Roteiros homiléticos

Publicado em julho-agosto de 2025 - ano 66 - número 364 - pp. 56-58

17 de agosto – ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Por Gisele Canário*

Maria, mulher de esperança e resistência: a força do Magnificat

I. INTRODUÇÃO GERAL

A solenidade da Assunção de Maria celebra a sua elevação ao céu e sua participação integral no projeto de Deus para a humanidade. Maria é figura central de esperança e resistência, especialmente para os marginalizados, porque sua vida reflete a justiça divina que exalta os humildes e derruba os poderosos. Hoje somos convidados a redescobrir o impacto de amor da assunção, especialmente em um mundo que ainda luta contra desigualdades e opressões.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab)

O livro do Apocalipse, escrito em um contexto de perseguição sob o Império Romano, utiliza imagens apocalípticas para transmitir esperança às comunidades cristãs. A “mulher vestida de sol” simbolicamente representa Israel, a Igreja e, na interpretação mariana, Maria como Mãe do Messias.

O “dragão cor de fogo” simboliza as forças do mal e da opressão. Linguisticamente, o termo grego sēmeion, “sinal”, indica algo extraordinário e revelador. A luta entre a mulher e o dragão é uma narrativa de resistência: mesmo diante do perigo, a mulher dá à luz, afirmando a vitória da vida sobre a morte.

Este texto nos convida a refletir sobre o papel de Maria como modelo de esperança ativa. Sua figura nos inspira a lutar contra as “feras” do mundo moderno: a desigualdade de gênero, a violência e a exclusão.

2. II leitura (1Cor 15,20-27a)

Neste trecho de 1 Coríntios, Paulo exalta a ressurreição de Cristo como a primícia da redenção. O contexto histórico aponta para uma comunidade que buscava compreender a ressurreição em meio à cultura greco-romana, que supervalorizava o dualismo corpo-espírito. Paulo, no entanto, reforça a união entre corpo e espírito na vida eterna, contrapondo-se à visão platônica predominante na época.

Exegeticamente, o termo grego aparchē, traduzido como “primícia”, indica a ideia de uma oferta inicial que garante a plenitude futura, ou seja, Cristo como o primeiro a ressuscitar, assegurando a ressurreição para toda a humanidade. A estrutura do texto apresenta uma argumentação escatológica progressiva, em que a ressurreição de Cristo é o ponto central do plano divino, culminando na vitória definitiva sobre a morte, descrita na expressão: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Cor 15,26).

Paulo utiliza uma linguagem extremamente influenciada pela tradição judaica apocalíptica, destacando a soberania de Cristo sobre todas as coisas, conforme indica a expressão “tudo foi colocado debaixo de seus pés” (v. 27), uma referência ao Salmo 8,6, reforçando a ideia da autoridade universal de Cristo no plano salvífico.

3. Evangelho (Lc 1,39-56)

O Cântico de Maria é uma expressão de forte resistência e esperança. Inserido no contexto de uma sociedade patriarcal, o Magnificat subverte as estruturas sociais ao exaltar os humildes e denunciar os poderosos. A história de Maria visitando Isabel é uma atitude de solidariedade feminina e profética.

Linguisticamente, o verbo megalynei, “engrandece”, indica que Maria reconhece a grandeza de Deus em sua própria experiência de mulher jovem, pobre e marginalizada. Exegeticamente, o Magnificat ecoa os cânticos de Ana (1Sm 2,1-10) e expressa uma teologia da inversão: os orgulhosos são dispersos, os poderosos são derrubados, enquanto os humildes são elevados. Este clamor reforça a continuidade, entre as mulheres, da história da salvação e a esperança ativa que elas personificam. Dessa forma, Maria está ligada às mulheres da história da salvação que ousaram sonhar com um mundo mais justo.

Aqui, entendemos que Lucas escreveu para comunidades marginalizadas, incentivando-as a verem em Maria um modelo de fé ativa, que não aceita passivamente a realidade, mas trabalha pela transformação.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Maria é a mulher resistente. Maria é modelo de resistência e coragem. Como as mulheres de hoje podem se inspirar em seu exemplo para lutar contra as estruturas de opressão?

O Magnificat como manifesto social. O cântico de Maria é uma poesia que faz uma denúncia profética. Estamos dispostos a nos unir ao clamor de Maria por justiça e igualdade?

A assunção e a esperança na ressurreição. Maria foi elevada ao céu como sinal de esperança. Como podemos viver nossa esperança na ressurreição de maneira concreta em nosso cotidiano?

IV. CONCLUSÃO

A assunção de Maria nos ajuda a olhar para o futuro com esperança e a agir no presente com coragem e determinação. Maria nos ensina que a verdadeira grandeza está em servir, resistir e confiar plenamente no amor de Deus, que surge por meio de seu projeto.

Que possamos, como Maria, dizer “sim” ao projeto do Deus da vida, tornando-nos instrumentos de transformação em um mundo que clama por justiça, igualdade e paz. Em um contexto em que, segundo a ONU, uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual, e em que as mulheres continuam sub-representadas em posições de liderança, Maria surge como um símbolo de resistência e esperança. Seu exemplo nos inspira a lutar por um mundo onde os humildes sejam elevados, os famintos saciados e os direitos de todas as mulheres sejam respeitados e promovidos. Assim, seguimos confiando no amor de Deus, comprometidos em construir uma sociedade mais justa para todos.

Gisele Canário*

*é mestra em Teologia (Exegese Bíblica Antigo Testamento) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Possui graduação em Teologia pela Instituição São Paulo de Estudos Superiores e licenciatura em Geografia pela Universidade Cruzeiro do Sul. É assessora no Centro Bíblico Verbo onde atua com a orientação de comunidades eclesiais e cursos bíblicos, para estudos bíblicos, gravação de vídeos, formação em material para leitura online desde 2011.