Publicado em janeiro-fevereiro de 2026 - ano 67 - número 367 - pp. 50-54
8 de fevereiro – 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
Que a vossa luz brilhe no mundo!
Movidos pelo desejo de sermos fiéis testemunhas de Jesus no mundo, vivenciando nosso batismo, encontramos na liturgia inspiração para viver a caridade fraterna: somos todos irmãos e irmãs neste mundo. Há quem esteja com fome e podemos dar-lhe de comer; ao nu, vestir; ao peregrino, acolher. Esta é a mensagem essencial da primeira leitura: testemunhar que somos libertos do pecado para servir nossos semelhantes. A segunda leitura evidencia que, na comunidade discipular, a Igreja, o que nos torna importantes e responsáveis não são nossas astúcias humanas, nossa inteligência e capacidade intelectual, mas a graça de Deus, que nos alcança a todos/as. A Igreja deve evangelizar não com o poder de seus braços ou a força de suas estruturas, mas com a graça de Cristo crucificado-ressuscitado, presente no meio de nós. Ser sal da terra, dando sabor às relações e às realidades que nos circundam, e iluminar a vida dos/as irmãos/ãs, sendo luz no mundo, testemunhando a verdade revelada por Deus, em Cristo, é a missão que o Evangelho nos impõe. O convite de Jesus é para que nossa luz brilhe no mundo em favor das pessoas e elas louvem a Deus por nós, que nos propomos servir e amar.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 58,7-10)
O profeta Isaías, no trito-Isaías – a última parte do livro –, convida o povo que voltou do exílio na Babilônia à caridade. É tempo de reconstruir a vida, pois o tecido social está esgarçado por inúmeras injustiças e egoísmos. Agora é novo tempo de voltar para Deus e sua Palavra normativa. Repartir o pão com o faminto é o primeiro ato de caridade, pois um corpo enfraquecido não consegue trabalhar e procurar justiça (v. 7). Cobrir o nu é outro gesto de caridade, para que não seja desprezada sua carne. Com tais gestos de amor, brilhará a luz do povo como uma manhã, a saúde se recuperará mais depressa (v. 8) e à frente caminhará a justiça – a tsedaqah, importante atributo de Deus, que é justo e deseja que todos cumpram sua justiça, se ajustem à medida do amor. Com isso, a glória do Senhor estará sobre seu povo, que cumpre seu mandamento. Trata-se da shequinah, em hebraico, é a kavod de Deus que desce sobre seu povo cumpridor de seu mandamento, de sua Lei.
Todo ato de justiça celebrado pelo povo, servo de Deus, que estava no exílio, agora servirá para que as pessoas possam confiar em Deus, pois ele as atenderá. Se pedirem socorro, Deus dirá: “Eis me aqui”. É preciso que Israel expurgue seus instrumentos de opressão e deixe hábitos autoritários, assim como a língua maldosa (v. 9). É preciso, ainda, acolher o indigente e prestar socorro ao necessitado. Tudo isso fará nascer nas trevas a luz do povo. A vida obscura, por ocasião do pecado, será como o meio-dia, luminoso (v. 10).
Para o profeta Isaías, bem como para muitos textos bíblicos, viver a caridade no âmbito da vida comunitária é uma forma extraordinária de alcançar a graça de Deus, que leva mais em consideração o que de bom o ser humano faz do que suas injustiças. Estas podem ser reparadas pelo amor, que é possível expressar mais por gestos concretos do que por palavras.
2. II leitura (1Cor 2,1-5)
Escrevendo à Igreja de Corinto, Paulo enfatiza que está anunciando a Jesus Cristo crucificado. Não se vale da própria retórica ou de linguagem humana, nem recorre aos prestígios da sabedoria humana, mas está anunciando o Senhor (v. 1-2). Paulo, assim, reconhece sua fraqueza, receio e temor. Não se apresenta aos coríntios com palavras grandiosas, com discursos eloquentes e sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes, mas apresenta-se com toda a simplicidade para anunciar o paradoxo da cruz, a ação de um Deus impotente, que morreu numa cruz rejeitado por todos, sofrendo uma morte ignominiosa. Apesar de tudo, em Corinto nasceu uma comunidade cristã cheia de força e de fé. Paulo entende, pela experiência que faz do Espírito, que sua pregação não o traz como protagonista, para que ele próprio não se vanglorie (cf. 1Cor 1,31). Quem se gloria deve fazê-lo no Senhor. Deus é a razão de qualquer glória, e não o próprio apóstolo. Essa autoconsciência é formidável em Paulo, grande apóstolo entre os gentios, que infundiu em diversas comunidades a alegria do Evangelho e a certeza do querigma de Jesus Cristo morto e ressuscitado.
Paulo tem consciência de que seus discursos, mesmo que retóricos, não se valem da persuasão da sabedoria, mas da demonstração pneumatológica de Deus. Em seu Espírito, Deus sustenta e anima a pregação do apóstolo (v. 4). O que Paulo deseja, portanto, é que a fé vivida pelos irmãos e irmãs de Corinto se baseie no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens (v. 5). Paulo é, para toda a Igreja de Corinto e para nós hoje, um exemplo de fé irrestrita em Deus, de quem confia no Senhor com senso de responsabilidade e participação, mas, ao mesmo tempo, com o sentimento de que aquilo que mais vale é a Providência divina, a qual não foi estéril em sua vida, mas abundante, eficaz e frutuosa.
3. Evangelho (Mt 5,13-16)
Ainda dentro do Sermão da montanha, o discurso inaugural no Evangelho de Mateus, encontramos Jesus ensinando seus discípulos e ouvintes. O Sermão da montanha apresenta as categorias fundamentais, à luz das bem-aventuranças (domingo passado), para que o/a discípulo/a possa pautar sua vida. Acerca das bem-aventuranças e do Sermão da montanha, o papa Francisco afirmou que são como um GPS que ajuda o cristão a seguir o caminho de sua vida, mostrando a direção fundamental do Reino de Deus, sua hegemonia sobre nós, homens e mulheres.
Na passagem deste domingo, Jesus utiliza-se de dois elementos naturais fundamentais, sal e luz, para falar metaforicamente como os discípulos devem ser e viver. O sal é um elemento natural importante, pois conserva os alimentos, dá sabor e equilibra, na medida certa, a pressão arterial. Ele é encontrado no mar. Este, por mais perigoso que seja, traz em si o sal que conserva nele a vida, como um ecossistema importante para o planeta. O sal é vital, mas na medida certa. Sem o sal, o alimento é insosso. Jesus diz: “Vós sois o sal da terra”. O sal deve estar na terra, e já não no mar. No mar, é algo comum; fora do mar, é exceção. Isto é, o sal é símbolo da preservação do sabor espiritual em meio ao mar da vida, no qual o cristão deve manter sua santidade, preservando a vida no confronto com o pecado, preservando seu sabor e saber que provêm de Deus. O mar é, nas Escrituras, sempre símbolo da incerteza. O sal na terra cumpre uma função específica de preservar e fertilizar. Em alguns rituais, usava-se o sal com o sentido de purificação. No Império Romano, os soldados recebiam, como parte de seu pagamento, um punhado de sal, donde o termo “salário”. Dessa maneira, cada cristão deve trazer em si o sal do sabor de Deus para preservar-se no mundo.
A luz é essencial à vida. Oriunda do Sol, é expressão da energia vital. Diz-se que, quando alguém nasce, vem à luz. Ela é essencial para que haja alimento para a vida humana. O primeiro ser criado por Deus, após o céu e a terra, foi a luz (cf. Gn 1,3). Na escuridão do mar do mundo, a luz é um farol que ilumina o caminho certo para os tripulantes desta travessia que é a vida. Ela é símbolo da verdade de Deus e de seu caráter. Segundo o apóstolo Paulo, em Fl 2,15, os cristãos são chamados a “resplandecer como astros no mundo”. Essa exortação pode ser entendida à luz de Mt 5,15: “Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas num candeeiro, onde brilha para todos os que estão na casa”. A casa é o mundo onde estamos, e nele nos cabe fazer brilhar a luz do Senhor, que nos iluminou no batismo para uma vida nova. Jesus chama seus discípulos a deixar sua luz brilhar diante dos homens, pois, se estamos unidos a ele, que é a luz do mundo (cf. Jo 8,22), então nos cumpre refletir no mundo seu amor por nós. As obras dos cristãos devem refletir a luz que os ilumina, que é Cristo, e esse testemunho será motivo de louvor a Deus, fonte e origem de toda luz.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A comunidade pode refletir sobre sua missão neste mundo: ser sal e luz. Perceber que esta liturgia deriva, como a dos últimos domingos, do sacramento da iniciação à vida cristã, o batismo. Pelo batismo, todos somos chamados a iluminar o mundo com nosso testemunho. Aquele que preside a comunidade pode exortá-la a ser testemunha da caridade e do amor verdadeiro, ajudando a alimentar os que passam fome. A comunidade pode iniciar ou ampliar uma campanha de solidariedade com os empobrecidos e com aqueles que estão em situação de vulnerabilidade social. Convidar os membros da paróquia ou da comunidade a um gesto de solidariedade em favor dos que estão no esquecimento social: uma visita a um asilo ou orfanato, bem como a pessoas em situação de rua.
Junior Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico. E-mail: [email protected]

