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Publicado em Março - Abril

Pastoral em tempo de crise

Por Pe. Paulo Sérgio Bezerra

Introdução

“Limite” talvez seja o conceito trágico a expressar a atual realidade global da família humana, uma vez que:

– sistemas econômicos e políticos não resolvem as demandas básicas de trabalho, saúde, educação, habitação e alimentação. No Brasil, o “banditismo oficial e o das quadrilhas do tráfico armado” (CHICO ALENCAR, 2017) impõem limites à democracia e geram o sentimento antipolítico nas grandes massas. “A (falta de) ‘autoridade moral’ dos ladrões de gravata e capital (alguns, enfim, se dando mal!) e dos chefões do varejo das drogas ilícitas se equivale” (CHICO ALENCAR, 2017). O papa Francisco denuncia que “a ambição do poder e do ter não conhece limites” e corajosamente brada: “esta economia mata” (EG 53; 56). Chegamos ao limite da democracia representativa no Brasil;

– o “Grito da Mãe Terra”, ferida de morte pela avidez destruidora de todos os recursos naturais, não é suficientemente levado a sério, em que pesem as advertências das inúmeras conferências mundiais do clima. No Brasil foram realizadas sete Campanhas da Fraternidade sobre a “crise ecológica” e suas interpelações socioambientais. Chegamos ao limite das capacidades de regeneração globalizada do meio ambiente;

– a crise migratória planetária sem precedentes desafia os assombros xenófobos de países abastados, cuja ação colonizadora ainda se impõe de forma violenta e depredadora. Chegamos ao limite da geopolítica como alternativa para a paz mundial;

– fundamentalismos religiosos impõem o pensamento único da salvação dos bons e da condenação dos maus. Determinam o agir moral nas sociedades. Caminhamos para o limite da liberdade de consciência sob a estratégica manipulação religiosa mantenedora dos interesses de poderosos grupos econômicos.

Quando a Pastoral, em tempo de crise, sucumbe à imposição dos limites, torna-se, ela mesma, o limite estéril de toda possível ação evangelizadora.

  1. A crise desperta a profecia

A Pastoral é a ação evangelizadora organizada e a expressão do ser e do agir da Igreja como povo de Deus nascido das águas batismais para ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14). O Espírito Santo é a sua fonte regeneradora porque ele é o protagonista da evangelização. A Pastoral se destina a fazer emergir o reino de Deus das entranhas da história. A Pastoral, portanto, tem de “situar-se dentro do mundo”. O teólogo Agenor Brighenti faz a provocação: “Não basta à Igreja situar-se ‘dentro do mundo’. Dadas as contradições e disparidades que ferem a dignidade da pessoa humana e seu povo, é preciso perguntar-se ‘dentro de que mundo’ a Igreja deve estar para ser uma Igreja de todos” (2006, p. 10). A Pastoral em tempo de crise reconhece o tempo da crise como um kairós, isto é, como um “tempo favorável” de salvação. Abraça a crise como desafio e, a partir dela, tece sua ação evangelizadora.

“Vivemos uma mudança de época” (CELAM, 2007, n. 44), prenhe de temores e possibilidades. Na Igreja, com a eleição do cardeal argentino Mario Jorge Bergoglio, o papa Francisco, vivemos um kairós. Francisco introduz a Igreja, radicalmente, na “mudança de época” pelo seu testemunho pessoal de cristão-bispo e por meio de uma linguagem e de gestos que provocam simpatia/adesão e temor/reação.

Ousadamente se poderia dizer: as palavras e gestos do papa Francisco são verdadeiras encíclicas, elaboradas no encontro com as pessoas, sob a permanente assistência do Espírito Santo:

Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar “descentralização” (EG 16).

Em 2007, o Documento de Aparecida reivindicava, de toda a Igreja na América Latina e no Caribe, “uma valente ação renovadora das Paróquias” (CELAM, 2007, n. 170). Se há dez anos este chamado permanecera em stand by, na Igreja de Francisco, também por exigências limítrofes do contexto da conjuntura nacional e internacional, tal apelo se torna ultimato. Talvez o limite da possibilidade de relevância da Igreja para o mundo ocidental e oriental esteja na atitude de adesão ou rejeição diante das ousadas propostas pastorais do papa Francisco. Ele próprio diz:

Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que aquilo que pretendo deixar expresso aqui possui um significado programático e tem consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar com os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão (EG 25).

Os cristãos católicos, leigos e hierarquia, estão à altura dos desafios propostos pelo papa?

As duas exortações apostólicas pós-sinodais do papa Francisco foram intituladas com o mesmo substantivo: A ALEGRIA do Evangelho (2013) e A ALEGRIA do Amor (2016). Nelas, o bispo de Roma trata, com ousadia e liberdade, de duas realidades em crise: a eclesiologia e a família. Em sentido mais amplo: a realidade da Igreja situada no mundo contemporâneo e a realidade do amor humano nesta “mudança de época”. Duas belas roseiras cheias de espinhos, de onde o papa é capaz de colher, tocado pela alegria da Páscoa, as perfumadas rosas de uma primavera anunciada. O papa é explícito: “a alegria do Evangelho é tal que nada nem ninguém poderá tirá-la de nós (cf. Jo 16,22). Os males do nosso mundo – e os da Igreja – não deveriam servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso ardor. Vejamo-los como desafios para crescer” (EG 84).

Assim como o papa são João XXIII, há 50 anos, no discurso de abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, constatava a existência e discordava “dos profetas das desgraças, que só anunciam infortúnios, como se estivesse iminente o fim do mundo” (JOÃO XXIII, 1962), assim também o papa Francisco convoca a Igreja a não se deixar abater pela crise enquanto limitação da missão eclesial.

A crise pode se tornar profecia. E a profecia, vencer a crise!

  1. Variações do tempo na caminhada da Igreja

O Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), convocado pelo papa são João XXIII, foi chamado de “primavera da Igreja”. No discurso inaugural, a 11 de outubro de 1962, afirmando que o principal objetivo do “trabalho conciliar não é o de discutir princípios doutrinais”, João XXIII usava a expressão “razões pastorais” como motivação da sua convocação.

Em 1968, realizou-se a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano na cidade de Medellín, Colômbia. Na introdução os bispos afirmavam: “A Igreja latino-americana, reunida na II Conferência Geral de seu Episcopado, situou no centro de sua atenção o homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico (CELAM, 1968). O Concílio Vaticano II ganha rosto e expressão latino-americanos. Desencadeou-se um processo radicalmente novo de participação do povo de Deus na ação evangelizadora por meio da elaboração de planos pastorais nacionais, diocesanos e paroquiais. Consumou-se a descentralização da igreja-matriz em pequenas comunidades, denominadas CEBs – comunidades eclesiais de base. Bispos, padres e religiosas se empenharam em estar junto com o povo, convencidos da opção preferencial pelos pobres. O anúncio do reino de Deus ganhou centralidade, sendo assumido por meio da leitura popular da Bíblia e da inserção nas lutas populares de transformação da realidade. O povo católico, num doloroso e promissor parto, era formado para ser agente da evangelização.

As duas Conferências do Episcopado Latino-Americano e Caribenho que se seguiram à de Medellín – Puebla (México), em 1969, e Santo Domingo (República Dominicana), em 1992 – aconteceram sob descomunal vigilância da Cúria romana, durante o pontificado do papa são João Paulo II. Tentou-se dar alguma continuidade à caminhada da Igreja conciliar e de Medellín por meio das propostas pastorais de “comunhão e participação” (Puebla); “protagonismo dos leigos” e “inculturação da fé” (Santo Domingo).

A CNBB dinamizava as Igrejas particulares. Viveu-se, de forma orgânica, a experiência de uma Igreja “comunhão e participação”, que se punha inteiramente ao lado e a serviço dos empobrecidos. Em meio às perseguições eclesiásticas, promovidas sobretudo pela ditadura civil-militar, emergia uma Igreja martirial, sustentada pelo testemunho das testemunhas. A Pastoral, em chave transformadora na articulação entre “fé e política”, punha seus recursos humanos e financeiros a serviço dos sem voz e sem vez. A crise não era da Pastoral, mas dos poderes opressores, eclesiásticos e civis. A Pastoral inaugurava um “novo jeito de ser Igreja” e, pretensiosamente, apontava para “um novo jeito de a Igreja ser”. Mas o inverno rigoroso chegou.

O pontificado de são João Paulo II (de 16 de outubro de 1978 a 8 de abril de 2005) “até hoje é entendido pela opinião pública como o governo de um homem que levou ao extremo a sua missão de conduzir a Igreja de Cristo” (LOPES, 2017). Sua última aparição pública é a de um mártir em agonia. Santo subito – “santo já” –, bradava a multidão de 4 milhões de pessoas presentes em seu funeral, em Roma. Não se negam suas virtudes. Porém “há um lado que ficou escondido, distante dos olhos da imensa maioria das pessoas: foram anos de punições, medo e até terror no interior da Igreja; contra bispos, padres, freiras e leigos ligados à Teologia de Libertação ou simplesmente adeptos do Concílio Vaticano II” (LOPES, 2017).

O gelo eclesiástico fez-se sentir por toda parte. Desde o estabelecimento da política de nomeações de bispos conservadores ao desmonte da colegialidade das conferências episcopais. Imposição de um modelo de formação presbiteral cultual e jurídico. Interferências da Cúria romana nas conferências episcopais em questões teológicas, litúrgicas, morais, exegéticas e pastorais. Fortalecimento da pessoa do papa como o bispo que fala ao mundo, em detrimento da colegialidade episcopal no governo das Igrejas. Desvalorização dos planos de pastoral pela preferência e anúncio de temáticas anuais. Censura a teólogos e teólogas sob rigorosa vigilância da Congregação da Doutrina da Fé. Romanização da liturgia, submetida ao julgamento da Congregação para o Culto Divino, e desconfiança de qualquer tentativa de inculturação litúrgica. O evangelho das bem-aventuranças foi substituído pelo Direito Canônico – então “lei magna da Igreja”.

A Igreja do retorno à “grande disciplina”, num conservadorismo teológico obstinado e dogmático, desconfiado e agressivo com qualquer pensamento e prática progressista, reencontrou, na trincheira do clericalismo e do carreirismo, seu lugar de defesa e ataque. Nesse sentido, os seminários tornaram-se o “cavalo de Troia” de onde saíam (saem) os exércitos ordenados para restauração da ordem eclesiástica: uma Igreja de clérigos e leigos… Significativo número de presbíteros ordenados na era Wojtyla/Ratzinger, quando nomeados párocos, destituem conselhos, equipes pastorais e ministros; perseguem leigos engajados, apelidados de “cobras criadas”; centralizam todos os serviços na matriz; as comunidades (quando existem) voltam ao estado pré-conciliar de “capelas” para desobriga de serviços sacramentais. O passado não importa, pois agora tem início a construção da verdadeira identidade da Igreja Católica. Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC), quando auxiliar da Arquidiocese de São Paulo (1975-2000) e vigário-geral da então Região Episcopal São Miguel, ao dar posse a novos párocos, dizia: “Meu irmão, lembre-se que Anchieta passou por aqui antes de você…” A Igreja da “noite escura” abomina a memória histórica!

Os trinta e cinco anos de Wojtyla/Ratzinger deixaram a Igreja em frangalhos, a ponto de um colégio de cardeais nomeado integralmente por ambos, de perfil conservador, ter se dado conta de que a crise chegara ao limite, ameaçando a própria existência da instituição, e decidido eleger em 2013 o argentino Jorge Mario Bergoglio como novo papa: Francisco. Depois de vinte e seis anos de João Paulo II e mais nove de Bento XVI, a muitos a primavera parecia impossível. Mas aconteceu (LOPES, 2017).

  1. Um estudo de caso: Igreja – Povo de Deus – em Movimento (IPDM)

Em 2010, depois de 20 anos da elevação da antiga Região Episcopal São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, ao estatuto de Diocese de São Miguel Paulista (15 de março de 1989), quatro párocos, uma religiosa e uns 15 leigos desta diocese, no intuito de “revisitar” o Vaticano II e “resgatar” suas propostas pastorais e eclesiais diante dos desafios da atual mudança de época, articularam-se no que denominaram de IPDM:  “Igreja – Povo de Deus – em Movimento”, a tentativa de uma pastoral de conjunto em suplência ao desaparecimento efetivo de organismos diocesanos deixados à míngua pela opção de uma eclesiologia clerical. Já não era possível continuar assistindo à destruição das conquistas do Concílio Vaticano II e ficar resmungando por sua perda.

IPDM é uma “inspiração”, em face da estagnação eclesial do final dos anos 80 até, pelo menos, a eleição do papa Francisco. É uma “aspiração” de reconquista dos avanços pastorais conciliares. É uma “provocação” à inércia e encolhimento dos cristãos diante dos desafios expostos em sangria pela sociedade da exclusão e da desigualdade social. É uma “espiritualidade” que questiona a fé dissociada do compromisso social e desfocada da encarnação do Verbo.

IPDM, depois de sete anos, foi reconhecido como um “coletivo”, à semelhança de inúmeros outros comprometidos na luta contra o “golpe parlamentar” de 2016, que derrubou a presidente Dilma e empurra o Brasil a um atoleiro sem precedentes em sua história. IPDM é um “pouco de fermento” do evangelho; tende a perder-se na massa toda levedada. IPDM é uma proposta de rearticulação da pastoral de conjunto à luz do Documento de Aparecida, cuja convocação se traduz na necessidade de uma “Igreja em permanente estado de missão”. IPDM busca reinventar “estratégias” para “articular” renovada, fecundante, transformadora, profética e comprometida ação pastoral no serviço ao reino de Deus, com base na realidade de cada paróquia que compõe esse coletivo.

  1. As exigências da ação evangelizadora

O horizonte da ação pastoral é o reino de Deus. O apelo do papa Francisco para que a Igreja deixe de ser “autorreferenciada” e se torne uma “Igreja em saída” é insistência constante. O apelo existe porque a realidade insiste. O reino de Deus “não só descentra a Igreja de si mesma, como a situa de modo diferente no mundo e reivindica uma nova teologia da ação evangelizadora, diante da concepção tradicional de missão” (BRIGHENTI, 2006, p. 11).

A cada quatro anos, a CNBB publica as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, para que as dioceses elaborem seus planos de pastoral. O documento 54, Diretrizes Gerais para o Quadriênio 1995-1998, apresenta as quatro exigências intrínsecas da evangelização: o serviço, o diálogo, o anúncio e o testemunho de comunhão. O assumir dessas exigências possibilita o emergir de uma “Igreja em saída”.

O serviço é exigência samaritana. O papa Francisco denuncia a “cultura da indiferença” e proclama a “cultura do encontro”. Serviço tanto como assistência emergencial de prestação de socorro ao indivíduo machucado quanto, e sobretudo, presença ativa nos movimentos de transformação social. Em tempos idos, era comum encontrar agentes pastorais – bispos, padres, religiosos e leigos engajados – nas manifestações de rua, nas ocupações de terra e nas ações reivindicatórias. Hoje, na maior cidade do país, onde dia após dia acontecem manifestações e ocupações dos sem-teto, raramente se vê algum agente pastoral. Se há um movimento popular e organizado, de expressiva atuação urbana no Brasil, é o MTST. Na prática das ocupações, nas assembleias dos acampamentos e nas reuniões de formação das lideranças, o povo toma consciência de sua dignidade aviltada e encontra as razões das suas lutas. Atabalhoadas com suas rotineiras preocupações, as paróquias, em geral, resistem a ouvir o “grito dos excluídos” e, desconfiadas da “legitimidade” das suas ações, mantêm-se presencialmente a distância, quando não as condenam.

O diálogo é exigência evangélica que, na cultura pluralista contemporânea, se torna imprescindível. O pluralismo é o novo paradigma do encontro cultural-antropológico e sociorreligioso. Onde qualquer tentativa de hegemonia se impõe, o encontro está fadado ao fracasso. Constata-se um preconceituoso e defensivo fechamento eclesial às novas pautas do mundo contemporâneo: questões de gênero e sexualidade, fundamentalismo religioso, laicidade do Estado, diálogo ecumênico, fé e política, teologia feminista, fé e razão etc.

O anúncio se origina do núcleo fundamental do evangelho: “a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado”. O papa Francisco retoma o objetivo da convocação do Concílio Vaticano II: “a Igreja, no passado, sempre se opôs aos erros e os condenou com grande severidade. […] Em face das necessidades atuais, julga mais conveniente elucidar melhor sua doutrina do que condenar os que dela se afastam” (JOÃO XXIII, 1962). Entre tantos pronunciamentos e entrevistas do atual bispo de Roma, o mundo jamais se esquecerá de sua resposta a um jornalista, quando indagado sobre lobby gay no Vaticano, durante o voo de volta do Rio de Janeiro a Roma, em 29 de julho de 2013: “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?” Francisco leva à prática pastoral as decisões conciliares:

Cada verdade entende-se melhor se a colocarmos em relação com a totalidade harmoniosa da mensagem cristã. […] Quando a pregação é fiel ao Evangelho, manifesta-se com clareza a centralidade de algumas verdades e fica claro que a pregação moral cristã não é uma ética estoica, é mais do que uma ascese, não é uma mera filosofia prática e nem um catálogo de pecados e erros. O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos (EG 39).

O testemunho de comunhão inexiste se a Pastoral não for uma “pastoral de conjunto” – ação de todo o corpo eclesial. Uma Igreja testemunha comunhão quando cerca de cuidados e valoriza as seguintes realidades: os conselhos pastorais (diocesanos, paroquiais e comunitários); a coordenação paroquial de pastoral; as assembleias pastorais; as escolhas de prioridades pastorais; as análises de conjuntura política e eclesial; os serviços, os carismas e os diversos ministérios; as equipes pastorais e suas coordenações; a formação de agentes pastorais leigos; a liturgia participativa e inculturada; a evangélica partilha dos recursos econômicos; a efetiva opção preferencial pelos pobres, expressa na participação de suas lutas e organizações.

  1. Opção pastoral

Um grupo religioso (ou outro qualquer) inserido na realidade humana nunca é neutro nas opções que faz na “disputa do pensamento” em relação ao seu projeto de evangelização. “Disputa do pensamento” tornou-se expressão de atualíssima relevância numa sociedade como a brasileira, polarizada entre os que vestem a camisa “verde-amarela” e os que vestem a camisa “vermelha”. Reduzidas à bipolaridade raivosa, as massas se definem antipolíticas. Os poderosos grupos econômicos, que sempre dominaram a política (malgrado as irrupções da corrupção), empunham as bandeiras da pseudoneutralidade ideológica de uma “Escola sem Partido”, da moral guardiã da família e da criminalização dos movimentos populares, numa estratégica forma de manter a dominação.

A opção pastoral de uma Igreja comprometida com os pobres não tergiversa no anúncio e no testemunho do Nazareno crucificado e ressuscitado. Não busca simplesmente “disputar o pensamento” das massas. Antes, visa formar um povo consciente das opções de Jesus em vista da construção do reino de Deus.

A Pastoral em tempo de crise prioriza seu temário e seus assessores. Assim procedeu o coletivo IPDM desde o início de sua caminhada em 2010 até hoje, em encontros gerais de formação, no intuito de revisitar o Vaticano II e resgatar suas propostas pastorais e eclesiais diante dos desafios da atual “mudança de época”.

IPDM – encontros gerais: temário e assessores

– Novembro/2010: “O Documento de Aparecida na ótica de dom Angélico Sândalo Bernardino”. Assessor: dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau. Participantes: cerca de 600 pessoas.

– Maio/2011: Tema: “A Igreja nas grandes cidades: desafios, impasses, perspectivas”. Assessor: Frei Betto, op. Participantes: cerca de 800 pessoas.

– Julho/2011: Celebração de são Tomás Morus – Mesa redonda: “A reforma política”. Assessores: dom Angélico Sândalo Bernardino; Luiza Erundina, deputada federal (PSOL); Dra. Maristela Bernardo, jornalista e socióloga; Paulo Teixeira, deputado federal (PT); Eduardo Jorge, secretário municipal do Verde (São Paulo) e Plínio de Arruda Sampaio, deputado federal (PSOL). Participantes: cerca de 350 pessoas.

– Novembro/2011: “Conjuntura eclesial”. Assessor: Pe. Dr. Antônio Manzatto, teólogo. Participantes: cerca de 350 pessoas.

– Março/2012: “Evangelização da juventude: desafios e perspectivas pastorais”. Assessor: Dr. Fernando Altemeyer Júnior, teólogo (PUC-SP). Participantes: cerca de 300 pessoas.

– Maio/2012: “O Jesus da História: seu seguimento e o Reino”. Assessor: Pe. Dr. Benedito Ferraro, teólogo. Participantes: cerca de 360 pessoas.

– Novembro/2012: “Vaticano II – 50 anos: da Igreja que temos para a Igreja que queremos”. Assessor: Pe. Dr. João Batista Libânio, sj, teólogo (PUC Minas). Participantes: cerca de 530 pessoas.

– Março/2013: “Construir as forças vivas de uma nova sociedade – o mundo da política e da economia: justiça, solidariedade e ecologia”. Assessor: Dr. Leonardo Boff, filósofo e teólogo. Participantes: cerca de 1.300 pessoas.

– Abril/2013: “Igreja colegiada: grupos de rua e ministérios”. Lançamento do livro: Dom Angélico Sândalo Bernardino – bispo profeta dos pobres e da justiça. Assessor: Pe. Manoel José de Godoy, teólogo. Participação de dom Angélico Sândalo Bernardino e de dom Antônio Celso de Queiroz. Participantes: cerca de 350 pessoas.

– Novembro/2013: “Pentecostalismo evangélico e católico: desafios para a prática pastoral”. Assessora: Dra. Brenda Carranza, teóloga, socióloga e psicóloga (Unicamp). Participantes: cerca de 350 pessoas.

– Maio/2014: “IPDM – aprofundamento dos princípios da identidade”. Assessor: Frei Carlos Josaphat, op, teólogo. Participantes: cerca de 270 pessoas.

– Dezembro/2014: Encontro de articulação entre Igreja e movimentos populares. Assessores: dom Angélico Sândalo Bernardino e Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST. Participantes: cerca de 80 pessoas de pastorais sociais e coletivos de várias cidades do Brasil.

– Fevereiro/2015: Seminário sobre a CF-2015 – “Fraternidade: Igreja e sociedade”. Assessores: dom Angélico Sândalo Bernardino; Romi Bencke, secretária do Conic e pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; Daniel Souza, teólogo da Igreja Anglicana no Brasil. Participação: cerca de 300 pessoas.

– Maio/2015: “Igreja e sexualidades: um diálogo necessário”. Assessor: Pe. Roberto Francisco Daniel – Pe. Beto, Diocese de Bauru, excomungado. Participantes: cerca de 270 pessoas.

– Novembro/2015: “Igreja e movimentos sociais”. Assessor: Pe. João Bakker, svd. Participantes: cerca de 150 pessoas.

– Março/2016: Encontro Ecumênico sobre a CF-2016: “Casa comum, nossa responsabilidade”. Assessora: Dra. Moema Miranda, diretora do Ibase/RJ. Participantes: cerca de 300 pessoas.

– Novembro/2016: “Eclesiologia em propulsão – papa Francisco, semeador da esperança” – seminário. Assessores: Pe. Manoel José de Godoy, teólogo; dom Manuel Parrado Carral, bispo diocesano de São Miguel Paulista; dom Antônio Celso Queiroz, bispo emérito de Catanduva/SP; dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau/SC. Participantes: cerca de 300 pessoas.

  1. A ambivalência da crise

O tempo de crise é ambivalente: impõe a crise como limite à ação pastoral (já não há nada que fazer) ou propulsiona a ação pastoral na direção profética: para além da imposição de todo limite, há um horizonte de novas possibilidades.

Alguns questionamentos se impõem à Pastoral em tempo de crise:

– Tem-se feito bem o “tradicional” da vida eclesial – celebrações litúrgicas, catequese, dízimo, cursinhos de preparação para os sacramentos do batismo, crisma e matrimônio, visitas e unção dos doentes, celebração de exéquias e missas de sétimo dia?

– Tem-se reduzido a Pastoral ao “tradicional”, sem maior empenho para inovar, criar e atualizar o que há séculos se faz da mesma forma?

– As expressões da religiosidade popular, como romarias, peregrinações, promessas, novenas de padroeiros, culto aos santos, encontram espaços de aprofundamento, avaliação e incentivo na agenda pastoral?

– A diocese/paróquia terceirizou a Pastoral, entregando-a aos cuidados dos movimentos religiosos (ECC, EJC, Caminho Neocatecumenal, RCC, Mãe Peregrina, Arautos do Evangelho, Focolares e outros) em detrimento de uma pastoral orgânica de maior amplitude?

– A diocese/paróquia deixou de investir na convocação e formação de pessoas para as equipes pastorais e já não destina recursos econômicos para a sustentação destas equipes?

– As resoluções do Concílio Vaticano II, os avanços pastorais das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano e do Caribe e as diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil propostas pela CNBB encontram efetiva acolhida nas paróquias e comunidades?

– Os “sinais dos tempos” – em suas demandas por justiça, solidariedade, promoção e defesa da dignidade humana, construção da paz mundial, biossociodiversidade, diálogo ecumênico, participação e democracia, liberdade de consciência – tiram-nos o sono e aguçam o compromisso eclesial com o “cuidado da casa comum”?

– O pontificado do papa Francisco – que, ao entregar a exortação apostólica A Alegria do Evangelho, assim se expressou: “Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de convidá-los para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximo anos” (EG 1) – encontrou efetiva adesão das Igrejas particulares, a ponto de “transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG 27)?

Conclusão: os sete apelos do papa Francisco

A exortação apostólica A Alegria do Evangelho contém o que o papa Francisco espera e quer da Igreja, ela mesma imersa, tanto quanto a humanidade, num tempo de crise.

A exortação é um compêndio atualizado do Concílio Vaticano II. Busca raízes num dos mais importantes documentos depois do concílio, a exortação apostólica de Paulo VI sobre o anúncio do evangelho no mundo contemporâneo Evangelii Nuntiandi (1975), fruto do Sínodo dos Bispos de 1974. Apresenta à Igreja universal as contribuições do Documento de Aparecida – texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Com esses instrumentos, o novo papa tece seu primeiro documento com o coração de um bispo-pastor, que leva nas roupas e no corpo o “cheiro das ovelhas”.

O fato de ser um latino-americano significou, por sua vez, um salto enorme para a Igreja, pois assim abria-se caminho para superar a demasiada europeização da Igreja. Abria-se potencialmente a Igreja para grandes novidades e para enormes desafios de inculturação. A partir de então, tornava-se mais fácil fechar velhas portas, histórica e culturalmente ultrapassadas, e tornava-se possível abrir novas portas, mais condizentes com o mundo atual e o futuro (HUMMES, 2017, p. 9).

Assume-se e elabora-se uma Pastoral em tempo de crise com o bom humor dos que não se desesperam diante das catástrofes. Essas pessoas oferecem ao mundo em crise a fé dos simples, a militância dos inconformados, a persistência dos sonhadores, a lucidez dos sábios e a esperança dos santos.

Ecoem, pois, os sete apelos do papa Francisco para uma mística pastoral sustentada pela espiritualidade em tempos de crise:

– tentados por uma vida espiritual recolhida em “momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros”, afirmemos: “não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário!” (EG 78.80);

tentados a “fugir de qualquer compromisso que nos possa roubar o tempo livre”, afirmemos: “não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!” (EG 81.83);

– quando tomados pelo abatimento do pessimismo estéril, afirmemos: “não deixemos que nos roubem a esperança!” (EG 86);

– se atitudes defensivas se tornarem argumento para “escaparmos dos outros na privacidade confortável ou no círculo reduzido dos mais íntimos, numa renúncia ao realismo da dimensão social do evangelho”, afirmemos: “não deixemos que nos roubem a comunidade!” (EG 88.92);

– quando dominados pela hipocrisia religiosa do “deveriaqueísmo”, como mestres espirituais e peritos de pastoral que dão instruções ficando de fora” afirmemos: “não deixemos que nos roubem o evangelho!” (EG 96.97);

– quando o “espírito de contenda” provocar divisões na comunidade por causa da “busca pelo poder, prestígio, prazer ou segurança econômica”, afirmemos: “não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!” (EG 98.101);

– quando não levarmos em consideração o protagonismo dos leigos na evangelização; a contribuição da mulher na sociedade e na Igreja; as reivindicações dos jovens e sua linguagem, que questionam as estruturas ordinárias da Pastoral; a criteriosa seleção de candidatos ao ministério presbiteral e à vida consagrada, afirmemos: “não deixemos que nos roubem a força missionária!” (EG 109);

A Pastoral em tempo de crise espera por agentes mais dispostos a gerar processos na gestação de um tempo novo do que desejosos de ocupar espaços de poder.

A Pastoral em tempo de crise é dialética: supõe a paciência histórica do semeador, que espera os frutos da semente (cf. Mc 4,26-29), e, ao mesmo tempo, impacienta-se, tendo em si o ímpeto dos profetas prontos a lançar fogo sobre a terra no desejo de que já estivesse aceso (cf. Lc 12,49).

Frei Betto, no artigo Espiritualidade em tempos de crise, afirma: “frente a tão nefasta conjuntura, associada à crescente violência (homicídios, assaltos, drogas), a nação reage com indignação (em conversas e redes digitais) e apatia (nas ruas e movimentos sociais). A indignação se manifesta em expressões de ódio e desprezo; a apatia, na sensação de que é inútil protestar nas ruas, já que se tirou um governo ruim pra dar lugar a outro pior…” (2017).

É tempo de semear, sem a expectativa de, um dia, poder sentar-se à sombra da árvore. Pastoral em tempo de crise: limite ou profecia?

Bibliografia

ALENCAR, Chico. Mansões e mucambos. O Globo, Rio de Janeiro, 26 set. 2017.

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LOPES, Mauro. João Paulo II: os anos de terror na Igreja (artigo 1 de 3). Disponível em: <http://outraspalavras.net/maurolopes/2017/06/22/joao-paulo-ii-os-anos-terror-na-igreja-artigo-1-de-3/>. Acesso em: 2 jun. 2017.

Pe. Paulo Sérgio Bezerra

Pe. Paulo Sérgio Bezerra, presbítero da Diocese de São Miguel Paulista e pároco da Igreja de Nossa Senhora do Carmo em Itaquera, São Paulo (SP), é membro da equipe de articulação e coordenação do Coletivo IPDM (Igreja – Povo de Deus – em Movimento). E-mail: pe.paulob@terra.com.br