Roteiros homiléticos

10º Domingo do Tempo Comum – 10 de junho

Por Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj*

I. Introdução geral

As leituras de hoje falam sobre pecado, condição que atinge todo ser humano, conforme afirma o apóstolo Paulo, quando diz que em Adão “todos pecaram” (Rm 5,12). Adão e Eva representam todos os seres humanos pecadores diante de Deus. Mas a ênfase das leituras não é o tema do pecado, e sim da misericórdia divina que perdoa o pecador. Afirma o Concílio Vaticano II que o próprio Deus “veio libertar o homem e dar-lhe força, renovando-o no íntimo e expulsando ‘o príncipe deste mundo’ (Jo 21,31), que o mantinha na escravidão do pecado” (GS 13).

Jesus, verdadeiramente homem, Filho de Deus, realizou a vocação humana, destruiu definitivamente o mal e nos associou à sua vitória sobre o pecado e a morte. Essa intervenção de Jesus na história é algo tão concreto, que ignorá-la constitui pecado contra o Espírito Santo. Esse tipo de pecado não é algo que se pratique aqui e ali, é opção de vida somente conhecida por Deus, que sonda os corações. Trata-se de decisão consciente e livre de recusa ao perdão divino.

Afirma o Catecismo da Igreja Católica que a “misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus rejeita o perdão de seus pecados” e a ação santificadora do Espírito Santo (cf. n. 1.864). O perdão de nossos pecados é uma graça, mas essa graça somente nos alcança se quisermos: a salvação é obra de Deus em nós, mas não sem nós.

Por outro lado, quem se torna discípulo e missionário de Cristo se associa intimamente à família de Deus, da qual nunca se aparta, pois fazer a vontade divina é a perfeita comunhão com o mistério de Cristo. Somos família de Jesus.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho (Mc 3,20-35): Tudo vos será perdoado

Cristo, com sua fidelidade ao Pai até a morte de cruz, realizou aquilo que foi o oposto da desobediência humana, simbolizada pelo pecado de Adão e Eva. A intervenção de Cristo na história instaura, a partir de então, o Reino definitivo. Os exorcismos de Jesus são a prova de que o Reino de Deus chegou e de que o mal é obrigado a ceder espaço à verdadeira soberania deste mundo, o senhorio de Cristo.

Nos esportes de luta corporal, ficamos cientes de que o lutador mais forte, seja pela força física, seja pelas estratégias mais elaboradas, é quem vence o mais fraco. A luta de Jesus contra o mal é explicada com metáforas esportivas ou bélicas. Jesus é o mais forte, ele veio em socorro da nossa fraqueza no embate cotidiano contra todas as manifestações do mal. Cabe a nós aderir a esse nosso campeão e saborear essa vitória que também é nossa, pois Jesus nos representa.

É à luz desse tipo de simbolismo que podemos entender o pecado sem perdão, o qual nada mais é que atribuir ao mal aquilo que é ação redentora do Espírito Santo em Jesus. É sem perdão porque Deus respeita nosso livre-arbítrio e, portanto, não pode nos perdoar quando o nosso orgulho atribui ao mal a ação libertadora de Jesus. É sem perdão não por causa de Deus, que a todos perdoa, mas por causa de quem se exclui voluntariamente do perdão e da salvação.

Somente o Pai, que conhece as profundezas dos corações, sabe quem assim procede, não nos cabe julgar ninguém. Portanto, devemos focalizar nossa atenção na palavra de Jesus, segundo o qual o Pai está disposto a perdoar todo pecado. Lembremos que Jesus pediu perdão ao Pai por aqueles que o torturaram e o mataram. Se os algozes de Jesus se abriram ao perdão, foram perdoados, porque Deus tudo perdoa.

De outra parte, não esqueçamos que todos os que abraçam a vontade do Pai e a cumprem perfeitamente, seguindo o exemplo do Filho, estão unidos a Jesus com fortes vínculos, comparados aos mais estreitos laços afetivos familiares. Dessa união com Cristo, na única vontade do Pai, é que os cristãos tiram a força para vencer o mal.

  1. I leitura (Gn 3,9-15): E, chamando-o, disse o Senhor: “Onde estás?”

Culpada por transgredir o mandamento divino, a humanidade é reencontrada por Deus, que toma a iniciativa de retomar os vínculos de amizade rompidos. O homem lança a culpa na companheira, e esta, na serpente. Mas Deus os conduz pedagogicamente a assumir a responsabilidade pelos próprios atos e as consequências de suas atitudes. A justiça de Deus é pedagógica; ele se compadece do ser humano, não o deixa à mercê do próprio egoísmo e promete-lhe a vitória sobre o mal, simbolizada no esmagamento da cabeça da serpente.

Uma luta deve ser travada entre o ser humano e o mal; dessa luta ele sairá machucado no calcanhar, mas será totalmente vitorioso e não terá ferimento mortal, suas feridas serão sinais de que lutou intensamente. Eis a sublime vocação humana.

  1. II leitura (2Cor 4,13-5,1): O Senhor nos dará o perdão e a sustentação

Quaisquer que sejam as obrigações e os problemas, próprios das limitações da criatura e da história, os cristãos têm motivo suficiente para não sucumbir ou desanimar. Os cristãos possuem a fé, antídoto eficaz contra o desânimo em tempos de angústias e tribulações.

A fé permite discernir tudo corretamente. Ela nos dá como foco aquilo que é invisível aos que não têm fé. Ver além das aparências é acreditar no perdão para todos, acreditar na bondade de quem age de modo que nos parece errado, acreditar na fé de quem parece afastado da Igreja. Ver com o olhar de fé é ver o outro como Deus o vê; por isso, onde existe fé, não há preconceito nem exclusão. Quem não tem fé se apega às aparências, ao que é transitório, temporário, superficial. Ao contrário do que comumente se pensa, as coisas invisíveis são muito mais reais e verdadeiras do que as coisas que nos parecem mais concretas.

A expectativa da felicidade após a morte é assegurada pela fé na misericórdia de Deus, que a todos perdoa. A Bíblia usa um símbolo muito forte para expressar isso. A nossa vida terrestre é comparada a uma tenda, que pode ser desarmada a qualquer momento, e a vida pós-morte é como uma “moradia”, um lugar de descanso, a casa do Pai. Quem deu morada a Deus na tenda terrestre terá lugar assegurado na cidade celeste.

III. Pistas para reflexão

O evangelho de hoje traz questões aparentemente difíceis, como o pecado contra o Espírito Santo e “os irmãos de Jesus”. São difíceis quando se tira o foco da intenção do evangelista e se passa a concentrar a atenção no que é secundário.

Primeiramente, o principal é a misericórdia de Deus, que nos perdoa sempre. Se alguém não quer ser perdoado, isso é problema de Deus, é da competência do Pai, não cabe a nós resolver. A menção ao pecado contra o Espírito tem por objetivo apenas garantir o livre-arbítrio do ser humano e uma chamada de atenção para que não confundamos a ação de Deus com a ação do mal, totalmente distintas uma da outra.

Na nossa época não é diferente, muitas pessoas confundem o bem com o mal. Atualmente muitos consideram bom algo que é mau, como a pena de morte, a eutanásia, a intolerância, o enriquecimento ilícito por meio da desonestidade, da corrupção ou da injustiça etc., ou consideram más coisas que são boas, como a fraternidade, a justiça social, a tolerância. Quem assim procede, orientando toda a vida nesse sentido, está apostando na vitória do mal sobre o bem no mundo atual e dificilmente pode ter fé num mundo futuro, definitivo, sem a presença do mal.

Também tira o foco do que é essencial uma homilia que se dedique a explicar a expressão “irmãos de Jesus”. Sobre essa expressão, o presidente da celebração deve orientar os fiéis para que leiam na própria Bíblia as notas de rodapé que a explicam. Isso educa os católicos a usar a Bíblia ou a fazer um estudo bíblico introdutório. A homilia não deve perder tempo com isso, porque vai tirar o foco do que é essencial.

O evangelista está tentando mostrar que os parentes de Jesus, da mesma forma que os escribas, não entendiam a missão dele. Enquanto os escribas orgulhosos e invejosos atribuíam as ações de Jesus ao poder do mal, os parentes de Jesus pensavam que ele estava em perigo e tentavam protegê-lo, faziam o que é próprio da família. Amar as pessoas é preocupar-se com elas. Jesus sabe disso e, sem desfazer-se dos familiares, amplia a noção de família para além dos laços sanguíneos, remetendo-a aos vínculos de amor.

Não esqueçamos que a narrativa menciona que Jesus e seus discípulos chegaram à casa de alguém e pretendiam tomar uma refeição, mas um grande número de pessoas foi ali à procura dele e Jesus lhes deu atenção. Ele já não tinha tempo para si, e seus familiares se preocuparam, achando que estivesse ficando louco – literalmente, “fora de si”. Os familiares não entenderam aquelas atitudes e quiseram levá-lo de volta para cuidar dele. Jesus pensa numa família mais ampla, nos que são filhos obedientes da vontade do Pai, quer doar-se a esses irmãos, servir a essa família universal.

Nos tempos atuais, também soa como loucura doar-se aos serviços da comunidade, no serviço a Deus e aos irmãos, pois vivemos num mundo de relações mercantilizadas, segundo as quais “tempo é dinheiro” e é considerado “coisa de louco” perder tempo com aquilo que não dá nenhum retorno financeiro.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj*

*Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora
do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com