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Publicado em Julho - Agosto. Ed.322 - Ano 59

Sínodo da Juventude: oportunidade de ver, ouvir e sair

Por Dom Vilsom Basso, scj

Introdução

Em outubro de 2018, acontecerá, em Roma, o XV Sínodo Ordinário dos Bispos, convocado pelo papa Francisco, com o tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

O sínodo é oportunidade para ver e conhecer a realidade juvenil, ouvir seus clamores, sugestões e esperanças e, em conversão pastoral, oportunizar à juventude o “sair”, o “em saída”, para que seja sal e luz.

  1. Ver

Diz o papa Francisco: “Também a Igreja deseja colocar-se na escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até mesmo das vossas dúvidas e das vossas críticas […]. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores”.

É imprescindível conhecer a realidade juvenil para podermos encontrar respostas adequadas no serviço à juventude. Numa primeira aproximação, constatamos, de acordo com o Censo (IBGE, 2010), que o número de jovens (16-29 anos) no Brasil é de 51,3 milhões, conforme segue:

Grupos de idade Masculino Feminino
25 a 29 anos 8.460.995 8.643.419
20 a 24 anos 8.630.229 8.614.963
15 a 19 anos 8.558.868 8.432.004

A população brasileira atual é de 206,1 milhões de pessoas (PNAD 2016 – IBGE). Segundo as estimativas, no ano de 2025, deverá atingir 228 milhões. Atualmente, ela se distribui pelas regiões da seguinte forma: Sudeste – 86,3 milhões; Nordeste – 56,9 milhões; Sul – 29,4 milhões; Norte – 17,7 milhões; Centro-Oeste – 15,6 milhões.

Os jovens representam hoje, portanto, um quarto da população do país. Do total de 51,3 milhões, 84,8% habitam nas cidades e 15,2% no campo.

Um levantamento feito pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Fundação Seade) mostra que os jovens estão adiando a entrada no mercado de trabalho. A proporção de jovens com idade entre 16 e 24 anos que só estudam pulou de 6,8%, no biênio 1986-1987, para 15,4%, no período de 2012 e 2013. Já a taxa de participação no mercado de trabalho caiu de 79,6%, em 1986, para 74,2%, em 1999, e 72,9%, em 2013. A taxa de desemprego da população de 18 a 24 anos que está entrando no mercado de trabalho foi de 24,1%, no primeiro trimestre de 2016. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2012, mostram que o número de jovens de 15 a 29 anos que não estudam nem trabalham chegou a 9,6 milhões naquele ano.

É importante nos perguntarmos: qual é a realidade juvenil no regional, na diocese, na paróquia, na comunidade onde vivemos?

Como acompanhar esses jovens em seu dia a dia, em seu discernimento vocacional, em seu projeto de vida?

Para isso, é preciso ouvir os jovens, conhecer os desafios do mundo juvenil e quais as oportunidades que tais desafios possibilitam.

  1. Ouvir

“O Senhor disse: ‘Eu vi, eu vi a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço os seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mane leite e mel” (Ex 3,7-8).

Ao falarmos de desafios e possibilidades, transcrevemos alguns dados da síntese que a CNBB fez das respostas dos questionários enviados por dioceses do Brasil, em preparação ao Sínodo dos Bispos.

2.1. Desafios

Jovens de nosso país destacaram: ausência de referência, de modelos e líderes; crise de orientação; grande diversidade de propostas, vozes, estímulos, solicitações e pouco discernimento; imediatismo, consumismo e hedonismo; violência, agressividade, alienação; crescimento do fenômeno do agnosticismo e ateísmo entre os jovens; vazio e niilismo, o sentimento de descrença nas instituições e o vazio existencial, falta de uma razão para viver.

Há uma educação tecnicista, sem visão de desenvolvimento integral, com séria lacuna humana, moral e ética; no mundo das relações virtuais, a perda ou o esvaziamento do sentido das relações humanas; ruptura entre educação, formação profissional e emprego; pouca oportunidade para o trabalho; ditadura dos padrões preestabelecidos pela sociedade.

Falta de sentido para a vida, projeto e prioridades; má orientação para o uso dos meios de comunicação; consumo de drogas ilícitas; falta de perspectiva de sonhos e futuro; dificuldade em ouvir, em ter oportunidade de falar; inversão de valores e manipulação pelas ideologias; fragmentação, descontinuidade; mentalidade do “caminho mais fácil”, “jeitinho”, atalho, influxo da cultura da corrupção, dispersão psicológica, fuga das relações; demandas com intensidades diferentes: escola, saúde, cultura, esportes, lazer, emprego; diversos contextos; viver em uma cultura anticristã; pressões e tentações sexuais/pureza; crise de identidade e baixa autoestima; falta de esperança e de perspectiva de vida.

Há graves desigualdades sociais; crise econômica; dificuldade de inserção no mercado de trabalho; cultura de pouca valorização do capital humano; pobreza e falta de dignidade de vida básica para grande parte da juventude brasileira; pouca qualificação para o mercado de trabalho; falta maior investimento no desenvolvimento humano do jovem, não somente técnico; a violência e o extermínio de jovens, especialmente dos mais pobres; ausência de seriedade no processo de efetivação das políticas públicas em relação aos adolescentes e jovens.

A desestruturação familiar atinge em cheio a juventude; o divórcio e as questões familiares; decisões em relação ao Estado (negócios); figura de pai ausente; falta de disciplina; pouca ou quase nenhuma participação da juventude em processos decisórios; pais ausentes e/ou superprotetores que tornam os filhos mais frágeis e tendem a subestimar os riscos ou a ser obcecados pelo medo de cometer erros; a separação dos pais e as novas configurações de família; falta de harmonia e diálogo na família; medo de frustrar os pais.

A juventude vive um clima de incerteza, de falta de clareza sobre por onde caminhar; a combinação entre a elevada complexidade do contexto social e sua rápida mudança gera uma situação de fluidez e incertezas; a presença de diversas tradições religiosas que não dialogam entre si; adultos que tendem a subestimar as potencialidades dos jovens, evidenciando suas fragilidades e criando dificuldade de compreender as suas exigências.

2.2. Oportunidades

Nas respostas ao questionário do sínodo, os jovens dizem que desejam aproveitar seu tempo livre em diferentes atividades: prática de esportes, passeios aos parques e aos shoppings, festas com danças e músicas, baladas. No entanto, aqueles que já tiveram ocasião de participar em algum trabalho de voluntariado – por exemplo, com seus colegas da escola – testemunham sentirem uma alegria mais profunda e duradoura, muito melhor do que a alegria natural das diversões habituais.

Dizem os jovens que as ações comunitárias são lugares de encontro e de formação cultural, de educação e de evangelização, de celebração e de serviço; experiências específicas para os jovens nos diversos ambientes, como: centros juvenis, oratórios, universidades e escolas públicas e católicas; atividades sociais e voluntariado, associações e movimentos eclesiais, retiros, peregrinações, seminários e congressos.

Afirmam os jovens que a internet tem sido uma oportunidade de novas formas de aprendizado e apoio nos estudos; cursos gratuitos e mais acessíveis aos jovens de baixa renda; grandes oportunidades de escolhas e direcionamento de vida; tecnologia básica mais acessível.

No campo religioso, há mais oportunidades de inserção; experiência do protagonismo juvenil; discernimento e elaboração de projeto de vida; oportunidade de formação; diversidade de possibilidades de formação; seminários, grupos de orações, vida religiosa; conectividade; trabalho em rede, expansão das possibilidades de evangelização; possibilidade de formação, viagem e comunicação sem fronteiras; intercâmbio de ideias, bens, valores…

As oportunidades são muitas, como os muitos movimentos favoráveis a uma vida digna, os grupos de Igreja, as boas companhias; educação gratuita cada vez mais acessível; oportunidades para qualificação profissional.

O padre João Batista Libânio, no livro Para onde vai a juventude, 2ª edição, Paulus, 2011, afirmou na Introdução: “A idade juvenil fascina pelo tremendo paradoxo da vulnerabilidade e da potencialidade. Na fragilidade da idade que deixa para trás a serenidade e a segurança da infância, mas ainda não atingiu a solidez da idade adulta, existe estupenda potencialidade. Precisamente porque ainda não aterrissou na maturidade, dispõe do infinito do céu para voar”.

Assim, ao olharmos para todos esses desafios e possibilidades do mundo juvenil, queremos estender a mão ao jovem machucado, doente, desesperançado e dizer como Jesus: “Jovem eu te ordeno, levanta-te” (Lc 7,14). Aos jovens e suas muitas possibilidades, cabe o desafio de Jesus: “Queres ser perfeito? Vai…” (Mt 19,21).

Um jeito de acompanhar a juventude em seu discernimento vocacional e em sua vida e missão é: caminhar na frente para indicar caminhos; caminhar no meio para que descubram caminhos; caminhar atrás para que ninguém se perca no caminho.

Isso exige de nós conversão.

2.3. Conversão pessoal, conversão pastoral

Para caminhar com os jovens, queremos estar abertos à conversão, à mudança de vida.

Assim falam os bispos da América Latina e Caribe na Conferência de Aparecida:

A conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo a serviço da instauração do reino da vida. Os bispos, presbíteros, diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e leigas, são chamados a assumir uma atitude de permanente conversão pastoral, que envolve escutar com atenção e discernir “o que o Espírito está dizendo às Igrejas” (Ap 2,29) através dos sinais dos tempos nos quais Deus se manifesta (DAp 366).

Sim, sair da mesmice, viver a conversão pastoral, reconhecer o protagonismo juvenil; os jovens como sal e luz:

A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Assim, será possível que “o único programa do evangelho siga introduzindo-se na história de cada comunidade eclesial” com novo ardor missionário, fazendo com que a Igreja se manifeste como uma mãe que nos sai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária (DAp 370).

O sínodo é oportunidade de conversão para todos nós, para toda a Igreja. Como fazer essa reflexão? Como provocar esse debate? Quais as possibilidades e oportunidades que temos para escutar a juventude e dar-lhe espaços, voz e vez? Como favorecer o “em saída” para os jovens?

  1. Sair

O sínodo nos pede que ouçamos os jovens, seus gritos e esperanças, e os ajudemos a escutar a voz de Deus e da Igreja, que os chama a sair, como a Abraão: “Sai da tua terra” (Gn 12,1).

Como disse o papa Francisco: “Confiantes no Senhor, cuja presença é fonte de vida em abundância, e sob o manto de Maria, vocês podem redescobrir a criatividade e a força para serem protagonistas de uma cultura de aliança e assim gerar novos paradigmas que venham a pautar a vida do Brasil” (carta aos jovens do Brasil, por ocasião do encerramento do Projeto Rota 300, 3 jul. 2017).

3.1. “Não fostes vós que me escolhestes…”

Como foi dito, o tema do Sínodo dos Bispos é: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. No documento preparatório para o XV Sínodo, o papa Francisco toma o texto de Jo 15,16-17 para falar de vocação: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi e vos designei para dardes frutos e para que o vosso fruto permaneça”. E diz mais: “Por meio do percurso desse sínodo, a Igreja quer reiterar o próprio desejo de encontrar, acompanhar e cuidar de cada jovem, sem exceção”.

O sínodo apresenta aos jovens estas alternativas: ao escutar a voz do Mestre, ficar com ele (“Vinde e vede”, Jo 1,38-39), discernir e responder pela alegria do amor, no matrimônio, ou pela gratuidade, no seguimento na vida religiosa ou sacerdotal.

O que fica evidente é que o papa acredita na juventude, pois afirma: “Um mundo melhor se constrói também graças a vós, à vossa vontade de mudança e à vossa generosidade” (carta aos jovens por ocasião da apresentação do documento preparatório, 13 jan. 2017).

Um milhão… uma geração… O papa também diz: “Mas o meu sonho é maior: eu espero que um milhão de jovens, mais ainda, que uma geração inteira seja, para os seus contemporâneos, uma Doutrina Social em movimento” (prefácio do DOCAT, Paulus, 2016).

Sair do sofá… É possível mudar… Sim. Papa Francisco insiste: “Em Cracóvia, na abertura da última Jornada Mundial da Juventude, pedi-vos muitas vezes: ‘As coisas podem mudar?’ E vós gritastes juntos um barulhento ‘sim’. Aquele grito nasce de vosso coração jovem que não suporta injustiça e não pode inclinar-se à cultura do descarte nem ceder à globalização da indiferença” (carta aos jovens por ocasião da apresentação do documento preparatório, 13 jan. 2017).

Como apresentar essas propostas e desafios que o papa Francisco faz? Que caminhos devemos trilhar e que portas podemos abrir para que os jovens exerçam esse protagonismo?

3.2. Experiências de Missão Jovem

O papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, diz: “Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’ em todas as regiões da terra” (n. 25). Francisco dá uma atenção especial à juventude: “A Pastoral Juvenil, tal como estávamos acostumados a desenvolvê-la, sofreu o impacto das mudanças sociais […]. A nós, adultos, custa-nos ouvi-los com paciência, compreender as suas preocupações ou as suas reinvindicações, e aprender a falar-lhes a linguagem que eles entendem” (n. 105). “Como é bom que os jovens sejam ‘caminheiros da fé’, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra” (n. 106).

As experiências missionárias são um caminho antigo e novo de falar ao coração, à generosidade e ao desejo de solidariedade dos jovens. Constituem espaço real para exercerem o protagonismo, a liderança, abrirem os olhos às realidades mais sofridas, de dor e exclusão, se decidirem a sair do sofá e serem sal e luz, fermento na massa.

No Brasil, vamos encontrar diferentes experiências missionárias que favorecem o crescimento humano e cristão dos jovens; que despertam vocações para o matrimônio, para a vida sacerdotal, para a vida religiosa e consagrada; que geram homens e mulheres mais conscientes e comprometidos com uma Igreja em saída e uma sociedade mais justa.

A CNBB, por meio da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude, organiza a Missão Jovem na Amazônia: a primeira aconteceu no Amazonas, a segunda em Palmas e a terceira em Caxias, no Maranhão, das quais participaram jovens de diferentes regiões do país, numa bela experiência de comunhão, partilha, aprendizado e crescimento pessoal e comunitário.

As experiências missionárias são caminho de formação integral, de conversão pessoal e pastoral. Sim. É hora de reler a vocação de Isaías com nossa juventude e acender o fogo missionário em seus corações: “‘Quem enviarei eu? E quem irá por nós?’ ‘Eis-me aqui’, disse eu, ‘enviai-me’. ‘Vai, pois, dizer a esse povo’, disse ele” (Is 6,8-9).

Como podemos estimular esse espírito missionário nos jovens de nossas realidades?

3.3. Ecologia: quanto menos, tanto mais…

Outro lugar para “sair”, ao qual a juventude é sensível, é a ecologia, o cuidado da Casa Comum (ou a falta dele).

Na encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado com a casa comum, o papa Francisco, falando de educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente, afirma: “Os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente” (n. 209). “Trata-se da convicção de que ‘quanto menos, tanto mais’ […]. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco” (n. 222). “A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora” (n. 223).

As novas gerações podem e devem ser tocadas por esse desafio do “quanto menos, tanto mais”, fazendo frente ao mundanismo, ao consumismo e à consequente destruição da natureza, da casa comum.

Nas mãos da juventude está também o desafio de cuidar do presente e do futuro do planeta. E uma das maneiras são os chamados “quatro erres” (Rs). Este é um dos caminhos que a juventude pode trilhar e ser moldada a viver e divulgar. Com efeito, a redução do consumo de energia, de matérias-primas e recursos naturais é significativa com a aplicação da política dos quatro Rs: reduzir, reutilizar, reciclar e reparar.

Reduzir: o primeiro passo é reduzir os resíduos produzidos, ou seja, controlar o peso e o volume dos resíduos, evitar consumos supérfluos e desperdícios, como o uso excessivo de água, luz e gás.

Reutilizar: a reutilização consiste em utilizar o produto mais de uma vez para o mesmo fim, evitando assim o seu lançamento ao balde de lixo. Esse processo permite minimizar a poluição.

Reciclar: a reciclagem é um processo que permite transformar materiais já utilizados em outros, para nova utilização. Os materiais mais comuns no processo de reciclagem são o vidro, o papel, o papelão, o plástico e os metais.

Reparar: é um processo que consiste na recuperação de certos materiais ainda em condições de ser posteriormente utilizados, como móveis, brinquedos e eletrônicos.

São caminhos simples, concretos e possíveis de serem trilhados pelos jovens nos diferentes grupos juvenis, de diferentes realidades socioculturais e regiões geográficas. Ações concretas e atividades que ajudem a conscientizar os outros, a formar novas gerações cuidadoras da mãe Terra.

3.4. O Sínodo Extraordinário para a Pan-amazônia

Esse sínodo é outro estímulo e ocasião para pensar, junto com as juventudes, quais as preocupações e oportunidades de cuidado com a Casa Comum.

Disse o papa Francisco: “Atendendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região pan-amazônica” (Rádio Vaticano, 15 out. 2017).

O referido sínodo, que se realizará em Roma em outubro de 2019, tem como objetivo principal identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do povo de Deus, e sua relevância se explica, também, por causa da crise da floresta amazônica, de capital importância para nosso planeta.

No Brasil, como poderemos envolver os jovens na preparação desse sínodo, especialmente os que vivem na Amazônia Legal?

3.5. “Não tenham medo de arriscar-se e comprometer-se”

Outro lugar para jovens “em saída” é o espaço das políticas públicas. O papa Francisco diz: “Assim integrados nas suas comunidades, não tenham medo de arriscar-se e comprometer-se na construção de uma nova sociedade, permeando com a força do evangelho os ambientes sociais, políticos, econômicos e universitários! Não tenham medo de lutar contra a corrupção e não se deixem seduzir por ela!” (carta aos jovens do Brasil, por ocasião do encerramento do Projeto Rota 300, 3 jul. 2017).

As juventudes são chamadas a mostrar e viver um caminho de comunhão, respeito e diálogo, atendendo ao “ide” de Jesus: “Ide e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16,15) e do papa, que disse na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro: “Ide, sem medo, para servir”.

Francisco convida os jovens a realizar essa missionariedade em rede:

Por isso, convido a que vocês também deixem que seus corações sejam transformados pelo encontro com Nossa Mãe Aparecida. Que ela transforme as “redes” da vida de vocês – redes de amigos, redes sociais, redes materiais e virtuais –, realidades que tantas vezes se encontram divididas, em algo mais significativo: que se convertam numa comunidade! Comunidades missionárias “em saída”! Comunidades que são luz e fermento de uma sociedade mais justa e fraterna (carta aos jovens do Brasil, por ocasião do encerramento do Projeto Rota 300, 3 jul. 2017).

Como viver o “ide” em comunhão, formando redes de amigos, de comprometimento e solidariedade, nas quais as diferenças são fonte de enriquecimento mútuo, de aprendizado e crescimento, com todos unidos pela vida, especialmente dos jovens e dos empobrecidos?

3.6. O mundo digital e suas possibilidades no mundo juvenil

O papa Francisco assim se expressa sobre o mundo digital, no documento preparatório para o Sínodo dos Bispos: “As jovens gerações são hoje caracterizadas pela relação com as modernas tecnologias da comunicação e com aquele que vem normalmente chamado de ‘mundo virtual’, mas que também tem efeitos muito reais”.

Muitas frases se ouvem quando se reflete sobre o mundo digital, frases como estas: “Sabemos que as novas tecnologias podem ser usadas para o bem ou para o mal…”; “devemos animar os jovens sobre o uso inteligente e prudente da internet…”; “a internet poderia ser utilizada mais amplamente para…”; “importante para o desenvolvimento do trabalho com os jovens…”; “uma inovação que possui dois polos…”; “em parte é bom o desenvolvimento digital…”; “pode ser considerada uma revolução e não apenas mudança…”; “hoje é um grande desafio prescindir da virtualidade em favor da realidade…”.

Diante dos desafios e possibilidades que o sínodo nos traz, como fazer do mundo digital e virtual uma ferramenta para que os jovens falem, se manifestem e sejam ouvidos em suas dúvidas, expectativas, críticas e sugestões, como deseja o papa Francisco?

Como utilizar desses meios para a formação integral dos jovens, para estimular experiências missionárias, de discernimento vocacional, de cuidado pela Casa Comum, e no empenho por políticas públicas para a juventude?

Eis um campo fértil, desafiador e cheio de possibilidades para cuidar da juventude como bons pastores e um lugar para despertar a consciência cristã, a consciência crítica, e criar laços, redes de amizade, de solidariedade e comprometimento.

Conclusão

Disse o papa Francisco: “Possa o Senhor, pela intercessão da Virgem Aparecida, renovar em cada um de vocês a esperança e o espírito missionário” (carta aos jovens do Brasil, por ocasião do encerramento do Projeto Rota 300, 3 jul. 2017).

Com o Sínodo dos Bispos “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, a Igreja quer escutar os jovens. Quer que eles se encontrem com Jesus Cristo, fiquem com ele (Jo 1,38-39) e, ouvindo o chamado e discernindo na fé, digam: “Eis-me aqui, Senhor. Envia-me” (Is 6,6-8).

O papa disse ainda: “Vocês são a esperança do Brasil e do mundo. E a novidade da qual vocês são portadores já começa a construir-se hoje” (carta aos jovens do Brasil, por ocasião do encerramento do Projeto Rota 300, 3 jul. 2017).

Para a Igreja no Brasil, neste Ano do Laicato, a preparação para o sínodo é bela oportunidade para que os jovens, cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade, sejam sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14).

O Sínodo dos Bispos é um kairós, um tempo de graça, para a juventude e para toda a Igreja Católica.

A juventude é janela do futuro, enxerga mais longe, antecipa mudanças. Esse sínodo é uma oportunidade para escutar, aprender e crescer com a juventude, pois, como diz São Bento: “Muitas vezes é exatamente aos mais jovens que o Senhor revela a melhor solução” (Regra de São Bento, 3,3).

Dom Vilsom Basso, scj

*Dom Vilsom Basso, scj, bispo da Diocese de Imperatriz – Maranhão. Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da CNBB.