Roteiros homiléticos

Sagrada Família: Jesus, Maria e José – 30 de dezembro

Por Zuleica Aparecida Silvano

I. Introdução geral

 Nesta festa, cada família tem diante de si o ícone da Sagrada Família, e, a exemplo de Maria, conforme afirma o papa Francisco, “as famílias são exortadas a viver, com coragem e serenidade, os desafios familiares tristes e entusiasmantes e a guardar e meditar no coração as maravilhas de Deus” (Amoris Laetitia, n. 30).

Nesta festa, somos chamados a refletir sobre o amor no relacionamento conjugal e familiar. Conforme a exortação Amoris Laetitia, o amor é a atitude que precisa permear esses relacionamentos, amor que se expressa no serviço, no perdão, no desprendimento, na ternura, na capacidade de alegrar-se com o outro, no confiar, no suportar os desafios, as fadigas, as tensões e os sofrimentos no dia a dia (II leitura). A I leitura também nos aponta o desafio de respeitar os pais e cuidar deles na velhice, última etapa de sua vida. Ressalta também a necessidade da humanização de nossa vida familiar e faz às famílias o apelo para que sejam solidárias às necessidades de outras famílias, que vivem em condições precárias.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura: Eclo 3,3-7.14-17a

A leitura é um comentário detalhado do quarto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe” (cf. Ex 20,12; Dt 5,16). Percebe-se que há uma igualdade de tratamento tanto para o pai como para a mãe.

O autor recomenda aos filhos, tanto jovens como adultos, ter carinho e cuidado para com seus pais, pois é necessário honrá-los (vv. 3-6), respeitá-los (v. 7), não abandonar o pai (v. 15) e consolar a mãe (v. 7). O dom que os pais podem fazer pelos filhos é dar-lhes sua bênção (vv. 8-9), fonte de prosperidade e fecundidade. Entre as promessas feitas aos filhos pelo cuidado com os pais, é ressaltado o perdão dos pecados (vv. 4.16). As outras promessas são: acúmulo de tesouros (v. 5), alegria com relação aos filhos (v. 6), vida longa (v. 7), oração atendida (v. 6). Aqueles, porém, que abandonam seus pais são considerados blasfemadores e malditos (v. 18).

  1. Evangelho: Lc 2,41-52

O autor, no v. 41, apresenta uma informação geográfica importante, por se tratar do Evangelho segundo Lucas: o deslocamento da família de Jesus de Nazaré (ou da Galileia) para Jerusalém. Esse movimento perpassará todo esse evangelho e será a direção tomada por Jesus durante seu ministério público, até sua morte em Jerusalém.

A peregrinação anual a Jerusalém fazia parte dos costumes judaicos. A Lei prescrevia que cada judeu deveria peregrinar três vezes ao ano a Jerusalém para celebrar as grandes festas: da Páscoa, das Cabanas e das Semanas (Pentecostes). No entanto, aqueles que morassem longe (a distância de um dia) eram dispensados dessa lei. A família de Jesus peregrina a Jerusalém para ter a oportunidade de estar no Templo e cumprir algumas prescrições religiosas, pelo menos uma vez por ano, ainda que morasse distante, como nos informa o relato.

No judaísmo, o jovem, a partir dos 13 anos, adquiria a maturidade religiosa e tinha o direito de ler a Torá na sinagoga. Não temos, porém, dados para saber se realmente isso era realizado no tempo de Jesus, apesar de esse ritual nos ajudar a compreender a permanência de Jesus no Templo entre os mestres da Lei e a ver nele não somente alguém pleno de sabedoria, mas também aquele que revela a sabedoria do Pai. Jesus também é identificado como Mestre, como aquele que fala com autoridade (cf. Lc 4,32).

O evangelista não nos oferece nenhum detalhe sobre o que realmente ocorreu ou como foi possível não notar a ausência do filho na caravana de volta para Nazaré (vv. 43-45), dado que, provavelmente, a intenção do autor era realçar a preocupação dos pais ao perceberem a perda do filho.

Nos vv. 46-50, o narrador expõe a cena do encontro de Maria e José com Jesus e enfatiza a resposta deste diante da angústia dos pais. A indicação de tempo, após “três dias” (v. 46), é muitas vezes interpretada como uma alusão à morte e à ressurreição de Jesus, apesar de isso não ser uma característica de Lc. No entanto, tal aspecto pode ser considerado quando se sublinham as afinidades existentes entre esse relato e as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

No diálogo, nos vv. 48b-50, Jesus apresenta sua identidade e missão, ao se revelar como Filho de Deus (cf. Lc 4,43) e ao exprimir sua total disponibilidade à vontade do Pai. A cena do encontro de Maria com o filho é descrita de maneira simples, com um tom semelhante ao daquelas situações em que pais aflitos encontram os filhos supostamente perdidos, nas quais há uma mistura de preocupação, angústia, cuidado, “raiva”, como forma de desabafar o desespero que os sufocavam. Percebe-se, porém, que se trata de família que vive as exigências de sua vocação específica e, dialogando, tenta discernir a vontade de Deus diante dos acontecimentos cotidianos.

Apesar da incompreensão da atitude de Jesus, Maria não fica indiferente a esse mistério e o guarda no coração. Note-se que o Evangelho de Lucas permanece fiel à sua finalidade de revelar a verdadeira identidade de Jesus somente depois da ressurreição.

Os vv. 51-52 apresentam Jesus novamente submisso aos seus pais, vivendo conforme a Lei de Deus e cumprindo os mandamentos, sobretudo o de “honrar pai e mãe” (cf. Dt 5,16 e o texto da I leitura). Apesar do contraste com a cena precedente e da consciência de Jesus de sua filiação divina, estes versículos nos mostram que realmente o Filho de Deus assume a condição humana e o processo normal de crescimento. De fato, Lucas descreve Jesus adolescente, que progride em sua maturidade humana, física e espiritual. Também confirma o que é dito na I leitura, ou seja: aquele que é obediente aos pais e os trata com respeito receberá as bênçãos de Deus. O termo “graça” pode ser também traduzido por “amor”, “caridade”, ou bondade, que, conforme a II leitura, é o vínculo da perfeição.

  1. II leitura: Cl 3,12-21

A carta aos Colossenses é chamada deuteropaulina, ou seja, é atribuída a Paulo, mas não foi escrita por ele. Provavelmente, tenha sido escrita por um discípulo ou um líder da comunidade de Colossas.

A passagem escolhida como II leitura de hoje tem o objetivo de delinear as atitudes fundamentais dos membros da comunidade cristã, sobretudo nas relações familiares. Essas exortações são alicerçadas na ação salvífica realizada por Jesus, que promove a criação de um mundo renovado, de uma nova humanidade. Por meio de nossa fé em Cristo, de nossa adesão a ele, tornamo-nos filhos de Deus (cf. Cl 2,12-15) e irmãos entre nós. Desse modo, somos exortados a viver o amor fraterno, a paz, e a ser assíduos à escuta da Palavra. Com a fidelidade a Cristo, o cristão vive uma existência nova que o habilita a descobrir, na história e na vida, a realização do projeto salvífico de Deus, o qual se identifica com sua vontade. Assim, é chamado a estabelecer novas relações, assumir nova mentalidade, novo estilo de vida. Esse novo estilo de vida é esboçado em Cl 3.

Os versículos escolhidos para a II leitura desta festa da Sagrada Família (vv. 12-21) destacam: recuperar a imagem de Deus, retomar sua relação com Jesus Cristo, resgatar a aliança com Deus (v. 12), restabelecer nova relação com o outro, vivendo em comunhão e em fraternidade (vv. 12-13). Essa mudança nos conduz à vivência da caridade e da sabedoria. A caridade é o vínculo da perfeição, pois nos conduz à perfeição. Esta é entendida no sentido de atingir a meta, chegar àquilo que desejamos e almejamos – a plenificação do nosso amor, vivendo profundamente em comunhão com Deus e com o outro. Podemos também entender essa expressão numa perspectiva pascal, ou seja, a caridade identifica-se com o amor salvífico revelado em Cristo.

A sabedoria, em Cl 3,16, é apresentada como a faculdade de compreender e de julgar as situações e os acontecimentos. Em 2,18, agir com sabedoria é agir moralmente. De fato, o texto sugere ser necessário orientar as decisões para nossa opção fundamental: Jesus Cristo. Essa opção, marcada pela caridade e pela sabedoria, transforma o nosso modo de pensar e de agir e contribui para melhor discernirmos a vontade divina em todas as circunstâncias, sendo este o verdadeiro culto a Deus. Nesse contexto, são inseridos os preceitos particulares e domésticos, influenciados pelo ambiente cultural greco-romano, mas também com várias características do modelo judeu-helenista. A novidade dessas normas está em fundamentá-las na experiência cristã, na experiência profunda com Jesus Cristo.

A primeira regra doméstica é dirigida às esposas, chamadas a ser “solícitas” com seus maridos, ou seja, cuidar deles, cultivando um relacionamento de respeito, carinho, ternura, delicadeza, marcado pelo diálogo, pelo perdão, pelo compartilhamento de momentos de alegria e de tristeza. “Submeter-se” também pode ser interpretado como renunciar a determinadas atitudes para a edificação da família, trilhar o caminho do amor com suas exigências e enfrentar as fragilidades. De fato, todo relacionamento, sendo algo construído constantemente, está sujeito às vicissitudes do dia a dia: problemas econômicos, instabilidade, experiências dolorosas, conflitos, alegrias, sonhos, esperanças. A relação conjugal exige a renúncia à idealização do outro e  também a acolhida de seus limites e de sua originalidade. Isso supõe compreensão, aceitação mútua, paciência. Ser solícito é compreender que o amor é um dom, o qual consiste em aprender a promover a vida do outro. “Submeter-se” é renunciar aos muitos desejos egoístas para estabelecer fortes e profundos laços de comunicação interpessoal. Tudo isso exige ampliação de espírito, treinamento, capacidade de amar. Submeter-se no amor é suportar o outro, carregando a sua fragilidade, sendo solidário na sua dor e, sobretudo, alegrando-se com suas pequenas vitórias. É suportar também os desafios apresentados no dia a dia. “Submeter-se”, neste texto, não pode ser interpretado como uma submissão sexual ou de si mesma ao marido, pois, se fosse essa a intenção, o autor não exortaria os maridos a amar as esposas como Deus ama o seu povo, ou seja, a amá-las tendo como fundamento o amor gratuito de Deus, manifestado em Cristo, que exclui qualquer tipo de submissão (cf. 1Cor 13,1-13).

Neste texto, os maridos são exortados a expressar seu amor para com as esposas, pois é importante para elas ouvir que são amadas, valorizadas, reconhecidas por aquilo que são. Expressar também por meio de gestos de ternura, de compreensão, de aconchego, de proteção, de solidariedade, de serviço, saindo de si mesmo para acolher o outro. De fato, amar supõe a capacidade de renunciar ao poder de submeter o outro, de tomar posse do outro, renunciar à satisfação pessoal à custa do outro e pôr o bem da esposa à frente do próprio. É experimentar a grandeza de doar-se sem calcular, é estar a serviço, num desprendimento de si mesmo.

Os pais também são convidados a não irritar os filhos, ou seja, a animá-los nos seus empreendimentos, a consolá-los nos seus erros e fracassos, a orientá-los em suas decisões, a ter paciência com o seu processo.

III. Pistas para reflexão

A Sagrada Família, que se desloca para Jerusalém, convida-nos a percorrer caminhos novos, a escutar a Palavra de Deus e sua vontade. A escuta da Palavra nos faz romper com nossa mentalidade fechada, nossos esquemas preestabelecidos, nossas convicções absolutas, nosso modo fechado de viver, e nos insere na aventura de buscar novos horizontes e acolher essas realidades em nosso coração, como fez Maria.

Os textos bíblicos escolhidos para esta festa da Sagrada Família também nos apontam grandes desafios, a saber: a humanização de nossas relações familiares, a sensibilidade para com os pais (I leitura), o discernimento nas situações difíceis (evangelho), o acolhimento das diferentes etapas dos membros de nossas famílias, o amor mútuo nas relações conjugais (II leitura). Inspirando-se na Família de Nazaré, nossas famílias são chamadas a gerar vida, alimentar e sustentar os laços humanos e promover a solidariedade, tornando o ambiente familiar num lugar onde prevaleça a paz, o amor, a fraternidade, o respeito.

Zuleica Aparecida Silvano

Ir. Zuleica Aparecida Silvano, religiosa paulina, licenciada em Filosofia pela UFGRS, mestra em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico (Roma) e doutora em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde atualmente leciona. É assessora no Serviço de Animação Bíblica (SAB/Paulinas) em Belo Horizonte. E-mail: zuleica.silvano@paulinas.com.br