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Publicado em julho-agosto de 2016

Resiliência e espiritualidade: padre Tiago Alberione, um profeta resiliente

Por Francisco Galvão

A realidade do sofrimento é parte integrante da condição humana. A própria experiência comprova que toda criatura sofre, de diversas maneiras e circunstâncias, ao longo de sua existência terrena. Contudo, a dor e o sofrimento não possuem a última palavra, não para aquele que descobriu o dom de transcender a si próprio e transformar o sofrimento em verdadeira fonte de crescimento e sentido.

 Introdução

Trata-se aqui da realidade do sofrimento na vida do bem-aventurado Tiago Alberione [1],  considerando o aspecto da resiliência e da espiritualidade. Sua extraordinária capacidade de “divinizar” o sofrimento e encontrar sentido mesmo diante das maiores provações fizeram dele um comunicador admirável. Para o padre Alberione, “saber sofrer é a arte mais importante da vida”. E nessa arte ele foi, com certeza, um aprendiz extraordinário! Ademais, a abordagem do conceito de resiliência aqui apresentada tem profunda relação com a espiritualidade, visto que esta constitui a mais importante das características da pessoa resiliente e a que mais incide em resultados favoráveis para o manejo da adversidade (LACAYO, 2007).

  1. A Resiliência

 A temática da resiliência, enquanto realidade conceitual, é relativamente nova. Contudo, enquanto realidade humana, é possível que seja tão antiga quanto a própria humanidade. É provável que o fenômeno da resiliência exista desde os primórdios da existência do homem, ainda que não tivesse sido denominada nos moldes como hoje a conhecemos (VANISTENDAEL, 1999, p. 5).

As primeiras publicações sobre o assunto aparecem no final dos anos 1980, nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, os estudos começaram no final dos anos 1990. A temática foi ganhando progressivo destaque internacional, no campo da observação e da pesquisa, e sendo cada vez mais investigada no âmbito das ciências da saúde e das ciências humanas, entre outras, o que favorece um olhar multidisciplinar. Contudo, até o presente, há poucos trabalhos na área da teologia (ROCCA, 2013, p. 19).

O termo resiliência tem sua origem no latim resiliens, resilientis, do verbo resílio-resilire, que significa saltar para trás, ser impelido, recuar, retornar a um estado anterior, ou ainda, a capacidade de se recobrar ou de se adaptar à má sorte, a mudanças. O conceito vem sendo utilizado há bastante tempo pela física e pela engenharia para classificar a elasticidade e o poder de resistência dos materiais. “Quando um material resiste a um impacto, deformando-se pouco ou nada, ele é considerado rígido” (AMARAL, 2002). Mais tarde, a psicologia passa a utilizar o conceito de resiliência para referir-se à capacidade que os seres humanos têm de superar traumas, perdas e grandes sofrimentos.

  1. As dores de Alberione

Quando começamos a estudar Alberione, uma das primeiras perguntas que nos vêm é esta: como uma alma tão sofrida conseguiu empreender projetos tão grandiosos? De fato, ele tinha tudo para desistir de seus ideais. Todavia, escolheu continuar sua busca. Só quem não caminha, dizia Alberione, não precisa perguntar a direção do caminho. Não obstante os inúmeros desafios e os inevitáveis fracassos da caminhada, ele jamais recuou diante das dificuldades, pois soube em quem depositar sua confiança.

Padre Alberione foi um grande comunicador. Mas também foi um grande sofredor. Em certo sentido, foi um sofredor silencioso. Nunca foi de fazer alarde quanto às suas dores e doenças. Recolhia-se, constantemente, em seu mundo interior, a fim de compreender mais plenamente suas dores e a vontade do Mestre. O grande dever da alma religiosa, diz Thomas Merton (2003), é sofrer em silêncio, pois algumas vezes não há explicação suficiente para justificar o sofrimento.

Padre Alberione exerceu o apostolado do sofrimento, sem jamais se lamentar ou murmurar. Ao contrário, soube transformar o amargo fel do sofrimento em doçura e profunda gratidão a Deus. Especialmente no fim da vida, sem poder mais trabalhar nem presidir a eucaristia, diz-se que Alberione ficava horas e horas ajoelhado ao pé da cama a rezar pela fecundidade do apostolado paulino. Adolphe Tanquerey (2014), certamente um dos autores mais apreciados por padre Alberione, dizia que o apostolado do sofrimento é, de todos, o mais fecundo.

A infância sofrida e pobre de Alberione, o contexto de guerras de sua época, as calúnias, perseguições, a morte posterior de sua querida mãe e de alguns colaboradores da missão, os inúmeros sofrimentos físicos e espirituais… tudo isso, na ótica da resiliência, funciona como fatores de risco que têm grande influência no desenvolvimento da pessoa que sofre. Perante tais acontecimentos, a vítima é desafiada a ser forte e resiliente, adotando uma postura interior que a ajude não apenas a suportar o sofrimento, mas ressignificá-lo à luz de nova perspectiva de vida e de futuro.

  1. A fortaleza de Alberione perante a doença

Alberione teve sempre uma saúde muito frágil e inconstante, de modo que foi batizado logo no dia seguinte a seu nascimento, pois os pais, percebendo sua fragilidade física, temiam não ver o filho por muito tempo. Da juventude à velhice, sofreu de terríveis dores. Depois de sua morte, conforme descrito pelo quinto teólogo para a causa de beatificação (Relatio et Vota), as dores de Alberione puderam ser analisadas com certa profundidade. Concluiu-se que a história dos seus sofrimentos físicos era terrificante. Em 1914, manifestou-se pela primeira vez forte dor na coluna vertebral. Ao médico, disse mais tarde: “Este é um dom que o Senhor fez a mim com a fundação e o levarei até a morte” (Summ., p. 606, § 1102). Tal afirmação deixa clara a relação “amorosa” que Alberione havia estabelecido com a dor, a ponto de classificá-la não como um mal, mas como um dom especial concedido por Deus, um caminho de ascese e santificação.

Às vezes, está nos desígnios de Deus enviar-nos a doença. Esta, quando santamente vivida, oferece as mais preciosas vantagens do ponto de vista sobrenatural. A doença é a pedra de toque que mostra o valor da virtude de uma alma; se o doente a suporta sem queixa, sem inquietude, inteiramente resignado à vontade de Deus, é um sinal de que possui uma virtude bem fundamentada (TANQUEREY, 2014, p. 107).

Com o tempo, as fortes dores na coluna só aumentavam, mas Alberione jamais se deixou vencer por elas. Rezava sempre com elevada entrega e intensidade. Os médicos que o acompanhavam ficavam admirados com sua forte resistência à dor e ao sofrimento. Em 1923 adoeceu gravemente de tuberculose com abundantes hemoptises, mas, após um mês de descanso, pôde retomar seu trabalho; o médico que o assistia disse que lhe havia dado seis meses de vida (Summ., p. 567, § 1007). Contrariando totalmente o diagnóstico, Alberione viveria mais 48 anos.

Em meados de 1949, padre Alberione sofreu de varizes no esôfago com grandes hemorragias e, em consequência das transfusões de sangue, sofreu por mais ou menos um ano de hepatite viral. Somente após 1962, submetido a um exame da coluna vertebral, descobriram nela escoliose e cifose (curvatura da coluna vertebral com corcova) tão acentuadas a ponto de estremecer os radiologistas e ortopedistas, os quais não conseguiam explicar como ele havia suportado dor tão atroz. Os médicos explicavam que a dor da escoliose pode variar numa escala que vai de 1 (sem dor) a 10 (dor gravemente incapacitante). No caso do padre Alberione, que tinha a coluna em forma de “Z”, segundo os especialistas, a dor se enquadrava no número 9 da escala, ou seja, quase no limite de suas forças físicas.

Não obstante as doenças e incômodos, Alberione seguia, alegre e serenamente, os passos do Mestre. Parecia convicto das motivadoras e desconcertantes palavras do próprio Cristo: “Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo” (Jo 16,33). Graças à sua profunda intimidade com o Mestre Divino, seu grau de aceitação da dor e do sofrimento era elevadíssimo. Para seguir Jesus e amá-lo, afirma Tanquerey (2014), é preciso tomar a sua cruz, aceitar o sofrimento, as privações, as humilhações, as doenças, as enfermidades, os reveses da sorte, numa palavra, todas as cruzes providenciais que Deus nos envia para provar-nos, fortalecer-nos na virtude e facilitar a expiação de nossas faltas.

  1. Alberione e a loucura da cruz

 Como não seria honesto falar de Paulo Apóstolo sem levar em conta a experiência da cruz, em Alberione acontece a mesma coisa, pois, para ele, “sofrer pela cruz de Cristo é motivo de glória”. As cartas de Paulo foram, certamente, a grande fonte inspiradora de Alberione. Nessa fonte ele encontrou fundamento e consolo espiritual para compreender e aceitar sua pesada cruz. Os escritos de Alberione estão cheios de referências ao Apóstolo, sobretudo no que se refere à dor e ao sofrimento. “Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo” (2Cor 1,5); somos “coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, com ele seremos glorificados” (Rm 8,17); “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8,18); “Agora eu me alegro de sofrer por vocês, pois vou completando em minha carne o que falta nas tribulações de Cristo, a favor do seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24).

O modo como padre Alberione compreendia o tema da cruz estava intimamente relacionado com o pensamento do Apóstolo, que dizia com muita convicção: “Estou crucificado com Cristo” (Gl 2,19); “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6,14). Alberione costumava repetir em suas pregações que “Jesus remiu-nos com a sua cruz; agora cabe a nós remir o mundo com a nossa cruz. A cruz é a chave de ouro que abre para nós o céu. Toda a virtude e toda a graça vêm da cruz”.

A vida de Alberione, assim como a do Apóstolo, foi um constante sofrer com Cristo pelas almas. Sua prece era uma só: “Mestre divino, associai-me à vossa Paixão. Mestre divino, que com o sofrimento e a prece eu socorra a todos os filhos espirituais. Mestre divino, que eu padeça quanto devo para que cresça a semente espalhada”. Nesse sentido, afirma Van Thuan (2000, p. 143): se você se unir à Paixão de Jesus, não só encontrará ajuda para ser corajoso e paciente, mas o seu sofrimento terá um grande valor de redenção.

Para o seguimento de Jesus, é necessário, portanto, carregar a cruz. “Se alguém quer me seguir, renuncie si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Para padre Alberione, a cruz de Cristo foi como que um escudo de proteção; e ele carregou a sua com heroica aceitação, serenidade e alegria. Ele acreditava que, “ao abraçarmos com alegria a cruz de Cristo, tornamo-nos protegidos contra os inimigos. Quem não é forte a ponto de suportar com paz e amor uma cruz, quem não possui a força para vencer uma dificuldade, quem não persevera e, caído, não volta à ação, não pode apropriar-se do céu, porque este é alto e, portanto, é necessário subir os montes da penitência, das cruzes do Calvário, para poder chegar lá”.

  1. A autotranscendência e o sentido do sofrimento

Transcender a si próprio é a essência mesma do existir humano. Nesse sentido, Alberione soube realizar, com maestria, a experiência da autotranscendência, ou seja, soube dirigir sua vida para grandes ideais. Foi alguém profundamente sensível às mudanças internas e externas, sempre voltado à realidade transcendente, sem jamais perder o chão e o equilíbrio. Foi um homem de alma nobre e de profundo desprendimento. Tais realidades fizeram dele um verdadeiro visionário, um sonhador incansável.

As pessoas têm o suficiente com o que viver, afirma Frankl (2008), mas nada por que viver; têm os meios, mas não o sentido. Olhando para a história de Alberione, é fácil perceber o sentido que ele deu a cada experiência vivida, também ao sofrimento. Para ele, sofrer é olhar sempre adiante, ir além da dificuldade presente. Seguir em frente com confiança e fé. É um exercício diário. “Saber sofrer é verdadeira arte, aliás, a arte mais importante da vida. É preciso aprendê-la e praticá-la. Com efeito, essa arte se aperfeiçoa praticando-a, do mesmo modo que as outras artes, como a música, a pintura etc. Temos de partir do mais fácil ao mais difícil; do pequeno ao grande. Nisso consiste a utilidade dos pequenos sofrimentos”. Padre Alberione costumava dizer que, diante das chuvas e tempestades, é preciso “passar entre uma gota e outra sem se molhar”. Foi exatamente o que ele fez durante toda a vida. Assumiu suas dores como uma via, de certo modo, necessária à própria santificação. Mas não só! Certamente, o seu heroísmo apontou a muitas almas o caminho de santidade devido a todo o povo de Deus (cf. Lumen Gentium, n. 39).

Os santos, de modo geral, foram pessoas que sofreram muito; não um sofrimento egoísta com tendência ao masoquismo, mas um profundamente fecundo. Embora muitos deles tivessem verdadeira veneração pelo sofrimento – como o próprio Alberione dizia, “as cruzes são mais valiosas se forem mais pesadas” –, eles souberam dar sentido a todas as provações e dificuldades da caminhada, sempre em vista de um ideal coletivo capaz de transcender e ressignificar a própria existência. Os santos são, em realidade, os sofredores mais alegres da face da terra. “Milhões de santos, caminhando nas pegadas do Mestre, sofreram e sofrem com alegria” (TANQUEREY, 2014). Aqueles que o conheceram testemunham que padre Alberione tinha um olhar que sabia sorrir. Comunicava-se mais pelo silêncio que pelas palavras. Tinha um olhar tão profundo, que cativava a todos. Sua alegria era incomum, isenta de qualquer barulho e euforia. Era uma alegria serena, discreta e envolvente. Ele era um sofredor alegre. Tudo isso fruto de seu contentamento interior. Somente alguém que se deixa afeiçoar pela cruz de Cristo e que faz as pazes com o próprio sofrimento aprende a sorrir e a comunicar com os olhos.

Para Alberione, o real sentido da existência está em sofrer com Cristo pelas almas. O amor a Cristo comporta, naturalmente, a exigência do amor ao semelhante. “Penso em Jesus Cristo, amo em Jesus Cristo, quero em Jesus Cristo”, afirmava ele com muita convicção. Alberione ensinava que, para descobrir o sentido profundo do sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, é preciso abrir-se amplamente ao sujeito humano com as suas múltiplas potencialidades. “Sofrer em Cristo, para cumprir a paixão de Jesus Cristo; e na Igreja, para a salvação das almas, de todas as almas”. Eis o sentido que Alberione encontrou para o sofrimento: o amor a Deus, o amor aos irmãos. Para ele, “o apóstolo tem um coração aceso de amor a Deus e aos homens”. Foi esse amor que o fez ir além do sofrimento e dos próprios limites. “O amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na cruz de Jesus Cristo” (Salvifici Doloris, n. 13).

Não obstante as doenças, dores e sofrimentos, padre Alberione soube escolher a melhor parte: entregou tudo ao Mestre Jesus. Escolheu sofrer com aquele que, sendo “um com o Pai” (cf. Jo 10,30), superou toda espécie de sofrimento e venceu a própria morte, morte de cruz.

  1. Mística e espiritualidade como pilares de resiliência em Alberione

Perante as adversidades e provações da vida, muitas pessoas – mesmo aquelas que se dizem pessoas de fé – não sabem como agir ou o que fazer para sair delas revigoradas ou transformadas. Segundo Lacayo (2007), talvez as perdas, crises e desafios tenham como propósito ajudar-nos a descobrir a verdadeira resiliência de nossa interioridade.

Falar de sofrimento e resiliência em Alberione só é possível quando levamos em conta a totalidade de sua vida interior e, por que não dizer, a sua “mística do sofrimento”. Em Alberione, uma coisa nos é apresentada com bastante clareza: sem Deus, ou seja, sem a graça divina, nenhum projeto humano pode tornar-se fecundo. “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). Desse modo, podemos afirmar que, se não fosse sua vida ascética e sua profunda intimidade com o Mestre, ele dificilmente teria superado com tanto êxito os sofrimentos que a vida lhe reservou. E foram tantos!

Sabemos que Alberione não deixou nenhum tratado sobre mística ou vida interior; no entanto, seu maior legado espiritual está impresso em sua própria história. E seria no mínimo insensato de nossa parte falar de seu sofrimento sem considerar a realidade misteriosa que o levou a transcendê-lo. Uma coisa, portanto, parece-nos bastante clara: se podemos falar de um Alberione resiliente, temos de, primeiramente, ir em busca do Alberione místico. Como diz Karl Rahner (apud TUOTI, 1998, p. 25), o misticismo ocorre dentro da estrutura das graças normais e, portanto, não se limita a poucos privilegiados.

Alberione foi um homem de contemplação e ação. Soube conciliar perfeitamente vida interior e vida prática. Foi, sobretudo, a vida mística que fez de Alberione verdadeiro visionário no campo da comunicação, um homem à frente do seu tempo. Conforme afirma o Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil (n. 99), “comunicar, rezar e viver integram-se formando um todo tanto no estilo e na elaboração da mensagem quanto na forma de comunicar. A mística do comunicador está relacionada com seu processo criativo, sua busca por informações, seu modo de interpretar os fatos, de inovar a linguagem e buscar outros estilos de comunicar. O comunicador é um místico, e o místico é um comunicador”.

Na perspectiva da resiliência, podemos dizer que há, na história do padre Alberione, vários fatos e acontecimentos que atestam sua capacidade de ressignificação perante a dor e o sofrimento, entre os quais a sua suposta “demissão” do seminário. Entre os 7 e 8 anos de idade, ele já afirmava que queria ser padre. Quando concluiu o ensino fundamental, ingressou, então, no seminário menor da cidade de Bra, Itália, onde prosseguiu os estudos por alguns anos. Entretanto, sua caminhada foi interrompida, não se sabe ao certo por que razões. Spoletini diz que sua saída deveu-se a uma profunda crise; outros, no entanto, afirmam que fora demitido do seminário devido a mau comportamento e más influências. “Em 1900, a 7 de abril, Tiago foi demitido do seminário. A diretoria alegou que ele não tinha vocação. Julgamento que a história comprovará bastante precipitado fato é que houve um rompimento inesperado e bastante difícil para o jovem Tiago. Ante tal realidade, dois caminhos despontavam à sua frente: desistir de seu grande sonho ou recomeçar e tentar novamente. O silêncio, a oração e o apoio social tiveram papel fundamental na decisão do jovem Tiago perante o desafio de continuar sua busca.

Para a resiliência existem alguns fatores de proteção que são indispensáveis nos momentos de crise ou desespero; entre eles figuram a aceitação incondicional e o apoio social. Rocca (2013, p. 30) explica que os autores concordam em reconhecer a importância de que, na situação dolorosa, adversa ou traumática, a pessoa (criança, jovem ou adulto) possa se sentir acolhida e aceita incondicionalmente.

Rolfo (1975) narra um fato bastante curioso em relação à aceitação incondicional por parte do irmão de Tiago. Certo dia, o jovem Tiago estava meio tristonho e pensativo, sentado na calçada de casa, quando sua mãe, atribuindo tal atitude a pura preguiça, mandou que ele fosse com os outros trabalhar na lavoura ou se pusesse a estudar seriamente. João Luís, o irmão que tinha assistido à cena, chamou-o a sós e lhe falou cordialmente: “Tiago, vá estudar e não se preocupe com os trabalhos no campo. Você é muito fraco. Eu vou me esforçar mais e dar um jeito para ninguém notar que você não está trabalhando”. Atitudes como essa, segundo estudiosos da resiliência, são basilares para que a pessoa “fragilizada” recobre a autoestima e retome suas metas com maior fé e entusiasmo. Foi graças ao amor incondicional do Divino Mestre, ao apoio familiar e também de “amigos” que o jovem Tiago conseguiu reunir força e ânimo para perseguir seus ideais.

Após sua saída do seminário de Bra, Tiago passou mais ou menos seis meses com os pais até ingressar em outro seminário; segundo Rolfo, esse período foi para ele, com certeza, muito melancólico. Em seu diário juvenil, Tiago irá recordar suas experiências de sofrimento e angústia: “E agora tenho dezoito anos… as desilusões vieram uma após a outra, um abismo após o outro… mas a graça de Deus e Maria me salvaram. E agora, agora tenho vontade de viver… Parece-me que sou ainda forte para viver muito tempo. Que mistério é o coração do homem!” Eis uma experiência clara de resiliência aliada à fé e à espiritualidade. Esse “agora tenho vontade de viver” e “sou ainda forte para viver muito tempo” brotam de um coração que cruzou desilusões e abismos, angústia e solidão.

Alberione costumava dizer que “ninguém sofrerá mais do que aquele que não quer sofrer”. Para ele, o sofrimento era uma realidade inevitável, porém aquele que aprende a sofrer com o Mestre jamais fugirá às suas lutas; ao contrário, transformará as adversidades em fonte de verdadeiro crescimento e maturidade. O segredo é não fugir à dor, mas acolhê-la corajosamente. Afirma a encíclica Spe Salvi (n. 37), de Bento XVI: “não é evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido por meio da união com Cristo, que sofreu com infinito amor.”

Considerações finais

 Visitar a história do bem-aventurado Tiago Alberione pela ótica da resiliência possibilitou-nos descobertas fascinantes, sobretudo no que concerne à sua capacidade interior de dar sentido a todo sofrimento vivido. Sua capacidade de resiliência, como dissemos, está profundamente ligada à mística do sofrimento. Foi graças à intensa vida interior que Alberione descobriu o verdadeiro sentido de sua existência. Alberione foi resiliente porque soube perscrutar a própria alma, como fez o apóstolo Paulo, a ponto de afirmar: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). A intenção profunda de toda religiosidade, afirma Lacayo (2007), é favorecer nosso caminho para o desenvolvimento espiritual. Em certo sentido, a resiliência é uma maneira de descobrir o potencial espiritual que sempre pode gerar reações favoráveis ao pensamento e à conduta humana.

A vida e a história do padre Tiago Alberione (e de tantos outros “santos”) evidenciam que espiritualidade e a resiliência são realidades intrínsecas a todo ser humano e, por isso mesmo, não devem ser concebidas separadamente. São duas faces de uma mesma moeda. A ausência de uma enfraquece o poder da outra. É por meio da busca interior que o ser humano, perdido no abismo de sua dor e da falta de horizonte, reencontra a luz para seguir o seu caminho. Desse modo, a pessoa espiritual não somente resiste às peripécias e adversidades da vida, mas aprende a ressignificá-las por meio do Amor transcendente. Resiliência e espiritualidade são, portanto, a via mais segura de elevação e superação do sofrimento humano, sem a qual o homem é incapaz de compreender o real sentido de sua existência.

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[1] Fundador da Congregação dos Paulinos e da Família Paulina.

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Francisco Galvão

Francisco Galvão, seminarista paulino, é bacharel em Teologia pela Faculdade São Bento de São Paulo. Integrou a equipe de redatores das Novenas de Natal e Pentecostes 2015. É autor do livro infantojuvenil Jonas – sonhos e descobertas, pela ação social da Paulus, para a qual organizou o livro Viver o amor – pensamentos do papa Francisco. E-mail: galvaoce@hotmail.com