Roteiros homiléticos

18º Domingo do Tempo Comum – 5 de agosto

Por Johan Konings

I. Introdução geral

Na semana passada, ouvimos o relato de João acerca do sinal da multiplicação dos pães, o qual não aponta para Jesus como o rei que vai resolver os problemas materiais do povo, mas, sim, como o profeta de Deus que dá a conhecer sua vontade. Hoje Jesus nos revela que ele mesmo é esse dom do pão verdadeiro, que dá ao mundo a vida que nos une com Deus, a vida verdadeira, que ultrapassa os nossos dias na terra.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho: Jo 6,24-35

Sobre o pano de fundo da lembrança do maná (primeira leitura), compreendemos as palavras reveladoras dirigidas por Jesus ao povo que, depois da multiplicação dos pães, o encontra em Cafarnaum (cf. Jo 6,24.59). Vale lembrar que João situa esse relato no tempo da Páscoa (cf. Jo 6,4), o que reforça a recordação do êxodo. O maná do deserto é a prefiguração do dom de Deus, que em Jesus aparece em plenitude.

Depois da multiplicação dos pães, vendo que o povo se equivocava (cf. 6,14-15), Jesus se retirou para a montanha sozinho, enquanto os discípulos atravessavam o lago. O povo voltou a Cafarnaum e aí encontrou Jesus, que tinha atravessado o lago andando sobre as ondas (cf. 6,16-24). Admiravam sua presença, mas, superficiais, viram no sinal do pão apenas a satisfação da fome, e não um sinal de Deus que legitimava seu enviado, Jesus (cf. 6,26).

Inicia-se então um diálogo, no qual os judeus se mostram preocupados com a Lei, mas obtusos quanto à realidade de Deus. Perguntam o que devem fazer. Jesus lhes diz que a obra do Pai é que acreditem no Filho (cf. Jo 6,28)! Então, pedem um sinal como o de Moisés, que, segundo eles, deu o maná do céu. Jesus, relativizando o sistema mosaico do qual são árduos defensores, responde não ter sido Moisés quem deu, no passado, pão do céu, mas Deus é quem dá, agora, o verdadeiro pão que desce do céu, a plenitude de seu dom: seu enviado, Jesus, que, por sua palavra e pelo dom de sua vida, faz o ser humano viver verdadeiramente.

Esse dom é bebida e alimento, como diz Is 55,1-3 a respeito do ensinamento de Deus. Dá plena satisfação, tudo o que é preciso para viver, em todo momento e para sempre: “Quem vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6,35). Na doação, sem restrição, de sua vida, Jesus comunica a vida verdadeira, que não perece: a vida dada como ele a deu.

  1. I leitura: Ex 16,2-4.12-15

A liturgia da Palavra deste domingo evoca inicialmente uma lembrança fundamental de Israel no deserto: o fato de Deus ter sustentado o seu povo com o pão que descia do céu, o maná. Essa lembrança era tão fundamental, que no Israel antigo se guardava, na arca da Aliança, ao lado das tábuas da Lei, uma vasilha com o maná (cf. Ex 16,33-34; Hb 9,4). No deserto do êxodo, Deus deu ao povo não apenas a Lei, que orienta a vida, mas também o alimento que sustenta o povo. Por isso o relato do maná é fundamental para nossa memória bíblica.

No caminho pelo deserto, o povo de Israel mostrou-se ambíguo, duro de cerviz e de coração. Quando faltou alimento, murmuraram contra o Senhor e disseram ter saudade das carnes aceboladas do Egito. No entanto, Deus se mostrou generoso e atendeu à reclamação do povo com “o pão que desce do céu”, como diz poeticamente o Sl 78[77] (salmo responsorial de hoje). Na realidade, o maná era um produto natural (resina de tamareira), mas, no contexto do Êxodo, era um sinal da incansável providência de Deus.

  1. II leitura: Ef 4,17.20-24

A segunda leitura continua com a carta aos Efésios, como nos domingos anteriores. Como o evangelho, esta leitura fala da oposição entre o antigo e o novo. Nesse caso, porém, o antigo não é apenas o sistema da Lei judaica, mas o paganismo, do qual provém boa parte dos cristãos de Éfeso. Se os judeus procuravam “obras de Deus” no seu legalismo ultrapassado, os gentios eram dirigidos por seus desejos e impulsos, simbolicamente representados pelas divindades do politeísmo. Seja como for, tanto o judeu apegado ao sistema mosaico quanto o pagão envolvido com ídolos falsos (o qual está também no meio de nós e em nós) devem abrir o ouvido para Cristo. Jesus encarna, em sua pessoa e mensagem e no dom de sua vida por amor, a palavra da verdade que vem de Deus.

III. Pistas para reflexão

O evangelho de hoje é o início do “sermão do Pão da Vida”, com o qual o evangelista João dá continuidade ao “sinal” da multiplicação dos pães, narrado domingo passado. Nos próximos domingos, o tema continuará.

Depois da multiplicação dos pães, Jesus volta a Cafarnaum (cf. Jo 6,24). Os conterrâneos querem saber como ele está de volta de repente, se não embarcou com os discípulos na noite anterior. Jesus lhes faz sentir que, apesar de terem presenciado o milagre do pão, não enxergaram nisso um sinal daquilo que ele significa: o ensinamento de Deus oferecido ao mundo. Apenas se saciaram de pão. Não entenderam que a refeição era um sinal. Eram como um motorista que pensa que sinal vermelho é apenas enfeite…

Os judeus perguntam que “obra” Deus espera deles – pois querem esforçar-se para que Deus se veja obrigado a dar-lhes a salvação! Mas Jesus diz que o esforço que Deus espera deles é que acreditem naquele que ele enviou (cf. 6,29). Percebendo que Jesus está falando de si mesmo, querem ver suas credenciais. Moisés tinha credenciais, pois está escrito: “Deu-lhes pão do céu a comer” (6,31; cf. Sl 78[77],24). Responde Jesus que não foi Moisés quem deu o pão do céu, no passado, mas agora o Pai é que está dando o verdadeiro pão do céu: aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Continuando no trilho do pão material e pensando no problema do sustento, os judeus replicam: “Dá-nos sempre esse pão”. Então Jesus diz abertamente o que significa a sua palavra enigmática e o sinal que ele realizou no dia anterior: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim não terá mais sede” (6,35).

Esta frase ecoa um texto da Escritura, Is 55,1-3: em meio à idolatria da Babilônia, o profeta orienta os exilados para o único Senhor. O que se consegue com os deuses babilônios não vale nada, é mero engodo comercial, pão que não alimenta! Mas quem escuta a voz do Senhor recebe, de graça, a sabedoria da vida, a aliança duradoura com Deus, o cumprimento de suas promessas. Assim, quem se alimenta com a palavra de Jesus recebe o “pão da vida”, e quem se dirige a ele não sofrerá nem fome nem sede.

Não interpretemos isso com aquele materialismo às avessas que diz que as coisas materiais passam e as espirituais permanecem. Depende do que se entende por esses termos! Se “espiritual” significa apenas erudição e brilho intelectual ou divagação etérea em doutrinas sublimes, então isso é o que passa! E se “material” significa dedicar-se ao pão dos pobres, isto é o que permanece, coisa do Espírito de Deus! Pois é a vontade do Pai. A tensão entre o material e o espiritual não se resolve por um “ou-ou”, mas é superada no “e-e”. O que é feito segundo Cristo é espiritual e material ao mesmo tempo, um no outro. As coisas do Espírito se encarnam em nossa atuação material, como Cristo se encarnou. Assim é o pão que desce do céu.

Johan Konings

Pe. Johan Konings, sj, nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É doutor em Teologia e mestre em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de Lovaina (Bélgica). Atualmente é professor de Exegese Bíblica na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte. Dedica-se principalmente aos seguintes assuntos: Bíblia – Antigo e Novo Testamento (tradução), evangelhos (especialmente o de João) e hermenêutica bíblica. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A-B-C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje; Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br.