Roteiros homiléticos

25 de junho – 12º Domingo do Tempo Comum

Por Pe. Johan Konings, sj

Professar nossa fé em Cristo, protagonista da vida e da graça

I. Introdução geral

Poucos anos atrás, sobretudo em certos ambientes intelectuais e nas universidades, era comum alguém esconder sua fé cristã e, muito mais, seu catolicismo. Pensava-se que, no intuito de respeitar as convicções de todo mundo, não cabia mostrar a própria fé. Se é que se tinha. Ora, tal atitude é desonesta. Se quero realmente dialogar com alguém, tenho de mostrar o que eu penso. Diálogo não é uma guerra de trincheira. A verdade nasce do diálogo das verdades de cada um. Não posso escondê-las, embora possa mostrá-las pouco a pouco para deixar o diálogo amadurecer.

O ocultamento da fé não ficou sem reação. De repente, houve a volta da religiosidade, sobretudo de certa religiosidade popular e tradicional, não amadurecida no diálogo com a consciência do mundo atual e nem sempre interessada em ouvir “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem”, de que fala a primeira frase da Constituição Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II. Nem toda religiosidade que se apresenta como cristã é espelho do evangelho de Jesus Cristo.

Assim, entre o indiferentismo, por um lado, e as manifestações de religiosidade sensacionalista, por outro, o que significa a verdadeira profissão de fé no Cristo do evangelho?

II. Comentário dos textos bíblicos
  1. I leitura: Jr 20,10-13

A primeira leitura de hoje trata do profeta perseguido e da firmeza que ele encontra em Deus. Jeremias vive no tempo do declínio do poder do Egito, arrimo dos reis de Judá naquele tempo. O novo poder da região são os babilônios. Essa é a realidade da história, e contra fatos não há argumentos. Jeremias tem de proclamar a verdade que Deus lhe faz ver com lucidez profética. É decisivo não aquilo que serve para o rei, ligado ao Egito, mas aquilo que serve para o povo todo, exposto a uma possível invasão dos babilônios. Jeremias ameaça as autoridades pró-egípcias, anunciando a destruição de Jerusalém e a deportação do povo no exílio babilônico. Por isso, o rei e as autoridades de Jerusalém querem condená-lo por alta traição. Ele está abandonado por todos e até acha que Deus o fez “entrar numa fria”, como sugerem os versículos imediatamente anteriores a nossa leitura (Jr 20,7-9). Mas o profeta reencontra a certeza de que Deus está com ele, como no começo de sua vocação (v. 11, cf. Jr 1,19). Deus “salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus” (v. 13).

O salmo responsorial (Sl 69[68],8-10.14.17.33-35) vem oportunamente sublinhar a figura do justo perseguido, que, contudo, é confiante em Deus.

  1. Evangelho: Mt 10,26-33

O centro da liturgia da Palavra de hoje é o final do sermão missionário do Evangelho de Mateus. No domingo passado, ouvimos o início desse sermão, em que Cristo convida a orar para que Deus envie operários para a colheita, para anunciar o evangelho do Reino. Hoje ouvimos a exortação final à profissão de fé intrépida, num contexto de resistência e até de perseguição. Sem dúvida, a missão é uma alegria, mas também, muitas vezes, um sinal de contradição, semelhante à sorte de Jeremias, o profeta rejeitado da 1ª leitura. Nos versículos que precedem o trecho de hoje, Jesus tinha predito as perseguições (10,17-25). Agora ressoa sua exortação final: não devemos temer os homens (10,26.28.31). Os apóstolos não precisam importar-se com a própria vida: a mensagem será ouvida (10,28-31). A promessa final (10,32-33) vale tanto para o ouvinte quanto para o pregador: quem se solidariza com Cristo tem a solidariedade de Cristo.

Morrer ou ser rejeitado pelos próprios destinatários da mensagem é uma constante na vida dos profetas. É o que ocorreu a Jeremias e também à Igreja perseguida, e nunca houve tantos mártires cristãos como em nossos dias! A mensagem do profeta e de Cristo é para que não tenhamos medo: na provação, Deus está com quem professa a fé nele. Essa presença de Deus – em Cristo – é um tema preferido do Evangelho de Mateus. Constitui a moldura de seu evangelho. Em Mt 1,23, Jesus é chamado “Emanuel, Deus conosco”. No fim, Jesus ressuscitado declara: “Estarei convosco até o fim do mundo” (28,20). Quando a Igreja cumpre sua missão profética, não deve recear os que matam o corpo, pois Deus cuida até de um par de pardais. Até os cabelos de nossa cabeça estão contados (evangelho, vv. 28-29).

Quem confessar o Cristo diante dos homens, Cristo o “confessará” diante de Deus: dará uma palavrinha de recomendação. Mas quem se envergonhar por causa de Cristo, o Filho do homem (título escatológico com que Jesus se identifica) terá vergonha dele também diante do Pai. Isso aí não é uma espécie de revanche de Jesus. É a mais pura lógica: Jesus veio para ser o servo e profeta da justiça, da vontade salvadora do Pai. Ele nos associou a sua obra (cf. domingo passado). Então, se nós o renegamos, que fazemos da missão que ele nos confiou? Como poderíamos ainda ter parte com ele? Se ele não pode contar com nossa adesão – ainda que frágil –, nós também não podemos contar com ele, pois somos seus amigos, e amizade é recíproca.

A primeira Igreja era muito severa quanto à desistência da fé, a “apostasia”. Tinha consciência de que não é possível ser amigo pela metade, fiel “dia sim, dia não”. Os que vacilavam eram severamente censurados e, se recaíssem, eram excomungados, entregues ao juízo de Deus. Por não termos bem presente a origem de nossa fé, nós já não somos mais tão exigentes; mas a amizade com Jesus é exigente por si, independentemente de vivermos num ambiente marcado pelo materialismo bruto, pelo indiferentismo ou até por uma religiosidade que não se preocupa com o reino de Deus e com sua justiça – a justiça da fraternidade que Deus deseja para todos os seus filhos. Às vezes é até mais fácil dizer a um ateu: “Eu ponho minha fé em Jesus de Nazaré” do que explicar, a certas pessoas que bradam slogans cristãos, que a fé prática, ensinada por Cristo, começa com a bem-aventurança dos pobres.

  1. II leitura: Rm 5,12-15

A segunda leitura continua com a carta aos Romanos (cf. domingo passado). ­O trecho de hoje é muito significativo e muitas vezes mal explicado. Inicia-se dizendo que todos precisam de salvação. Com o pecado de Adão (= “o ser humano”), o pecado e a morte vieram sobre todos (5,12). Mas o que Paulo quer anunciar não é isso; é apenas o pano de fundo. O que Paulo quer anunciar é que, com Cristo, chegaram a graça e a reconciliação, tão universais quanto o pecado de Adão. A morte já não domina. Prova disso é a ressurreição de Cristo. Se a graça, o projeto original de Deus, ficou alijada pelo pecado que pesa sobre a humanidade desde seu primeiro ancestral, agora, pelo contrário e de modo superlativo, todos recebem a graça gratuitamente – uma tautologia! – por Cristo, que deu sua vida por todos. Jesus passa Adão a limpo.

III. Dicas para reflexão: Perseguição e firmeza

Inúmeros – hoje mais que nunca – são os perseguidos, martirizados e mortos por defenderem a justiça e a solidariedade. Quem é profeta é perseguido, mas, se permanece fiel à sua missão, Deus não o abandona. Quem luta por Deus pode contar com ele. É o que nos ensina a primeira leitura.

Jesus enviou seus discípulos para anunciar e implantar o reino de Deus. No evangelho de hoje, ele ensina aos discípulos-seguidores a firmeza profética. Ensina-os a não ter medo daqueles que matam o corpo, mas a viver em temor diante daquele que tem poder para destruir corpo e alma no inferno, o Juiz supremo (Mt 10,28).

Jesus representa o Pai, e o Pai endossa a obra de Jesus. Quem for testemunha fiel de Cristo será por ele recomendado a Deus. Isso era válido no tempo em que o evangelho foi escrito, quando se apresentavam as perseguições e as deserções. Continua válido hoje. Se formos fiéis a Cristo, que nos associa à sua missão, podemos confiar que Deus mesmo não nos deixará afundar. Em Jesus está nossa firmeza. Por isso respondemos com convicção “Amen” (= “está firme”) à invocação “por Cristo, com Cristo e em Cristo” no fim da oração eucarística. Se, porém, deixarmos de dar nosso testemunho e cedermos diante dos ídolos (poder, lucro, manipulação etc.), espera-nos a sorte dos ídolos: o vazio, o nada... É uma questão de opção.

Proclamar o Reino em solidariedade com Cristo significa, hoje, empenho pela justiça. Empenho colocado à prova por forças externas (perseguições, matanças de agentes pastorais junto ao povo) e internas (desânimo, acomodação etc.). No nosso engajamento, podemos confiar em Deus e em sua providência; e, por causa de Deus, podemos confiar em nosso engajamento, permanecer firmes naquilo que assumimos, mesmo correndo perigo de vida. Pois é melhor morrer do que desistir do sentido de nossa vida. É melhor morrer em solidariedade com Cristo do que viver separado dele.

A mensagem principal do evangelho de hoje é a posição central de Jesus em nossa vida. É isso que devemos dar a conhecer por nossas palavras e ações. É segundo nossa fé professada em Jesus ou segundo nossa negação dele que nossa vida é julgada diante de Deus. Isso não é ambição desmedida de Jesus, mas mero realismo. O caminho que Jesus nos mostra, e a respeito do qual ele pede nosso testemunho, é o caminho da vida. Não podemos, diante do mundo, professar o contrário, pois então negamos, sob os olhos de Deus, o caminho de vida que, em Jesus, ele nos proporciona. É uma questão que diz respeito a Deus, referência última do nosso viver. Não podemos concordar com um sistema econômico, social, político e até pretensamente cultural que exclui, cada dia mais, as pessoas da paz e do bem-estar comum e, inclusive, leva ao abismo o próprio ambiente da vida humana. Não é para um sistema de morte que Jesus deu sua vida. Devemos professar Jesus que deu sua vida para que todos tenham vida e possam viver na abundância da graça que ele trouxe ao mundo.

Pe. Johan Konings, sj

Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É autor em teologia e mestre em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de
Lovaina. Atualmente é professor de Exegese Bíblica na FAJE, em Belo Horizonte. Dedica-se principalmente aos seguintes assuntos: Bíblia – Antigo e Novo Testamento (tradução), evangelhos (especialmente o de João) e hermenêutica bíblica. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A-B-C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje; Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. E-mail: [email protected]