Publicado em julho-agosto de 2025 - ano 66 - número 364 - pp. 54-56
10 de agosto – 19° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Gisele Canário*
Caminhando na esperança por meio da vigilância e da promessa que surge com o Reino de Deus
As leituras de hoje nos convidam a refletir sobre a importância da fé e da vigilância na esperança das promessas de Deus. Desde a experiência da libertação do Egito, destacada no livro da Sabedoria, até a visão da fé como fundamento da esperança em Hebreus, somos conduzidos ao Evangelho, no qual Jesus exorta seus discípulos a se prepararem para a chegada inesperada do Filho do Homem. Essas leituras não só dialogam com a realidade de um mundo que muitas vezes nos distrai do essencial, mas também nos desafiam a manter nosso coração ancorado no verdadeiro tesouro: o Reino de Deus.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Sb 18,6-9)
A primeira leitura nos transporta ao contexto do livro da Sabedoria, escrito no século I a.C., em Alexandria, onde a comunidade judaica enfrentava uma intensa pressão cultural devido à influência helenística. Esse texto demonstra uma tentativa de reafirmar a identidade religiosa e histórica do povo de Israel, resgatando a memória da noite da libertação do Egito, evento central para a fé judaica.
Exegeticamente, o autor destaca a noite em que Deus interveio para libertar os justos e julgar os opressores, enfatizando o papel da fidelidade que vem de Deus. O texto utiliza uma linguagem poética para sublinhar o contraste entre a perdição dos inimigos e a salvação dos fiéis. No versículo 7, vemos como a ação de Deus traz juízo e redenção simultaneamente, revelando a justiça de Deus como um ato de misericórdia para os que permanecem firmes em sua aliança.
O pacto mencionado no versículo 9 reforça a solidariedade comunitária entre os fiéis, que oferecem sacrifícios e entoam cânticos em antecipação à vitória de Deus. Historicamente, esta narrativa também reflete o desejo do autor de encorajar a comunidade judaica a permanecer fiel em meio às adversidades culturais e religiosas, confiando na intervenção divina, que transforma opressão em glorificação.
2. II leitura (Hb 11,1-2.8-19)
A carta aos Hebreus, escrita para uma comunidade cristã que enfrenta perseguições e desânimo, apresenta a fé como a certeza das coisas esperadas (hypostasis) e a convicção de realidades invisíveis (elegchos). O autor utiliza a figura de Abraão como exemplo de obediência e confiança incondicional nas promessas divinas. Mesmo sem ver a plena realização, Abraão caminha pela fé, reconhecendo-se como peregrino em uma terra que simboliza a esperança em algo maior: a pátria celeste.
O texto também destaca Sara, cujo papel na promessa divina é ressaltado como sinal da fidelidade de Deus. A exegese aponta que a “cidade que tem Deus como arquiteto e construtor” representa, para além de um lugar físico, o projeto escatológico do Reino, para o qual todos somos chamados a caminhar pela fé. Historicamente, o uso da figura de Abraão reforça a ligação entre a tradição judaica e a Nova Aliança em Cristo, destacando a continuidade do plano de salvação.
3. Evangelho (Lc 12,32-48)
Ao longo do Evangelho de Lucas, encontramos uma série de exortações de Jesus sobre a vigilância e a responsabilidade. Jesus utiliza imagens familiares, como a preparação de um empregado para o retorno de seu senhor, para ilustrar a necessidade de estar sempre alerta para a chegada do Filho do Homem. No contexto do século I, essa linguagem ressoava as expectativas apocalípticas de Israel, que aguardava a intervenção definitiva de Deus na história.
O versículo 34, “onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”, resume a mensagem central: a vida cristã deve ser vivida com o foco no Reino de Deus, não nas seguranças materiais. A expressão “cingir os rins” evoca prontidão e serviço, enquanto “lâmpadas acesas” simbolizam a vigilância que surge por meio da fé.
Jesus também aborda a responsabilidade individual. Os versículos finais destacam que “a quem muito foi dado, muito será pedido”, sublinhando a justiça de Deus, que considera tanto o conhecimento quanto as ações de cada indivíduo. Historicamente, este discurso pode ter servido como advertência às lideranças e como encorajamento para os primeiros cristãos que viviam em tempos de muitas incertezas.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Fé como caminho de esperança. A experiência de Abraão nos desafia a viver como peregrinos, caminhando pela fé e confiando nas promessas de Deus, mesmo quando os resultados não são imediatamente visíveis.
Vigilância e prontidão. Jesus nos convida a viver com os “rins cingidos” e as “lâmpadas acesas”. Como podemos manter essa prontidão espiritual em meio às distrações do mundo atual?
Responsabilidade cristã. “A quem muito foi dado, muito será pedido.” Estamos utilizando nossos dons e oportunidades para servir ao próximo e construir o Reino de Deus?
IV. CONCLUSÃO
As leituras de hoje nos convidam a viver a fé com vigilância e responsabilidade. Assim como o povo de Israel confiou na fidelidade de Deus durante a noite da libertação, somos chamados a confiar em Deus enquanto aguardamos a plenitude de suas promessas.
Que possamos caminhar como Abraão, com nossos corações ancorados na esperança, nossas lâmpadas da fé acesas e nossos dons colocados a serviço do Reino. Dessa forma, viveremos como autênticos filhos de Deus, vigilantes, preparados para a chegada do Filho do Homem.
Gisele Canário*
*é mestra em Teologia (Exegese Bíblica Antigo Testamento) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Possui graduação em Teologia pela Instituição São Paulo de Estudos Superiores e licenciatura em Geografia pela Universidade Cruzeiro do Sul. É assessora no Centro Bíblico Verbo onde atua com a orientação de comunidades eclesiais e cursos bíblicos, para estudos bíblicos, gravação de vídeos, formação em material para leitura online desde 2011.