cristianismo essa condenação é muitas vezes legitimada pela leitura fundamentalista da Bíblia, que contém textos referentes a imagens.

Entretanto, muitos desses textos não são condenações das imagens em si, e sim crítica contra a religião, seus cultos e imagens utilizados para legitimar e fortalecer o poder. Por exemplo, Ex 20,23 diz: “Não façam junto de mim deuses de prata, nem façam para vocês deuses de ouro”. Ou ainda: “Se você construir um altar de pedra para mim, não o faça com pedras lavradas, pois assim você estaria profanando a pedra com a ferramenta” (Ex 20,25).

A proibição das imagens é uma crítica contra a religião do Estado. No tempo da formação de Israel (1250-1010 a.C.), os deuses de prata e de ouro e os altares de pedras lavradas eram característicos da religião dos reis de Canaã e do faraó do Egito, que exploravam os camponeses. As imagens eram utilizadas para legitimar seus poderes.

No tempo da monarquia, os profetas continuam as críticas contra o uso da religião pelas autoridades do Estado para promover e aumentar seus poderes e riquezas. Por exemplo, o profeta Oseias, que atuou no reino do Norte entre os anos 750-724 a.C., denunciou: “Nomearam reis sem meu consentimento, escolheram príncipes sem eu ficar sabendo. Com sua prata e ouro fizeram ídolos para sua perdição” (Os 8,4).

O tempo de Oseias coincidiu com a ascensão da Assíria, que provocou conflitos e intrigas na corte de Israel, com posições favoráveis e contrárias a ela. Desde a morte de Jeroboão II (743 a.C.) até a queda de Samaria (722 a.C.), Israel teve seis reis, quatro dos quais assassinados. Com ganância, cada governante procurou seu poder e seus bens, provocando violência, corrupção e assassinatos: “Há juramento falso e mentira, assassínio e roubo, adultério e violência, e sangue derramado se ajunta a sangue derramado” (Os 4,2).

Conforme a crítica profética, as autoridades usaram da religião para legitimar a corrupção, a exploração e a tirania do Estado. Apropriaram-se até mesmo da religião popular das aldeias, transformando seus cultos e imagens num meio de alienação e exploração: “O vinho e o licor tiram a razão. Meu povo consulta um pedaço de madeira, e seu bastão lhe dá uma resposta, porque um espírito de prostituição os extravia e eles se prostituem, afastando-se do seu Deus” (Os 4,11-12). “O pedaço de madeira” se tornou uma imagem da idolatria do Estado!

No tempo do exílio, quem acusa e critica as autoridades da Babilônia pelo uso da religião para promover e legitimar o poder e a exploração é o grupo do Segundo Isaías (Is 40-55). A mensagem desse grupo se dirige às pessoas exploradas e enfraquecidas da segunda deportação (587 a.C.): “Ele dá ânimo ao cansado e recupera as forças do enfraquecido” (Is 40,29).

Esses deportados não tiveram a mesma sorte do primeiro grupo exilado na Babilônia, em 597 a.C.: foram tratados como escravos e despojos de guerra. A Babilônia “não teve compaixão para com ele: até sobre os velhos impôs o duro peso” (Is 47,6); “Os pobres e os indigentes buscam água, e nada! Sua língua está seca de sede” (Is 41,17). Os deportados levam uma vida de prisioneiros escravos na terra de Marduc, o deus supremo da Babilônia.

Na Babilônia, a religião é estruturada no panteão, lugar onde Marduc subjuga os deuses de diversas cidades com seus santuários, assim como, no campo político, a capital do reino com seu imperador (filho de Marduc) subjuga e explora os povos das províncias, das cidades e dos campos, entre os quais os deportados provindos dos países conquistados.

 Assim se explica, em parte, por que o Segundo Isaías critica as estátuas e imagens de Marduc e as de outras divindades, fabricadas pelos “homens”:

Os fabricantes de estátuas são todos um nada e suas coisas preferidas não têm valor. Seus devotos nada veem nem conhecem e por isso acabam sendo enganados. Quem formaria um deus ou fundiria uma imagem, senão para conseguir alguma vantagem? Vejam: seus devotos todos são enganados, porque os escultores não são mais que homens. Que eles todos se reúnam para comparecer: ficarão apavorados e envergonhados (Is 44,9-11).

A profecia do Segundo Isaías situa-se nos últimos anos do exílio da Babilônia, por volta de 540 a.C. Já se passaram mais de quatro décadas de exílio. Sofrimento e cansaço! Na medida em que perdura o exílio, cresce o número dos deportados que abandonam a religião de origem e assumem os costumes e a religião da Babilônia: Marduc, o panteão babilônico, seus cultos e suas imagens. É a “idolatria” que seduz, aliena e explora o povo. Essa deve ter sido a principal preocupação e crítica do Segundo Isaías: “Eles não sabem e não entendem, porque seus olhos estão grudados para não ver, e sua inteligência não pode mais compreender” (Is 44,18).

O livro de Daniel, escrito no século II a.C., também descreve e discute os ídolos e estátuas de deuses:

O rei Nabucodonosor mandou fazer uma estátua de ouro com trinta metros de altura por três metros de diâmetro. E a colocou na planície de Dura, província da Babilônia. Quando ouvirem o som da trombeta, […] todos devem cair de joelhos para adorar a estátua de ouro erguida pelo rei Nabucodonosor. Quem não o fizer, será jogado na mesma hora dentro da fornalha ardente (Dn 3,1.5-6).

Historicamente, o texto se refere às imagens, estátuas e, sobretudo, ao altar de Zeus (Júpiter) Olimpo, chamado pelos judeus piedosos de “abominação da desolação” (1Mc 1,54) e colocado no templo de Jerusalém em consequência da política de helenização de Antíoco IV, imperador dos Selêucidas. Este invadiu, saqueou e conquistou Jerusalém, tentando transformar a cidade em pólis grega (cidadela) por volta de 170 a.C. A implantação da sua cultura e da sua religião com seus ídolos foi um meio para legitimar e fortalecer o domínio dos gregos (cf. 1Mc 1-2).

Com visões, sonhos e contos populares, o livro de Daniel descreve a resistência e a esperança do povo judeu, oprimido e perseguido pelo imperador Antíoco IV e seus generais selêucidas. A primeira parte do livro (Dn 1-6) contém uma crítica irônica contra a idolatria e mostra a resistência e a fidelidade dos justos (Daniel e seus companheiros). A segunda parte (Dn 7-12) narra quatro visões apocalípticas, que mostram a vitória final de Deus sobre os perseguidores gregos, dando ânimo e coragem ao povo judeu fiel à Lei e à religião dos pais.

A resistência do povo judeu à insensatez dos ídolos utilizados pelos governantes perseguidores também acontece na cidade de Alexandria, no Egito. No livro da Sabedoria, o autor, piedoso e fiel à educação religiosa recebida dos pais (cf. Sb 2,12), critica a idolatria e a imoralidade dos ímpios, “gentios”, que oprimem e perseguem os judeus justos. Sb 15,7-19, por exemplo, descreve a idolatria utilizada para fins lucrativos e políticos dos opressores.

  1. “Nenhum ser humano pode modelar um deus que lhe seja semelhante”

O autor do livro da Sabedoria apresenta longo tratado contra a idolatria, o texto bíblico mais extenso: Sb 13-15. Nele, o autor evidencia o objetivo da “invenção” dos ídolos: “O princípio da prostituição está na invenção de ídolos; a descoberta deles trouxe a corrupção da vida. De fato, eles não existiam desde o início nem existirão para sempre. Entraram no mundo pela vaidade dos seres humanos, e por isso está decretado o rápido fim deles” (Sb 14,12-14).

Para o autor, judeu alexandrino e fiel ao Deus único Javé, o ídolo, “imagem” em grego, é a reprodução de alguma coisa ou pessoa como fruto da “vaidade” dos seres humanos, movidos pelo helenismo: a busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra. É o “princípio da prostituição”, ou seja, da infidelidade a Javé, produzindo a “corrupção da vida”: a injustiça, a exploração e a opressão do povo.

No Egito, especialmente em Alexandria, os cultos idolátricos estavam em toda parte, incluindo a adoração dos próprios animais vivos. Os animais no Egito antigo eram considerados a encarnação de deuses. Alguns deuses e deusas foram identificados com animais específicos. Por exemplo, o deus dos céus, Hórus, foi mostrado com a cabeça de falcão e a deusa Sekmet, com a cabeça de uma leoa feroz, por ser a deusa da guerra.

Já a deusa Ísis, uma das principais divindades da mitologia egípcia, podia se transformar num falcão com asas que tinha o poder de ressuscitar mortos. Seu culto transcendeu as fronteiras do Egito e se estendeu por todo o universo greco-romano. Hoje a arqueologia comprova vestígios do culto a Ísis em templos e monumentos piramidais em todas as partes de Roma.

Em Alexandria, não só o culto ao imperador (cf. Sb 14,15-31), mas também os cultos aos deuses e às deusas, representados por animais, alienavam e corrompiam as pessoas para fins lucrativos e políticos dos imperadores gregos e romanos. Vivendo em meio aos egípcios de Alexandria, o autor conhecia bem a insensatez dos ídolos e o uso deles para praticar todo tipo de injustiça e perversidade. Em Sb 15,7-19, ele observa e analisa esse fenômeno social e religioso e reitera suas críticas aos fabricantes dos ídolos em paralelo à fabricação das imagens em madeira (cf. Sb 13,10-19).

Antes de tudo, o autor observa que o fabricante dos ídolos, chamado “oleiro”, amassa a argila e fabrica vasos úteis para vários fins e também uma “divindade falsa”. Modelado por Deus criador, agora modela divindades: “ele que há pouco tinha nascido da terra e em breve para ela há de voltar quando lhe for tirada a vida que recebeu por empréstimo” (Sb 15,8). A vida é criada pela gratuidade de Deus para o bem comum de todos. Mas o fabricante dos ídolos não reconhece seu criador: “porque não reconhece Aquele que o modelou, que lhe infundiu uma alma ativa e lhe inspirou um sopro vital” (Sb 15,11: cf. Gn 2,7).

Qual é a razão de não reconhecer o Deus criador? A finalidade da fabricação dos ídolos não é guiada pelo sopro da gratuidade, mas sim pela ganância do lucro: “Ele considera que nossa existência é um jogo, e a vida seria algo lucrativo. Ele diz: ‘É preciso aproveitar-se de tudo, até o mal’. Realmente, mais do que todos os outros, ele sabe que está pecando, fabricando, de matéria terrena, tanto vasos frágeis como estátuas de ídolos” (Sb 15,12-13; cf. 14,2).

 Novamente, o autor retoma o pensamento do ímpio em Sb 2: “Nossa vida é breve”; “Porque nascemos do acaso e depois seremos como se não tivéssemos existido”; “Nosso tempo é a passagem de uma sombra e não há retorno após nossa morte”; “Vamos então desfrutar dos bens existentes e usar das criaturas com ardor juvenil” (Sb 2,1.2.6). Para o ímpio, que não reconhece o Deus criador nem tem a esperança numa vida futura, o único sentido da existência consiste em aproveitá-la ao máximo, até mesmo com extravagância, buscando unicamente o “lucro” econômico, social e político.

No afã de satisfazer seus interesses, o ímpio pratica injustiças. É o mesmo que dizer que se deve aproveitar o máximo possível, até mesmo explorando e oprimindo o pobre e a viúva (cf. Sb 2,7-11). Na visão do autor, o ímpio é consciente de suas ações: “Realmente, mais do que todos os outros, ele sabe que está pecando, fabricando, de matéria terrena, tanto vasos frágeis como estátuas de ídolos” (Sb 15,13). Para fins lucrativos, o fabricante de ídolos não hesita em “pecar”, ou seja, em praticar a manipulação, a opressão e a injustiça contra o povo: “Os inimigos, porém, que oprimiram teu povo, são todos insensatos e mais infelizes que a alma de uma criança” (Sb 15,14). Como crianças sem juízo (cf. Sb 12,24-25), exploram a ingenuidade do povo. Manipulam a sua religiosidade. Oprimem os opositores em nome de deuses. Coisas de ontem e de hoje.

A manipulação dos inimigos chega ao ponto extremo: “eles consideram deuses todos os ídolos das nações” (Sb 15,15), incluindo o culto aos mais odiosos animais: “prestam culto até aos mais repugnantes animais, aos que são mais brutos quando comparados a outros. Todos esses nada têm de beleza que os torne atraentes, se comparados com os outros animais, e ficaram sem a aprovação e bênção de Deus” (Sb 15,18-19).

Repugnantes animais: o culto a serpentes ou dragões era prática bem conhecida no Egito (cf. Sb 11,15; 12,24) e bem presente nos cultos do mundo greco-romano (cf. Rm 1,23). Na história de Bel e o dragão, no livro de Daniel, o dragão é ridicularizado por ser o objeto do culto dos governos gregos. No livro do Apocalipse, o dragão é adorado por ter dado autoridade à Besta, imperador romano (Ap 13). Segundo Gn 1-2, os animais recebem a “aprovação e bênção” de Deus. A serpente, ao contrário, recebe a maldição, por ter manipulado e enganado o ser humano (cf. Gn 3,14; cf. Is 65,25). Em Alexandria, os governantes utilizam o culto a esses mais repugnantes e amaldiçoados animais para produzir a manipulação e opressão.

A crítica do autor aos ídolos chega então ao ponto mais alto: “os olhos desses ídolos não conseguem ver, o nariz deles não respira, os dedos de tais mãos não apalpam e os pés deles não são capazes de andar. Foi um ser humano que os fez” (Sb 15,15-16a). Os ídolos não passam de imagens que, na verdade, não têm olhos, ouvidos, boca, mãos dedos e pés. Nem são capazes de escutar e atender as orações dos fiéis no culto.

Crítica semelhante, centrada numa realidade contrária à experiência do Deus do Êxodo (Ex 3,7), está bem presente em outros textos do Antigo Testamento:

O nosso Deus está nos céus, e ele fez tudo o que desejou. São de prata e ouro os ídolos deles, e foram feitos por mãos humanas: esses têm boca e não falam, têm olhos e não veem; têm ouvidos e não escutam, têm nariz e não cheiram; têm mãos e não apalpam, têm pés e não andam, nem sua garganta produz sussurro algum. Iguais a eles são aqueles que os fabricam, todos aqueles que neles confiam (Sl 115,3-8; cf. Sl 135,16-17).

Lemos na história de Bel e o dragão, em Daniel:

Um dia o rei lhe perguntou: “Por que você não presta culto a Bel?” Daniel respondeu: “Porque eu não adoro imagens fabricadas pelo homem, mas só ao Deus vivo que criou o céu e a terra e é Senhor de todo ser vivo”. O rei disse: “E você acha que Bel não é um deus vivo? Não vê quanta coisa ele come e bebe todos os dias?” Daniel sorriu e disse: “Não se deixe enganar, ó rei! Por dentro Bel é de barro e por fora é de bronze; ele jamais comeu e bebeu coisa alguma” (Dn 14,5-7).

Subjaz a esses textos o pensamento do autor: Deus Javé é o único Deus criador e salvador. Ele é a fonte da vida. Criou o próprio ser humano, que é mortal e não pode criar um deus: “Nenhum ser humano pode modelar um deus que lhe seja semelhante. Pois, sendo mortal, só é capaz de produzir, com as próprias mãos, um cadáver. De fato, ele é superior aos objetos que adora: pelo menos ele tem vida, os ídolos nunca a terão” (Sb 15,16-17).

Fortíssima condenação aos ídolos: “cadáver” (Sb 13,10.18; 14,15; 15,5). O mesmo termo “cadáver”, nekrós em grego, é aplicado ao ímpio (cf. Sb 4,19) e aos egípcios (cf. Sb 18,12.23; 19,3). O faraó, os egípcios e seus ídolos são, para o autor, “ímpios” e “cadáveres”, enquanto Javé é o “Deus vivo” e o libertador dos oprimidos. Ele castiga os ídolos com seus autores, ímpios: “O ídolo feito por mãos humanas é amaldiçoado, e também aquele que o fez: este, porque o preparou; e a coisa corruptível, porque lhe deram o nome de deus. Tanto o ímpio quanto a impiedade são da mesma forma desagradáveis a Deus. De fato, a obra será punida juntamente com seu autor” (Sb 14,8-10). É uma condenação à exploração e violência política e religiosa dos governantes greco-romanos e seus seguidores.

Por volta de 30 d.C., Jesus de Nazaré viveu na Palestina, onde os romanos iam impondo seu domínio: a exploração, a violência e a submissão a qualquer custo. Multidões de empobrecidos, escravizados e assassinados resultavam da violência política e religiosa dos romanos e seus aliados. Nessa realidade, Jesus propôs a resistência, esperança e alternativa de vida libertada, criticando a idolatria do seu tempo.

  1. “Devolvam a César o que é de César”

O imperador Cláudio escreveu uma carta aos alexandrinos, em 41 d.C., na qual afirma: “Em primeiro lugar, permito-te manter meu aniversário como dia sagrado, como o pediste, e permito-te erigir […] uma estátua representando a mim e à minha família” (HORSLEY, 2004, p. 31).

O culto ao imperador se espalhou na Grécia, na Ásia Menor e em outras partes do império romano. Sacrifícios, rituais, jogos públicos e festas eram celebrados para “a supremacia do imperador e os benefícios da ordem imperial”. O imperador era honrado e adorado entre os grandes deuses, para efetuar o poder e a dominação em forma religiosa.

Em todo o império, por exemplo, as moedas, com imagens divinas de Augusto, Tibério, Calígula e Cláudio, eram cunhadas e utilizadas para favorecer e garantir o comércio, o lucro e amplo aparato administrativo imperial. Em uma moeda descoberta na cidade de Salônica (nome atual de Tessalônica), Calígula aparece, com véu de sacerdote, sacrificando um touro no templo do Divino Augusto, considerado a divindade da dinastia dos imperadores! É a sacralização da imagem do imperador César para dominação e fins lucrativos.

Na Palestina do tempo de Jesus, o império romano com os reis herodianos promoveram a helenização, concretizada na construção da Decápolis (dez cidades), com boa infraestrutura, para favorecer a administração, o comércio e a segurança. Na helenização, não faltaram a fabricação e o uso da moeda com a imagem e a inscrição do nome do imperador. O denário, denarius em latim, moeda romana, era utilizado nas transações comerciais na época de Jesus e era a única válida para o pagamento de impostos.

 Uma das maiores causas do empobrecimento dos camponeses, que constituíam 90% ou mais da população da Palestina, era a exigência de pagamento de impostos. Os judeus eram obrigados a pagar aos romanos o imposto sobre 25% a 30% das colheitas, além do pedágio para a circulação de pessoas e mercadorias, e a dedicar um tempo de trabalhos forçados às tropas e às obras públicas. Existiam também os impostos do Templo: vários dízimos, ofertas de sacrifício, imposto pessoal, estipulado em um denário etc. Era comum presenciar famílias inteiras sendo vendidas como escravos por causa de dívidas.

Nessa situação de exploração que oprime a vida e desfigura a pessoa humana, Jesus denuncia a imagem do imperador como idolatria, no episódio do pagamento do imposto a César:

Jesus, porém, conhecendo a hipocrisia deles, disse-lhes: “Por que vocês me põem à prova? Tragam-me uma moeda, para que eu a veja”. Eles a levaram, e Jesus perguntou: “De quem é esta imagem e inscrição?” Responderam-lhe: “De César”. Então Jesus lhes disse: “Deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,15-17).

Jesus entra em controvérsia com os fariseus e herodianos. Estes eram responsáveis pela cobrança do imposto civil e aqueles, pelo imposto religioso. Eles perguntam se era necessário pagar impostos (denários) a César. No tempo de Jesus, o denário trazia a imagem do imperador Tibério (14-37 d.C.) e a inscrição “César Augusto Tibério, filho do Divino Augusto”. César era adorado como deus. Pagar o imposto seria reconhecer a divindade do imperador e a soberania romana sobre a terra.

Diante da armadilha, Jesus parte para a ofensiva contra aqueles que se beneficiam do império romano e sua idolatria. Primeiro, a pergunta: “De quem é esta imagem e inscrição?” Trata-se de desconhecimento? Ou de uma desautorização contra o poder de César? Sem dúvida, Jesus conhecia o denário, pequena moeda de prata bem utilizada no seu tempo. Por que então faz questão de perguntar? Porque rejeita publicamente reconhecer a imagem e a inscrição do imperador como deus.

Em seguida, Jesus responde: “Dai a César o que é de César”. Se o imperador Tibério manda cunhar o denário com a sua imagem, devolvam-lhe o que lhe pertence. Mas proclama: “a Deus o que é de Deus”, dizendo que se devolva a Deus o que lhe foi tirado: a vida do povo. Em meio à realidade da vida massacrada e machucada do povo da Galileia, Jesus denuncia a idolatria – isto é, o uso do nome de Deus para poder e fins lucrativos do império – em situações que exploram e oprimem o povo vocacionado a ser imagem e semelhança do Deus da vida.

O tema da crítica à idolatria e aos ídolos continua presente nos escritos dos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré:

  • Paulo: “Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus nem lhe agradeceram. Ao invés disso, tornaram-se vazios em seus pensamentos, e seu coração insensato ficou na escuridão. Vangloriando-se de ser sábios, tornaram-se tolos e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens de seres humanos corruptíveis, de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1,21-23). Paulo analisa e critica a vida dos gentios de Roma, capital do império: “Realmente, do alto do céu se manifesta a ira de Deus contra toda impiedade e injustiça daqueles que com a injustiça sufocam a verdade” (Rm 1,18). Este é o problema maior da idolatria: a injustiça e a sacralização de objetos, animais, pessoas, colocando-os no lugar do Deus da vida, na busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra (cf. Rm 1,24-27). A imagem do imperador Nero como o filho de Deus, por exemplo, justifica e sustenta a perversidade da sociedade escravagista: a submissão e a desumanização dos escravos, que correspondem a quase 70% do 1 milhão de habitantes de Roma.
  • A comunidade joanina: “Nós sabemos que somos de Deus, mas o mundo inteiro está sob o poder do Maligno. Sabemos que o Filho de Deus veio e nos tem dado entendimento para conhecermos o Deus verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, no Filho dele, Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna. Filhinhos, fiquem longe dos ídolos” (1Jo 5,19-21). O autor da primeira carta denuncia o poder do Maligno (mal, diabo, Anticristo, mundo), que se apresenta como deus e controla o mundo inteiro pelo desejo desenfreado de possuir o poder e a riqueza. O falso deus se personifica nos ídolos, que produzem escravidão e morte no lugar da liberdade e da vida que o Deus verdadeiro realiza em seu Filho, Jesus Cristo. Para a comunidade joanina, o principal maligno seria o império romano com seus ídolos, o qual aliena e explora o povo e persegue seus opositores, como os cristãos (cf. 1Jo 2,12-17; Jo 15,18-21).
  • Apocalipse: “Ela (Bestinha) recebeu a permissão de infundir espírito na imagem da primeira Besta, para que esta imagem pudesse falar. E ainda: podia fazer com que todos os que não adorassem a imagem da primeira Besta fossem mortos” (Ap 13,15). A Besta, a encarnação do mal (Dragão), é a imagem do poder tirano do império romano. As bestinhas – os governadores, profetas e sacerdotes do império – estão encarregadas de “infundir”, propagar e alienar todos os habitantes da terra, para adorarem a Besta e aceitarem seu governo, como se este viesse de Deus. Quem não aceita a idolatria da Besta não tem participação plena na sociedade nem pode vender nem comprar: “Assim, ninguém pode comprar nem vender, a não ser que tenha a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome (666)” (Ap 13,17). A idolatria é tão forte e absoluta, que as pessoas, como os cristãos, são perseguidas e mortas por não aceitarem a Besta (cf. Ap 13,9-10).

O movimento cristão combateu a idolatria do império romano como deuses falsos de exploração e opressão. Desmascarou e denunciou os poderes que se absolutizaram, tomando o lugar do Deus da vida e escravizando as pessoas. Na luta contra a idolatria, muitas vidas foram ceifadas, como aconteceu com os justos do Antigo Testamento: “O justo perece e ninguém se incomoda, os homens piedosos são ceifados sem que ninguém tome conhecimento. Sim, o justo foi ceifado, vítima da maldade” (Is 57,1: cf. Ap 11,1-13).

Uma palavra final

As críticas persistentes dos autores da Bíblia contra a idolatria do seu tempo devem nos levar a desmascarar e denunciar a idolatria atual. No dia 11 de janeiro de 2017, no Vaticano, o papa Francisco falou sobre os ídolos que as pessoas costumam fabricar na crença – infrutífera – de que lhe darão a felicidade:

O homem, imagem de Deus, fabrica um deus à sua própria imagem, e é também uma imagem mal alcançada: não sente, não age e, sobretudo, não pode falar. Mas nós ficamos mais felizes de ir aos ídolos do que ao Senhor. Ficamos tantas vezes mais contentes com a esperança efêmera que dá este falso ídolo, que com a grande esperança segura que nos dá o Senhor.

O Deus da vida jamais justifica a opressão e a exploração de ninguém. Como se pode dizer que é cristã uma sociedade na qual os detentores ambiciosos da economia, da política e da religião fabricam ídolos que devoram o povo? Em que sentido é cristã uma ação evangelizadora que não denuncia a alienação e a exploração?

Shigeyuki Nakanose

Shigeyuki Nakanose, svd, é religioso verbita. Assessor do Centro Bíblico Verbo, leciona no Itesp (São Paulo). E-mail: shigenakanose@ig.com.br