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Publicado em Novembro - Dezembro Ed.324 - Ano 59

Um espaço para a liturgia

Por Maria Jeydjane Lunguinho Gomes

Introdução

O espaço interior de uma igreja comporta uma ação humana, é lugar de reunião da comunidade. Do ponto de vista teológico-litúrgico, abriga uma ação de Deus, vai muito além da materialidade física, possibilitando a comunhão com Ele.

Para destinar um espaço ao culto, não basta um dimensionamento construtivo e estrutural ou artístico; o espaço litúrgico se define pela liturgia, pelas exigências do rito e do mistério nele celebrado. A organização do espaço litúrgico plasma a fé de forma decisiva. Pode conduzir ao centro do mistério ou pode dispersar para outras direções. Sinais marcam as pessoas a longo prazo, de forma mais durável do que a palavra dita (cf. RICH­TER, 1998, p. 18).

  1. O espaço como sagrado

As primeiras habitações humanas tiveram a função de abrigar das intempéries da natureza, ser proteção contra animais ou inimigos. Esses ambientes eram construções simples: cavidades naturais na terra ou tendas feitas de peles sobre estruturas de madeira. Esta é uma das funções do espaço, mas não a única nem a principal. O homem primitivo já fazia distinção entre as porções do território; ele cria o que chamamos Lugar, espaço habitado, modificado e imbuído de significados. Por exemplo, o espaço destinado à partilha dos alimentos era diferente daquele destinado à caça, e o lugar do cultivo de alimentos não era o mesmo do abrigo para o descanso (cf. BENÉVOLO, 1993, p. 14). Tal compreensão é atual e serve também para as construções religiosas. O Lugar não é constituído apenas de paredes nem de materiais, mas é, sobretudo, o vazio, aquilo que está circundado pela matéria.

Essa natural distinção de espaços se confirma quando se trata de espaço sagrado. Aí a diferenciação acontece de forma mais clara, pois ele se organiza segundo uma articulação heterogênea, em que há uma diferenciação qualitativa, e revela um ponto fixo, um “centro”, que serve simbolicamente como orientação (cf. ELIADE, 1995, p. 26). Conhecemos bem a experiência de Moisés relatada em Êxodo 3,5: “‘Não te aproximes daqui’, disse o Senhor a Moisés; ‘tira as sandálias de teus pés, porque o lugar onde te encontras é uma terra santa’”.

  1. Origem do espaço cristão

Nos primeiros tempos do cristianismo, o lugar da reunião eram as casas de famílias. Por um período, os cristãos mantiveram os costumes judeus e tinham como referência o templo e a sinagoga, mas havia também o costume de se reunir e fazer refeição em casas de famílias, como fez Jesus durante a sua atividade pública e na Última Ceia. Como citam os evangelhos, a casa de Marta e Maria, a casa de Pedro, onde Jesus tantas vezes se hospedou, certamente se tornaram lugares de reunião após a ascensão do Senhor. Na medida em que o cristianismo se desvincula do judaísmo, a sinagoga já não é a sua referência, e o pequeno grupo de convertidos continua o costume de se reunir nas casas. Tal costume foi muitas vezes ignorado, mas é, sem dúvida, de grande importância para o conhecimento de como se deu o surgimento de muitas comunidades nos primeiros séculos.

  1. A casa da Igreja

Segundo o relato de Lucas em Atos 1,13, após a ascensão do Senhor, no andar superior de uma casa, a comunidade ficou reunida em oração. Nos textos do Novo Testamento, aparece muitas vezes o termo Oikós para designar uma família ampliada, quando alguém aderia à fé e se dizia que foi “batizado com toda a sua casa”. Também em suas cartas, o apóstolo Paulo saúda a comunidade que se reúne em casas, como a casa de Priscila e Áquila (cf. Rm 16,5), a casa de Ninfa, em Laodiceia (cf. Cl 4,15), ou ainda a casa de Filêmon (cf. Fm 2) (RICHTER, 1998, p. 51).

A mais antiga casa-igreja está localizada onde hoje é a Síria, perto do rio Eufrates, numa antiga cidade militar romana chamada Dura Europos. Era uma casa familiar construída no ano 232 e ampliada no ano 240 para abrigar a reunião dos fiéis. Nela foi removida uma parede que dividia dois cômodos, proporcionando uma sala mais espaçosa que comportava aproximadamente 60 pessoas. Em uma das extremidades, na parte mais estreita, ficava um estrado de madeira, onde provavelmente se situava a cadeira do bispo. O batismo era feito por imersão, numa sala separada, em respeito aos batizados, pois o rito previa a deposição das vestes. A sala do batismo era adornada com afrescos de inspiração bíblica (cura do paralítico, passagem pelo mar Vermelho, entre outros). No mais, a casa tinha configuração de uma moradia comum: um pátio central, ladeado por salas para acomodação e funcionamento da vida doméstica.

O espaço celebrativo inicialmente não tinha uma atribuição de sacralidade como temos hoje. Para a comunidade primitiva, sagrada era a assembleia reunida. Havia uma autoconsciência de ser templo espiritual, conforme atesta a primeira carta de Pedro (2,5): “Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo”. O espaço, além da sua dimensão celebrativa, era lugar da diaconia e do anúncio da Palavra, tarefas fundamentais na vida cristã. Por isso, o altar era colocado somente na ocasião da eucaristia e retirado em seguida. Até o século IV, o termo Domus Ecclesiae, casa da comunidade, era usado para designar a reunião e também o lugar onde acontecia a liturgia.

Nas catacumbas romanas, grandes galerias subterrâneas escavadas em rocha vulcânica, também se celebrava a liturgia cristã. Não eram espaços usados rotineiramente, por causa da perseguição, mas locais que serviam para celebrações esporádicas. Os romanos usavam-nas como lugar para sepultar os mortos; e os cristãos de Roma aderiram a esse costume, sepultando aí os membros de suas comunidades. As famílias mais influentes e abastadas adquiriam terrenos e doavam à comunidade com essa finalidade. Ali foram sepultados também os mártires, e sobre seus túmulos se celebrava a eucaristia, associando a entrega da vida deles ao sacrifício de Cristo.

  1. As transformações no espaço de culto

Com o final das perseguições em 313, os locais de culto passaram a ser destinados exclusivamente a essa finalidade. As basílicas cristãs, que eram adaptações de edifícios de uso público, passaram a ser o modelo referencial para a construção das futuras igrejas. As basílicas eram construídas na direção leste-oeste e tinham uma organização que previa a cadeira do bispo ladeada pelas cadeiras dos presbíteros e ministros, de frente para a assembleia. O altar recebia destaque por estar num nível mais elevado e circundado pelo cibório, conhecido erroneamente como baldaquino. O ambão, que tinha origem e se inspirava no bema da sinagoga (espécie de estante alta e ampliada), localizava-se na parte central da nave da basílica.

A partir do século IV, surge outro termo, o Oikos Kyriakos, que significa “pertencente ao Senhor”. Surgem interpretações da simbologia da organização do espaço. Eusébio de Cesareia, ainda que reconhecesse no espaço de celebração o rosto da comunidade reunida, interpretou a região do altar como cabeça de Cristo e o restante como o seu corpo. No perío­do da Idade Média, essa distinção evoluiu para uma separação entre o altar, designado ao clero, e a nave, designada aos leigos (cf. RICHTER, 1998, p. 60).

A organização espacial da igreja sofreu muitas transformações ao longo dos séculos, motivadas pelas mudanças na liturgia, pela transformação na compreensão do ser Igreja, que desembocou em modelos muito diferentes das origens, e pela evolução dos sistemas de construção. Da basílica, as igrejas passaram também pelos paradigmas da arquitetura bizantina e ainda pela solidez do estilo românico, pela grandiosidade e suntuosidade do gótico, do barroco e dos movimentos arquitetônicos e artísticos posteriores.

O estilo gótico foi o auge da conquista de muitas transformações na construção do espaço destinado ao culto. Predominava a característica de alcançar grandes alturas, com uma verticalidade exacerbada, direcionando o olhar para o alto. Não obstante os valores artísticos e culturais desse estilo, ele vai na contramão de uma concepção de espaço existente nas casas e também nas basílicas dos séculos IV e V, que permitiam às pessoas formar círculos, ora em torno da Palavra, ora em torno do altar.

No gótico, a disposição do espaço separa ainda mais o clero dos fiéis. Na ação litúrgica, a relação é clero-celebrante, mediador, e a assembleia, “muda espectadora” (SC 48). A participação ativa da assembleia como sujeito deu lugar às devoções paralelas à ação comunitária. O balaústre, que surgiu neste contexto, é um símbolo dessa separação.

  1. O retorno às fontes

Na segunda década do século XX, o mundo atravessa um período de grandes descobertas. Somado à Revolução Industrial e a um vasto movimento artístico, científico e técnico, o desenvolvimento das cidades demarcou um novo estilo de vida. No seio da Igreja, surgem os movimentos litúrgico, bíblico e ecumênico que culminaram no Concílio Vaticano II, o qual propõe um caminho de retorno às fontes, indicando as comunidades dos primeiros séculos como referência da missão de Jesus. Assim, não ignorando a riqueza arquitetônica de séculos, a Igreja passa a ressignificar os espaços de celebração, dando alguns critérios para a sua readequação, à luz dos princípios teológicos e pastorais do Concílio:

– devolver ao altar a centralidade, a dignidade e a visibilidade dentro do espaço como símbolo do próprio Cristo;

– dar o devido lugar ao ambão, conferindo-lhe destaque por ser, como o altar, mesa que oferece o pão da vida na Palavra;

– dispor a assembleia de forma que se manifeste como um corpo, agente ativo da ação e da vida litúrgica, prevendo lugares para a boa atuação dos ministérios;

– destinar uma capela para a reserva eucarística como lugar de oração pessoal;

– devolver à igreja a fonte batismal, valorizando o simbolismo da água, conforme a tradição da Igreja e a recomendação do próprio Ritual do Batismo (cap. III, n. 22);

– retirar os excessos decorativos destituídos de valor simbólico, sem finalidade ritual, motivo de distração para os fiéis.

Conclusão

Depois de 54 anos do Concílio Vaticano II, o rosto das igrejas não esconde as marcas da reforma litúrgica e manifesta nova compreensão de Igreja e nova concepção de liturgia. Podemos afirmar que as construções ou readequações dos espaços de celebração são o reflexo de como se crê e como se celebra. Mas a recepção do Concílio, no que diz respeito ao espaço celebrativo, nem sempre ocorreu nas comunidades, também faltou uma pedagogia para evitar traumas próprios de qualquer mudança. O que se requer é planejamento e processo gradual que permita às comunidades fazer experiência com adaptações provisórias, para que aos poucos possam assimilar as mudanças, apropriar-se de novos modelos e dispensar saudosismos.

Permanece, portanto, o desafio de construir (ou reformar) espaços em sintonia com o espírito do Concílio Vaticano II. O norte é sempre a liturgia, memorial do mistério pascal do Cristo, servidor do Reino, e da sua Igreja, povo sacerdotal, chamado a participar ativa, consciente e frutuosamente.

Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 41, o papa Bento XVI diz:

A profunda ligação entre a beleza e a liturgia deve levar-nos a considerar atentamente todas as expressões artísticas colocadas a serviço da celebração. […] A este respeito, tenha-se presente que a finalidade da arquitetura sacra é oferecer à Igreja que celebra os mistérios de fé, especialmente a eucaristia, o espaço mais idôneo para uma condigna realização da sua ação litúrgica; de fato, a natureza do templo cristão define-se precisamente pela ação litúrgica, a qual implica a reunião dos fiéis (ecclesia), que são as pedras vivas do templo (1Pd 2,5).

Bibliografia

BENÉVOLO, Leonardo. História da cidade. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1993.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

FRADE, Gabriel. Arquitetura sagrada no Brasil: sua evolução até as vésperas do Concílio Vaticano II. São Paulo: Loyola, 2007.

GATTI, Vincenzo. Liturgia e arte: il luoghi della celebrazione. Bologna: EDB, 2001.

RICHTER, Klemens. Espaços de igrejas e imagens de Igreja: o significado do espaço litúrgico para uma comunidade viva. Coimbra: [s.n.], 1998.

ZEVI, Bruno. Saber ver a arquitetura. Tradução de Maria Isabel Gaspar e Gaëtan Martins de Oliveira. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Maria Jeydjane Lunguinho Gomes

Ir. Maria Jeydjane Lunguinho Gomes é religiosa da Congregação Pias Discípulas do Divino Mestre. Arquiteta pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Atua na área de construção e reformas de igrejas no escritório Arquitetura Apostolado Litúrgico. E-mail: jeydgomes@gmail.com