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Publicado em Julho - Agosto de 2017

Os grandes temas do pontificado do papa Francisco

Por João Décio Passos

Os grandes temas do pontificado do papa Francisco

As temáticas adotadas como eixos, plataformas e objetivos por Francisco podem ser analisadas por distintos vieses, uma vez que precisam ser fundamentadas naquilo que constitui a Igreja como instituição gerada pela fé cristã ao longo da história e que compõem um conjunto coerente, sem o qual tudo se fragmenta e perde a legitimidade.

Introdução

É  preciso lembrar que alguns fatores dificultam apresentar com a devida precisão os grandes temas do pontificado de Francisco. Primeiro, por se tratar de um pontificado em andamento e, por conseguinte, de um pensamento em curso, o que pode tornar toda categorização um risco. O segundo é o fato de Francisco ser um pastor profundamente sintonizado com as realidades concretas, de forma que seu pensamento pode renovar-se nessa sintonia, na busca de respostas concretas para os problemas. Ele contínua, de fato, surpreendendo-nos com seus posicionamentos a cada dia. O terceiro, de cunho mais teórico, diz respeito à abertura que lhe é característica e que, muitas vezes, o livra de qualquer enquadramento. Francisco transcende categorizações que o localizem mais ad intra ou ad extra na Igreja, que definam seu projeto de reforma como ruptura ou continuidade com a grande tradição, ou, ainda, que o classifiquem ideologicamente em campos políticos muito definidos. Nesse sentido, parece ser mais fácil e até mesmo mais seguro elucidar as suas posturas que propriamente os temas centrais de seu pensamento. Em termos técnicos, é mais conveniente expor sua postura metodológica, de onde se possam inferir alguns conteúdos específicos.

Por outro lado, é inegável que o papa Francisco já apresentou temas que definem seu perfil como papa e, em grande medida, os rumos de seu pontificado. Estamos inegavelmente diante de um personagem renovador que, como tal, desperta paixões dentro e fora da Igreja. Como todo personagem de perfil carismático, provoca divisões entre quem é a favor e contra. É fato visível que Francisco opera com um novo paradigma teológico no âmbito do magistério papal. E é também evidente que toda plataforma renovadora exige um discurso legitimador capaz de justificar e direcionar as mudanças pretendidas, sem o que prevaleceria a cisão institucional, ainda mais em se tratando de uma instituição de dinâmica tradicional como a Igreja católica. Nesta, um novo paradigma só é legítimo se ancorado na longa tradição: o novo deve ser buscado no meio do antigo, jamais como um paradigma renovador, puro, que nega ou dispensa o anterior.

As temáticas adotadas como eixos, plataformas e objetivos por Francisco podem ser analisadas por distintos vieses, uma vez que precisam ser fundamentadas naquilo que constitui a Igreja como instituição gerada pela fé cristã ao longo da história e que compõem um conjunto coerente, sem o qual tudo se fragmenta e perde a legitimidade. O magistério papal é a colocação da palavra autorizada que visa orientar o conjunto da Igreja sobre temas variados e numa determinada direção. Dentre as várias possibilidades de verificar os temas do pensamento de Francisco, escolhemos como hipótese quatro tópicos, a nosso ver constitutivos do magistério dele: o ponto de partida e o centro permanente de seus ensinamentos (a Igreja em saída), o método de construção permanente de seus discursos (a volta às fontes, às Escrituras e ao Vaticano II), o valor fundamental (a postura da misericórdia) e o interlocutor principal (os pobres). Em nosso entender, essas temáticas não são meramente estruturantes do pensamento dele, mas expressam, antes de tudo, a dinâmica centrífuga que o movimenta e ativa em relação às temáticas por ele abordadas: que coloca a Igreja em saída para além de si mesma, referenciada pelo evangelho e em contado com o outro, particularmente com os pobres. Essa dinâmica se assenta e se articula sobre uma base cristológica: o Cristo encarnado que impulsiona e chama a Igreja para encarnar-se na realidade presente, tocando a carne de Cristo na carne dos que sofrem.

  1. O ponto de partida: a Igreja em saída

A Igreja em saída é a superação da Igreja autorreferenciada. Eis o ponto de partida, a pedra fundamental do pensamento de Francisco. A Igreja em saída já estava latente como eclesiologia capaz de superar a crise da Igreja, cuja raiz era o seu autocentramento, nas reflexões feitas pelo cardeal Bergoglio durante as congregações que prepararam o conclave. E desde a exortação Evangelii Gaudium se mostra como a ideia mestra ou a fonte que lança a Igreja para fora de si mesma, na direção de suas origens primeiras e na direção do mundo e dos outros, particularmente dos mais fragilizados. De fato, essa postura/propositura teve um papel fundamental na construção da própria figura no novo papa, na medida em que fez parte de seus pronunciamentos durante as referidas congregações. O cardeal Bergoglio insistia que a crise que se abatia sobre a Igreja católica naquele momento se devia ao seu autocentramento e que essa postura equivocada deveria ser superada com urgência. De fato, a figura do novo papa emergiu investida da missão de reformar a Igreja. A crise que se abatia sobre a Igreja produzia um personagem carismático-reformador, estratégia prevista pela sociologia do poder, conforme já explicou Max Weber. Na ótica da fé, há que professar que o Espírito renovou a Igreja com um personagem adequado para o momento. Em momentos de crise, o sistema antigo não goza mais de legitimidade para oferecer saídas e sujeitos para dar continuidade a seu projeto; é preciso, então, um novo personagem, um profeta vindo de fora para assumir o comando e garantir a continuidade da tradição que transmite um carisma fundamental. E lembramos todos que Francisco dizia ter vindo do “fim do mundo”, logo após sua eleição. Era o papa do sul, não europeu, fora dos quadros curiais e, pela primeira vez, um jesuíta. Um personagem, de fato, novo e investido da legitimidade política e espiritual de renovar a Igreja.

A primeira fase de superação da patologia do autocentramento eclesial foi gestual e causou grande impacto nas mídias. O novo papa rompia com os protocolos. Pediu ao povo que rezasse por ele, antes de dar a primeira bênção, apresentou-se como bispo de Roma, recusou residir no palácio apostólico, afirmou que o papa erra, teceu críticas à própria Igreja etc. Inegavelmente, a Igreja tinha um papa que rompia com a postura pontifical e quase transcendente de um líder religioso sagrado. Alguns diziam, por essa razão, que ele estava dessacralizando o papado. Outros acolhiam com surpresa e entusiasmo. Aparecia, de fato, a figura de um papa em saída não somente para além dos protocolos, mas também para além dos muros físicos e institucionais que caracterizam a figura do pontífice, agora mais adequadamente “bispo de Roma”.

Na volta de sua viagem da Jornada da Juventude no Brasil, declarou em entrevista que a Igreja devia ser reformada, utilizando a expressão clássica ecclesia semper reformanda. Embora tivera cunhagem na Idade Média, era, de fato, a expressão usada por Lutero e pelos reformadores para embasar suas reformas e que, no contexto do século XVI, afirmava a necessidade de a Igreja superar seu autocentramento institucional. Com essa expressão, Francisco definiu os rumos de seu pontificado e o projeto que tinha para a Igreja: renovação permanente a partir de suas fontes. A pauta da reforma assumiu, de fato, o centro imaginário e real de seu pontificado desde a nomeação da comissão dos oito prelados encarregados de tal tarefa.

Mas foi a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium que oficializou esse projeto de renovação, transformando-o em programática oficial do pontificado, mas também em princípio eclesiológico para toda a Igreja: Igreja missionária em saída permanente para o outro, preferencialmente para os pobres. O conceito de Igreja em saída deu o significado teológico, político, pastoral e espiritual da reforma da Igreja. Vale citar a passagem da exortação que convoca todos à tarefa renovadora inadiável da Igreja: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual do que à autopreservação” (EG 27). E faz a convocação: “Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos das respectivas comunidades” (EG 33).

A Igreja em saída não foi apenas um slogan do pontificado ou o eixo da exortação apostólica sobre a evangelização. Tem sido, de fato, a base programática do pontificado, com impactos renovadores em todas as dimensões e ações da Igreja: na pastoral, na moral, na teologia e no próprio papado. A partir dessa postura eclesial, é possível situar os demais ensinamentos do magistério de Francisco em seus pronunciamentos e documentos. A Igreja sai ao encontro da vida planetária, coloca-se em diálogo com as ciências e os movimentos empenhados na questão e vai ao encontro das diversidades culturais e religiosas e das pessoas que estão excluídas das comunidades cristãs por razões morais. Assim sintetiza Francisco: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida, enlameada por ter saí­do pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG 49).

  1. A volta às fontes: o coração do evangelho

Toda empreitada de renovação de uma tradição e de uma instituição precisa ser feita a partir de uma referência legítima, ou seja, a partir de um fundamento que garanta a sua verdade e assegure um consenso mínimo em torno de sua proposta. A renovação não pode basear-se unicamente nas palavras do líder renovador, mas nas Palavras sobre as quais se assenta a instituição e com base nas quais a tradição existe e se põe a transmiti-las às gerações. Na fenomenologia da religião se fala em volta ao tempo das origens, na sociologia se fala em volta ao carisma, e no cristianismo se costuma falar em “volta às fontes”. No caso deste, as fontes já estão codificadas num cânon que as comunica e testemunha. Voltar às fontes é voltar ao carisma que fundou e funda a Igreja. Numa palavra, voltar a Jesus Cristo e a tudo o que ele ensinou e comunica como salvação para a Igreja atual. Os grandes reformadores fizeram de alguma forma esse movimento e, precisamente por essa razão, obtiveram êxitos em suas propostas.

Francisco fundamenta todos os seus discursos e projetos, antes de tudo, no evangelho. Fala constantemente em “coração do evangelho”. Todo o edifício e o conjunto da doutrina nascem diretamente do coração do evangelho e a ele devem submeter-se. Nesse núcleo fundamental, encontra “a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado” (EG 36). É a partir desse núcleo que se deve hierarquizar as verdades, conforme o Vaticano II ensinou (UR 11), de forma a sair ao encontro de todos, onde Deus já habita (EG 36-39).

Na encíclica Laudato Si’, dá o primeiro passo do momento do julgar (segundo o método ver-julgar-agir adotado) precisamente no evangelho da criação. Na sequência, aprofunda o julgamento da crise planetária, a partir das ciências humanas (capítulo III) e da própria ecologia (capítulo IV). As fontes bíblicas são o ponto de partida que oferece um primeiro horizonte para as demais análises. Na tradição que articula fé e razão, adota um caminho indutivo e não dedutivo. Não parte dos conteúdos oferecidos pela tradição e pelos “predecessores”, conforme costume dos discursos papais, mas dos conteúdos oferecidos pelas fontes bíblicas. Francisco sabe que quer falar para um público que está fora da Igreja, mas insiste em buscar nas fontes escriturísticas elementos que permitam ir ao encontro da terra como dom de Deus (LS 62). A sua teologia ecológica é, antes de tudo, bíblica. Os compromissos ecológicos dos cristãos brotam das convicções de fé (LS 64). O primeiro sentido de todas as coisas da fé reside nessa fonte primeira, de onde tudo pode renovar-se. O evento Cristo renova todas as coisas com sua morte e ressurreição e permite ao cristão rever suas posturas e converter-se ecologicamente. De fato, a espiritualidade ecológica nasce “das convicções de nossa fé, pois aquilo que o evangelho nos ensina tem consequências em nosso modo de pensar, sentir e viver” (LS 216).

Na exortação Amoris Laetitia, a postura é exatamente a mesma. Contudo, a problemática se mostra ainda mais complexa e mais grave, tendo em vista o objeto em questão: a participação dos casais recasados. A doutrina formulada e estabelecida como regra não vacila no que tange à participação deles na comunhão eucarística. A norma definida e transmitida pelo magistério afirma a situação de pecado desses casais e, por conseguinte, o impedimento de sua participação nos sacramentos. Essa questão constituiu, de fato, o nó a ser desatado pelos Sínodos da Família realizados em 2014 e 2015. Como recolocar essa questão, resolvida do ponto de vista da norma moral na dinâmica da misericórdia? Como superar a situação de pecado sem haver perdão? De onde retirar as orientações capazes de avançar, sem negar a doutrina moral? A exortação pós-sinodal recolhe a orientação fundamental dos padres sinodais e avança com cuidado e firmeza na orientação. A raiz vem do evangelho. É dele que vem o valor e a norma fundamental da misericórdia a ser adotada antes de qualquer outra orientação doutrinal, por mais coerente e precisa que esta possa ser. A estrutura geral do documento expressa essa fundamentação. Começa, no primeiro capítulo, “à luz da palavra” para dar “o tom adequado” (AL 6), e após analisar a realidade, no segundo capítulo, julga-a a partir do Novo Testamento: o olhar fixo em Jesus (capítulo III), o amor, tendo como base 1Cor 13 (capítulo IV). De fato, fora da fundamentação bíblica, que outra hermenêutica poderia recolocar os problemas urgentes das famílias atuais legislados por normas rígidas e consolidadas? Em nome do evangelho, Francisco critica a rigidez e sugere que as comunidades façam o discernimento e integrem a fragilidade (capítulo VIII). A crítica é apresentada logo na introdução, quando reconhece que é necessário continuar aprofundando o assunto (AL 2), que há maneiras diferentes de interpretar a doutrina e de aplicá-la, e que há que  buscar soluções mais inculturadas, conforme as peculiaridades das regiões (AL 3). A crítica se torna mais aguda quando diz que é preciso haver uma conversão missionária que supere a aplicação do “anúncio teórico desligado dos problemas reais das pessoas” (AL 201) e que “ninguém pode ser condenado, porque esta não é a lógica do evangelho” (AL 297). O número 305 faz uma denúncia profética a certas práticas consolidadas na Igreja:

Por isso, um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais aos que vivem em situações “irregulares”, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem atrás dos ensinamentos da Igreja para sentar-se na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas.

É do evangelho que vem o fundamento de toda e qualquer formulação moral e de sua aplicação concreta. Nenhuma norma se impõe pela força da autoridade (AL 35), e o matrimônio é sempre um aprofundamento gradual das exigências do evangelho (AL 38). No coração do evangelho se encontra o amor, de onde o casal retira a força e o rumo de sua vida. Os números 58 e 59 da exortação expõem de maneira clara o primado do evangelho no ensino sobre a vida familiar: “Dentro da família e no meio dela, deve ressoar sempre de novo o primeiro anúncio”. Porque não há nada mais sólido, profundo, seguro, consciente e sábio, afirma Francisco. E conclui que “O nosso ensinamento sobre o matrimônio e a família não pode deixar de se inspirar e transfigurar à luz desse anúncio de amor, se não quiser tornar-se mera defesa de uma doutrina fria e sem vida”.

  1. O imperativo da misericórdia

No coração do evangelho reside a misericórdia como dom de Deus e como valor fundamental dos seguidores de Jesus. A Igreja que sai na busca do outro segue o caminho da misericórdia. Portanto, a misericórdia é, ao mesmo tempo, princípio, caminho e meta da vida cristã. Se for possível afirmar a noção teológica axial do pontificado e do pensamento de Francisco, será sem dúvida a misericórdia. Não é necessário demonstrar a presença dessa noção nos discursos e propósitos dele. De fato, ela atravessa seu pensamento como força que permite tudo repensar e tudo reformar, como valor que desafia a Igreja à conversão permanente e como categoria em torno da qual ele articula as reflexões. Na misericórdia se encontram, de modo indissociável, Deus e o ser humano, a espiritualidade e a inserção social, a Igreja e o mundo, a doutrina e o discernimento.

A indiferença é o principal antônimo da misericórdia. É a atitude pecaminosa que nos isola em nós mesmos e faz esquecer os outros, de modo escandaloso os pobres e o planeta; mas também os que estão à margem da Igreja. A indiferença está instalada como cultura, ou seja, como modo de ser que, de algum modo, envolve a todos. Francisco fala reiteradamente em globalização da indiferença, fruto do isolamento individualista e hedonista que caracteriza o consumismo da sociedade atual. A indiferença nos impede de ver o sofrimento do outro, de chorar, diz Francisco. É preciso “revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença” (LS 52).

A misericórdia exige conversão, mudança não somente das convicções – algo unicamente espiritual – mas mudança em nossos hábitos centrados em práticas de bem-estar cada vez mais acentuadas e que fazem esquecer tudo mais. Esse relativismo prático, mais perigoso que o teórico e que tem como absoluto somente o eu satisfeito, significa “agir como se Deus não existisse, decidir como se os pobres não existissem, sonhar como se os outros não existissem” (EG 80). A atitude de misericórdia rompe com esses modos de vida; é conversão para o encontro, conversão ecológica, conversão para a solidariedade e para a inclusão do outro. A Igreja precisa “chegar às periferias humanas e ser uma mãe de “coração aberto” e acolher quem “ficou caído à beira do caminho” (EG 46).

A misericórdia constitui a dinâmica central da economia salvífica e, por conseguinte, a razão de ser da Igreja. Esta tem “a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa humana” (MV 12). Constitui, por essa razão, o critério de identificação dos filhos de Deus (MV 9), o imperativo anterior a todas as regras dirigido a todos os seguidores de Jesus (MV 13) para que adotem esse valor como “estilo de vida” (MV 13).

  1. A opção pelos pobres

“A renovação inadiável se faz também na medida em que a Igreja se encarna nas limitações humanas” (EG 40). O outro pode converter-nos com seus apelos; pode ajudar a renovar a Igreja, muitas vezes fechada em si mesma, segura de suas estruturas e definida em suas normas. A misericórdia leva antes de tudo aos pobres. O Deus amor revelado por Jesus Cristo acolhe, perdoa e integra os pobres e sofredores. “Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia” (MV 9).

a) Os pobres no coração de Deus. A sensibilidade, a atenção e a opção pelos pobres não são simplesmente uma opção social e política; são, antes de tudo, uma questão de fé: “há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” (EG 48). O anúncio do evangelho aos pobres é o sinal da profecia de Jesus. Jesus Cristo é o Deus que se fez pobre com os pobres (EG 186). Os pobres ocupam um lugar preferencial no coração de Deus, e por essa razão fazem parte do mistério de nossa redenção (EG 197).

b) Os pobres produzidos socialmente. Francisco faz indicações diretas claras sobre a origem estrutural da pobreza: “Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum” (EG 202).

Há um sistema tecnocrático globalizado que privilegia o lucro sem limites, que destrói o planeta e gera pobreza. Esse regime deverá ser superado por outro capaz de garantir a vida e a igualdade. Eis o recado fundamental da encíclica Laudato Si’ (106-114). Esse regime, injusto em sua raiz, reproduz uma sociedade desigual que se volta contra si mesma, ao gerar mecanismos de violência e de corrupção (EG 59-60).

c) A cultura da indiferença descarta os pobres. O modo de vida consumista é inerente ao sistema econômico; nesse regime, os pobres são descartados. A cultura individualista resulta no relativismo, que faz com que as pessoas ajam como se Deus não existisse e decidam como se os pobres não existissem (EG 80). Além dessa indiferença, adotam-se muitas vezes formas de “educação” que visam tranquilizar os pobres, tornando-os domesticados e inofensivos (EG 60).

d) O imperativo da opção pelos pobres. O evangelho ensina a superar a indiferença e a colocar a Igreja em sintonia e solidariedade com os pobres. Sem os pobres, o anúncio do evangelho, que é a razão de ser da Igreja, corre o risco de ser compreendido ou de perder-se no excesso de palavras das mídias atuais (EG 199). A primeira atitude é ouvir o clamor dos pobres, o que significa sensibilidade e compreensão de sua condição, mas também solidariedade com a sua condição. Por essa razão, ninguém na Igreja pode sentir-se exonerado da solidariedade para com os pobres (EG 201), e a opção por eles não pode ser relativizada por nenhuma hermenêutica eclesial (EG 194). Cada cristão e as comunidades estão, desse modo, chamados a ser “instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar plenamente a sociedade” (EG 187).

e) Eliminar as causas da pobreza. A sensibilidade e a opção pelos pobres exige conversão: mudança no modo de ver a realidade e mudança de postura. Mas trata-se de uma postura que significa ouvir clamor de povos inteiros e buscar os meios de superação do modelo econômico que gera a pobreza. “Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado” (EG 204). É preciso construir um novo modo de vida e de gestão do planeta que garanta a vida da terra e dos pobres (LS 194).

A teologia da encarnação

Os quatro temas expostos podem ser vistos a olho nu nos pronunciamentos oficiais e espontâneos de Francisco. Embora não esgotem a amplitude e profundidade de seu pensamento vivaz e provocante, constituem os eixos transversais em torno dos quais se movem seu coração e sua lógica, estando presentes, de forma explícita ou implícita, em seus discursos. Mas, se é possível buscar uma teologia fundamental do pensamento do papa Francisco, ela parece advir do mistério da encarnação. Por certo, essa hipótese deverá ser ainda aprofundada pelos que estudam o pensamento dele. Ela se mostra de modo muito claro nas posturas e nas ideias do papa, a começar pelo seu modo pastoral de expor os fundamentos e as exigências práticas da vivência da fé. É, de fato, dessa verdade fundadora da fé cristã que seu pensamento bebe e se expande de dentro para fora da Igreja, avança da doutrina para a vida, da teoria para a prática e da fixidez para o movimento. A doutrina da Igreja é o próprio Cristo carne macia, afirma aos bispos italianos. O coração do evangelho conduz ao coração do outro. Acolher a Palavra e fazê-la carne (EG 150). A solidariedade se faz carne (EG 189). Francisco elabora nessa chave uma teologia do contato, da carne, da sensibilidade e do encontro que supera todas as formas de dualismo que separam a fé da história. O mistério da encarnação é a ponte que liga Deus e a humanidade na pessoa de Jesus Cristo, na pessoa do próximo e nas ações missionárias da Igreja. Na exortação Evangelii Gaudium, a palavra carne aparece dezesseis vezes, e o verbo encarnar, outras dezesseis. O Cristo feito carne se faz presente na carne do outro (EG 88, 270), e a palavra anunciada por todos os discípulos é uma oferta de misericórdia: “com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG 24).

A misericórdia constitui a postura fundamental da vida cristã; ela agrega em seu significado a acolhida, a sensibilidade e a solidariedade para com os mais fracos e sofredores; liga o seguidor ao próprio Mestre misericordioso. Nesse eixo, encontram-se o Cristo vivo e o homem vivo, o Cristo que sofre com os sofredores concretos, o Cristo pobre com os pobres de hoje, e o Cristo que perdoa com os pecadores.

É também na prática encarnatória que emerge o outro em sua condição concreta, quando a realidade se mostra anterior às ideias e o contato pessoa a pessoa torna-se o caminho de evangelização. O outro é o lugar teológico, o verdadeiro irmão, antes de qualquer distinção social, política ou religiosa; o outro tem sua verdade, que deve ser respeitada e com a qual se deve sintonizar na busca da Verdade em todo o processo de evangelização: “A graça supõe a cultura, e o dom de Deus se encarna na cultura de quem o recebe” (EG 115). A Igreja em saída leva a encontros concretos com sujeitos que estão fora da Igreja, fora da sociedade, fora da norma moral instituída, fora das normalidades sociais e políticas. A teologia da carne supera as teologias das estruturas, das fixações e das regras que dispensam o encontro, o afeto, a acolhida e a solidariedade, onde, na experiência primeira da fé, que é o amor, Deus se encontra com o ser humano.

Bibliografia

Concílio Vaticano II Documentos do Concílio Vaticano II. Decreto Unitatis redintegratio. São Paulo: Paulus, 2004.

FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (EG). São Paulo: Paulus/Loyola, 2014.

______. Carta Encíclica Laudato Si’ (LS). São Paulo: Paulus/Loyola, 2015.

______. Exortação Apostólica Pós-sinodal Amoris Laetitia (AL). São Paulo: Paulus/Loyola, 2016.

______. Bula Misericordiae Vultus (MV). São Paulo: Paulus/Loyola, 2015.

PASSOS, J. D. A Igreja em saída e a casa comum: Francisco e os desafios da renovação. São Paulo:
Paulinas, 2016.

______. A alegria do amor: das sementes aos frutos. São Paulo: Paulinas, 2017.

João Décio Passos

João Décio Passos é livre-docente em Teologia, professor da PUC-SP e do ITESP, membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal para o laicato da CNBB e editor assistente na Editora Paulinas.