Roteiros homiléticos

Publicado em janeiro-fevereiro de 2026 - ano 67 - número 367 - pp. 58-61

18 de fevereiro – QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Por Junior Vasconcelos do Amaral*

Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos!

I. INTRODUÇÃO GERAL

Iniciamos neste dia nossos exercícios quaresmais, tempo de reflexão e silêncio, penitência e conversão, fraternidade e comunhão. A Quaresma, à luz da Palavra de Deus, inspira-nos a vivenciar, na Igreja no Brasil, a Campanha da Fraternidade (CF), com o tema “Fraternidade e moradia” e com o lema bíblico inspirado por Jo 1,14: “Ele veio morar entre nós”. O tema desta CF nos faz pensar que todo ser humano deseja moradia digna e tem direito a ela; que temos de buscar políticas públicas que garantam esse direito a todo povo. Na primeira leitura, o profeta Joel nos convida ao arrependimento. Não bastam gestos proféticos de rasgar as vestes, mas é preciso haver gestos existenciais, rasgando o coração e livrando-o de idiossincrasias e egoísmos. Na segunda leitura, Paulo nos convida a ser embaixadores da ação salvífica de Cristo, unindo as pessoas a Deus. Na perspectiva do apóstolo das gentes, o dia da salvação é o hoje de Deus, garantindo-nos a vivência de nossa vocação à santidade. No Evangelho, Jesus nos ensina as práticas de piedade: a verdadeira esmola, a oração sincera e o agradável jejum. As práticas penitenciais da Quaresma nos purificam para o kairós da Páscoa, a fim de nos associarmos um dia à Páscoa eterna.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Jl 2,12-18)

A situação de injustiça social denunciada pelo profeta Joel é alarmante, por isso é necessário arrependimento e conversão: “Voltai para mim com todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos” (v. 12). Jejuar, chorar e gemer são atos de quem está arrependido pelo mal cometido. O v. 13a diz: “Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus”, o que consiste em gesto profético de ira, de não contentamento com as próprias atitudes. Em seguida, o v. 13b apresenta os atributos de Deus: “benigno, compassivo, paciente, cheio de misericórdia e inclinado a perdoar o castigo”.

Em momento algum Joel desaprova o culto, mas o vê acompanhado de uma convocação para a interioridade. O resultado esperado do arrependimento é que talvez Adonai, o Senhor, agirá de acordo com os atributos listados em 13b. O povo é chamado a se arrepender duas vezes (v. 12-13). Assim, Adonai voltará a ter misericórdia. Tocar a trombeta em Sião (v. 15-17) é chamamento não apenas para ocasiões militares, mas também para o culto (Lv 25,9;Sl 81,4; 150,3), por ocasião da Pessach e do Sukkot. Há um detalhe acerca dos convidados ao jejum: fala-se em anciãos e infantes, noivo e noiva, mas faltam o rei e os governantes, o que pode nos levar a supor que essa profecia seja pós-exílica. Também os ministros sagrados choram em lamentos: “Onde seu Deus está?”, fazendo recordar Sl 42,4.11, Mq 7,10 e Ml 2,17. O v. 18 conclui esperançosamente, dizendo: “o Senhor encheu-se de zelo por sua terra e perdoou ao seu povo”.

O profeta Joel é um mensageiro de esperança para um tempo de desesperança; de conversão para um tempo de pecado; de justiça para um tempo no qual as injustiças estavam pululando. Enfim, um profeta de vida para um tempo de morte, um antítipo do que Jesus representa para nós, cristãos.

2. II leitura (2Cor 5,20-6,2)

Paulo entende a vocação do cristão no mundo, não fora dele. Exercer a função de “embaixadores” significa prolongar a missão salvífica de Cristo no mundo onde habitamos. “Deus mesmo vos exorta” (v. 20a) significa o respeito de Deus pela liberdade de suas criaturas. “Reconciliai-vos” (v. 20b) é um imperativo. Paulo exorta a comunidade de Corinto à reconciliação com Deus. A comunidade é chamada a superar as barreiras, intrigas e divisões e tornar-se ponte entre os irmãos e Deus.

O v. 21 expande o sentido do papel de Cristo na reconciliação: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado”. Cristo é reconhecido em Hb 4,15 sem pecado (cf. 1Pd 2,22; Jo 8,46; 1Jo 3,5), mas, por opção de Deus (Rm 8,3), ele passou a estar naquela relação com Deus que normalmente é resultado do pecado. Cristo se tornou parte da humanidade pecadora (cf. Gl 3,23), a fim de que, por ele, nos tornássemos justiça de Deus.

Em 2Cor 6,1 somos chamados a colaborar com Paulo, Timóteo e Apolo na missão que estes receberam de Cristo, por comunhão. Paulo estimula os líderes da comunidade de Corinto a colaborar com a obra salvífica de Cristo. O dia da salvação se aproxima, o tempo da graça de Deus, o kairós. Dessa forma, Paulo envolve-nos a todos na missão salvífica de Cristo; por isso, tal missão é extensiva ao nosso tempo, quando assumimos o trabalho pastoral na vida da comunidade e promovemos comunhão, participação e missão, na vivência da sinodalidade – o modo próprio de ser da Igreja –, percorrendo todos unidos o mesmo caminho.

3. Evangelho (Mt 6,1-6.16-18)

Mateus convida sua comunidade à prática da atenção (em grego, proséxete) com que este tempo merece ser vivido: “Ficai atentos para não praticar vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles” (v. 1). Grosso modo, a ética cristã, o modus vivendi ao qual Jesus exorta seus seguidores neste primeiro discurso de Mateus, deve ser superior à forma de viver dos seguidores da Lei. Jesus chama os discípulos e seus ouvintes a segui-lo, ele que é a nova Lei. Por isso, Jesus está, como um novo Moisés, sentado sobre a montanha e ensinando (cf. Mt 5,1). Sentado é o modo como o mestre (didáskalo) ensina.

O Evangelho deste dia está inserido no Discurso da montanha (Mt 5-7). Do ponto de vista bíblico, poderíamos considerá-lo como sabedoria escatológica, ética e legal ou como lei, enquanto instrução (Torá), com vistas ao Reino vindouro, que não se impõe de maneira coercitiva, mas escatológica e misteriosamente.

Mateus oferece a seus ouvintes/leitores uma reforma nas obras de piedade: esmola (v. 1-4), oração (v. 5-15) e jejum (v. 16-18). Jesus, portanto, é o novo Moisés que reformula os sistemas legais antigos com uma nova concepção, como se fosse vinho novo colocado em odres novos (Mt 9,17). Para os novos seguidores, uma nova forma de viver.

A esmola é uma forma de se relacionar com o outro que nada tem. Contudo, não pode ser realizada da mesma maneira com que outros agiam: “Quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens”. Jesus afirma: “Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita” (v. 2-3). Jesus os convida a uma nova forma, gratuita e não retributiva, de viver a tsedaqah (termo aramaico para “justiça”, que quer dizer “esmola”). Viver a nova justiça (dikaiosyne) proposta por Jesus é viver com retidão e de forma justa, não hipócrita.

Hypókrites era um termo do teatro para designar o ator. Ele também é usado em Mt 23 para designar os falsos intérpretes das Escrituras, os mestres religiosos que falham em sua missão. Ser hipócrita significa fazer tudo para aparecer, para tirar proveito da esmola dada. O cristão, pelo contrário, deve fazer tudo em silêncio e de forma modesta.

A oração é uma forma de se relacionar com Deus, pelo diálogo sincero e fiel (v. 5-6). Deve ser espontânea comunhão pessoal com Deus, para nosso benefício. Deus sabe de que necessitamos. A oração alimenta nossa fé e nos insere na missão. Em Mateus, Jesus ensina, na sequência, a oração espontânea do pai-nosso (v. 7-15).

O jejum é a forma de nos relacionarmos com nós mesmos, controlando nossos desejos e paixões (v. 16-18). Novamente, Mateus utiliza o termo “hipócritas”, referindo-se aos “atores” que se desfiguram histericamente, quando estão jejuando, só para mostrar que são piedosos. Essa falsa piedade não agrada a Deus nem faz bem àquele que a pratica. Pelo contrário, quando jejuar, o discípulo de Jesus deve lavar o rosto e perfumar a cabeça, retratando a alegria. Todas essas práticas de piedade, agora na perspectiva teológica de Jesus, terão sentido novo e serão recompensadas por Deus, o Pai.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Perceber a relação teológica entre as três leituras, que convidam à penitência, ao arrependimento e à prática do amor cristão. Levar a comunidade cristã às verdadeiras práticas de piedade: esmola, oração e jejum. A paróquia ou a comunidade eclesial podem escolher uma entidade caritativa que promove o trabalho com o povo da rua, que já realiza o bem em favor dos vulneráveis, e ajudá-la com uma campanha solidária de alimentos ou de vestuário. Propor a leitura e a meditação do texto-base da Campanha da Fraternidade, a qual visa à vida fraterna na comunidade de fé, refletindo este ano sobre a necessidade de haver moradia para todo ser humano. A moradia adequada foi reconhecida como um direito humano, em 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cabe a todos nós nos empenharmos para que haja moradia digna a todo ser humano.

Junior Vasconcelos do Amaral*

*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico. E-mail: [email protected]