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Publicado em Janeiro - Fevereiro Ed. 325 - Ano 60

Aspectos metodológicos que brotam da inspiração catecumenal: pistas para a formação de discípulos missionários

Por Ariél Philippi Machado

Introdução

A inspiração catecumenal carrega como característica o valor da espiritualidade primitiva da Igreja: ser a comunidade dos filhos e filhas de Deus. Isso implica perceber as distintas perspectivas de outras metodologias vigentes até o momento, a saber: cristandade e devocionismos, catecismos e doutrinação, pastoral sacramentalista e de preceito. São frutos de uma caminhada histórica da Igreja, não podemos negar. Contudo, “a travessia da doutrinação para a evangelização implica também mudança no modo de ser dos agentes condutores. É esta a questão que permite ver na metodologia um problema de primeira grandeza para a evangelização” (BENINCÁ; BALBINOT, 2012, p. 39).

Nesse sentido, perscrutar os tempos e etapas do catecumenato, enquanto instituição, é uma maneira de descobrir novos métodos e novas atitudes, para uma conversão pastoral madura em prol da evangelização neste tempo de mudanças. Acreditamos que “a inspiração catecumenal liberta-nos da busca do sacramento pelo sacramento e alarga os horizontes da formação da personalidade cristã com uma identidade mais definida em tempos em que o pluralismo questiona a adesão vital à Igreja” (LELO, 2015, p. 71).

Essa conversão pastoral será notada à medida que as práticas e estratégias das comunidades cristãs mudarem o foco, deixando de conduzir apenas para o sacramento e passando a investir em verdadeiros ambientes de anúncio do amor divino e de celebração do mistério de Jesus Cristo. Nas comunidades primitivas, “a iniciação cristã cuidava de instruir os catecúmenos tanto na adesão à pessoa de Jesus Cristo quanto na vida comunitária e no novo jeito de agir na sociedade e na família” (CNBB, 2015, p. 89). Essa é a conversão pastoral. Converter de uma catequese e pregação sacramentalista para uma formação integral da pessoa humana, tendo como modelo Jesus de Nazaré, em vista de um novo jeito de ser e agir nos ambientes da sociedade, seja no trabalho, no lazer, na escola, na família e com os amigos.

Voltada para esse objetivo, a metodologia da inspiração catecumenal tem como cerne o mistério pascal de Jesus Cristo. Esse mistério alcança-nos, envolve-nos e permite-nos desfrutar de seus dons. Cronologicamente, esse desfrute vai sendo alcançado ao longo do ano litúrgico, verdadeiro catequista e modelo de itinerário de educação da fé proposto pela Igreja. No ano litúrgico concentra-se a dinâmica da metodologia catecumenal, sem meses temáticos e devoções maximalistas, mas, essencialmente, com a manifestação do mistério de amor divino, que, pela obra da encarnação, faz festa e morada nas tendas da humanidade.

  1. Aspectos do método querigmático

O imediatismo relativista é uma marca de nossos dias. Em contraponto, a fé é a garantia do que se espera, a prova do que não se vê (cf. Hb 11,1). Diante dessa tensão, as metodologias de outrora (da certeza, da memorização, da tradição e do preceito) precisam dar lugar aos métodos interacionistas, vivenciais e humanizadores.

O método querigmático traz consigo a mensagem para quem já perdeu o sentido da espera. Afinal, “a imediatez dos acontecimentos determina a urgência do momento, e o sentido da vida se concentra no que fazemos agora” (NÚCLEO DE CATEQUESE PAULINAS, 2014, p. 13). Em resposta à liquidez das sensações e experiências, o método querigmático quer: a) interessar-se pelo ser humano, criado por amor pelo Pai, e conhecer seus afazeres, anseios, medos, projetos e necessidades; b) apresentar Jesus Cristo, Filho de Deus e companheiro de caminhada; c) reanimar, por meio do testemunho dos crentes, a chama da fé depositada em cada coração por obra do Espírito Santo.

1.1. Acolhida da pessoa humana

O ponto de partida do método querigmático é o interesse de acolher a pessoa humana. “A pessoa humana é obra-prima de Deus. Ao longo da história da humanidade, o grande desafio foi sempre de resgatar a dignidade da pessoa humana, seu valor e sentido. O homem e a mulher não são simples coisas, mas filhos e filhas de Deus e irmãos uns dos outros” (KESTERING, 2016, p. 21).

Se querigma quer dizer anúncio, a primeira atitude que expressa sem palavras, mas com gestos, o anúncio do amor de Deus é a acolhida da pessoa humana, nas suas diferentes realidades da sociedade hodierna. “O evangelho não mudou, mas mudaram os interlocutores. Mudaram os valores, os modelos, as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje” (CNBB, 2017, p. 34).

O querigma da acolhida significa assumir a cruz de Jesus na pessoa interlocutora e, junto dela, dividir o peso da cruz.

1.2. O anúncio de Jesus Cristo

Uma vez acolhida em sua realidade existencial, a pessoa se torna ouvinte da Boa-Nova e interlocutora da fé.

Aqui, uma característica clássica das metodologias vigentes: enquanto agentes de pastoral, falamos demais. Temos todas as respostas imagináveis. Contudo, não sabemos, afinal, a pergunta que o interlocutor de nossos dias tem para nos fazer. O método do catecismo e da doutrinação é excessivo nas palavras, com pouca escuta.

Para que o anúncio de Jesus Cristo seja possível, é necessário a escuta e a atenção aos desafios das pessoas, os quais são semelhantes aos nossos. Antes do anúncio, porém, vem a escuta.

O querigma significa o primeiro anúncio. E, em primeiro lugar, é urgente anunciar que Jesus Cristo é “uma testemunha que está totalmente tomada por Deus, vive radicalmente para a causa de Deus e demonstra, com as grandes obras, com o ensinamento e com o testemunho de sua vida, que Deus é o centro do ser humano e que na acolhida do seu amor está a fonte da vida eterna” (GEVAERT, 2009, p. 82). Jesus Cristo, Filho de Deus, é testemunha qualificada para expressar a obra de amor que habita em cada ser humano. Ele é a imagem de Deus invisível (cf. Cl 1,15) que apresenta, nos gestos humanos, o valor da vida e encanta com sua ternura, a qual acolhe a pessoa humana, lhe perdoa e a reintegra no contexto social.

1.3. O testemunho de fé

Decorre, da escuta e do anúncio, a prática de vida. A fé no querigma é chancelada no cotidiano da vida, nas opções que as pessoas crentes fazem. Acolher por amor e anunciar que Deus ama implica a vivência concreta da doação, da misericórdia e da alegria do seguimento.

O testemunho da fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, significa assumir novas posturas que apontem os sinais de vida nos contextos de incertezas, desafios e cenários de morte de nossos dias. O papa Bento XVI ensinou que

a renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de fato, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou. […] Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar (BENTO XVI, 2011, p. 8-10).

O modelo querigmático, portanto, inspira novos métodos e novas atitudes para a educação da fé.

  1. Aspectos do método catecumenal

A fé é um dom de Deus e precisa ser despertada, nutrida, educada por meio de sinais, gestos e conteúdos. O querigma é o momento que desperta no interlocutor o desejo de aprofundar os momentos da vida, dos feitos e dos ensinamentos de Jesus Cristo. O grande objetivo de um método catecumenal é a formação do discípulo missionário, a qual marcará a vida toda do cristão. Essa etapa de formação realiza-se após a conversão, isto é, após a aceitação sincera do candidato de seguir um caminho novo, que exige escolhas e renúncias.

Aprender sobre Jesus e decidir segui-lo é a consequência de ter percorrido um itinerário de fé. Nesse itinerário, são contemplados alguns elementos metodológicos por meio dos quais a fé é explicitada, oferecendo ao simpatizante elementos que permitam dar “razões de sua esperança” (1Pd 3,15) em Jesus Cristo.

O catecumenato, modelo de instituição da Igreja nascente, obtinha das Escrituras as instruções da fé e contava com os contemporâneos dos apóstolos para garantir a solidez de sua catequese. Com base nos relatos bíblicos, sabemos que os primeiros seguidores “eram assíduos em escutar o ensinamento dos apóstolos, na solidariedade, na fração do pão e nas orações” (At 2,42).

Após o anúncio da Boa-Nova, que marca o início do processo de formação do discípulo missionário, a catequese passa como que a formalizar os conteúdos da fé, por meio da explicitação da doutrina.

O conteúdo a ser ensinado é o relato bíblico do mistério pascal de Jesus Cristo. Dele, decorrem conteúdos desenvolvidos pela Tradição e pelo Magistério da Igreja. Esses conteúdos estão compilados no Catecismo da Igreja Católica, distribuídos em quatro partes: Credo, Sacramentos, Moral – a vida em Cristo e Oração (MACHADO; BERTOLDI, 2017, p. 8).

Por conseguinte, destacam-se, neste momento de nossa reflexão, elementos como a progressividade gradual do itinerário, a convivência fraterna, a espiritualidade pascal, a dinâmica do seguimento, em lugar da catequese sacramentalista.

2.1. A convivência com a família dos catequizandos

Nosso contexto de catequese é ainda marcado pela presença de crianças e adolescentes em busca dos sacramentos. Não podemos esquecer, porém, que a fé pertence ao contexto de entendimento da vida adulta, porque são os adultos que assumem com responsabilidade as suas escolhas ao longo da vida, incluindo a pertença a uma comunidade de fé. “Nos evangelhos, a presença de Jesus com adultos é significativa: ia ao encontro das pessoas, cuidava dos doentes, era sensível às necessidades, dava esperança aos aflitos, apontava horizontes de libertação” (KESTERING, 2016, p. 15-16).

Por esse motivo, o primeiro elemento catecumenal é a arte de integrar a família, ou pelo menos um adulto responsável, ao longo do itinerário de formação. As crianças, adolescentes e jovens crescem buscando referenciais para sua vida, tanto no contexto civil quanto no contexto religioso. Não é possível caminhar na fé sem o testemunho de algum adulto, confirmando que a fé é um dom e sustento nos momentos de incertezas.

O papa recorda que é “de grande ajuda a catequese familiar, enquanto método eficaz para formar os pais e os jovens e torná-los conscientes de sua missão como evangelizadores da sua própria família” (FRANCISCO, 2016, p. 75). O importante é não permitir que o catequizando se sinta órfão na fé durante sua caminhada de educação da fé.

2.2. Itinerário de fé, processo de educação constante

O Documento de Aparecida chama a atenção para os itinerários de formação, sugerindo que não sejam constituídos apenas de técnicas, dinâmicas e conteúdos, mas favoreçam, per se, um encontro pessoal com Jesus Cristo. Diz o documento:

o caminho de formação do seguidor de Jesus lança suas raízes na natureza dinâmica da pessoa e no convite pessoal de Jesus Cristo, que chama os seus pelo nome e estes o seguem porque lhe conhecem a voz. O Senhor despertava as aspirações profundas de seus discípulos e os atraía a si, maravilhados. O seguimento é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena (DAp 277).

Um itinerário, portanto, é composto de elementos básicos seguros e orientações que conduzem do início ao fim do processo. No contexto da fé, o início do itinerário se dá nos pequenos contatos cotidianos com expressões e gestos religiosos no ambiente familiar ou mesmo na comunidade estendida, entre amigos e vizinhos. Para a fé, no entanto, o itinerário não tem final. O itinerário de seguimento de Jesus Cristo tem, sim, seu ponto de partida: aquele momento único e pessoal de encanto e encontro com a pessoa de Jesus Cristo, momento que se prolonga por toda a vida.

Diante disso, destaca-se o valor da formação permanente dos agentes de pastoral. E, em consequência, da catequese constante que precisa ter lugar na vida do cristão, para que a recepção dos sacramentos não seja um ponto final ou a marca do ponto de chegada da fé.

2.3. A centralidade da palavra de Deus

A Bíblia é o livro por excelência da catequese. A inspiração catecumenal recupera, com toda a força, a função pedagógica das Sagradas Escrituras como fonte da educação da fé. A catequese que tem como pano de fundo os textos bíblicos e a leitura orante como método de acesso torna sempre presente o mistério de Deus, que zela por seu povo eleito e o defende.

A catequese bíblica supera os modelos de doutrinação e memorização.

Este é o sentido da Bíblia: a ação de Deus vem continuamente manifesta num crescendo maravilhoso até a perfeição absoluta e total da obra no término glorioso da História da Salvação. […] É uma história de amor, onde Deus trabalha pedagógica e ordenadamente. […] O ponto central de coesão e movimentação de toda a História da Salvação é o Cristo-Evento. É ele o maior acontecimento de toda a história. Por isso, qualquer página da Bíblia ou qualquer fato devem ser atingidos pelo clarão dessa “luz verdadeira, que, vinda ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1,9) (FRAINER, 1977, p. 19).

Como mencionado, tendo por base o livro da Bíblia para o ato catequético, pede-se sempre mais a intimidade com a palavra de Deus, por meio do exercício da leitura orante. Ela é um método eficaz para alimentar a espiritualidade bíblica, capacitando o catequista para a função narrativa da história da salvação. Folheando os textos, entramos em diversos modelos de catequese narrativa, um elemento rico de significado para a transmissão da fé, a ser redescoberto em nossas estratégias de catequese.

2.4. O domingo, Páscoa semanal

O domingo é o dia da comunidade. Ou seja, é dia preparado pelo Senhor (Sl 118) para que, ao redor da Palavra e do altar, os filhos e as filhas elevem suas preces de louvor e gratidão pelo dom da vida. A metodologia catecumenal não pode abrir mão dessa interação entre fé e vida. Pela via da oração comunitária, os gestos, símbolos e ritos unem, numa só voz, o mesmo canto de ação de graças ao Deus da vida.

O domingo nos faz reviver, toda semana, a mesma experiência dos primeiros discípulos e discípulas: o Senhor está vivo nas nossas lutas e vitórias. Por esse motivo, os eventos da vida de Jesus Cristo se tornam realidade na nossa vida, na medida em que nos pomos a caminho e participamos das celebrações em comunidade. Assim, o dia do Senhor (domingo) se tornou o dia mais importante da semana, memorável e inesquecível, porque guarda o mistério da ressurreição do Senhor.

É urgente retomar a função catequética que o domingo possui. Ele é que congrega os batizados para a oração comum, como ensina a passagem dos Atos dos Apóstolos. É o domingo que dá o impulso para a nova semana, para a nova vida, para a nova criação. Por isso, as missas de devoções, as novenas e outras agendas da semana não podem ser tratadas como mais importantes que o domingo nem substituí-lo.

Pedagogicamente, ao longo dos Anos A, B e C, o ano litúrgico se estabelece como verdadeiro itinerário de fé para a comunidade, e o domingo reúne e alimenta a fé dos cristãos sempre de modo novo. Nesse dia, estão unidas catequese e liturgia, numa íntima relação de educação e celebração da fé. Viver o domingo em comunidade é deixar o Ressuscitado entrar em nós para vencermos a fé intimista, o individualismo imediatista e o egoísmo.

2.5. A comunidade do discipulado missionário

O método catecumenal tem por foco a formação da personalidade da pessoa de fé, o discípulo missionário. Tal formação se dá no seio de uma comunidade de referência. Assim, a comunidade precisa recuperar seu protagonismo de catequista por excelência. “É na comunidade que o cristão experimenta a vida da Igreja e descobre a sua missão como cristão no mundo” (KESTERING, 2016, p. 53). Para isso acontecer, é preciso promover a formação continuada dos agentes da ação evangelizadora e investir na compreensão de que a catequese é uma dimensão de todas as pastorais, movimentos e serviços eclesiais.

Novas metodologias exigem novas posturas. A conversão pastoral e, também, metodológica terá início na composição dos conselhos e instâncias de organização das pequenas comunidades. A inspiração catecumenal será verdadeiramente compreendida quando as burocracias, o poder de comandar um grupo, a posse das chaves e a competição de construções civis cederem lugar à acolhida, à visita às periferias existenciais, à pastoral em saída, ao cuidado com os pobres, ao compromisso com o evangelho e com a defesa da vida, à comunhão dos serviços e ministérios.

A compreensão do valor da comunidade e do lugar prioritário que ela possui no itinerário de formação estará refletida no comprometimento dos agentes da ação evangelizadora entre si e com a proposta do evangelho.

  1. Aspectos do método celebrativo-vivencial

O centro da fé cristã é o mistério pascal de Jesus Cristo, vale dizer, sua vida, paixão, morte e ressurreição. Tal mistério é celebrado anualmente na comunidade por ocasião da Páscoa. Diante da comunidade reunida, Deus manifesta, de maneira sempre nova, o dom da vida, gerando novos filhos e filhas por meio do batismo, confirmando-os diante da comunidade reunida e alimentando a todos com o Corpo e Sangue de seu Filho, Jesus. Esse é o caráter unitivo dos sacramentos da iniciação cristã.

Em vista disso, se a Páscoa é a festa mais importante da nossa fé, ela merece um tempo de preparação à altura. Esse tempo é conhecido como Quaresma. Pede a Igreja que tal tempo seja vivido de modo a intensificar a vida de oração, aprender sempre mais a importância do jejum, libertar-se daquilo que é excessivo e partilhar com os necessitados os bens que temos. Essas três atitudes de conversão simbolizam nossa participação no mistério de Cristo, morto e ressuscitado.

3.1. A riqueza da espiritualidade quaresmal

A inspiração catecumenal oferece à Igreja, no Terceiro Tempo do catecumenato, o momento de recolhimento necessário à vida humana. Conduzida com sobriedade pela liturgia, a Quaresma concentra o menor tempo da inspiração catecumenal, o qual, porém, é o mais intenso dessa metodologia iniciática.

O Terceiro Tempo, que coincide com a Quaresma, “é um tempo em que se realça mais o cultivo da vida interior. Procura-se purificar os corações e aprofundar a conversão pelo exame de consciência e pela penitência” (CNBB, 2009, p. 44).

Daí decorre que, ao longo da Quaresma, se configura o método celebrativo-vivencial por meio dos ritos específicos desse tempo: escrutínios e entregas. São ritos que marcam a maturidade de quem se pôs no caminho do discipulado, confirmando seus sinais de adesão a Jesus, fortalecendo os vínculos com a comunidade e purificando e aperfeiçoando os sentimentos (RICA, 2001, p. 23-24).

3.2. Vida de oração

A marca do Terceiro Tempo e de seu método celebrativo-vivencial é a vida de oração, que tende a intensificar-se ao longo da Quaresma. Ademais, o itinerário de formação de discípulos missionários depende qualitativamente da oração da comunidade em prol daqueles que desejam receber os sacramentos na Vigília Pascal.

Por isso, enquanto os candidatos percorrem o tempo específico de preparação para a recepção dos sacramentos, a comunidade cristã concorre com suas bênçãos e orações. Não é um desejo isolado de receber o sacramento ao fim de uma peregrinação conteudista. A inspiração catecumenal exige a presença e o protagonismo da comunidade cristã, seu testemunho e vigilância, enquanto são realizados os preparativos para a Páscoa e, nela, a iniciação sacramental dos novos membros da família de fé.

  1. Aspectos do método mistagógico

Antes, um dado: querigma e mistagogia são dimensões de um itinerário de inspiração catecumenal e paralelamente configuram, cada um deles, um tempo específico do mesmo itinerário.

Isso implica “compreender que também os tempos anteriores fazem mistagogia, ou seja, introduzem no mistério de Cristo e da Igreja, através dos ritos ao longo do ano litúrgico e de todo o percurso catecumenal” (QUEZINI, 2013, p. 61). De igual modo, o querigma é presença nos tempos subsequentes, porque a todo momento é preciso voltar a ele como razão e sentido do itinerário de fé.

Chamamos de método mistagógico o meio pelo qual os iniciados assumem automaticamente o papel de catequistas, enquanto a comunidade toda é, por um instante, catequizanda. Isto é, a mistagogia é o tempo e a atitude de, após experimentar na vida os efeitos do sacramento, poder partilhar tal experiência, contando-a aos membros da comunidade.

Enquanto, nos tempos anteriores, havia uma postura de preparação, agora, por força e realização do sacramento recebido, os iniciados estão em condições de assumir seu discipulado missionário, conduzindo novos interlocutores ao mistério de Cristo. E os primeiros interlocutores serão seus catequistas e familiares, para que ouçam os testemunhos de seu zelo e trabalho apostólico de educar na fé os recém-iniciados.

A mistagogia significa a ação de guiar, conduzir para dentro do mistério celebrado no sacramento. Contudo, seremos capazes de mergulhar no mistério de Deus se deixarmos que ele mesmo nos conduza. O mistério de Deus não se explica com palavras, mas é vivência concreta, na experiência de fé que temos no dia a dia.

Em vista disso, a inspiração catecumenal sugere, para o tempo da mistagogia, a recuperação da unidade entre liturgia, catequese e caridade. Bonitos passos foram dados ao estreitar os laços de liturgia e catequese. Enquanto, porém, faltar a caridade, soaremos como um metal estridente e um címbalo que tine (cf. 1Cor 13,1).

Para (não) concluir

Para recuperar o modelo e jeito de ser da Igreja nascente, é preciso empreender um processo pessoal e comunitário de revisão e conversão de atitudes e metodologias. “Partindo de Jerusalém, os apóstolos criaram comunidades nas quais a essência de cada cristão se define como filiação divina” (CNBB, 2015, p. 43). A mesma essência das primeiras comunidades precisa penetrar nas estruturas das comunidades atuais e inspirar aquela mesma eclesiologia à ação evangelizadora atual.

Referências bibliográficas

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FRAINER, Clóvis. A história de Deus em nossa história. Porto Alegre: Grafosul, 1977.

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GEVAERT, Joseph. O primeiro anúncio: finalidade, destinatários, conteúdos, modalidade de presença. São Paulo: Paulinas, 2009.

KESTERING, Juventino. Catequese de A a Z. Blumenau: Nova Letra, 2016.

LELO, Antonio Francisco. Paróquia: casa da iniciação à vida cristã. Revista de Catequese, São Paulo, n. 145, p. 60-71, jan./jun. 2015.

MACHADO, Ariél P.; Bertoldi, Marlene. A inspiração catecumenal na educação da fé: catequese a serviço da iniciação à vida cristã. Revista de Catequese, São Paulo, ano 40, n. 149, p. 5-15, jan./jun. 2017.

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QUEZINI, Renato. A pedagogia da iniciação cristã. São Paulo: Paulinas, 2013.

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Ariél Philippi Machado

Ariél Philippi Machado é licenciado em Matemática (Unisul), bacharel em Filosofia (FSL) e Teologia (Facasc). Especialista em Catequese – Iniciação à Vida Cristã (Facasc) e catequista na Arquidiocese de Florianópolis. Atua como procurador institucional e coordenador-adjunto do Curso de Pós-Graduação lato sensu em Catequese – Iniciação à Vida Cristã na Faculdade Católica de Santa Catarina (Facasc). E-mail: ariel.philippi@hotmail.com