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Publicado em Julho - Agosto. Ed.322 - Ano 59

O acompanhamento espiritual à luz do encontro de Jesus com a samaritana

Por Márcia Helena Rodrigues Paroli

Introdução

Neste ano em que se refletirá acerca dos jovens, da fé e do discernimento vocacional no Sínodo dos Bispos sobre a juventude e que foi consagrado ao laicato pela Igreja no Brasil, propõe-se aqui uma leitura feita na ótica do acompanhamento espiritual.

Guiando-se pelo texto de Jo 4,1-42, procurar-se-á identificar os passos do acompanhamento espiritual segundo a prática de Jesus, bem como apontá-la como um serviço eclesial válido no acompanhamento e na formação das pessoas que buscam algo mais intenso e profundo para sua vida espiritual. Isso permite a superação de devocionismos e de práticas rituais feitas sem que haja real adesão ao projeto de Deus.

  1. O papel da mulher no tempo de Jesus

Antes de entrar no texto da samaritana, convém fazer breve contextualização da posição da mulher no tempo de Jesus, bem como da relação de Jesus com elas. Infelizmente as fontes existentes acerca dessa relação, em grande parte, são escritas por homens; daí a dificuldade de uma percepção da visão feminina. É, no entanto, possível observar Jesus sempre rodeado de mulheres: admiradoras, seguidoras, mantenedoras, enfermas e discípulas.

A situação da mulher no tempo de Jesus era de exclusão social e, muitas vezes, de indigência. Nesse sentido, a narrativa da criação conhecida pelos judeus já punha a mulher em condição servil e ainda lhe atribuía a culpa de o mal ter entrado no mundo, pois se entendia que, sem a desobediência de Eva, o homem não teria pecado. Consequentemente, na cultura judaica, a mulher era, sim, vista como um perigo. Ela fazia parte das posses de um homem e sua primordial função era procriar – de preferência, filhos homens.

Na esfera religiosa, sua participação era limitada, já que, por menstruar, era considerada impura. Não podia, portanto, entrar no templo nem ser sacerdotisa. Pagola assim sintetiza:

Essa visão negativa da mulher não perdeu força ao longo dos séculos. No tempo de Jesus, pelo que podemos saber, era talvez mais negativa e severa. A mulher não só era considerada fonte de tentação e ocasião de pecado. É, além disso, frívola, sensual, preguiçosa, fofoqueira e desordenada […] (PAGOLA, 2010, p. 257).

Para evitar problemas, era conveniente que as mulheres ficassem em casa, para “não dar o que falar” e, assim, não macular a honra do seu senhor e de sua família.

Em casa, as mulheres se ocupavam dos afazeres domésticos: moer o trigo, costurar, fazer comida, tecer e fiar e servir os seus homens. Há que acrescentar que, publicamente, não deviam nem podiam se pronunciar, e os véus que cobriam seu rosto exprimiam o fechamento imposto à própria expressão feminina. Pode-se imaginar que, entre as mulheres, havia uma esperança de libertação com a vinda do Messias.

No grupo de Jesus havia todo tipo de mulheres e, pela vida itinerante que levavam, provavelmente deram muito que falar. Jesus é indiferente ao código de pureza e de discriminação infligido às mulheres. Pagola fala sobre essa aproximação:

Para as mulheres só podia ser atraente aproximar-se dele, para mais de uma significava libertar-se, ao menos momentaneamente, da vida de marginalização e trabalho que levavam em suas casas. Algumas aventuravam-se inclusive a segui-lo pelo caminho da Galileia […]. Sem dúvida, as mulheres veem em Jesus uma atitude diferente. Nunca ouvem de seus lábios expressões depreciativas tão frequentes mais tarde nos rabinos. Nunca ouvem dele nenhuma exortação a viverem submissas aos seus esposos nem ao sistema patriarcal. Não há em Jesus animosidade nem precaução alguma diante delas. Somente respeito, compaixão e uma simpatia desconhecida (PAGOLA, 2010, p. 262).

Após esse breve situar da condição da mulher no tempo de Jesus, pode-se então adentrar com maior consciência no texto do encontro de Jesus com a samaritana. Para tanto, é válido analisar, também, a relação dos judeus com os samaritanos, visto que, além de sua condição de mulher, a samaritana pertence a um povo também marginalizado e excluído.

  1. A relação dos judeus com os samaritanos

O povo samaritano separou-se da comunidade judaica no século IV a.C., levando consigo, no entanto, o Pentateuco. A população da Samaria era composta de descendentes de israelitas e dos colonos importados pelos assírios. Com essa mescla de nações, podem-se pressupor os diversos cultos existentes na região.

Os samaritanos, tentando aproximar-se dos judeus quando da volta do exílio da Babilônia, sentiram-se rejeitados. Como revanche, tentaram impedir a reconstrução do templo e dos muros de Jerusalém. Além disso, construíram um templo próprio em Garazim, minando, de certa forma, a centralidade do templo de Jerusalém e a exclusividade da cobrança de impostos que ali se realizava.

Essas tensões cresceram com o passar do tempo, tornando os samaritanos numa etnia cada vez mais excluída. Ser chamado de samaritano era uma ofensa. A samaritana não tem nome, pois simboliza todo o seu povo.

Konings (2005, p. 126) afirma que a expressão “era preciso” (Jo 4,4) designa a necessidade do encontro com a samaritana, já que Jesus poderia ter ido por outro caminho, ou seja, não necessariamente deveria passar por ali. Nota-se, portanto, a intencionalidade de Jesus e a vontade do Pai em resgatar aquele povo. Na sequência da perícope, vê-se Jesus afirmando: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34).

À beira daquele poço, Jacó havia encontrado a mulher de sua vida; a samaritana encontra-se com o Senhor, aquele que tem a água viva que jorra para a eternidade. Ela, no entanto, por desconhecer Jesus, não entende o seu ensinamento, pensa que Jesus fala apenas de água que abastece o poço. Daí, quando pede que ele lhe dê dessa água, tem apenas interesse em tornar a vida mais fácil. Como observa Konings (2005, p. 126): “Mas a samaritana ainda não entende. Quer receber a água que Jesus lhe oferece, porém por razão bem materialista, para não precisar mais tirar água do poço”.

Essa é uma espiritualidade que não exige mudança, mas ratifica as escolhas e as opções egoístas e descomprometidas.

A vida, representada pela água, nos é dada pelo encontro com o Senhor […]. A Água viva significa, precisamente, nestes textos, o dom do Espírito Santo, realizado por Jesus. Beber em seu próprio poço constitui uma experiência espiritual, no sentido mais forte da expressão. É viver o tempo do Espírito, em conformidade com ele (GUTIERREZ, 1984, p. 51).

A samaritana é uma pessoa excluída: primeiramente, por viver em uma sociedade onde a mulher não tinha voz nem vez; depois, porque pertence a um povo considerado pelos judeus como heterodoxo.

Num primeiro momento ela contesta, quase debochando: “Como, sendo tu judeu, tu me pedes de beber, a mim que sou samaritana?” (Jo 4,9). Isso seria culturalmente um escândalo, pois o homem não devia falar em público com nenhuma mulher. A samaritana não conhecia Jesus, e a fama dele não tinha chegado àquelas terras. Assim, ela o vê com o preconceito que fora construído historicamente. Sua visão é, portanto, limitada; está sob o véu do “pré-juízo”, que a faz ter uma compreensão distorcida da realidade.

Jesus se apresenta como um presente: “Se conhecesses o dom de Deus e quem te pede de beber…” (Jo 4,10). Os verbos crer, conhecer e amar são como que sinônimos nos escritos de João. Conhecer, na cultura hebraica, não é exercício intelectual, mas aplica-se à relação íntima entre dois seres, de tal modo que o crente pode afirmar que Deus está nele e, reciprocamente, ele está em Deus. Mateos comenta: “Jesus responde de maneira indireta, excitando a curiosidade da mulher. Fala-lhe de dom de Deus, de água viva que ele é capaz de dar. Pedira-lhe um favor, mas está disposto a corresponder com outro maior de sua parte do que o dela” (MATEOS, 1989, p. 211).

A um mero judeu (cf. Jo 4,9) ela chama de Senhor (cf. Jo 4,11). A relação passa para um nível superior: as palavras, a tonalidade de voz, o olhar, a reverência de Jesus fazem que, de desconhecido, passe a ser Senhor. Esse encontro ainda não chegara, contudo, ao seu ápice. Os conceitos antigos e a tradição do seu povo a impediam de avançar.

Jesus responde, falando de uma água superior àquela que ela veio buscar. Alude ao Espírito, fonte permanente de vida e de vida eterna.

“Senhor, dá-me dessa água” (Jo 4,15): os papéis se invertem. Até então, Jesus estava com sede, mas ouvi-lo suscita na samaritana uma sede mais profunda. Afinal, também os samaritanos esperavam um Messias, pois eram conhecedores das promessas dos profetas.

A mulher conhece as tradições, porém não é muito praticante. Passa a lembrar as promessas antigas e põe em dúvida o lugar onde se deve cultuar.

O discurso passa do pedido de um mero saciar-se natural para a sede mais profunda, a sede existencial. Idolatria ou vários amores, o que importa nesse encontro é que Jesus a conhece e sabe da causa de sua sede interior.

Poder-se-ia aqui imaginar as ansiedades, as frustrações, os afetos e os desafetos que a samaritana trazia em seu interior. É tão grande a sede expressa na inquietude dessas palavras, nos olhos, no corpo inteiro, que leva Jesus a se revelar: “Sou eu, que falo contigo” (Jo 4,25). Ousar-se-ia interpretar: “Beba-me”. Jesus faz que ela depare com sua verdadeira sede, sede do Deus verdadeiro.

Então, ela corre a partilhar com todos a sua experiência, esquecendo-se da sua condição de excluída. “‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não seria ele o Cristo?’ Eles saíram da cidade e foram ao seu encontro” (Jo 4,29-30). O anúncio que ela faz não é impositivo; põe a questão para que eles possam fazer o caminho que ela acabara de percorrer.

Nesse momento, há uma interrupção no encontro. Os discípulos chegam e, por não terem ainda escutado a revelação e feito o processo, julgam temerariamente, sem nada entender.

Os samaritanos vieram e creram. Chegaram a dizer que creram não por causa da mulher samaritana. Eles encontraram Jesus, porém a experiência dela foi única e inesquecível, pois, mais que crer, ela se deixou olhar e, no mais profundo desse contato, deixou-se salvar.

  1. Os passos do acompanhamento espiritual na trilha de Jo 4,1-42

Passa-se, agora, a uma leitura atenta do texto da samaritana (Jo 4,3-42), tomando o texto como um modelo de acompanhamento espiritual e salientando, desde já, que nessa leitura não há regras fixas. O que se pode apontar são apenas algumas pistas, pois cada pessoa é um mundo, e o Espírito Santo, que é movimento inovador, suscita caminhos diferentes e pessoais.

“Era preciso passar pela Samaria” (Jo 4,4). O acompanhante espiritual precisa passar pelo território do acompanhado, conhecer a realidade de onde a pessoa provém, quais são as suas crenças, os seus valores, as suas lutas.

Há uma falsa ideia de espiritualidade, e esta gera um estereótipo. Com base nele, passa-se a julgar quem tem ou não espiritualidade. Primeiramente se crê que é preciso um ambiente afastado, solitário, para poder entrar em sintonia com Deus. Depois, julga-se que, para ter uma vida espiritual, é necessário ter uma rotina sem grandes compromissos com o mundo. Poder-se-ia acrescentar a essas qualidades errôneas o perfil da pessoa espiritual: circunspecto, silencioso, pescoço curvado, solitário, sempre equilibrado e paciencioso.

Certamente que o silêncio e o ambiente são de grande auxílio, porém é possível uma espiritualidade urbana, criando a própria gruta em uma fila de banco ou esperando um ônibus. Pensar que se pode cultivar a espiritualidade em condições ideais torna-se grande obstáculo para o cultivo da vida interior. Deve, portanto, cair por terra a imagem do acompanhante fechado, alienado, escondido do mundo.

“Uma cidade da Samaria, chamada Sicar” (Jo 4,5). A realidade é específica e tem um nome. Não basta ao acompanhante espiritual um conhecimento geral sobre a realidade. É preciso conhecer o mundo no qual o acompanhado está imerso e a percepção que ele tem do próprio contexto. Diz Leonardo Boff (1995, p. 65): “Toda experiência religiosa se exprime mediante um código cultural. Ela é parte da cultura, vem influenciada pela cultura ambiente e influencia a cultura”.

O acompanhante, conhecedor do contexto do acompanhado, poderá entender com maior clareza suas afirmações, suas atitudes e as crenças que ele traz.

Jesus é o modelo da espiritualidade que assume toda a humanidade. A sua vida itinerante o põe à mercê de muitos assaltos que poderiam, sem dúvida, tolhê-lo da intimidade com o Pai. No entanto, o seu jeito de ser e de estar com o povo é extensão da relação íntima que tem com o Pai.

“Perto da região que Jacó tinha dado a seu filho José” (Jo 4,5). Há uma tradição, costumes, modos de fazer e de pensar que são provenientes de tudo o que o acompanhado viveu. Até mesmo o seu modo de relacionar-se com Deus foi construído socialmente.

Miranda (2009, p. 239) afirma serem basicamente três os elementos que impossibilitam o acompanhante de alcançar a liberdade interior. São impedimentos de ordem psicológica, ideológica e situacional.

No âmbito psicológico, sabe-se que o primeiro passo do acompanhamento é levar o acompanhado a autoconhecer-se.

Salientam-se aqui as convicções e as crenças pessoais muitas vezes derivadas de condicionamentos, de repetições impensadas que forjaram um jeito de posicionar-se na vida. Mudando o modo de ver e sentir, passa-se ao terceiro impedimento, ou seja, à superação de situações que até então pareciam barreiras intransponíveis. Nesse momento, o acompanhado poderá, enfim, fazer opções novas e, vencendo-se, vencer as barreiras externas.

“Ali se achava a fonte de Jacó” (Jo 4,6). Fonte é um lugar repleto de significados. É onde se encontra a vida, onde se “bebe” a história passada, a herança da bênção dada ao povo. Tal qual a samaritana, que possuía vínculos históricos e marcantes com aquele lugar, o acompanhante necessita conhecer em profundidade as experiências marcantes da vida do acompanhado. São aspectos a serem relevados, são bênçãos e maldições a serem integradas, relidas e curadas pela prática da orientação espiritual.

“Fatigado da caminhada, Jesus sentou-se junto à fonte” (Jo 4,6). O acompanhante necessita desse tempo. Precisa sentar-se, parar para ouvir, estar com toda a atenção no que o acompanhado lhe comunica. Sentar-se ao lado da fonte é atitude de respeito e de reverência pela “água”, a vida do acompanhado que vai sendo partilhada.

O acompanhante espiritual precisa expor a sua necessidade. Deve preparar-se, estar disposto, estar bem de saúde para ouvir melhor. Precisa de tempo para o seu autocultivo: oração, descanso, estudo e lazer.

O colóquio, no acompanhamento espiritual, pode propiciar real encontro do acompanhado com Deus. Isso, no entanto, só ocorrerá se houver reta intenção de abrir-se ao projeto divino. O encontro precisa ser preparado pelas duas partes envolvidas: da parte do acompanhante, com uma vida devota, voltada para Deus, e com o anseio permanente de ser todo de Deus; da parte do acompanhado, o encontro é preparado com a vivência dos propósitos e com seriedade, perseverança e a coragem de buscar.

Na realidade, o acompanhante atento escutará a linguagem oral e também a não verbal e chegará, pelo exercício da observação, a captar os sentimentos do acompanhado.

“Uma mulher da Samaria chegou para tirar água” (Jo 4,7). Jesus, que está sentado ao lado, percebe a presença dessa pessoa. O acompanhante precisa estar atento à linguagem verbal e também à não verbal, pois esta última pode revelar muito mais que as palavras.

O muito cuidar do outro não deve levar ao descuido de si, pois, se isso ocorrer, aos poucos o acompanhante irá se embrutecendo e perdendo o encanto por Deus e pela missão que lhe foi confiada.

“Seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimento” (Jo 4,8). Jesus está sozinho. Pode-se pensar no sigilo da relação entre acompanhante e acompanhado. A pessoa que procura o acompanhamento precisa confiar no acompanhante, saber que os tesouros da intimidade partilhada não serão “vendidos em praça pública”.

“Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4,10). Eis o objetivo do acompanhamento espiritual: conhecer o dom de Deus, seus desígnios, sua vontade, seu projeto de amor para conosco.

Buscar o acompanhamento espiritual é reconhecer em Jesus a fonte de água verdadeira que sacia, que impulsiona para uma vida coerente, justa e transformadora da sociedade.

Ao acompanhante cabe apontar esta fonte de água que jorra para a eternidade, o Filho de Deus encarnado.

Quem começa um caminho de profundidade espiritual logo se apaixona. Começa a experimentar o que os santos já experimentaram. O que era doce se torna amargo e o que era amargo se torna doce.

“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede nem tenha de vir mais aqui para tirá-la!” (Jo 4,15). Quem suscita o interesse pelo crescimento espiritual é o próprio Deus, mas ele nos quis membros de uma comunidade, onde podemos contar com a mediação humana no discernimento dos seus desígnios.

“Jesus disse: ‘Vai, chama teu marido’” (Jo 4,16). Em um primeiro momento, pode-se pensar que Jesus quisesse gerar nela uma espécie de arrependimento acerca de sua conduta moral. A intenção de Jesus é, no entanto, que ela encontre a profundidade na verdade que lhe está sendo revelada.

O acompanhamento espiritual deverá levar o acompanhado a ler com novos olhos seu passado, reconhecendo também os falsos deuses que, ao longo da sua existência, tem cultuado.

“Não tenho marido” (Jo 4,17). A samaritana é sincera. Poderia ter mentido ou ter mudado de assunto. No acompanhamento espiritual, a sinceridade é fundamental. O acompanhante não pode auxiliar se existem máscaras ou mecanismos de defesa. Somente na queda dessas barreiras o acompanhado poderá adorar o verdadeiro Deus, em espírito e verdade.

“Vejo que és um profeta” (Jo 4,19). Na convivência com o acompanhante, o acompanhado perceberá que o Espírito Santo dá àquele dicas certas e se surpreenderá quando perceber que, pela escuta atenta e pela seriedade do serviço prestado, o acompanhante o conhece mais que ele próprio.

“Crê, mulher […]. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos” (Jo 4,21-22). O acompanhante é um mediador que sabe o caminho, que conhece o Senhor e sabe que ele não desampara os que o buscam, por ter sempre encontrado nele auxílio e conforto.

“Mas vem a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois são esses adoradores que o Pai procura” (Jo 4,23). Jesus faz a samaritana dar o salto de qualidade no que tange às próprias crenças. O acompanhado descobrirá que não pode prescindir de Deus, pois este, no seu infinito amor, o envolve, tal como o feto é envolvido no útero materno.

“‘Sei que vem um Messias (que se chama Cristo). Quando ele vier, nos anunciará tudo’. Disse-lhe Jesus: ‘Sou eu, que falo contigo’” (Jo 4,25-26). O acompanhado, ao longo do processo do acompanhamento, precisará encontrar-se com o Cristo, o Messias. O acompanhante propiciará as condições para que esse encontro aconteça. A samaritana havia ouvido falar dele, mas não possuía elementos para reconhecê-lo.

“A mulher então deixou o seu cântaro e correu à cidade, dizendo a todos: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz’. […] Eles saíram da cidade e foram ao seu encontro” (Jo 4,28-30). “Correu”: uma vez que o acompanhado tiver se encontrado com o Cristo, nada mais lhe será impedimento ou bloqueio. Cruzes surgirão, mas o modo de carregá-las será realmente diferente. É a experiência de todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito: o modo novo de ver e de ser torna o peso da vida mais leve. O encontro renova, dá forças, vigor.

 “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 4,34). Os discípulos retornam e, sem ter ainda percorrido o caminho que a samaritana acabara de percorrer, falam da terra, de alimento material. Jesus, ainda “atônito” pela ânsia de Deus daquela mulher, responde a uma pergunta terrena com categorias do céu. O acompanhado aos poucos irá discernindo o que vale realmente a pena e, já num estágio maduro do acompanhamento espiritual, chegará a afirmar que o alimento dele é fazer a vontade do Pai. Tal atitude, como se verá mais adiante, não comporta sair do mundo, mas fazer do mundo um lugar onde Deus possa caminhar com a sua criatura.

“Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo que eu fiz!’ […] Bem mais numerosos foram os que creram por causa da palavra dele e diziam à mulher: ‘Já não é por causa do que tu falaste que cremos. Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo’” (Jo 4,39-42). Depois de crerem no que a samaritana disse, seus coetâneos creram com base na experiência pessoal que fizeram de Cristo. Chegará um momento em que o acompanhado não precisará mais ir até o acompanhante. Este já saberá o caminho e se desligará, sem, no entanto, parar de caminhar.

Considerações finais

Se as pessoas realmente experimentassem a “doçura” do caminho feito com o Senhor, incendiariam-se de amor e transformariam os ambientes em que estão inseridas. E assim manifestariam Cristo aos outros, especialmente pelo testemunho de sua vida resplandecente de fé, esperança e caridade.

Aprender a amar a Deus e a buscar em tudo cumprir a sua vontade é o segredo de uma vida cristã autêntica, atitude que há de ser desenvolvida num bom acompanhamento espiritual, sem, contudo, tornar os acompanhados proprietários do Espírito.

O acompanhamento espiritual realizado nos moldes desse encontro que se acabou de degustar propiciará ao acompanhado a firmeza de testemunhar, tornar-se verdadeiramente um discípulo missionário como a samaritana, que retorna à cidade como uma mulher nova, cuja liberdade a leva a anunciar destemidamente.

 

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Márcia Helena Rodrigues Paroli

Márcia Helena Rodrigues Paroli é mestra em Teologia pela PUC-PR e especialista em Pastoral da Educação e Protagonismo pela PUC-PR, em Formação Humana pelo Instituto de Aconselhamento e Terapia do Sentido do Ser (Iates), em Psicologia e Acompanhamento Espiritual pela Unyleya. Doutoranda do Programa de Ciências da Religião da PUC-Goiás.
E-mail: marciahelena@hotmail.com