Roteiros homiléticos

5º Domingo da Quaresma – 18 de março

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

A Quaresma, como tempo de conversão, supõe a transformação de quem se põe a caminho da Páscoa (cf. domingo passado). Tal transformação comporta genuína assimilação da Palavra de Deus, na obediência, como escuta profunda – desde as entranhas! – onde essa Palavra deixa as suas marcas. Sem transformação não é possível a aliança. Jesus é o modelo de aprendizagem da obediência pelo sofrimento, pois, mesmo sendo Filho, se deixou guiar pela vontade do Pai.

II. Comentário dos textos bíblicos

Deus é glorificado quando a aliança se concretiza na obediência de seu Filho, Jesus. Os batizados, que revisitam sua vocação cristã neste tempo da Quaresma, são chamados a glorificar a Deus em sua vida, após o Cristo e com ele. Exercendo a caridade, sinônimo de amor concreto e solidariedade, os cristãos prolongam o mistério de Cristo em sua vida de discípulos e servos.

  1. I leitura: Jr 31,31-34 – A aliança: conhecimento verdadeiro de Deus

Em tempos de destruição, provocada pelo exílio, o povo de Deus é convocado pela profecia de Jeremias àquilo que pode verdadeiramente propiciar uma reconstrução: a aliança. No pacto entre Deus e o seu povo, a recordação do êxodo, feita por Jeremias, tem uma finalidade importante: lembrar que Deus vai fazer algo maior que fizera outrora. Se no Egito ele usara de força para retomar a casa de Israel, sua propriedade, agora, nestes dias, Deus usará de outra estratégia: imprimir sua lei no coração e nas entranhas de seu povo. Quando tinha sido tomado pela sua mão forte, o povo violou a aliança com Deus. Na volta do exílio, esse povo que experimentara a destruição do reino do Norte já não conhece a Deus, pois busca os desconhecidos deuses pagãos (cf. Dt 11,28). Trazia a lei impressa exteriormente, mas não interiormente, nos corações.

Deus então promoverá um conhecimento tão verdadeiro, que o povo não precisará dos “mestres” que guardavam a lei. Noutra parte, o profeta denuncia que também eles não a conhecem (cf. Jr 2,8), deixando brechas para o povo buscar o culto aos falsos deuses. O conhecimento de Deus, anuncia Jeremias, será tão disseminado, que todos, do menor ao maior, buscarão a Deus. Já não será como outrora, quando, por falta desse conhecimento, o povo vivia se aperfeiçoando na maldade e no crime (cf. Jr 4,22; 9,2). Nesse futuro descrito pelo profeta, Deus, tendo assim retomado o seu povo para si, perdoará a maldade e esquecerá o pecado, que violaram a aliança. O texto proclama uma verdadeira purificação espiritual, que parte do interior, das entranhas e do coração, na liberdade e no conhecimento. Não mais pela força, nem mesmo de Deus…

  1. Evangelho: Jo 12,20-33 – Queremos ver Jesus

A profecia de Jeremias, tratando do conhecimento de Deus, prepara os ouvidos da comunidade para o evangelho, no qual se narra que os gregos, em romaria para as festas, buscavam conhecer Jesus por meio dos discípulos: “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”. O verbo ver, aqui empregado, pode isoladamente significar tão só “fazer contato” com Jesus. Mas o contexto sugere uma disposição de crer nele. O episódio parece desconectado da sequência, contudo aos gregos será dado conhecer o Filho do homem somente a partir da sua Páscoa. Eles pertencerão ao grupo dos que creram sem ter visto. Por isso, Jesus não responde, mas introduz o discurso do grão de trigo, como metáfora da sua morte e ressurreição que haverão de produzir muito fruto – neste caso, os discípulos gregos que ali se apresentam como sinal futuro desse frutificar.

A metáfora tem enorme força evocativa: o grão que não morre permanece somente um grão. Dito de outra maneira e acrescentando um significado a mais: o grão que não morre como grão permanece somente um. A morte, contudo, propicia nova situação: o grão, morrendo, transforma-se em outros tantos frutos. Mas o discurso inclui também um paralelismo surpreendente: ao grão que cai na terra (v. 24) corresponde a sua elevação (v. 32); ao discípulo que odeia sua vida neste mundo (v. 25) corresponde o julgamento deste mundo (v. 31); ao Pai que honra o discípulo que odeia o mundo (v. 26) corresponde o Pai que glorifica o seu nome (v. 28). O paralelismo nos oferece uma estrutura de compreensão do evangelho: a disposição para a morte; a rejeição ao mundo e o seu julgamento; a honra recebida e a glorificação do nome de Deus.

A disposição para a morte no discurso do grão de trigo e na elevação da terra nada tem que ver com vitimismo ou masoquismo. É, na verdade, expressão maior do serviço e do amor, capazes de gerar situações novas e fecundas: produzir muito fruto / atrair a todos. A atitude contrária ao apego a si próprio é que é proposta como caminho do seguimento e do serviço a Cristo. Serve o mestre quem o segue, realizando aquilo que ele mesmo realizou. Nisto se dá a glorificação de Deus, de seu Filho (“o glorificarei”), e dos discípulos (“o glorificarei de novo”).

O julgamento do mundo é a cruz, que põe às claras a lógica de Jesus e do seu evangelho e a lógica deste mundo. O julgamento separa e distingue os que são de Cristo, porque perfazem o seu caminho, dos que são do mundo, porque andam em sentido diametralmente oposto. Jesus se dará a conhecer a toda a humanidade – simbolizada pelos gregos, que procuram vê-lo – por meio da cruz, na qual se realiza o julgamento da humanidade e a glorificação de Deus.

  1. II leitura: Hb 5,7-9 – Ele aprendeu a obedecer pelo sofrimento

A carta aos Hebreus é um grande tratado sobre o fim do sacerdócio veterotestamentário, que se organizava por dinastia e tinha contornos e fundamentos exteriores e ritualistas. O autor proclama que, pela morte e ressurreição de Jesus, se estabeleceu novo sacerdócio, superior ao dos anjos que servem a Deus no céu, eterno como Melquisedec, do qual não se sabia a origem e o fim, e contrário ao sacerdócio aarônico, porque existencial. O pequeno trecho (vv. 7-9) pertence a uma unidade maior (vv. 1-10) em que o autor, Barnabé ou Apolo, discorre sobre o sacerdócio de Cristo, que era leigo e não pertencia a nenhuma casta sacerdotal. Por isso a ênfase em seu caráter espiritual: é pela solidariedade com a humanidade, pelo sofrimento e obediência, que Cristo é estabelecido como sacerdote. Ele pode compadecer-se e interceder porque provou o sofrimento, a escola onde aprendeu a confiar e obedecer. Sua oração (forte clamor e lágrimas) exprime sua entrega a Deus e dependência dele, não dos rituais praticados no templo. Sua obediência é o culto verdadeiro e espiritual que agradou a Deus e fez dele, Cristo, causa de salvação para os que lhe obedecem.

Causa espanto a afirmação: “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu”. De imediato poderiam surgir objeções: como o Filho de Deus precisava aprender a obedecer? Deus impôs o sofrimento ao seu Filho? Embora legítimas, as questões não levam em conta o alcance da encarnação e da solidariedade de Jesus para com a humanidade, que a partir dela é gerada. Segundo F. X. Durwell, ao assumir nossa humanidade, o Verbo assume também o ser em construção. Ser humano é ser contingente, é estar em processo permanente de acabamento. Como Verbo, Jesus é o Filho gerado desde toda a eternidade; mas, como homem, a sua humanidade precisa crescer, ser constituída, construída. O sofrimento, a cruz, a morte elevam a humanidade de Jesus, fazendo-a coincidir, na obediência filial, com a sua divindade. Por isso, Jesus pode ser nosso eterno sacerdote, porque leva à perfeição a nossa humanidade.

III. Dicas para reflexão

A aliança com Deus se realiza quando acolhemos a sua lei no coração e nas entranhas, isto é, profundamente, não apenas exteriormente. A religiosidade deve colaborar para que o cristão esteja disposto a assumir livremente esta transformação interior e verdadeira. O profetismo bíblico indica-nos o caminho de conhecimento de Deus, decretando o vazio de uma religiosidade imposta, meramente exterior ou mesmo de fachada.

O mistério da cruz, simbolizado pelo grão de trigo e anunciado pela elevação do Filho do homem, é um evento fecundo que gera frutos de vida nova e de novos cristãos. A cruz é também o julgamento do mundo: ser de Cristo é servir a ele, servindo com ele.

Ser discípulo de Jesus implica compartilhar com ele a imensa liberdade de si mesmo, estando disponível para o serviço como expressão da autodoação que gera frutos de vida.

O sacerdócio de Cristo e dos cristãos se realiza de modo existencial: na obediência a Deus que se fortalece e se comprova na solidariedade.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br