Roteiros homiléticos

Publicado em janeiro-fevereiro de 2026 - ano 67 - número 367 - pp. 61-64

22 de fevereiro – 1º DOMINGO DA QUARESMA

Por Junior Vasconcelos do Amaral*

Não tentarás o Senhor teu Deus!

I. INTRODUÇÃO GERAL

A Quaresma – iniciada na Quarta-feira de Cinzas, com a imposição das cinzas sobre nossa cabeça, recordando-nos que somos pó e ao pó voltaremos – consiste num tempo de conversão e penitência, marcado pela singularidade do deserto, lugar metafórico de purificação e escuta atenta da voz de Deus. O Evangelho das tentações evidencia que, nas três tentações, há o aspecto de decisão ética pela vida que Jesus nos ensina, para que não nos deixemos sucumbir às seduções e investidas do demônio, símbolo da divisão interna que persiste em nos habitar e desumanizar, esgarçando o tecido de nossa consciente relação com Deus mediante a fé. Na primeira leitura, vemos o soprar de ruah de Deus nas narinas do homem, feito com o pó da terra. Se a condição natural é adâmica, da humildade da terra, a inspiração é divina, tornando o ser humano capax Dei, capaz de Deus. O casal primevo sucumbe à provocação da serpente e Deus os castiga, expulsando-os do jardim do paraíso (pardés). Na segunda leitura, Paulo reflete que, se por um homem, adâmico, entrou o pecado no mundo, por Cristo entra a salvação. Se o primeiro foi desobediente a Deus, o segundo é, por antonomásia, obediente e, sendo divino, pode nos salvar.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7)

A narrativa exemplar de desobediência do casal adâmico se contrapõe à obediência do Filho de Deus, Jesus Cristo, que no deserto será tentado pelo diabo, mas não sucumbirá. O relato diz que Deus criou da terra, adamah – que em hebraico significa “vermelho”, pela cor da terra –, o ser humano. Deus também plantou um jardim e ali pôs o ser humano (Gn 2,7-8). Trata-se de imagem antropomórfica de um Deus laboral, que cultiva e cuida, um agricultor. No meio do jardim há também duas árvores, a da vida e a do conhecimento do bem e do mal (v. 9). Toda essa narrativa é mitológica, amplamente simbólica, para falar da condição humana no jardim do paraíso, que de protológica (primeiro) passa a ser escatológica (final). Isso significa dizer que Deus destinará o ser humano a uma existência paradisíaca, onde a vida e o conhecimento do bem e do mal estarão no centro de tudo.

Em 3,1 aparece logo a serpente, símbolo da astúcia, do mal e da dissimulação que porá em xeque a condição de Adão e Eva de criaturas obedientes, que recebem de Deus um interdito (v. 3): “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus nos disse: ‘Não comais dele nem sequer o toqueis, do contrário, morrereis’”. A astúcia da serpente está em questionar o interdito, a lei de Deus. Ela não está interessada na causa da lei, mas nas consequências, pois comer o fruto do conhecimento do bem e do mal é equiparar-se a Deus. A serpente engana o casal primevo, dizendo que não morrerão, mas conhecerão o bem e o mal, tornando-se iguais a Deus. O desejo do casal primitivo não é conhecer o bem e o mal, mas se tornarem divinos. Eles não estão preocupados com o fato de viverem a condição de criaturas e de a assumirem em suas potencialidades e limites (não comer de duas árvores, quando podiam comer das demais), mas estão preocupados em divinizar-se, tornar-se deuses. O mesmo veremos no Evangelho, quando o diabo instiga Jesus a jogar-se do mais alto do pináculo do templo e tentar a Deus, para que o salvasse. Jesus resiste a tal tentação, mas Adão e Eva não. Eles querem a divindade, pois não se contentam com sua humanidade. Por que ser humano, quando se pode ser divino?

O efeito de ceder à tentação está no v. 7, quando viram que estavam nus, perdendo o sentido da graça primeira, criacional. Eles agora se veem como são, desobedientes, desvestidos da graça do Criador, pois optaram pelo conhecimento. Segundo frei Jacir de Freitas, a nudez coloca o ser humano na condição de fertilidade, de doador da vida, algo que somente cabia a Deus. Adão e Eva se veem como um deus diante de outro Deus, poderoso, Deus Adonai, e têm medo.[1] O casal primitivo agora tem medo de tomar a responsabilidade sobre a própria existência. Nós também, diante das exigências da vida, temos medo. Contudo, inspirados em Cristo, que vence toda tentação, somos fortalecidos: “Não tenhais medo” (Mt 10,26).

2. II leitura (Rm 5,12-19)

Na arte retórica de Paulo em Romanos, ele certifica que o pecado entrou no mundo por um só homem e, por meio do pecado, entrou a morte, que passou para toda a humanidade, pois todos pecaram (v. 12). A condição da natureza, fortalecida pela graça, é pecadora. No v. 13, o apóstolo diz que o pecado não pode ser imputado quando não há lei, e a Lei só entrou após muito tempo. Para Paulo, mesmo sem a Lei, a morte dominou desde Adão até Moisés, também sobre os que não pecaram como Adão, que era figura provisória (v. 14). A condição humana é de pecado, embora tenha sido criada pela bondade de Deus, como vemos no primeiro relato da criação humana. A desobediência de um levou todos à morte, mas a obediência de outro, Jesus Cristo, leva-nos todos à salvação, a entrarmos no santuário do céu. O v. 15 situa-se, nessa leitura, como ato de transformação, a fim de responder ao nó representado pela questão do pecado adâmico que habita em nós. A graça de Deus não nos é estéril em Cristo. Somos salvos por sua obediência amorosa a Deus, que é seu Pai e nosso. O v. 17 contrapõe a morte e a vida: de um lado, a desobediência adâmica; de outro, a obediência jesuânica. Por Cristo, recebemos o “dom gratuito e superabundante da justiça”. O v. 18 diz que, se por um ato de um entra a condenação, pelo ato de outro entra a salvação, entendida em Paulo como justificação. Essa é a pérola de grande valor na teologia paulina, a teologia da graça. A desobediência gerou um sistema de injustiça, e a obediência levou à situação de justiça. Portanto, por Cristo, somos justificados com Deus e salvos da vida mortal de pecado.

3. Evangelho (Mt 4,1-11)

O 1º Domingo da Quaresma apresenta-nos as tentações de Jesus. Desde que assumiu a condição humana, Cristo “foi tentado em todas as formas, à nossa semelhança, menos no pecado” (Hb 4,15). No primeiro Evangelho escrito – de São Marcos –, Jesus foi tentado a todo tempo, os quarenta dias e noites, em alusão à sua vida total, pela qual perpassam inúmeras tentações. Lucas e Mateus, porém, distinguem-se de Marcos, narrando três tentações diferentes, ligadas à experiência existencial vivida por Jesus. Os outros dois sinóticos diferem na ordem das duas últimas tentações, um detalhe que aqui ressaltamos, mesmo que en passant. Para Mateus, a segunda tentação de Jesus é ser levado ao pináculo do templo de Jerusalém, enquanto para Lucas esse seria o terceiro modo de o demônio tentar Jesus. Mateus segue uma espécie de crescendum nas tentações, das realidades menores para as maiores. Da pedra em pão até chegar à possível posse dos reinos da terra.

Os sinóticos (Mt, Mc e Lc) apresentam-nos as tentações de Jesus logo no início de seu ministério público. A cena tem início com a ação dinâmica do Espírito, que conduz Jesus para o deserto, segundo os três Evangelhos. Marcos, porém, usa o verbo grego ekballei (Mc 1,12) – dando a entender uma força escomunal do Espírito que “expulsa” Jesus para o deserto –, enquanto Mateus utiliza o verbo anēchthē (Mt 4,1), traduzido por “conduzir”. Lucas 4,1 usa o verbo ēgeto. Possivelmente Mt e Lc compartilharam das mesmas fontes: Mc e a Quelle, os ditos de Jesus, pois naqueles dois materiais vemos as palavras de Jesus em contrapartida às insídias do diabo.

Duas das três ciladas do diabo estão acompanhadas dos termos: “Se és o Filho de Deus” (v. 3.6). Primeiro, para que as pedras se convertam em pão, a fim de saciar a fome daquele que está em jejum, no deserto. Jesus responde: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v. 4). Jesus tem uma resposta valiosa para rebater seu sedutor. Na segunda tentação, o diabo ordena a Jesus que se lance abaixo da parte mais alta do templo (v. 5). Jesus, às justificativas do diabo (v. 6), responde: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (v. 7). Na última tentação, o diabo leva Jesus ao local mais alto (v. 8) e lhe propõe que se ajoelhe diante dele em adoração, em troca de lhe serem dados todos os reinos da terra. A resposta de Jesus, no entanto, é enfática: “Vai-te embora, satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto’”.

A teologia que floresce desse texto é a certeza de que, com Deus, Jesus vence as tentações diabólicas que dividiriam sua consciência de Filho de Deus. Contudo, sendo Filho de Deus, Jesus vem para cumprir a vontade do Pai, não permitindo divisões internas em sua estrutura psíquica e espiritual. Essa certeza permite-nos intuir que, para vencermos também as tentações do diabo em nossa vida espiritual cristã, precisamos ter sempre presente a pessoa de Jesus, que nos acompanha na caminhada. Somos seus discípulos/as e ele é o Senhor com quem podemos contar para o destino que chamamos de Reino dos Céus, em nossa Páscoa definitiva.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Convidar a comunidade a vivenciar a profundidade da Quaresma mediante a oração mais frequente, a leitura cotidiana da Palavra, seguindo a liturgia diária, e a criação de oportunidades de experimentar a caridade fraterna, sobretudo para com os que mais necessitam. Meditar em grupos a via-sacra, as reflexões da Campanha da Fraternidade propostas pela CNBB e outros materiais produzidos em nossas dioceses, Igrejas locais. Meditar sobre as tentações atuais que nos cercam, como a indiferença para com nossos irmãos, os excessos diante das redes sociais, que muitas vezes nos alienam, e o desejo excessivo de poder, que pode contaminar nosso coração.

[1]Disponível em: https://franciscanos.org.br/vidacrista/a-nudez-o-fruto-proibido-a-serpente-e-o-sofrimento-humano-na-inspiracao-de-gn-39-24/#gsc.tab=0. Acesso em: 18 ago. 2025.

Junior Vasconcelos do Amaral*

*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico. E-mail: [email protected]