Roteiros homiléticos

Publicado em julho-agosto de 2025 - ano 66 - número 364 - pp. 52-54

3 de agosto – 18° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Gisele Canário*

A riqueza: buscando o tesouro que não perece

I. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras de hoje nos convidam a refletir sobre o sentido profundo da vida e a relação entre os nossos esforços diários e a eternidade. O Eclesiastes aponta para a fragilidade dos projetos humanos quando desvinculados de um propósito mais elevado, enquanto Paulo exorta a comunidade cristã a viver com os olhos voltados para as realidades que transcendem o imediato. No Evangelho, Jesus provoca uma mudança de perspectiva ao desafiar o valor das posses acumuladas e apresentar a riqueza como algo intrinsecamente ligado à nossa relação com Deus e ao impacto que deixamos na vida dos outros.

Vivemos em uma sociedade que muitas vezes mede o sucesso pela acumulação de bens e status, mas estas leituras nos convidam a um paradoxo mais profundo: considerar que o legítimo tesouro está em uma vida vivida com significado, generosidade e visão para além de nós mesmos e do passageiro.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ecl 1,2; 2,21-23)

Historicamente, o livro do Eclesiastes foi composto em uma era pós-exílica, um período de grandes transformações sociais e econômicas para o povo judeu. Neste contexto, a sociedade começava a se reorganizar após o exílio babilônico, com a emergência de elites que associavam o  sucesso ao acúmulo de bens materiais e à busca incessante por progresso. Este trecho em particular reflete a crítica de um autor sábio, muitas vezes identificado como Qohelet, cujo nome pode significar “aquele que reúne” ou “pregador”, possivelmente um mestre ou filósofo da época, que utiliza o título de Salomão para conferir autoridade à sua reflexão.

A frase “Vaidade das vaidades” (hevel havalim) é central ao argumento e pode ser traduzida literalmente como “sopro dos sopros”, destacando a transitoriedade e o vazio de uma vida focada exclusivamente no trabalho e na acumulação. O autor aponta para a futilidade de esforços que não levam em consideração os valores espirituais e eternos. Exegeticamente, este trecho denuncia a fragilidade humana e a angústia existencial daqueles que, mesmo após uma vida de trabalho árduo, deixam tudo a outros que não participaram do esforço. A palavra hebraica (hevel), traduzida como “vaidade”, reforça a ideia de que a vida, sem Deus, é tão passageira quanto um sopro ou vapor.

O autor utiliza este trecho para provocar seus leitores a refletirem sobre o verdadeiro propósito da existência, enfatizando que apenas uma relação fundamentada na sabedoria divina pode oferecer sentido e paz ao coração humano, mesmo em meio às inquietações e às limitações da vida terrena.

2. II leitura (Cl 3,1-5.9-11)

Paulo escreve à comunidade de Colossas em um contexto de tensões religiosas e culturais. Destinada a uma região influenciada por diversas filosofias e cultos, a carta busca reafirmar a centralidade de Cristo como a fonte da verdadeira vida, em oposição às práticas ascéticas e filosofias dualistas que ameaçavam a unidade e a pureza da fé cristã.

O texto exorta os cristãos a aspirarem às “coisas do alto” (ta anō), em vez de se prenderem às coisas terrenas. A linguagem de “fazer morrer” (nekrosate) os desejos terrenos carrega um tom de decisão radical. Não se trata de desprezo pelo mundo físico, mas de uma transformação interior que reflete a nova vida em Cristo, que governa a partir dos céus (ta anō).

O versículo 11, que afirma que “Cristo é tudo em todos” (Christos ta panta kai en pasin), é uma declaração de inclusão e unidade. Ele elimina distinções entre judeus e gregos, escravos e livres, e dessa forma enfrenta as hierarquias absolutizadas da sociedade do século I. Historicamente, essa afirmação promove uma visão forte que se abre à esperança, em que Cristo une todos em uma nova humanidade.

3. Evangelho (Lc 12,13-21)

O contexto histórico deste Evangelho apresenta a luta por heranças, um tema comum em uma sociedade agrária como a Palestina do século I. A questão levantada no início do texto não é incomum: conflitos familiares por bens eram frequentes, e os rabis eram frequentemente chamados para atuar como mediadores.

Jesus, no entanto, recusa o papel de juiz e aproveita a oportunidade para ensinar sobre os perigos da ganância (pleonexia). Ele conta a parábola de um homem rico cuja colheita abundante leva à decisão de construir celeiros maiores. Este homem, na narrativa, é chamado de “louco” (aphrōn) porque ignora a brevidade da vida e a verdadeira finalidade dos bens materiais.

A mensagem de Jesus não condena a riqueza em si, mas a acumulação egoísta e a falta de sensibilidade para com as necessidades do próximo. A última linha – “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus” – ressalta que o valor de uma vida não é medido pela abundância de posses, mas pela capacidade de compartilhar e viver em comunhão com Deus e os outros.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A vaidade das conquistas humanas. O Eclesiastes nos desafia a considerar a efemeridade das conquistas materiais. Onde estamos colocando nossa confiança? Estamos vivendo para acumular ou para construir relações que transcendam o tempo?

A vida ressuscitada em Jesus. Paulo nos convida a nos revestirmos do “homem novo” e a aspirarmos às coisas do alto. Como podemos alinhar nossas prioridades diárias com os valores do Reino de Deus?

Riqueza verdadeira. A parábola do rico insensato nos lembra que a verdadeira riqueza está em ser “rico diante de Deus”. Estamos acumulando bens que perecem ou tesouros que perduram na eternidade?

IV. CONCLUSÃO

As leituras de hoje nos desafiam a reconsiderar nossas prioridades e a refletir sobre o que realmente importa. A vida, em sua plenitude, não é definida pelo que possuímos, mas por nossa relação com Deus e com o próximo.

Que possamos, em um mundo obcecado por acumulação, buscar a riqueza que vem da generosidade, do amor e da comunhão com Deus. Assim, construiremos uma vida que verdadeiramente reflete os valores do Reino do Deus da vida.

Gisele Canário*

*é mestra em Teologia (Exegese Bíblica Antigo Testamento) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Possui graduação em Teologia pela Instituição São Paulo de Estudos Superiores e licenciatura em Geografia pela Universidade Cruzeiro do Sul. É assessora no Centro Bíblico Verbo onde atua com a orientação de comunidades eclesiais e cursos bíblicos, para estudos bíblicos, gravação de vídeos, formação em material para leitura online desde 2011.