Roteiros homiléticos

25º Domingo do Tempo Comum – 23 de setembro

Por Rita Maria Gomes, nj

I. Introdução geral

Na liturgia deste dia, somos convidados à confiança total em Deus, que é Pai e, como tal, cuida de seus filhos, orienta-os na condução da vida e não os abandona nas mãos dos malvados. A experiência do justo perseguido pelos ímpios, na primeira leitura, e a de Jesus, no evangelho, chamam nossa atenção para as ideias que fazemos sobre “não abandono” e “cuidado” da parte de Deus, motivando-nos a ter nova compreensão da ação de Deus para com seus filhos justos e fiéis.

Na segunda leitura, a experiência das primeiras comunidades revela que ainda não sabemos nos conduzir como filhos de Deus, não sabemos viver o mandamento por excelência – o amor a Deus e ao próximo como a nós mesmos –, e, por isso, nossa existência ainda não é testemunho da justiça e do amor divino. O seguimento confiante do Cristo é nossa esperança de chegar a ser verdadeiras testemunhas.

II. Comentários dos textos bíblicos

  1. I leitura: Sb 2,12.17-20

Na primeira leitura, temos um fragmento do discurso dos ímpios (cf. Sb 2,1-20), no qual apresentam sua maneira de compreender a vida e elencam os argumentos que justificam seu modo de proceder. Como atribuem sua vida ao acaso e esperam que a morte seja um ponto final de sua existência (v. 2), decidem desfrutar as boas coisas do tempo presente (v. 6). No entanto, não agem conforme a justiça. Antes, levam uma vida de excessos, embriagam-se (v. 7), entregam-se a orgias (v. 9), oprimem o pobre, a viúva e o ancião, ainda que sejam justos (v. 10), fazem valer a sua força sobre os mais fracos (v. 11).

A esse modo cruel e desumano se opõe o justo, aquele que observa fielmente os mandamentos e preceitos do Senhor. Por isso, faz parte do programa de vida dos ímpios armar-lhes ciladas, já que a existência deles lhes causa incômodo, reprova suas atitudes, denuncia suas transgressões (v. 12). A perseguição ao justo tem como finalidade pôr à prova sua confiança em Deus. Ao mesmo tempo, essa perseguição é uma provocação ao Deus de quem ele espera a visita libertadora (v. 18), já que o ato de importunar e molestar o justo nem sequer é acompanhado da suspeita de que Deus virá em sua defesa e punirá o perseguidor, embora isso seja declarado ironicamente.

O ímpio não acredita em Deus, não aprova e até ridiculariza a conduta do justo, porém, em seu discurso, este é descrito como alguém que se sabe filho de Deus, como alguém que confia e espera nele, como alguém cuja vida, pautada pela fé, repreende o procedimento do ímpio. Ainda assim, sofre perseguição, é ofendido, torturado e condenado a morte vergonhosa. O autor do livro da Sabedoria dirá, posteriormente, que os ímpios estão enganados, que estão cegos pela própria maldade (v. 21). Os justos, no entanto, embora experimentem o fracasso aparente, têm a vida guardada nas mãos de Deus (cf. Sb 3,1).

  1. Evangelho: Mc 9,30-37

Enquanto atravessavam a Galileia, Jesus ensinava seus discípulos. O conteúdo do ensinamento era o anúncio de sua paixão, morte e ressurreição. Jesus fala de si como o Filho do homem, que, entregue nas mãos dos homens e morto, ressuscitará ao terceiro dia. Contudo, se, após o anúncio no caminho de Cesareia de Filipe, em Mc 8,32, Pedro pôs-se a recriminá-lo, no evangelho deste dia os discípulos seguem sem nada compreender e ainda receosos em perguntar (cf. Mc 9,32).

O segundo anúncio da paixão (cf. Mc 9,30-32) é acompanhado pelas exigências e consequências do seguimento de Jesus (cf. Mc 9,33-37). Estando em casa, Jesus indaga dos discípulos sobre o que conversavam pelo caminho. Uma vez mais permanecem quietos. Desta vez, o motivo já não é a incompreensão, mas o fato de estarem em conflito, discutindo sobre quem é o maior.

Ao perguntarem quem é o maior, os discípulos deixam entrever suas rivalidades e ambições, bem como sua incompreensão do Reino. Em face disso, Jesus prossegue o seu ensinamento. Senta-se, chama-os, e as palavras que lhes dirige esclarecem que não devem se preocupar com o primeiro lugar, mas com o último. Pois é ali, a serviço de todos, que deve estar aquele que pretende ser o primeiro. Grande, no Reino, é aquele que serve (v. 35).

Num gesto simbólico, Jesus pega uma criança, coloca-a no centro do grupo e a abraça, enquanto continua seu ensinamento. A criança, tanto para a cultura judaica quanto para a greco-romana, era símbolo de impotência e insignificância, não tinha poder de decisão nem influência; também evoca o ato de voltar-se para Deus e contar com seu cuidado e socorro. Além disso, sinaliza a abertura à formação, é metáfora para o discípulo, que deve ser capaz de aprender com o Mestre, de se deixar moldar. A criança é proposta como parâmetro e como objeto de acolhida. É apresentada aos discípulos como alguém que nada lhes pode oferecer. Desse modo, Jesus fala aos discípulos sobre o serviço gratuito e desinteressado.

Enquanto a atitude deles era de reserva e fechamento, guardando para si suas incompreensões e inquietações, a criança deixa-se tocar, conduzir e abraçar por Jesus. Da mesma maneira, os discípulos devem deixar-se tocar pelo Senhor, aprender com ele. E, como é próprio daqueles que se deixam tocar pelo Senhor, pôr-se a serviço (v. 31).

  1. II leitura: Tg 3,16-4,3

Na segunda leitura, o autor da carta de Tiago contrapõe duas situações: a primeira é uma realidade em que reina a desordem, a segunda é guiada pela sabedoria. As causas da desordem são a inveja e a rivalidade, presentes na comunidade cristã já entre os primeiros discípulos, que discutiam entre si sobre quem era o maior (cf. Mc 9,34). A ambição e a luta pelo poder entre os membros da comunidade anulam a possibilidade da harmonia entre os irmãos, comprovam que já não se deixam guiar pela sabedoria que vem do alto (cf. Tg 3,17) nem pelo ensinamento de Jesus (cf. Mc 9,35).

Os conflitos na comunidade têm raízes nas paixões desordenadas de seus membros, que servem apenas a si próprios, cobiçam, cultivam inveja, matam e fazem guerra. E, mesmo quando oram, sua prece não é atendida, por ser permeada pelo egoísmo e pela hipocrisia. Em contrapartida, o fruto da justiça é semeado para aqueles que promovem a paz (cf. Tg 3,18). A sabedoria é dom de Deus, que a concede generosamente a todos os que o pedirem (cf. Tg 1,5), e é reconhecida pelos frutos que produz: é pura, pacífica, indulgente, pacificadora, cheia de misericórdia (cf. Tg 3,17). Tais características aplicam-se também ao ser humano que a ela se ajusta.

III. Pistas para reflexão

O anúncio da paixão comporta um resumo da fé dos primeiros cristãos: o Filho do homem foi entregue nas mãos dos homens, eles o mataram e, após três dias, ressuscitou. Essa construção, posta pelo evangelista, como prolepse, na boca de Jesus, evoca a compreensão que o Mestre tinha de seu destino. Ele, justo, entregue nas mãos dos ímpios, sofre perseguição e morte, pois desejam calar-lhe a voz, pondo fim à sua vida, a qual denuncia seus crimes e transgressões (cf. Sb 2,12).

Jesus é o justo obediente que cumpre inteiramente a vontade de Deus (cf. Mt 3,15) e que é perseguido, como foram, antes dele, os profetas, por causa de sua fidelidade a Deus. Ele é o servo de Deus que entregou a vida em favor de muitos (cf. Mc 10,45). É o enviado de Deus, ungido por ele, que convida cada discípulo a renunciar a si mesmo e, tomando sua cruz, segui-lo (cf. Mc 8,34); que ensina que, como ele, cada discípulo deve se pôr a serviço de todos (cf. Mc 9,35).

Os judeus esperavam um messias político; Jesus, no entanto, ensina, com sua vida, a confiar no Pai, a assumir a vontade de Deus e ajustar-se a ela, ainda que isso suscite o ódio dos maus e desperte perseguições, ainda que isso signifique ser ridicularizado, ofendido, torturado e morto. O justo tem o seu olhar voltado para a eternidade, a qual não começa após a morte, mas diz respeito a uma vida cheia de plenitude e significado que começa aqui e agora. O justo sabe que é perseguido por sua fidelidade a Deus e à sua justiça. Torna-se conhecido por suas obras (cf. Lc 6,44).

A vida de Jesus, posta a serviço, é escola para os seus discípulos, que devem sair de seu fechamento, abandonar suas atitudes egoístas, suas invejas e rivalidades, e tornar-se exemplo de uma vida conforme com a vontade de Deus.

Rita Maria Gomes, nj

Ir. Rita Maria Gomes, nj, é natural do Ceará, onde fez seus estudos em Filosofia no Instituto Teológico e Pastoral do Ceará (Itep), atual Faculdade Católica de Fortaleza. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde leciona Sagrada Escritura. É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, que tem como carisma o estudo e o ensino da Sagrada Escritura. E-mail: ritamarianj@gmail.com