Roteiros homiléticos

16 de abril – Domingo da Páscoa

Por Celso Loraschi

Testemunhas da ressurreição do Senhor

I. Introdução geral

A verdade da ressurreição mexe com a nossa vida, como aconteceu com as primeiras testemunhas. Tudo adquire um sentido novo. A alegria invade o nosso ser. A esperança se renova, baseada na certeza da vida em plenitude, dom de Deus! A fé na ressurreição imprime novo dinamismo em nossa caminhada terrena. A atitude de Maria Madalena nos inspira a partilhar as descobertas que prenunciam uma boa notícia. A sua atitude, bem como a de Pedro e a do discípulo amado, reflete as reações dos participantes das comunidades cristãs diante do fato da ressurreição (evangelho). Ao participar da comunidade de fé, experimentamos que Jesus está vivo. A ressurreição de Jesus é um fato histórico, com testemunhas oculares; faz parte essencial do credo cristão, conforme percebemos na catequese de Pedro junto à comunidade cristã reunida na casa de Cornélio, um centurião romano. A fé na ressurreição derruba barreiras que separam os povos e provoca novas relações baseadas no amor fraterno (I leitura). Ela nos faz viver de um novo modo, já não voltados para interesses egoístas, mas para “as coisas do alto” (II leitura). A celebração da Páscoa do Senhor Jesus é oportunidade de nos deixarmos invadir pelo amor misericordioso de Deus e seguir a Jesus com entusiasmo.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura (At 10,34a.37-43): O querigma cristão

O capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos constitui uma página de especial importância. Lucas (o mesmo autor do evangelho) revela uma de suas intenções fundamentais: a salvação trazida por Jesus Cristo é para todos os povos. Pedro, depois de um processo de relutância e discernimento, aceita o convite para entrar na casa de um pagão, centurião romano, chamado Cornélio. É a porta de entrada para o mundo dos gentios, missão que será assumida integralmente por Paulo.

É significativo o fato de ser Pedro aquele que primeiro rompe a barreira do judaísmo exclusivo para dialogar com os estrangeiros. É recebido por Cornélio com muita reverência. Lucas enfatiza a autoridade de Pedro, representante dos apóstolos. Quer fortalecer a fidelidade à tradição apostólica. A atitude de Pedro na casa de um romano legitima a abertura para todos os povos. Jesus é o Salvador universal.

Cornélio revela-se extremamente receptivo à pessoa e à mensagem de Pedro. De fato, a resistência ao anúncio do evangelho é perceptível muito mais entre os judeus do que entre os gentios. O próprio Pedro manifesta dificuldade em desvencilhar-se do exclusivismo judaico e da lei de pureza. Converte-se à medida que se insere no lugar social dos estrangeiros, a ponto de comer com eles. É na casa de Cornélio que ele se abre verdadeiramente para o plano divino de salvação universal: “Dou-me conta de verdade que Deus não faz acepção de pes­soas, mas que, em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça lhe é agradável” (10,34-35). O critério de pertença ao povo de Deus já não é a raça ou o cumprimento da Lei, e sim a prática da justiça. Por esse caminho, dá-se a inclusão de todos os povos, sob a ação do Espírito Santo. As comunidades cristãs primitivas concretizaram esse ideal. Formadas por pessoas de culturas diferentes, reuniam-se nas casas, ao redor da mesma mesa e unidas na mesma fé.

O discurso de Pedro constitui um resumo da catequese primitiva. É a síntese do querigma apostólico. Apresenta Jesus de Nazaré desde o seu batismo, passando pela sua missão de resgate da vida e dignidade de todas as pessoas, pela sua morte de cruz, culminando com a sua ressurreição. O anúncio de Pedro é fundamentado em seu próprio testemunho e no de várias outras pessoas: “Nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez” (v. 39); “Nós comemos e bebemos com ele, após sua ressurreição dentre os mortos” (v. 39). O discurso termina com a confissão de fé em Jesus como juiz dos vivos e dos mortos, constituído por Deus e anunciado pelos profetas. E finalmente: “Todo aquele que nele acreditar receberá a remissão dos pecados” (v. 43).

  1. II leitura (Cl 3,1-4): Cristo é a nossa vida!

A comunidade cristã da cidade de Colossas, na Ásia Menor, manifestava certo distanciamento das verdades fundamentais da fé. Havia pessoas que, influenciadas por tendências da época (por exemplo, a importância dada às forças cósmicas, depositando nelas toda a confiança), observavam práticas religiosas, dietas e exercícios de ascese (2,16-23) levadas por “vãs e enganosas filosofias”. Havia também pessoas levadas pela “fornicação, impureza, paixão, desejos maus e a cobiça de possuir” (v. 5). O autor da carta preocupa-se com essa situação e, por isso, escreve aos colossenses no intuito de orientá-los para uma vida coerente com a fé em Jesus Cristo, único mediador entre Deus e as criaturas.

Nessa pequena leitura deste domingo da Páscoa, encontramos quatro pontos do querigma cristão que fundamentam a fé das primeiras comunidades: a morte de Jesus, sua ressurreição, sua exaltação à direita de Deus e sua volta. Cada um desses pontos é indicativo de atitudes que caracterizam o novo modo de viver dos cristãos.

A fé na morte de Jesus Cristo implica a morte de nossos maus comportamentos. Para os cristãos colossenses, implicava morrer para as práticas religiosas que contradiziam a fé cristã; implicava passar de uma mentalidade idolátrica para o mergulho na vida divina, seguindo a Jesus Cristo: “Vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”.

A fé na ressurreição e na ascensão de Jesus Cristo implica discernir o que realmente edifica o ser humano em comunidade: “Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto…”. Quem permanece com o pensamento e o coração mergulhados em Deus vive dignamente.

A fé na volta de Jesus nos motiva a viver na esperança militante, com a certeza de estarmos com ele: “Quando Cristo, que é vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados em glória”.

  1. Evangelho (Jo 20,1-9): O dia da nova criação

O primeiro dia da semana indica um novo tempo. Tem ligação com o início da criação do mundo. A morte de Jesus significou a passagem das trevas para a luz que nunca mais se apagará. A fé na ressurreição, porém, não se processa da mesma maneira em todas as pessoas. Algumas precisam de um tempo maior para assimilar essa verdade que tudo transforma. Maria Madalena recebe especial distinção: ainda no escuro, dirige-se ousadamente ao túmulo de Jesus. Apesar de ver a pedra removida, não consegue ainda perceber a luz do sol (Jesus, que ressuscitou) anunciando uma nova aurora. Perplexa, corre ao encontro de Simão Pedro e do discípulo que Jesus amava para dizer-lhes de sua preocupação com o que havia constatado. O seu anúncio provoca a movimentação dos dois discípulos na busca do verdadeiro sentido dos últimos acontecimentos.

Maria Madalena, nesse relato de João, é representativa da comunidade que não aceita permanecer acomodada. Busca ansiosamente a explicação do que realmente aconteceu naquele “primeiro dia da semana”. É atitude muito positiva, pois “quem busca encontra e quem procura acha”. Por isso, ela é especialmente valorizada. Jesus deixa-se encontrar. Impulsionada pelo amor, caminha na direção do Amado. O maravilhoso encontro de Maria Madalena com Jesus ressuscitado se dá logo a seguir (20,11-18).

A comunidade cristã primitiva reconhecia-se no jeito de ser de Maria Madalena, de Pedro e do discípulo amado. Havia pessoas que ainda permaneciam nas “trevas” da morte de Jesus; sentiam-se desamparadas e desorientadas. Havia as que não conseguiam acolher a verdade da ressurreição de Jesus. Diziam que seu corpo fora retirado por alguém e que se inventara a notícia de que ele havia ressuscitado. É o que se percebe na expressão de Maria Madalena: “Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram”. Essas pessoas ainda estão no emaranhado de dúvidas, porém, pouco a pouco, receberão a graça de reconhecer a ressurreição de Jesus como um acontecimento verdadeiro e não como uma lenda.

Pedro e o discípulo que Jesus amava, ao ouvirem a notícia de Maria Madalena, correm para o local onde Jesus fora enterrado. Partem juntos, mas Pedro corre menos. É intenção dos autores do Evangelho de João demonstrar a dificuldade de Pedro em entender e aceitar o verdadeiro significado da morte de Jesus. Talvez esteja ainda amarrado à sua vergonha de ter negado o Mestre e de tê-lo abandonado na hora decisiva. Pedro, porém, segue o discípulo que Jesus amava e, na tarde desse mesmo dia, fará a experiência maravilhosa de encontrar-se com o Ressuscitado junto com outros discípulos (20,19-23). Também na comunidade cristã havia pessoas que manifestavam resistência a aderir a Jesus morto e ressuscitado com convicção de fé. Lentamente, porém, com a ajuda dos “discípulos amados”, chegaram a trilhar o caminho do seguimento de Jesus, a ponto de dar a vida por ele, como aconteceu com o próprio Pedro.

O “discípulo que Jesus amava” chega mais depressa ao túmulo. Esse discípulo é aquele que, junto com algumas mulheres, acompanhou Jesus até a cruz (19,25-27). Testemunhou sua morte e lhe foi solidário. Agora também mostra solidariedade para com Pedro, que chega depois. Dá-lhe preferência para entrar no túmulo. Reconhece sua autoridade. Ao entrar, Pedro vê as faixas de linho e o sudário. O texto não diz que ele acreditou, apenas “viu”. Porém, do discípulo amado, diz que ele “viu e acreditou”. Os mesmos sinais são interpretados de forma diferente. Para quem ama a Jesus e se sente amado, nada o impede de crer na vitória da vida sobre a morte.

Os discípulos voltam para casa. É na casa que as comunidades primitivas se reúnem para ler e compreender a Sagrada Escritura, fazer a memória de Jesus, partilhar a experiência de fé e crescer no amor fraterno. É na casa que se derrubam as barreiras separatistas e se exercita a acolhida respeitosa da alteridade. A Igreja nas casas vai constituir o espaço sagrado por excelência no qual Jesus ressuscitado manifesta sua presença, se dá em alimento e convoca seus discípulos à missão.

III. Pistas para reflexão

— Jesus ressuscitou: a vida já não é a mesma. Maria Madalena se distingue por sua coragem. Ela vai ao túmulo, mesmo no escuro. Seu amor a Jesus não permite que permaneça afastada. Procura entender o sentido da morte de Jesus. Não é acomodada nem derrotista. Vai ao encontro dos discípulos e lhes anuncia uma notícia inquietante: o túmulo está vazio. A sua ousadia na busca da verdade a levará ao encontro com Jesus ressuscitado. Pedro, apesar de sua boa vontade em seguir a Jesus, ainda permanece na dúvida. O discípulo que Jesus amava é o mais rápido para “ver e crer”. Não precisou ver Jesus com os olhos da carne. Quem ama e se deixa amar por Jesus caminha na certeza de que ele está vivo.

— A fé na ressurreição derruba barreiras. O encontro de Pedro com Cornélio corresponde à atitude das pessoas que amam a Deus acima dos preconceitos humanos. A fé em Jesus Cristo como salvador do mundo derruba as barreiras de raças e de tradições culturais e religiosas que dividem as pessoas. Nada pode impedir o diálogo, a reconciliação, o respeito mútuo e a vivência do amor fraterno. O espaço privilegiado para essa vivência é a casa. O que aconteceu na casa de Cornélio nos anima a fortalecer o modelo da Igreja como Comunidades Eclesiais de Base; também nos incentiva ao compromisso com o ecumenismo e com o diálogo inter-religioso.

— A vida mergulhada em Jesus Cristo. Como aconteceu entre os cristãos colossenses, também hoje corremos o perigo de nos deixar arrastar por ideologias que contradizem o evangelho. É importante cultivarmos a prática do discernimento para assumir os valores que nos conservam na vontade de Deus e edificam a nossa vida. Professar a fé em Jesus Cristo implica viver dignamente, bem como respeitar a dignidade das demais pessoas e da natureza.

Celso Loraschi

*Mestre em Teologia Dogmática com Concentração em Estudos Bíblicos e professor de evangelhos sinóticos e Atos dos Apóstolos no Instituto Teológico de Santa Catarina (Itesc). E-mail: loraschi@itesc.org.br