Roteiros homiléticos

Ascensão do Senhor – 13 de maio

Por Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj*

I. Introdução geral

Hoje a Igreja celebra a solenidade da Ascensão do Senhor. Estritamente falando, não é uma nova festa, mas a plenificação da Páscoa. Estar sentado à direita do Pai não é tanto um triunfo ou um prêmio que Jesus recebe por bom comportamento e por ter realizado a tarefa que lhe foi proposta. O triunfo de Cristo é o ponto aonde deve chegar cada ser humano na plenitude de suas potencialidades. Celebramos a elevação do ser humano antecipada na ascensão de Cristo.

Ressuscitou, subiu ao céu, está sentado à direita do Pai são termos e expressões cujos significados denotam que a missão terrena de Jesus consumou-se. Tudo o que ele veio realizar foi feito. Agora a comunidade de seus seguidores deve continuar a missão de edificar o Reino de Deus neste mundo. Por isso, as leituras de hoje nos oferecem uma síntese da missão dos cristãos, fundada em três afirmações inseparáveis: 1) ressurreição: Jesus venceu o pecado e a morte; 2) ascensão: Jesus está junto do Pai, exercendo autoridade sobre a criação e a história; 3) esperança: Jesus voltará (parusia) inesperadamente para plenificar todas as coisas.

A missão dos cristãos situa-se entre a ascensão e a parusia, anunciando e edificando o Reino de Deus até que Cristo venha.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho (Mc 16,15-20): Ide pelo mundo inteiro

O evangelho de hoje enfatiza o mandato missionário recebido por todo cristão. Primeiramente, oferece um resumo das experiências que os discípulos tiveram com o Ressuscitado, seguido do mandato missionário no qual são elencados os elementos ou sinais principais da missão dos cristãos: expulsar demônios, falar todas as línguas, ser imunes a qualquer veneno e curar os enfermos. Percebemos aqui que a missão dos cristãos possui os mesmos elementos ou sinais da missão de Jesus. Aparentemente, é uma missão impossível. É necessário compreender cada um desses elementos. Antes de tudo, trata-se de sinais e não de demonstrações (muito menos midiáticas), os quais têm por objetivo indicar que os missionários entraram em um campo novo de ação e para isso receberam uma autoridade originada no Pai, ao lado do qual está Jesus. Significa que é uma ação dos cristãos, mas não unicamente deles: é uma ação de Deus regenerando este mundo por intermédio da obra evangelizadora dos cristãos.

Expulsar os demônios em nome de Jesus significa, primeiramente, continuar a sua luta contra o mal, como foi enfatizado ao longo do Evangelho de Marcos. Não é tanto fazer exorcismos, mas instaurar um reino de justiça, fraternidade e paz em oposição ao mal, ao pecado e ao egoísmo. É continuar a luta de Jesus em cada circunstância da vida, enfatizando o poder do bem contra o mal, e não o contrário. Uma forma de exorcismo que cada um pode fazer é evitar desanimar por causa do aumento da violência e prestar maior atenção nas ações das pessoas de bem que fazem grandes mudanças na sociedade.

Falar novas línguas, no contexto narrativo dessa leitura, não significa a oração em línguas, pois se trata não de falar com Deus – não é um texto sobre oração –, mas do mandato missionário de falar às pessoas do mundo inteiro. Significa que os cristãos farão um esforço para não impor uma cultura ou modo de pensar, mas anunciarão o evangelho, a boa notícia de Jesus, levando em conta os destinatários, seu contexto histórico-social e cultural.

Serpentes e venenos que não causam nenhum mal não significam que o cristão é blindado para que nada de ruim lhe aconteça, como quer nos iludir a ideologia da prosperidade. Ao contrário, os cristãos estão sempre à mercê de muitos sofrimentos e perseguições, como aconteceu com Jesus e como vemos na vida dos santos. Bem entendidas, essas palavras de Jesus, em linguagem apocalíptica de luta contra o mal, significam que os verdadeiros cristãos estão imunes às serpentes e venenos do egoísmo que matam pela exclusão social, pelo preconceito e falta de aceitação do outro, pela calúnia, corrupção e desonestidade. É desse veneno maligno que os verdadeiros cristãos estão imunes e por ele jamais serão destruídos.

Imporão as mãos sobre os enfermos e eles ficarão curados. Essa expressão nos situa de novo no centro da atividade de Jesus: por onde ele andava, curava os enfermos. Os cristãos são, antes de tudo, crentes, isto é, pessoas unidas de tal forma a Jesus, que compartilham do seu poder de curar. Longe de pensar que isso se refere aos santos ou a uns poucos privilegiados, a cura das enfermidades é um sinal que acompanha todo aquele que crê. Não se trata tanto de um dom carismático, mas da cura dos corações marcados pelo egoísmo e pelas feridas do desamor. Todos nós podemos escolher entre ferir ou curar. E podemos pôr em prática essa palavra de Jesus por meio de nossas palavras e ações no compromisso com o outro.

Resumindo: num mundo perigoso (venenos e enfermidades), os cristãos deverão ser capazes de expandir a Palavra em toda língua, superando o poder do mal e ajudando os outros a viver (curas). Desse modo, o anúncio do evangelho se converterá em ação transformadora, sinal de que o mal cede lugar ao Reino que estará se expandindo na terra.

  1. I leitura (At 1,1-11): Sereis minhas testemunhas até os confins do mundo

Por que ficais parados olhando para o céu? O que o Cristo tinha de fazer aqui entre nós ele já fez. A partir de agora, cabe a nós desenvolver a nossa vida particular e coletiva, assimilando e vivendo os ensinamentos que Jesus nos transmitiu. A fé cristã implica responsabilidade. Cristo nos legou a boa-nova do Reino, agora cabe a cada um de nós, pessoalmente e em comunidade, responder a ele com nosso modo de viver. Não estamos abandonados, há uma promessa: o poder do Espírito que nos capacita a testemunhar até os confins do mundo.

A chamada de atenção feita pelos “homens vestidos de branco” significa que o verdadeiro seguimento de Jesus não envolve ficar parado olhando para o céu, esperando que Cristo faça a evangelização do mundo. A parte dele já foi feita, agora compete a nós levar ao mundo inteiro, a toda criatura, a sua mensagem. Tornar o Reino de Deus algo real no nosso mundo.

O envio messiânico universal é a ata de fundação da Igreja. Jesus envia seus discípulos a todo o mundo conforme um programa, um esquema de universalidade que aparece em vários textos do terceiro evangelho e dos Atos dos Apóstolos: partindo de Jerusalém, passando pela Judeia e Samaria e chegando a todo o mundo, a todo o cosmo, no idioma grego. Significa que a evangelização é um processo, um desenvolvimento que somente chegará ao seu término quando todos tiverem recebido a mensagem de Jesus.

A missão cristã se estende desde o princípio a todo o mundo, a todos os povos e culturas. Trata-se de um contexto universal; desaparecem as distinções entre os povos, já não há um povo único de Deus, mas todos os povos pertencem a Deus e com ele estabelecem aliança. A missão é para a humanidade, para o cosmo aberto à palavra dos missionários.

  1. II leitura (Ef 1,17-23): Somos continuadores da missão do Cristo

A segunda leitura afirma que a Igreja é o Corpo de Cristo. O que isso significa? Jesus foi elevado ao âmbito do Pai e recebeu autoridade sobre todas as coisas. Os discípulos saíram pelo mundo proclamando o evangelho com a cooperação do Senhor, que confirmava a palavra com sinais. A ascensão e a ausência física de Cristo tornam possível novo tipo de presença na comunidade de seus discípulos: somente quando Cristo “se vai” é que a Igreja começa a sentir a força dele atuando por meio dela. A comunidade dos discípulos, quer dizer, a Igreja, é a presentificação do Cristo ressuscitado. Cristo se corporifica no mundo mediante seus discípulos, ou seja, o modo pelo qual se pode ver Cristo evangelizando o mundo são os evangelizadores. A Igreja o torna visível para o mundo.

Da mesma forma que não há corpo vivo sem cabeça, assim também não há Igreja sem a ação de Cristo ressuscitado agindo no mundo por meio dela. Portanto, podemos dizer que Jesus está no céu à direita do Pai, mas, ao mesmo tempo, está presente, coatuando por meio dos fiéis.

III. Pistas para reflexão

Na “oração para depois da comunhão”, o presidente da celebração diz: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis conviver na terra com as realidades do céu, fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade”. Essa oração expressa muito bem o sentido profundo da Ascensão do Senhor. Nós somos introduzidos no seio da Trindade. Jesus, o homem verdadeiro, está junto do Pai. Com ele nossa humanidade já está lá. A Ascensão do Senhor é a celebração da plenificação de nossa humanidade junto de Deus. Já convivemos aqui na terra com esse grande mistério.

Que a comunidade não desvirtue a celebração desse grande mistério com uma devoção mariana. Atribuir o mês de maio a Maria não deve implicar a sobreposição de uma devoção à grandeza do mistério que celebramos hoje. Portanto, os cânticos não devem ser marianos, muito menos a homilia. O foco dessa celebração é Cristo, que leva nossa humanidade para o seio da Trindade. Mesmo em uma paróquia consagrada a Maria e mesmo que se esteja em pleno festejo, a ênfase deve ser dada à ascensão de Cristo e à nossa ascensão com ele para junto do Pai.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj*

*Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora
do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com