Roteiros homiléticos

12 de fevereiro – 6º Domingo do Tempo Comum

Por Pe. Ivonil Parraz

Cumprir a vontade do Pai

I. Introdução geral

A verdadeira justiça: eis o tema que perpassa as leituras deste domingo. Tornamo-nos justos se seguirmos a Palavra normativa de Deus. Tornar-se justo não   consiste em mérito pessoal, mas do Pai. Deus nos justifica se seguirmos sua vontade!

Na primeira leitura, o autor do livro do Eclesiástico nos apresenta o livre-arbítrio do ser humano e o amor e a fidelidade de Deus. O Pai não deixa seus filhos entregues ao erro. A eles propõe seus mandamentos! Estes não são impostos, mas propostos. Tanto é assim que dotou o ser humano com a faculdade de escolher! Na liberdade, todos nós somos convidados a optar pela vida (bem). Quanto mais conhecemos a vontade do Pai, mais livre somos para escolher o bem!

Na segunda leitura, Paulo trata da “sabedoria misteriosa de Deus”. Esta somente   os “perfeitos” conhecem. Na linguagem de Paulo, os “perfeitos” são os amadurecidos na fé. Os maduros na fé, por sua vez, são aqueles que, alicerçados na Palavra do Senhor, abrem-se ao Espírito Santo para, iluminados por ele, compreender o Projeto de Salvação do Pai, expresso na cruz de Jesus Cristo.

No evangelho, Jesus reinterpreta o Decálogo. Ele apresenta-se como a plenitude da Lei de Deus. “Não vim abolir a Lei, mas dar pleno cumprimento” (v. 17). Jesus é a expressão do espírito da lei: ele é a sua hermenêutica! Ser discípulo de Jesus Cristo consiste em vivenciar o espírito da Palavra normativa do Pai! Sua Igreja (Povo de Deus), como germe do Reino de Deus, deve ser a hermenêutica dos mandamentos divinos.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho: Mt 5,17-37

O tema sublinhado nesse trecho do evangelho refere-se à lei: Jesus reinterpreta o Decálogo. Nessa reinterpretação, encontram-se três atitudes de Jesus: continuidade: “Não vim abolir”; plenitude: “dar pleno cumprimento”; ruptura: “Ouvistes o que foi dito aos antigos […] Eu porém vos digo”. Jesus não fica na letra da lei, mas penetra o seu espírito. Ele vai além da letra.

No “ir além” está o espaço da generosidade e da criatividade. A generosidade e a criatividade de Deus são infinitas. O que importa a Jesus é a vontade do Pai. Ele reinterpreta algumas leis do Primeiro Testamento. Faz uma demonstração de como é possível dar o passo necessário para ir além da letra da lei.

A meta do discípulo consiste em proceder segundo o modo de proceder do Pai. Ora, a generosidade caracteriza o proceder do Pai: “faz o sol nascer sobre bons e maus”. A reinterpretação de Jesus culmina em seu pedido aos discípulos: “sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (v. 48). Assim, o discípulo de Jesus, ao cumprir a lei de Deus, deve ser generoso e criativo como o Pai. Aliás, é exatamente essa generosidade, essa criatividade que nos conduz às leis de Deus.

a) Jesus: a plenitude da lei

Jesus não veio para abolir todo o ensinamento do Primeiro Testamento. Isso está expresso em sua fala: “Não penseis que vim abolir a lei e os profetas” (v. 17). Ao contrário, sua vinda dá pleno cumprimento da lei e os profetas. Ele os plenifica. Nesse sentido, pode-se sustentar que Jesus encarna a vontade do Pai: sua vida, seus ensinamentos, seus gestos expressam o espírito da lei e os ensinamentos nos profetas.

No v. 20, Jesus ensina como deve ser o procedimento do discípulo em relação à Palavra normativa do Pai: “Se vossa justiça não for maior…”. A entrada no reinado de Deus exige radicalidade e aprofundamento no cumprimento da vontade do Pai. A artificialidade no cumprimento da lei redunda na interdição à entrada do Reino.

A perpetuidade da lei apresentada no versículo 18 toma sentido em relação ao versículo anterior: a plenitude da lei, ou seja, o cumprimento do espírito da lei, permanece válida para sempre. Ora, o espírito da lei revela a generosidade do Pai. Para agirmos como ele, devemos ser criativos. Com efeito, a obediência à letra da lei, sem ir além, torna-a caduca! Não faz sentido a sua permanência! Só permanece eternamente o que o espírito da lei suscita em nós: “sermos perfeitos como o Pai”.

No versículo 19, Jesus acentua a prática dos mandamentos. O modo de os discípulos praticá-los encontra-se no versículo posterior: “Se a vossa justiça não for maior…”.

b) Não cometer homicídio

Jesus entende o quinto mandamento, “não matar”, não somente no sentido de tirar a vida física de alguém, mas como toda e qualquer forma de “matar” a relação com o outro. Assim, encolerizar-se com o irmão leva-nos a romper relação com ele. Configura-se como uma espécie de morte do outro: não nos relacionamos mais com ele. “Chamar o irmão de tolo” consiste, aos olhos de Jesus, num homicídio espiritual: matamos o outro com nossas afirmações. Em suma, toda opção que nos conduz a romper relação com o próximo, toda atitude que interdita ao outro a sua dignidade de pessoa humana, toda política que nega ao outro o seu pleno desenvolvimento humano, toda espécie de preconceito, todo julgamento moralista encontram-se incluídos no quinto mandamento.

c) Liturgia e reconciliação

Intimamente ligados ao mandamento “não matar”, na reinterpretação dada por Jesus, encontra-se o verdadeiro culto prestado a Deus (liturgia) e a reconciliação. Não podemos participar do banquete que o Pai nos preparou sem nos reconciliarmos com o nosso irmão. Não há como sentar-nos à mesa com o Pai se excluímos da nossa vida o nosso irmão. Nada podemos ofertar ao Pai se não oferecemos amor ao próximo. Não há liturgia sem comunhão fraterna: uma exige a outra!

d) Não cometer adultério/não repudiar a esposa

No decálogo, proíbe-se o adultério e desejar a mulher do próximo. Mas o adultério e o desejo de possuir não se encontravam no mesmo nível. Havia um fosso entre o ato e o desejo. Aos olhos de Jesus, a ação humana está ligada à sua intenção. No coração humano (sede de sua decisão) encontram-se as raízes profundas das decisões. Assim, o ato (externo) humano decorre de sua decisão (interna). Jesus não separa o exterior do interior. Comete-se adultério quem desejar a mulher do próximo!

e) Não jurar

As relações inter-humanas assentam-se na confiança. Sem ela, não há possibilidade de relação social. Quando juramos, está implícita a desconfiança na palavra comunicada. Jesus procura eliminar qualquer relação assentada na falta de sinceridade.

A vontade do Pai exige adesão total. Deus não tolera observância fragmentada de sua Palavra normativa. Observar parcialmente a lei de Deus redunda na interdição de adentrar o seu Reinado. Deus, autor da vida, exige a nossa vida e não simplesmente alguma coisa de nós.

  1. I leitura: Eclo 15,16-21

O livro do Eclesiástico (Sirácida) nos apresenta, nesse trecho, o livre-arbítrio humano e o amor e a fidelidade de Deus. Ao criar o ser humano, Deus “o entregou às mãos do seu arbítrio” (v. 14). Ofereceu-lhe seus mandamentos e o revestiu de inteligência. O ser humano tem, portanto, o poder de escolher! Deus a ele nada impõe, apenas propõe: “se quiseres guardar os mandamentos, eles te guardarão” (v. 16). “Se confias em Deus, tu também viverás” (v. 16). Observar os mandamentos de Deus e nele confiar consiste em viver! A vida entregue nas mãos de Deus (confiança) traduz-se na observância dos mandamentos divinos.

“Diante do ser humano estão a vida e a morte, o bem e o mal” (v. 18). Cabe-lhe escolher entre os opostos. Seguir a vontade de Deus, expressa em sua Palavra normativa, consiste em optar pela vida e pelo bem. Confiar em si mesmo e não em Deus redunda em escolher a morte e o mal.

Embora o ser humano seja livre para escolher entre os opostos, é sábio escolher o bem, ou seja, a vida! O exercício da liberdade encontra-se indissociável da sabedoria. Quanto mais conhecemos a vontade divina, mais livres somos para escolher!

Deus “não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença para pecar” (v. 21). O Pai quer que seus filhos escolham o caminho da salvação. Ele não quer que nos entreguemos ao absurdo do pecado. Este não se apresenta como condição própria do ser humano. Deus nos criou não para pecar, mas para não pecar! O pecado, portanto, não é inevitável! O Pai se preocupa com seus filhos. Sua Palavra normativa aponta o caminho para evitar o pecado. Em nossa liberdade, podemos evitar o mal. Se agimos com sabedoria: seguir a vontade de Deus, que é caminho da salvação, no exercício de nossa liberdade, evitamos o erro!

  1. II leitura: 1Cor 2,6-10

Neste trecho da sua primeira carta aos Coríntios, Paulo fala da “misteriosa   sabedoria de Deus” (v. 7). Não se trata de contrapor a sabedoria humana à sabedoria da cruz. Trata-se de aceitar na fé o anúncio do Cristo crucificado e sua compreensão mediante a iluminação do Espírito Santo.

A “misteriosa sabedoria de Deus” refere-se à cruz de Cristo. Ter acesso a essa sabedoria que o mundo não conhece não consiste apenas na fé em seu conteúdo, mas em sua compreensão. Esta só se atinge mediante a iluminação do Espírito do Senhor.

Essa “sabedoria escondida” (v. 7) expressa o plano de salvação de Deus, centrado na cruz de Cristo. Nela encontra-se o modo pelo qual o Pai, “desde a eternidade”, projetou a salvação gratuita do ser humano, chamando-o (predestinando-o) a participar da glória de Jesus Cristo ressuscitado mediante a sua cruz.

Ora, no amadurecimento da fé pode-se atingir essa sabedoria. Aberto à ação do Espírito Santo, o cristão caminha na compreensão do plano salvífico do Pai. Inseparável da cruz de Cristo, o projeto do Pai é compreendido na participação de vida no amor.

III. Pistas para reflexão

Observar os mandamentos do Senhor, com toda a profundidade com que Jesus os reinterpretou, conduz o cristão ao caminho da salvação. Nossa observância da Palavra normativa de Deus nos possibilita a entrada no Reino de Deus? Nossa justiça é maior do que a dos “escribas e fariseus”?

A comunidade cristã propicia criatividade e generosidade tal como exigem as normas divinas?  Nela há espaço para todos? Promove a reconciliação entre irmãos para que a liturgia seja comunhão fraterna?

Sou maduro na fé? E minha comunidade? Conheço a vontade do Pai para poder escolher, com liberdade, o bem e a vida? Minha comunidade promove formação para que todos tenham acesso ao conhecimento da Palavra de Deus?

Pe. Ivonil Parraz