Roteiros homiléticos

Publicado em julho-agosto de 2025 - ano 66 - número 364 - pp. 62-64

31 de agosto – 22° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Gisele Canário*

Humildade, sabedoria e o convite ao Reino do Deus da vida

I. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras de hoje nos convidam a refletir sobre a humildade como chave para compreender e viver o Reino de Deus. Em um mundo que valoriza o status e o poder, a mensagem proposta pelas leituras deste domingo nos provoca a uma inversão radical: grandeza é serviço, e honra é acolher os excluídos. As leituras sobre as quais refletiremos a seguir desafiam tanto o contexto histórico das Escrituras quanto nossas práticas contemporâneas.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Eclo 3,19-21.30-31)

Este texto, oriundo da literatura sapiencial judaica, é atribuído a Ben Sirac, um escriba do período helenístico. Ele escreve em um contexto em que a cultura grega exaltava a sabedoria intelectual e o heroísmo, contrapondo-se à tradição judaica de que a verdadeira grandeza está na relação com Deus.

O verbo hebraico correspondente a “realizar com mansidão” é anavah, que carrega a ideia de uma atitude deliberada de autocontrole e humildade. Ao dizer que é aos humildes que Deus revela seus mistérios, o texto estabelece que o verdadeiro conhecimento não vem de uma posição de poder, mas de um coração aberto à revelação que vem do amor de Deus.

O vínculo entre orgulho e destruição é também central. O “pecado enraizado” no orgulhoso apresenta uma alienação sobre a fé que impede a compreensão das verdades maiores sobre a vida. A humildade aqui é apresentada como um caminho de sabedoria e graça.

2. II leitura (Hb 12,18-19.22-24a)

A carta aos Hebreus contrasta dois momentos teofânicos: o monte Sinai, marcado por medo e tremor, e o monte Sião, que representa a Nova Aliança. Esse texto apresenta uma transição teológica do judaísmo ao cristianismo e destaca o papel de Jesus como mediador da Nova Aliança.

O autor utiliza imagens cheias de espetáculos para descrever a “Jerusalém celeste”: uma reunião festiva de anjos e justos. O contraste com o Sinai é significativo. No Sinai, o foco estava na Lei e na distância entre Deus e o homem; em Sião, destaca-se a proximidade divina, onde a mediação de Jesus torna acessível a experiência de Deus.

A expressão “mediador da Nova Aliança” sublinha a continuidade e a superação das alianças anteriores. A salvação oferecida por Cristo não se baseia no temor, mas na confiança e na participação plena na vida divina.

3. Evangelho (Lc 14,1.7-14)

Jesus, ao narrar esta parábola, está em um ambiente de elites religiosas, os fariseus, que buscavam status e reconhecimento. Lucas escreve em um contexto de comunidades cristãs que enfrentavam tensões sociais e precisavam aprender a lidar com o poder e a desigualdade.

O verbo grego eklégesthai, traduzido como “escolher”, reflete o ato deliberado de ocupar lugares de honra, expondo uma sociedade hierarquizada. A instrução de buscar os últimos lugares é um conselho prático e um convite à transformação interior.

O segundo ensinamento, sobre convidar os pobres, aleijados e coxos, é radical, pois subverte as práticas sociais de reciprocidade comuns no mundo antigo, em que festas eram espaços de alianças políticas e sociais, organizadas para consolidar hierarquias e status. Jesus, ao propor que sejam convidados aqueles que não podem retribuir, no fundo está desafiando essas convenções e oferecendo uma visão diferente do Reino de Deus, fundamentada na graça e no amor incondicional. Exegeticamente, esse ensinamento tem a ver com a ética do Reino como um espaço inclusivo e contracultural, onde a honra não é concedida por mérito humano, mas pela generosidade divina.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Humildade como caminho de sabedoria. O Eclesiástico nos convida a reconhecer que a verdadeira grandeza está na simplicidade e no serviço. Como podemos cultivar a humildade em nossas relações diárias?

Acesso ao Reino. A carta aos Hebreus nos lembra que, em Cristo, temos acesso direto a Deus. Como vivemos essa realidade em nossa experiência de fé e comunidade?

Incluir os excluídos. O Evangelho desafia as normas sociais de exclusão. Quem são os excluídos em nosso meio? Estamos dispostos a convidá-los à mesa do Reino?

IV. CONCLUSÃO

As leituras deste domingo apontam para a essência do Reino de Deus: um chamado à humildade, à sabedoria e à inclusão. Em um mundo onde ainda vemos exclusão, desigualdades sociais e o aumento de discursos de ódio, também existem sinais de esperança: iniciativas solidárias, comunidades que promovem a inclusão e a luta por justiça. Que possamos nos inspirar no Evangelho para construir espaços de acolhida onde a dignidade de cada pessoa seja respeitada. Reconheçamos em cada gesto de solidariedade e em cada vida transformada a presença viva do amor de Deus e a esperança de que consigamos viver como irmãos e irmãs na verdadeira comunhão.

Gisele Canário*

*é mestra em Teologia (Exegese Bíblica Antigo Testamento) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Possui graduação em Teologia pela Instituição São Paulo de Estudos Superiores e licenciatura em Geografia pela Universidade Cruzeiro do Sul. É assessora no Centro Bíblico Verbo onde atua com a orientação de comunidades eclesiais e cursos bíblicos, para estudos bíblicos, gravação de vídeos, formação em material para leitura online desde 2011.