Publicado em janeiro-fevereiro de 2026 - ano 67 - número 367 - pp. 54-58
15 de fevereiro – 6º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
Que o vosso “sim” seja “sim” e vosso “não” seja “não”
Movidos pela Palavra de Deus, somos convidados a amar profundamente nossos semelhantes, aqueles que chamamos de irmãos, com os quais construímos fraternidade. A primeira leitura nos convida a discernir sobre o bem e o mal, a fim de que colhamos as melhores consequências para nossa existência, não obstante saibamos que, mesmo que sejamos bons, podemos sofrer e de fato sofremos. A segunda leitura nos convida a viver com ousadia a sabedoria que vem de Deus, o qual orienta o ser humano no conjunto de suas leis. O Evangelho nos orienta para a nova ética de Jesus, que vai além daquela exigida no conjunto das 613 leis judaicas. Amar, para Jesus, não é seguir à risca os mandamentos, mas ampliá-los, compreendendo que amar exige de nós mais do que aquilo que simplesmente somos obrigados a vivenciar. Amar é querer o bem do outro.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Eclo 15,16-21)
O relato do livro do Eclesiástico se inspira nitidamente em Dt 30. Viver a sabedoria e com sabedoria é saber discernir entre o bem e o mal, no intuito de não sofrer as consequências das más escolhas. Os caminhos são opções que cada ser humano se dispõe a percorrer na liberdade. Na essência, Sirácida, como é conhecido o autor do livro do Eclesiástico, argumenta que cada indivíduo tem a liberdade radical para escolher a “vida”, obedecendo à lei, ou a “morte”, recusando-se a obedecer. A decisão cabe a cada um, particularmente, e também à comunidade, que pode ajudar o indivíduo a discernir o melhor caminho, orientando a consciência humana no seu processo de escolha do bem ou do mal.
O v. 16 começa com o condicional “se quiseres observar”, levando-nos a compreender que depende do ser humano crente viver os mandamentos, e estes o guardarão. A confiança em Deus é fonte de vida, é graça, para que o fiel seja guardado. Evidentemente, o autor sagrado não tem a intenção de alienar ninguém em um fideísmo, mas apresentar a Lei de Deus como performática: Deus fala e cumpre, guardando o fiel em sua Palavra. A metáfora da água e do fogo aparece no v. 17 como caminhos de escolha: estender a mão para ser molhado ou queimado depende exclusivamente daquele que é convidado por Deus. O sentido da metáfora da água e do fogo se entende no versículo seguinte (v. 18), pois diante do ser humano estão a vida e a morte, o bem e o mal, e ele terá como recompensa aquilo que preferir. A sabedoria é o elemento vital, Hockmah em hebraico; é o que brota da consciência humana advindo de Deus, que ilumina o ser humano para que se torne sábio. A sabedoria, para o mundo semita, não é acúmulo de conhecimento, mas o bom senso de ofertar ao mundo o que de melhor temos. A sabedoria do Senhor é imensa (v. 19). Deus é autor e Senhor da sabedoria; a sentença “ele tudo vê continuamente” exprime a onisciência divina. O v. 20 ressalta a atenção de Deus para com os que o temem. Deus é capaz de conhecer as obras do coração humano, pois o criou como lugar para germinar e florescer sua Lei. Por fim, o v. 21 ressalta que Deus não mandou ninguém agir como ímpio, não dando licença a ninguém para pecar. Na perspectiva de Sirácida, a vida humana é um caminho de decisões que o ser humano continuamente deve tomar. Todas as decisões, seja para o bem, seja para o mal, trarão consequências.
2. II leitura (1Cor 2,6-10)
Paulo exorta os irmãos de Corinto, como fez o autor da primeira leitura com o povo de Israel, a tomar consciência de sua missão. Tais palavras são pura ironia, inteligíveis somente à luz de 1Cor 3,1 (“quanto a mim, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas somente como a homens carnais, como a crianças em Cristo”). Ele diz que “entre os perfeitos (em grego, Teléiois – o que equivaleria a ‘maduros’, ‘vividos’, ou ainda ‘os experientes’) nós falamos de sabedoria” (Sofían). Entre os fiéis, não há almas escolhidas para distintamente terem conhecimento reservado de Deus ou de suas coisas. A sabedoria vem do alto, de Deus, para todo aquele que se abre à sua vontade, à sua revelação. Na perspectiva paulina, não se trata da sabedoria humana, mas da derivada de Deus, do alto, do céu. A esta altura, Paulo está criticando os coríntios, pois se deixaram seduzir por sabedorias filosóficas e ignoraram a verdadeira sapiência, a derivada de Deus.
A sabedoria do mundo, dos poderosos – “líderes” (archónton) – desta terra, é aquela que desaparece (katargouménon; na tradução proposta pela liturgia de hoje: “destruição”). Equivale a dizer que a sabedoria deste mundo é passageira, fugaz, vaidosa e, por isso, destrutiva. No v. 7, Paulo diz: “Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus (Sofián em mystério), que está oculta e, desde a eternidade, Deus destinou para nossa glória” (dóxan émon). Essa sabedoria é, para Paulo, Jesus Cristo, o Logos de Deus na história da humanidade que revela, desde sua encarnação, os mistérios divinos da salvação para todo o gênero humano.
Por falta da sabedoria de Deus, o mundo crucificou o Senhor da glória (Kyrion tés dóxes), Jesus Cristo (v. 8). A sabedoria proveniente de Deus capacita o ser humano para o discernimento da razão, da sua intelecção, por isso lhe concede a inteligência da fé em Jesus Cristo. Foi por causa da ausência da sabedoria divina que levaram Jesus à morte. Tal realidade é indecifrável, fugindo à razão humana e passando a ser chamada de mistério. Tudo o que ocorre com Jesus, Deus o preparou para os que o amam. Os olhos não viram nem os corações pressentiram (v. 9). Aos eleitos da grande comunidade cristã, Deus revelou seu mistério por meio do Espírito, que auxilia o fiel no discernimento de todas as coisas. Na pneumatologia final desse relato, o Espírito é entendido como ente que leva à compreensão das realidades de Deus.
3. Evangelho (Mt 5,17-37)
Continuidade do primeiro discurso mateano – o Sermão da montanha, como ouvimos nos últimos dois domingos –, a extensa narrativa deste dia (havendo também a opção pelo texto sintetizado, breve, para proclamação) oferece-nos uma reflexão acerca do novo código de leis, baseado na sabedoria divina, que Jesus vem propor aos que o seguem e que estão com ele na montanha, lugar do encontro com Deus, como, no passado, estiveram Moisés e o povo de Israel.
Jesus, no início do relato (v. 17-18), diz que não veio para abolir (katalysai) a Lei e os Profetas, mas levá-los a cumprimento (plērōsai, em grego), à plenitude. Ele afirma que, antes que o céu ou a terra deixem de existir, nem a menor letra (iota, em grego; iod, em hebraico) ou uma vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. Jesus não vem para destruir a Lei ou as Escrituras, mas vem levá-las à inteira conformidade e compreensão. Para ele, quem desobedecer a um mandamento da Lei e ensinar outros a fazer o mesmo será considerado o menor no Reino dos Céus. Quem, porém, praticar a Lei e ensiná-la será o maior no Reino dos Céus (v. 19). Jesus não é contra a Lei, mas sim contra todo rigorismo na interpretação da Lei, e isso ele vai ensinar adiante. A partir do v. 20, ele evidencia sua nova compreensão da Lei, ampliando seu modo de interpretá-la; para isso, faz uso da conjunção grega gar, “porque”, em sentido explicativo, dizendo algo além do que está no escrito da Lei: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”.
Nos v. 21-22, Jesus ensina sobre o modo como tratar o/a irmão/ã. Ele diz: “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’”. Derivado de Ex 20,13 e reeditado em Dt 5,17, o imperativo “não matarás” constitui o quinto mandamento da Lei de Deus, acerca da sacralidade da vida em sua inviolabilidade. Agora, para Jesus (v. 22), não é apenas a inviolabilidade da vida que está em jogo, mas também toda ação que a macule, sobretudo encolerizar-se com o outro e dizer-lhe algo ofensivo; por exemplo, dizer ao irmão “patife” (em grego, Rhaka) implicará condenação ao tribunal, e dizer “tolo” (Móre) trará condenação ao fogo do inferno (em grego, Geennan). Geena é um termo helenizado para entender o vale de Hinom (lugar de horror e desprezo) em Jerusalém, onde se mantinha constantemente um fogo aceso para a queima de todo o lixo da cidade. Por conseguinte, todo aquele que xinga seu irmão e dele desdenha está se arruinando em suas próprias palavras, que constituem o pior lixo queimando em seu coração, aquilo que de pior a pessoa tem a oferecer; ou seja, aquilo que ela está projetando no outro e que, na verdade, está nela mesma (psicanaliticamente dizendo).
Nos v. 23-26 encontramos os ensinamentos de Jesus sobre a reconciliação, que começa com a própria atitude daquele que está levando sua oferta ao altar: se lembrar que o outro tem algo contra ele, deve voltar e reconciliar-se (em grego, diallagēthi) com seu irmão. O verbo “reconciliar” está no imperativo, como uma ordem. Somente depois da reconciliação se deve levar a oferta ao altar. Não há, desse modo, boa oferta com um coração adoecido de raiva ou rancor contra o outro. O processo deve ser desenvolvido no caminho para o tribunal, com base no diálogo (v. 25); se isso não acontecer, pode ser que o destino seja a prisão. A conclusão é o v. 26: da prisão somente se sairá quando for pago o último centavo.
Os v. 27-32 tratam do adultério e de questões sobre a convivência. Para Jesus, o adultério não se resume apenas a um ato de traição carnal contra outra pessoa, mas envolve o olhar concupiscente, de desejo. O olhar humano deve ser direcionado para o bem do outro, e não para a sedução e a malícia (v. 28). Arrancar o olho não é retirá-lo em sentido físico, mas significa arrancar o que leva ao pecado, o olhar de cobiça (v. 29). O mesmo acontece com a mão (v. 30). Sobre o divórcio – as últimas consequências da não relação –, Jesus diz nos v. 31-32: “Foi dito também: ‘Quem se divorcia de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio’. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se divorcia de uma mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera, e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério”. Jesus implica o homem na gravidade da situação de se casar com uma mulher divorciada, quando não se entendia que existissem homens adúlteros no costume dos antigos. Jesus iguala os homens às mulheres nesse sentido.
Por fim, na série de ensinamentos, encontramos os v. 33-37 sobre o juramento, uma atitude comum. Jesus diz: “Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’”. Jesus diz em seguida: “Eu, porém, vos digo: não jureis de modo algum”. Para ele, nosso “sim” deve ser “sim” e nosso “não”, “não”.
Em resumo, Jesus nos ensina que, mesmo que a Lei exista e deva ser cumprida, há uma lei cristã, derivada daquela que ele nos ensina, que deve ser levada em consideração por nós que o seguimos como seus discípulos.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Oferecer à comunidade uma reflexão mais ampliada sobre a Lei e os Profetas contidos nas Escrituras, fazendo-a perceber que a nova ética construída por Jesus está baseada no amor profundo, compromissado com o outro, na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária. Ajudar as pessoas a compreender que suas ações no cotidiano da vida têm consequências, que plantar o bem é ter a certeza de que colheremos bondade, não obstante as vicissitudes encontradas no caminho da existência, marcada pela finitude e, muitas vezes, por incompreensões. Estimular a comunidade a vivenciar com sabedoria divina este tempo que nos prepara para a Quaresma que está chegando.
Junior Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico. E-mail: [email protected]

