Roteiros homiléticos

30 de março – SEXTA-FEIRA SANTA: Paixão do Senhor

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

I. INTRODUÇÃO GERAL

A teologia do Antigo Testamento destacou três grandes tipos de mediadores entre Deus e o povo: o Servo do Senhor, o Rei Messias e o Sumo Sacerdote dos últimos tempos. O Rei deveria manter o povo fiel à aliança e defendê-lo de quaisquer adversários. Ele era apenas um representante de Deus, do verdadeiro rei de Israel. O Sacerdote tinha por objetivo fazer o encontro entre o Senhor e o povo por meio de diversos tipos de sacrifícios. Nesses ritos, pela mediação do sacerdote, o povo se oferecia a Deus e recebia as bênçãos dessa comunhão espiritual. A missão desses mediadores era a reconciliação do povo com Deus com base numa restauração religiosa e moral. Ao realizar essa reconciliação, cada mediador seria agente de libertação de um cativeiro maior que qualquer outro verificado na história, a escravidão do pecado. Essas teologias sobre os mediadores estão reunidas em Jesus, que as assume, corrige e plenifica.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  1. Evangelho (Jo 18,1-19,42): Eis o vosso Rei!

Nesse texto, temos o relato do julgamento, da condenação e da crucificação de Jesus. O sofrimento de Cristo nos é apresentado à luz da fé no Ressuscitado. Por isso, todo o relato é envolvido pela soberania de Jesus. Desde a prisão até a crucificação, aparece sua profunda liberdade. Tudo o que lhe acontece é resultado de sua “entrega livre e obediente”.

O que Jesus disse na última ceia a respeito de sua entrega em favor do ser humano se concretiza agora no processo que culmina com sua morte na cruz. No relato da traição e prisão (18,1-11), dá-se início à glorificação de Jesus pela via crucis. O relato é dominado pela liberdade com que Jesus se entrega. Não são seus “inimigos” que o prendem, mas ele próprio que se entrega para ser preso e julgado. Manifestam-se, assim, a liberdade com que conduz sua vida e o sentido que tem sua morte, pois ninguém poderia pôr-lhe as mãos se ele não se entregasse livremente (cf. 10,17-18).

Durante o julgamento (18,12–19,16), permanece o significado dado aos acontecimentos: a entrega de Jesus. E nessa entrega manifesta-se sua realeza, não no sentido que o mundo conhece, mas como manifestação do dom de si, no amor e na prática da vontade de Deus. Pois a expressão “reino de Deus” significa a soberania da vontade divina sobre a criação e a história. No momento de sua morte, Jesus mostra quanto a vontade de Deus é soberana em sua vida, pois nada o impede de cumpri-la, nem mesmo a tortura da cruz. E a vontade de Deus, em resumo, é o amor.

A paixão (19,17-42) caracteriza-se como reação do mundo às palavras de Jesus. A rejeição que ele sofreu durante seu ministério encontra, aqui, sua forma definitiva. Deus dá sua resposta ante a recusa do mundo: uma resposta de amor, pois aquele a quem o mundo rejeita é o vencedor. A entrega de Jesus manifesta-se na sua atitude de dirigir-se livremente ao encontro da cruz. Sua hora chegou, a hora de sua exaltação.

A crucificação de Jesus também é antecipação do juízo divino. Na cruz, Jesus se torna juiz de seus acusadores. Aqueles a quem foi enviado rejeitam-no. Na cruz realiza-se o juízo escatológico, salvação para os discípulos e condenação para o mundo.

Na cena da mãe e do discípulo, o texto mostra em primeiro plano a comunidade messiânica que nasce em torno da cruz. Ambos, mulher e Discípulo Amado, desempenham papéis representativos. A mulher representa a personificação de Sião/Jerusalém (cf. Is 66,7-8; 60,4), e o Discípulo, a comunidade.

Na cruz se consuma a missão de Jesus. O “tudo está consumado” não significa que “chegou ao fim”, mas, sim, que “a vontade do Pai foi realizada, em tudo e perfeitamente”. A obra que o Pai confiou ao Filho para levá-la a termo é a revelação do amor: aquele amor que tem sua origem na comunhão entre Pai e Filho e sua realização histórico-eclesial na unidade dos fiéis (17,23).

O que celebramos na sexta-feira santa não é a morte de Jesus, mas sua vitória sobre a morte, sobre a violência, sobre a maldade humana, sobre o egoísmo e sobre tudo o que impede o ser humano de aceitar livremente o amor de Deus e sua vontade.

Jesus, por sua obediência ao Pai, aceita livremente a paixão e a transforma em dom, em revelação de amor. Toda a vida e obras de Jesus foram um reflexo desse amor obediente. E isso se concretiza aqui na cruz. O cume dessa obediência no amor é atingido no ato de entrega de sua vida na cruz por amor. E nessa entrega o caminho para todo ser humano, o caminho do amor filial, se concretiza na obediência do amor àquele que é fonte de toda a existência humana.

  1. I leitura (Is 52,13-53,12): Eis o meu servo!

Esse texto se inicia assegurando que o Servo triunfará (v. 13), mesmo que sua extrema humilhação e sofrimentos (v. 14) causem admiração em muitas pessoas. Seu triunfo será tão admirável, que impressionará muitas nações e reis ficarão boquiabertos diante dele.

A informação de que as pessoas desviavam o rosto ou o olhar para não vê-lo (53,3) indica que se envergonhavam dele. Contudo, apesar dessa atitude de desprezo, ele é o Servo do Senhor, e isso é garantia de seu triunfo sobre as dores.

O texto de Is 53,4-7 constitui um avanço na teologia do Antigo Testamento, ao introduzir um elemento que é a aceitação, por parte de Deus, da vida e morte do Servo como sacrifício expiatório em favor do povo.

Os versículos 10 e 11 deixam entrever a fé na ressurreição, porque afirmam que o Servo, mesmo depois de entregar a própria vida, verá seus descendentes.

O texto termina com a mesma nota de vitória com que começou: o Servo triunfará (52,13; 53,12). Contudo, as palavras finais destacam o alcance universal da atividade do Servo, que carrega os pecados de uma multidão. Outro aspecto comum entre o início e o fim da seção é que as palavras são pronunciadas diretamente por Deus. Dessa maneira, Deus corrobora o anúncio profético, antes mesmo que comece e também depois que termina.

  1. II leitura (Hb 4,14-16; 5,7-9): És sacerdote para sempre!

O texto nos apresenta o sumo sacerdote superior a todos os demais, que atravessou os céus, entrou na presença de Deus e exerce seu ministério sacerdotal no santuário celeste. Contudo, esse sumo sacerdote, Filho de Deus, também é um ser humano como os demais, sem, todavia, pecar. Sendo humano, entende nossas necessidades e fraquezas e por isso é solidário conosco. Enquanto Filho de Deus, recebeu autoridade acima de todos os seres. Por tudo isso o autor bíblico exorta os cristãos à perseverança na fé recebida pela palavra da pregação.

O versículo 15 explica a importância da humanidade de Jesus. Ele é capaz de se compadecer de nossas fraquezas porque foi tentado e venceu a tentação. Por isso, pode interceder por nós, para que alcancemos a vitória sobre a tentação, sobre o pecado e sobre a morte. O ministério sacerdotal de Jesus nos dá confiança para nos aproximarmos do trono de Deus. Ele atravessou os céus, como ser humano vitorioso sobre a morte, e por isso nos abriu um caminho para Deus.

Além de passar pelas tentações, o nosso sumo sacerdote teve medo da morte e pediu a Deus, com forte clamor e lágrimas, que lhe preservasse a vida – e foi atendido, porque Deus o ressuscitou. Assim, Jesus teve a experiência comum dos seres humanos, a morte. Por isso, ele é solidário conosco na nossa maior angústia, porque enfrentou o sofrimento e a morte com os mesmos recursos que temos: a oração e a obediência da fé. Ele não buscou uma saída sobrenatural que não está ao nosso alcance.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Chamar a atenção para o paganismo disfarçado de cristianismo, ou seja, para a poluição da fé por elementos nocivos. Não se trata de sincretismo propriamente dito, mas da mistura, e até mesmo da identificação, do cristianismo com aspectos contrários à revelação. Antigamente, os mediadores tinham a função de mostrar ao povo quem realmente era Deus e qual era a vontade divina a respeito do ser humano. Jesus plenificou na própria vida, morte e ressurreição a função desses mediadores. Mesmo assim, de modo mais escandaloso que antes, no cristianismo de hoje há uma “baalização da fé” (uma relação com Baal disfarçada de relação com Deus). A corrupção, a avareza, a ambição e todo tipo de dureza de coração são piores que qualquer sincretismo. Esses elementos são o oposto de tudo que Jesus mostrou – tanto por sua vida quanto por sua morte – sobre a identidade de Deus e do ser humano. Isso se torna mais escandaloso ainda se a liderança religiosa tolerar, apoiar ou até mesmo viver a baalização da fé.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Graduada em Filosofia e em Teologia. Cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: [email protected]