O RITUAL DA INICIAÇÃO CRISTÃ DE ADULTOS: INSPIRAÇÃO DE ITINERÁRIOS PARA O CRESCIMENTO NA FÉ 1 *
09/01/2026
Eliseu Wisniewski*
* Presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Eis o artigo:
A obra O Ritual da Iniciação Cristã de Adultos: inspiração de itinerários para o crescimento na fé (Paulus, 2025), de Renato Quezini, apresenta-se como uma contribuição significativa para o aprofundamento do debate sobre a iniciação à vida cristã. Inserida no horizonte teológico e pastoral inaugurado pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), que promoveu a restauração do catecumenato como processo formativo e mistagógico, a publicação oferece uma contribuição teologicamente consistente para repensar os itinerários de fé à luz das exigências evangelizadoras atuais e da renovação litúrgico-sacramental proposta pela Igreja.
O autor, presbítero da Arquidiocese de Maringá e pesquisador com formação multidisciplinar em filosofia, teologia, liturgia e espiritualidade, propõe uma análise do processo iniciático que busca articular, de modo crítico e propositivo, as exigências da tradição e os desafios suscitados pelas atuais transformações culturais, sociais e eclesiais. Nesse sentido, sua reflexão pretende oferecer elementos teórico-pastorais que favoreçam a compreensão renovada do itinerário catecumenal e sua adequada implementação na vida da Igreja.
O propósito central da obra, em consonância com a fidelidade ao Concílio Vaticano II que clamou explicitamente a restauração do catecumenato, consiste em evidenciar que a dinâmica catecumenal desempenha a missão fundamental de formar autênticos discípulos missionários. Trata-se de sujeitos aptos a edificar comunidades, enraizados na Palavra de Deus e comprometidos com o testemunho do amor cristão. O autor sustenta que tal proposta catecumenal favorece o exercício da sinodalidade, ainda que essa dimensão não seja plenamente reconhecida ou assumida por todos os fiéis.
Na Introdução (p. 19-23) da obra, Quezini argumenta que, em um cenário sociocultural caracterizado pela “cultura do descartável” e pela crescente fragmentação das identidades, a proposição de um itinerário sólido de amadurecimento na fé apresenta desafios consideráveis. A difusão de práticas religiosas superficiais e a dificuldade de muitos fiéis em articular racionalmente os fundamentos de suas crenças evidenciam a necessidade de uma abordagem formativa integral, capaz de promover um autêntico encontro com Cristo e de sustentar a construção de uma fé madura, coerente e comprometida com a vida cristã.
Nessa perspectiva, o autor compreende a iniciação à vida cristã como eixo estruturante da missão eclesial, enfatizando que sua adequada compreensão demanda um retorno aprofundado às fontes da tradição. Os ritos e os símbolos, continuamente presentes ao longo da história das comunidades cristãs, são apresentados como mediações privilegiadas, capazes de suscitar a sensibilidade, integrar a dimensão corpórea e promover a abertura ao Mistério. Desse modo, a obra estabelece de maneira precisa a distinção entre ritualidade, entendida como a dimensão teológica e experiencial dos ritos, e ritualismo, caracterizado por sua mera repetição externa, reafirmando, assim, a centralidade da experiência mistagógica no processo de iniciação.
O primeiro capítulo (p. 25-65) dedica-se ao “ver” (lex orandi), mediante um percurso histórico sobre o catecumenato: suas origens antropológicas, desenvolvimento nas comunidades primitivas, auge, decadência e extinção, além do caminho que leva à sua restauração pelo Vaticano II. Quezini destaca a relevância da obra Tradição Apostólica de Hipólito de Roma como testemunho essencial do processo iniciático antigo e analisa fatores que contribuíram para sua desestruturação, como o Edito de Milão, a generalização do batismo infantil e a perda da unidade sacramental. Ao final, evidencia o clamor conciliar por sua restauração, fundamentado na necessidade de reconectar a iniciação cristã ao mistério pascal e ao discipulado missionário.
No segundo capítulo (p. 67-105), correspondente ao “julgar” (lex credendi), o autor examina o Ritual da Iniciação Cristã de Adultos (RICA), promulgado por Paulo VI em 1972, apresentando seus tempos e etapas como verdadeira pedagogia iniciática. A análise contempla desde o pré-catecumenato até a mistagogia, demonstrando a pertinência pastoral desse itinerário para a formação de discípulos missionários em uma Igreja caracterizada pela “saída” evangelizadora. O capítulo oferece valiosa sistematização teológica e pastoral, mostrando como o RICA, ao unir anúncio, celebração e vida comunitária, responde às exigências atuais de um processo formativo integral.
O terceiro capítulo (p. 107-147), correspondente ao “agir” (lex agendi), evidencia a diversidade ministerial implicada na iniciação cristã. Quezini fundamenta teologicamente o papel da comunidade, dos introdutores, padrinhos e madrinhas, bispo, presbíteros, diáconos, catequistas e famílias. Em sintonia com a eclesiologia da Lumen Gentium e com a ênfase na sinodalidade, o autor demonstra que a iniciação cristã é tarefa compartilhada, expressão concreta da corresponsabilidade de todo o povo de Deus. A obra também reconhece desafios pastorais, particularmente a tendência ao individualismo e à redução dos ritos a eventos sociais, insistindo na necessidade de uma conversão pastoral para que o processo catecumenal produza frutos autênticos.
Quezini reafirma que a iniciação à vida cristã é função essencial da Igreja e que sua restauração é sinal de vitalidade e oportunidade de renovação eclesial (p. 149-151). O RICA é apresentado não apenas como ritual, mas como modelo inspirador para novos itinerários de formação da fé, especialmente num tempo marcado pela rapidez e pela fragilidade das relações. A obra, portanto, contribui de forma consistente para a reflexão teológica e pastoral, oferecendo fundamentos sólidos e orientações práticas para uma compreensão renovada da iniciação cristã, alinhada ao espírito do Concílio Vaticano II e às exigências evangelizadoras do presente.
É por isso especialmente recomendada para todos aqueles que participam, estudam ou acompanham processos de iniciação à vida cristã e que desejam uma visão histórica, teológica e pastoralmente enraizada do catecumenato. Trata-se de um livro que forma, inspira e orienta práticas eclesiais, sendo referência para comunidades que querem viver a iniciação cristã como verdadeiro itinerário de discipulado missionário.
* QUEZINI, Renato. O Ritual da Iniciação Cristã de Adultos: inspiração de itinerários para o crescimento na fé. São Paulo: Paulus, 2025. ISBN 9788534958639. (Coleção Biblioteca da catequista).
** Presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

