Roteiros homiléticos

18 de junho – 11º Domingo do Tempo Comum

Por Pe. Johan Konings, sj

O novo povo de Deus

I. Introdução geral

Deus quis um povo para si, um povo santo, um povo “sacerdotal”, para santificar o mundo todo em seu nome. Um povo que fizesse sua vontade, realizasse seu reino: “um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6; 1ª leitura). Essa vocação do povo, por ocasião da proclamação da Lei no monte Sinai, prefigura aquela vocação mais plena que, no monte da Galileia, Jesus dirigiu a doze humildes galileus. Eles são como que representantes das doze tribos de Israel, e ele os manda para a colheita messiânica, para ceifar com a palavra do evangelho, anunciando a vinda do Reino. Eles são o começo do verdadeiro Israel, o novo povo de Deus. Os sinais disso são os prodígios que os acompanham na sua missão: curam enfermos, limpam leprosos, ressuscitam mortos, expulsam demônios… (Mt 10,8, evangelho).

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura: Ex 19,2-6a

A 1ª leitura narra que Deus escolhe um povo para si. Este texto, que expressa a eleição de Israel como povo de Deus, é o início do relato da Aliança do Sinai (Ex 19,1–24,11). Nas palavras pronunciadas por Javé, Israel é chamado de reino sacerdotal e povo santo. Javé, a quem pertencem todas as nações (v. 5: “minha é toda a terra”), faz de Israel a sua porção escolhida (seu quinhão, sua “herança”). Não porque Deus precise tomar posse dessa parte (tudo lhe pertence), mas para que essa parte escolhida dê a conhecer e celebre a sua santidade (sua transcendência e perfeição) no meio de todas as nações da terra. É essa a função “sacerdotal” do povo.

A formulação atual do texto reflete a época, depois do exílio (por volta de 500 a.C.), quando os sacerdotes estão empenhados em reconstituir o povo de Israel em torno do culto e do Templo.  Ensinados pela experiência histórica, eles têm consciência de que a vocação do povo não é de exercer o domínio sobre os outros povos, mas de testemunhar a transcendência de seu Deus e o amor fiel com que ele protege o seu povo, que acaba de sair da opressão. De fato, assim como no texto do Êxodo os israelitas acabam de sair da “casa da servidão” no Egito, os contemporâneos dos autores “sacerdotais” que formularam o texto em sua forma atual acabam de sair da opressão no exílio babilônico.

Neste sentido, o texto que fala da libertação que aconteceu setecentos anos antes (v. 4: “Vistes o que fiz aos egípcios e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim”) representa o hoje do povo depois do exílio. O povo de Deus será para o mundo o que os sacerdotes são para as tribos de Israel: celebrantes de seu nome e santidade. O povo é escolhido não para seu próprio proveito, mas para consagrar todas as nações a Javé. É essa a finalidade da Lei e de suas instituições religiosas. Isso se chama: Aliança. Como na história do Israel antigo, o mundo reconhecerá no povo renovado a mão carinhosa e santa de seu Deus.

  1. Evangelho: Mt 9,36-10,8

O evangelho de hoje narra a missão dos doze apóstolos por Jesus. Anteriormente, Jesus havia mostrado por palavras e ações portentosas a irrupção do reino de Deus (Mt 5-9). Agora, sensibilizado pela necessidade do “rebanho sem pastor” (9,35), Jesus manda seus discípulos como operários à colheita do tempo final, a colheita messiânica (9,36-38). Por enquanto, a missão se restringe à região de Israel (10,5), sem entrar nos povoados e cidades dos gentios espalhados na terra da Palestina e na diáspora. Depois da Ressurreição, porém, a missão se estenderá ao mundo inteiro (28,19). Os discípulos devem anunciar a chegada do Reino por palavras e sinais (curas, prodígios), assim como Jesus o fez, pois desde que Jesus iniciou a sua obra no meio da humanidade, o mundo está sob o signo do reino de Deus.

Mateus inseriu esse episódio, significativamente, depois dos dois conjuntos iniciais da atividade de Jesus, sua pregação (Mt 5-7) e sua atividade milagrosa (Mt 8-9). A missão que os apóstolos recebem é, exatamente, a de pregar e de curar: fazer a mesma coisa que fez o Messias. Eles são seus colaboradores e continuadores na ceifa messiânica. Jesus quer pôr fim à situação desoladora de um povo que é como ovelhas sem pastor (9,36). Conforme a linguagem de Ezequiel, nos últimos tempos, Deus mesmo, através de seu Messias, reunirá as ovelhas dispersas e se tornará o Bom Pastor (Ez 34). É nesta missão que os apóstolos vão participar, realizando, assim, a plenitude do povo eleito, que, como aprendemos na 1ª leitura, é a comunidade que deve manifestar a santidade e a bondade de Deus no meio do mundo.

  1. II leitura: Rm 5,6-11

A 2ª leitura não está diretamente ligada ao tema principal da liturgia de hoje, mas, ainda assim, oferece um pensamento que enriquece o tema principal. Continuando a lectio continua da carta de Paulo aos Romanos, como nos domingos anteriores, o texto de Rm 5,6-11 vem oportunamente sublinhar um subentendido fundamental das duas outras leituras: a “compaixão”, a misericórdia, o amor gratuito de Deus. Ele nos amou enquanto éramos inimigos (prova maior da gratuidade do amor!) e deu seu Filho por nós.

Se, porém, se quiser escolher um texto alternativo que acompanhe melhor as duas outras leituras, ou embuti-lo na homilia, apresenta-se o texto da 1ª carta de Pedro que descreve a comunidade cristã como nação santa, sacerdócio real (1Pd 2,5-10). O conjunto da carta mostra, então, como o autor concebia, naquele tempo da segunda geração cristã, a vocação desse novo povo de Deus e novo Templo, construído com pedras vivas: a vida santa da comunidade testemunhal no meio de um mundo desorientado, mas ao mesmo tempo em busca de valores superiores e disposto a perguntar aos cristãos acerca das “razões de sua esperança” (1Pd 3,15).

III. Dicas para reflexão: O novo povo de Deus

O evangelho narra a vocação e missão dos doze apóstolos de Jesus. No Antigo Testamento, Deus escolheu as doze tribos de Israel para ser seu “povo sacerdotal”, povo que devia celebrar e mostrar aos outros povos a santidade de Javé, sua Lei e seu reinado (1ª leitura). Ora, o evangelho conta que Jesus encontrou a massa popular abatida e exausta. Pede a seus discípulos, em número não especificado, que rezem para que Deus envie “trabalhadores” para a “colheita messiânica”, ou seja, para reconstituir, a partir dessa massa dispersa, o povo de Deus. De acordo com a estrutura do antigo povo das doze tribos, Jesus chama doze “trabalhadores” para dar início à colheita que deve constituir o novo povo de Deus. Esses doze trabalhadores, Jesus os manda anunciar o Reino e curar as doenças. E, pensando no “aqui e agora”, manda-os primeiro às ovelhas desgarradas de Israel, para, depois de sua ressurreição, enviá-los a todas as nações (Mt 28,16-20).

Nosso povo também está abatido, oprimido. Observamos a decadência social, e até física, das populações das periferias e do interior, a desorientação dos jovens, a violência crescente, o desinteresse pelo empenho político por uma sociedade justa e fraterna… Tudo isso não nos deve desanimar: é um desafio. A tarefa de congregar o povo na justiça e na fraternidade continua. A consciência comunitária e a missão evangelizadora poderão transformar a situação, como acontece, por exemplo, nas comunidades que se articulam preferencialmente com aqueles que sempre são passados para trás, os pobres, os marginalizados, para viver realmente o evangelho.

Jesus envia os doze a anunciar e a curar. As curas são sinais de que no âmbito da missão de Jesus se realiza aquilo que Deus deseja, o bem de seus filhos. Em nossa missão evangelizadora, a palavra deve vir acompanhada da prática transformadora. É preciso apresentar “amostras do Reino”. As palavras falam, os exemplos atraem.

A vocação que Cristo dirige aos “trabalhadores” não é algo meramente individual, só para nossa santificação pessoal. Chamando doze trabalhadores, o número das tribos de Israel, Jesus manifesta a intenção de constituir um povo para Deus. Se Jesus toma como referência as doze tribos de Israel, símbolo de sua própria tradição religiosa e cultural, isso é uma lição para nós. Povo para Deus não se constrói destruindo sua identidade. Será que nós respeitamos, ou melhor, devolvemos à multidão popular (índios, negros…) a sua identidade? E enviamos a eles “trabalhadores” que representem as feições próprias deles?

Deus e Jesus quiseram a ajuda de um povo. O reino de Deus não pode ser realizado sem o povo, ainda que seja fraco e até inconfiável (como revela o caso de Judas no tempo de Jesus e a fragilidade do povo que se entrega às ilusões do consumismo hoje). O paternalismo pastoral (fazer para, mas não com…) não leva a nada. Para serem “povo”, é preciso que as pessoas participem ativamente, pelo anúncio e pela ação transformadora, da realização do reino de Deus.

Pe. Johan Konings, sj

Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É autor em teologia e mestre em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de
Lovaina. Atualmente é professor de Exegese Bíblica na FAJE, em Belo Horizonte. Dedica-se principalmente aos seguintes assuntos: Bíblia – Antigo e Novo Testamento (tradução), evangelhos (especialmente o de João) e hermenêutica bíblica. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A-B-C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje; Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br