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Publicado em Setembro-Outubro de 2001 (pp. 15-21)

A Bíblia na catequese com adultos

Por Grupo de Reflexão Catequética (Dimensão Bíblico-Catequética da CNBB)

A II Semana Brasileira de Catequese, que acontece neste mês de outubro, levanta questões que precisam ser discutidas com urgência nos tempos que correm. Ela posiciona o foco da catequese na direção dos adultos. Estamos reconhecendo o enfraquecimento do catolicismo herdado e verificando que há uma grande quantidade de adultos que não passaram por um processo normal de catequese — ou passaram e não se sentiram suficientemente cativados para crescer dentro da Igreja desenvolvendo uma formação permanente, que vá dando conta das necessidades de cada fase da vida.

Muitos recursos e conteúdos estão sendo mobilizados para atender às características específicas dos adultos. Entre estes se destaca a Bíblia. Já o documento Catequese Renovada havia afirmado que a Bíblia é “o livro da catequese por excelência”. De fato, ela está acima de qualquer catecismo e o magistério da Igreja se coloca a seu serviço. A Bíblia ultrapassa até nossas fronteiras cristãs: trata-se de um livro fascinante mesmo para os que não creem. Filmes sobre temas bíblicos são produzidos pelo circuito comercial, romances são escritos em torno de figuras bíblicas, não com interesses catequéticos, mas simplesmente porque esses temas são patrimônio cultural da humanidade e lidam com questões humanas importantes e profundas.

Pelo próprio interesse que as Escrituras despertam, a Bíblia se torna um caminho com muito potencial para atrair os adultos. No processo histórico de evangelização, a catequese ficou excessivamente ligada à instrução de crianças e adolescentes. Talvez um adulto se percebesse embaraçado ao declarar: “Estou indo para a Catequese”. Mas possivelmente ele não teria problemas — e até se sentiria importante — dizendo: “Estou estudando a Bíblia”.

O conjunto de livros que compõem a Bíblia não é simples, fácil, isento de problemas hermenêuticos. À volta da leitura bíblica há várias questões sobre as quais temos de refletir e aprofundar. Neste artigo, tentaremos sistematizar algumas dessas questões em 3 blocos: o adulto na Bíblia; o adulto diante da Bíblia; a abordagem do texto e os desafios que aí aparecem.

 

I. O adulto na Bíblia — Texto de adultos e para adultos

A necessidade de trabalhar a Bíblia com as crianças levou a muitas simplificações — indispensáveis diante das características dessa faixa etária, mas frequentemente empobrecedoras. A narração do dilúvio, por exemplo, que é uma reflexão teológica sobre as consequências da disseminação da corrupção, corre o risco de virar apenas uma história bonitinha sobre um homem que se sentia responsável pela preservação da vida dos animais. Até muitas das parábolas de Jesus ficam com seu sentido reduzido quando não se consegue situá-las plenamente no contexto histórico. Dentro de certos limites, não é errado simplificar para crianças. É até necessário. Permanece, porém, o fato de que o texto nasceu a partir das percepções e da problemática dos adultos e a eles é dirigido.

Os adultos são os protagonistas dos fatos narrados na Bíblia. As crianças aparecem como sinal da prática ou da rejeição da justiça; por serem mais indefesas, o que acontece com elas é uma espécie de termômetro da fidelidade à Aliança. Se os menores e mais fracos estiverem bem, pode-se supor que há segurança e paz para todos. Isaías usa a criança como símbolo nesse sentido: diz que nos tempos messiânicos “a criança de peito poderá brincar junto à cova da serpente” (Is 11,8). É um modo de dizer que a justiça prevalecerá de tal maneira que nenhum mal ameaçará mesmo os mais pequenos e desprotegidos. No entanto, esse é visivelmente um recado dirigido aos adultos: eles é que terão de construir uma sociedade segura para as crianças. Com intenção semelhante, Jesus fala das crianças e dos pequenos em geral. “Deixai vir a mim as criancinhas” é um apelo feito aos adultos, que são chamados a organizar a vida de tal modo que as crianças possam estar sempre em contato com os valores do evangelho.

 

1. A fé transmitida por meio de narrações, celebrações e do culto

A fé judaica se transmite essencialmente por meio da celebração dos momentos fundantes da experiência de Deus vivida pelo povo. Não é uma doutrina expressa em catecismos ou deduções intelectuais; ela é intuída e assimilada através da narração da história e da permanente atualização dessa história na celebração e no culto.

É por isso que no centro da vida judaica está o sábado, que não é uma obrigação a ser cumprida, mas é algo a ser festejado como graça especial do Eterno. O apego ao sábado não é, portanto, mero legalismo, como às vezes deixam transparecer a catequese e as pregações que ouvimos. Observadores da história desse povo dizem que não foi Israel que guardou o sábado (na diáspora, nas perseguições, na ameaça de diluição cultural); foi o sábado que guardou Israel. Ao fazer questão de respeitar o sábado, o povo reafirmou e defendeu sua identidade através de séculos de história atribulada. O mesmo valeria para as festas judaicas, sinais da fibra de um povo que não entrega a sua fé nem se deixa assimilar culturalmente. Os adultos organizam essas celebrações e dão participação às crianças. A Bíblia nos mostra os pais contando aos filhos as maravilhas que Deus fez em favor do povo:

O que ouvimos e aprendemos,

através de nossos pais,

nada ocultaremos a seus filhos,

narrando à geração futura

os louvores do Senhor,

seu poder e suas obras grandiosas.

Ele promulgou uma lei para Israel,

para que aquilo que confiara a nossos pais

eles o transmitissem a seus filhos

a fim de que a nova geração o conhecesse

e os filhos que lhes nascessem pudessem também contar aos seus (Sl 78,3-6).

 

É evidente a relevância do papel do adulto nesse processo. As crianças aprendem vendo e ouvindo, participando com os mais velhos de uma vida marcada por ritmos celebrativos que lembram constantemente a Aliança.

É essencial conhecer esse modo de ser do povo da Bíblia para perceber as implicações das mensagens do texto. Essa compreensão exige maturidade humana. Comparada aos livros sagrados de outros povos, a Bíblia se destaca pela presença marcante da mediação humana. Deus se revelou e foi percebido na história, de formas diferentes, de acordo com as premências do momento e o estilo do redator humano. Certa capacidade de interpretar as consequências de um dado momento histórico fornece notável profundidade à leitura bíblica. Essa é tarefa de adultos como o foi o próprio acolhimento da revelação no povo de Deus.

Também é bom que se leve em conta a função antropológica dos ritos; eles são um mecanismo de alimentação de identidades e ideais, não só na Bíblia, mas também em nossa vida cotidiana. Na Bíblia isso fica claro quando se vê como a celebração coloca os que celebram no clima do fato passado. É como se eles estivessem lá presentes quando tudo aconteceu. Quem celebra a Páscoa se sente libertado do Egito com o povo liderado por Moisés.

A leitura cristã da Escritura também deve permitir que a pessoa hoje se sinta parte dessa história, que considere Abraão, Isaac, Jacó, Moisés como seus antepassados na fé. A partir desse sentimento, o adulto poderá descobrir-se como alguém capaz de ler na sua própria história de vida e na história do povo as mensagens que Deus está constantemente enviando.

 

2. A voz dos profetas: palavras fortes de adultos para adultos

Os profetas são um destaque especial no texto bíblico. Sua voz é uma espécie de modelo e convite à atuação de judeus e cristãos em todos os tempos: são os homens que leem a realidade e a interpretam através do filtro do projeto de Deus e da fidelidade à Aliança. Fazem anúncio e denúncia a partir das exigências da fé e da justiça. São frequentemente atores políticos muito conscientes enfrentando e desnudando o poder constituído.

Suas palavras fortes e as graves situações a que elas geralmente se referem são campo de comunicação e reflexão adulta. O início de sua vocação pode até ser situado em tenra idade, como aconteceu com o menino Samuel e com Jeremias, chamado ainda no ventre da mãe. Sua atuação, porém, envolve julgamentos e riscos que só podem ser assumidos por uma personalidade madura. Sentem-se construtores de uma história melhor, o que é uma tarefa pesada, tão pesada que Jeremias chega a lamentar o dia em que nasceu.

 

 

3. Propostas que exigem que a pessoa seja dona da própria vida

Jesus chamou gente a mudar de vida. Os pescadores, o cobrador de impostos, o jovem rico, a mulher adúltera, a samaritana, Zaqueu… todos foram interpelados pela proposta do Reino. Para responder a essa proposta a pessoa precisa de certa independência, uma capacidade de decisão autônoma. Não se pode dizer, sem maiores preâmbulos, a uma criança: “Deixa teu pai e tua mãe… deixa os brinquedos… e segue-me”.

O cristão adulto não é mero admirador de Jesus, mas é chamado a ser seguidor. Há, nas atitudes de Jesus, algumas características que só podem servir de modelo a adultos — e adultos com um nível elevado de equilíbrio. Imagine uma catequista de crianças, numa favela do Rio de Janeiro, refletindo com seus catequizandos sobre textos que tratem do encontro de Jesus com os considerados “pecadores” — gente como Zaqueu, a mulher adúltera, a prostituta que apareceu na casa de Simão… Uma conclusão mais imediata de tal reflexão poderia ser um incentivo a não rejeitar ninguém, a se aproximar de gente com má reputação. Afinal, foi acolhendo essas pessoas que Jesus as transformou. O mais elementar bom senso, porém, indica que seria uma irresponsabilidade, para dizer o mínimo, propor que a criança passe a se relacionar bem com todo o mundo que tem má fama na sua comunidade. A catequista não poderia apresentar em toda a sua força o impacto, a radicalidade e a exigência da mensagem para não pôr em risco a segurança desse tipo de destinatários.

 

4. Proposta para quem se responsabiliza por uma forma diferente de ver

O texto-base preparado para a II Semana Brasileira de Catequese dá relevo ao impasse que transparece na cura do cego de nascença, narrada em Jo 9. João escolheu sete milagres como sinais emblemáticos do efeito da presença de Jesus no mundo e na vida das pessoas. O cego curado representa a necessidade de ver a vida de forma diferente. Quem se deixa transformar ao encontrar Jesus passa a ver, sentir, perceber coisas que antes não notava. Acontece, porém, algo conflitivo: o cego, que agora enxerga, incomoda gente que não quer concorrência no seu jogo de poder. Arma-se um confronto tão assustador que até os pais do cego tiram o corpo fora e deixam com ele a responsabilidade de se explicar: “Perguntem a ele. É adulto. Que ele mesmo explique!” (Jo 9,21). Um cristão adulto deve saber se explicar, dar com firmeza as razões da sua esperança, assumir aquilo que faz, mesmo em situações de conflito. Ele também terá, a partir de sua opção pelo evangelho, um modo novo de avaliar relações humanas, sociais, econômicas e políticas. É responsável por seus atos, não “terceiriza” a sua consciência transferindo a responsabilidade para o padre, o catequista, ou outro tipo de autoridade.

 

5. Chegando, vendo e optando pela comunidade

No mesmo evangelho de João vemos um retrato do processo de adesão pelo qual o adulto passaria (Jo 1,35-42). Dois discípulos de João querem conhecer Jesus mais de perto e perguntam onde ele mora. Jesus propõe: “Vinde e vede”. O adulto que quer saber mais sobre o que é ser cristão também será convidado a vir e ver a comunidade que se apresenta como sinal da proposta do Reino. Os discípulos de João foram, viram, gostaram do que viram, ficaram e convidaram outros. Uma tarefa importante hoje, em catequese com adultos, é cultivar sempre a comunidade de fé de tal forma que ela tenha poder de atração, que ela seja de fato sinal vivo do amor evangélico, do convívio fraterno e da coragem na luta pela justiça. É preciso que quem vem goste do que vai ver, é necessário ter uma vivência cativante para mostrar. Se isso não acontecer, teremos a chamada “crise de chegada”, na qual a pessoa, empolgada pelo primeiro anúncio, se decepciona exatamente com o ambiente que deveria daí por diante alimentar a sua fé.

 

II. O adulto diante da Bíblia

Adultos diante da Bíblia frequentemente ficam fascinados, mas também podem se escandalizar ou ficar confusos. Há até os que discretamente a fecham e desistem, depois de alguma tentativa de aproximação, ao se defrontarem com alguma passagem problemática. Muitas vezes não dizem que “não gostaram” do que leram (é complicado a gente dizer que não gosta de algo que é considerado palavra de Deus), mas guardam distância da Escritura ou se limitam a textos menos “perigosos”. Textos considerados perigosos podem ser de muitos tipos. Por exemplo: poesia mal interpretada que parece ir contra a ciência, fatos violentos lidos como vontade de Deus a partir do contexto de uma situação ameaçadora, teologias diferentes fazendo parte de um mesmo livro que consideramos palavra de Deus. A solução para esses e outros problemas, se queremos adultos maduros na fé, não é fechar o livro sagrado ou passar a escolher apenas textos de acolhimento tranquilo. É necessário dar chaves de leitura especialmente para o que incomoda, para o que costuma gerar conflito. Deus fala também — e muito — quando ficamos chocados com o que lemos na Bíblia.

 

1. Relação entre ciência e fé

O Gênesis, apesar de todo o progresso das ciências bíblicas, continua sendo um problema que embaraça o cristão comum à medida que ele progride na sua cultura acadêmica. Nos meios exegéticos e na palavra mais oficial do magistério já não há problemas de conciliação das teorias científicas e da mensagem bíblica sobre a criação do mundo. Reconhece-se que os estilos literários presentes em Gênesis 1 a 11 apontam para reflexões teológicas sobre a origem e a progressão do mal; não pretendem ser descrições objetivas de fatos biológicos. Mas ainda há textos oficiais que não deixam isso tão claro, e a catequese de crianças em geral nem sempre tem conseguido se libertar de uma interpretação quase fundamentalista de tais textos. Seria necessário retomar seriamente essas questões na catequese com os adultos. Quando surgiu, o método histórico crítico foi visto por muitos como ameaça à credibilidade dos textos bíblicos. Hoje podemos dizer que esse e outros métodos acabam sendo a salvação dessa mesma credibilidade para adultos com exigências intelectuais mais apuradas e até mesmo para o bom senso de grande parte do povo mais simples. Uma catequese bíblica com adultos teria de levar muito em conta — mesmo quando não mencionasse explicitamente — as orientações dos documentos Fides et Ratio (João Paulo II) e A Interpretação da Bíblia na Igreja (Pontifícia Comissão Bíblica).

 

2. Diferentes épocas, posturas e percepções

Uma outra especial característica que singulariza a Bíblia é o longo tempo que levou para ir sendo escrita. Não é como o Corão, por exemplo, composto no espaço de uma geração. A Bíblia levou mais de mil anos para ser escrita. Às vezes, no mesmo capítulo, temos versículos que distam séculos no tempo.

Cada época tem suas questões e prioridades. Por outro lado, a revelação é progressiva, respeita o estágio cultural e humano do destinatário. Por conta disso podemos ter — e de fato temos — afirmações feitas numa determinada época que não combinam com outras de época diferente. Como a ordem dos escritos no livro que temos hoje nem sequer corresponde à ordem cronológica do nascimento de cada texto, esse campo pode ser fonte de perplexidade para um adulto interessado, que leia a Bíblia com atenção.

A educação para uma boa leitura bíblica adulta teria de se antecipar a esses problemas e ajudar a compreender a relação entre cada texto e o seu contexto. Alguma noção das fases da história do povo de Deus, com a apresentação dos questionamentos dominantes em cada época ajudaria muito.

 

3. Perguntas que a Bíblia deixa em aberto

Há muitos que se aproximam da Bíblia querendo respostas imediatas para seus problemas. Sem chegar ao extremo dos que abrem a Bíblia ao acaso, escolhem aleatoriamente um versículo e consideram que essa é a palavra que Deus está enviando para aquele momento, muitas são as pessoas que gostariam da segurança de uma posição única, inequívoca, fechada.

Mas a Bíblia, rica em sabedoria, muitas vezes pergunta mais do que responde. Possivelmente, o exemplo mais clássico de texto com mais perguntas do que respostas é o livro de Jó. Ele põe a descoberto as fraquezas da teologia tradicional, que afirmava que Deus recompensava os justos aqui mesmo na terra, com saúde, prosperidade, longevidade. A vida estava mostrando que não era bem assim; o poeta que escreveu o livro de Jó coloca desesperadamente a questão; não chega, porém, a uma resposta clara, permanece reverente diante do mistério da deliberação de Deus. Mais tarde, a revelação trará alguma resposta, através da fé na ressurreição, que é posterior ao livro de Jó. Tal texto, porém, permanece como um alerta: Deus terá sempre razões que nos ultrapassam, não podemos prendê-lo em nossas definições, regras, explicações. Deus é maior, sempre; o mistério da vida também.

 

 

4. Questões “impróprias para menores”

A Bíblia é um livro realista. Fala de Deus, de valores, da justiça, do caminho para o céu. Mas fala também do ser humano, com tudo o que ele tem de heroico e vergonhoso, com exemplos edificantes e histórias de grandes pecados. Se fosse um filme, muitas de suas partes seriam classificadas pela censura como impróprias para menores. As guerras são descritas sem nenhum disfarce em relação à violência, aos rios de sangue. Até para adultos alguns textos podem ser chocantes. A título de exemplo, vejamos como é difícil entender que, na empolgação de uma luta pela liberdade, o livro dos Macabeus diga coisas assim: “Uma vez senhores da cidade pela vontade de Deus praticaram uma horrorosa carnificina, a ponto de um tanque vizinho, com largura de dois estádios, parecer cheio do sangue que ali se derramou” (2Mac 12,16).

E haveria muitas outras passagens que não seriam facilmente “digeridas” por alguém despreparado ou ingênuo em relação à Bíblia — por exemplo: a história de Tamar, a mulher esquartejada de Jz 19.

Os heróis também costumam ter suas fraquezas. Contamos para as crianças como Davi derrotou Golias, mas nem tudo na vida do grande rei seria adequado para o trabalho com os menores. Sansão é o próprio protótipo do herói ambíguo; salva o povo, é verdade, mas é um desordeiro, anda com as prostitutas, mata por motivos frívolos. O profeta Eliseu amaldiçoou alguns jovens que o chamaram de careca e eles foram despedaçados por 2 ursos (2Rs 2,23-24).

Tudo isso pode ser refletido com proveito, sendo espelhos onde vemos o retrato das nossas violências, mesquinharias, fraquezas. Cada vez que nos horrorizamos com tais textos, Deus nos fala e nos pergunta o que estamos fazendo diante de pecados e violências semelhantes que acontecem hoje. Mas tais passagens exigem maturidade, sabedoria, capacidade de reflexão e outras qualidades que nem todos cultivaram.

 

5. Imagens estereotipadas que atrapalham

Talvez fosse mais fácil ler a Bíblia se ela fosse só Bíblia, mas geralmente na capa vem escrito: Bíblia Sagrada. A qualidade de sagrada gera algumas expectativas e bloqueios. A pessoa aproxima-se do texto um pouco intimidada, procurando nele o que combina com a sua noção de edificante e de sagrado.

Por exemplo: todos nós já temos uma imagem mental do que seja um profeta. Trata-se de um servidor de Deus, dócil, obediente, fiel, reverente. É isso que esperamos encontrar ao conhecê-lo através das Escrituras. Mas a Bíblia surpreende. Mostra-nos Jonas deliberadamente indo na direção contrária ao chamado de Deus e mal-humorado diante da generosidade do Senhor com o povo de Nínive. Apresenta-nos também Jeremias lamentando o dia em que nasceu (Jr 20,14); se um catequizando fizesse algo semelhante talvez o catequista o advertisse para não blasfemar. Vemos igualmente Moisés, cansado da incompreensão de sua gente, devolvendo ao Senhor o povo que lhe fora confiado (Nm 11,11ss). Há uma tentação de reinterpretar esses fatos, salvando a reputação de obedientes que esses homens de Deus deveriam ter. Mas os profetas da Bíblia são humanos, muito humanos, com direito a fraquezas, cansaço, desânimo, como todo mundo. É até bom que eles sejam parecidos conosco nas suas limitações, assim podemos ter mais esperança de nos tornar parecidos com eles na sua grandeza.

Os estilos literários, com suas distintas chaves de interpretação, podem também ser mal compreendidos. Lemos na Dei Verbum: “… a verdade é apresentada e expressa de maneiras bem diferentes nos textos de um modo ou outro históricos, ou proféticos, ou poéticos, bem como em outras modalidades de expressão. Ora, é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio de gêneros literários então em uso” (DV 12).

É preciso considerar que, na linguagem comum, gêneros como mito ou poesia, são considerados menos “verdade” do que um relato histórico objetivo. Isso deve-se à nossa mentalidade ocidental, pragmática. Mito, no falar corriqueiro, chega a ser sinônimo de mentira e, quando as pessoas dizem que algo é “só poesia”, estão pondo em dúvida a veracidade do que foi comunicado. Costuma faltar ao adulto comum a compreensão de que a verdade pode ter outras roupagens além do discurso objetivo e que, para falar do transcendente, a linguagem mais “verdadeira” é sempre aquela que ultrapassa o sentido comum das palavras. Rubem Alves, teólogo presbiteriano, chega a dizer que, para sermos mais fiéis à realidade de Deus, deveríamos fazer teopoesia em vez de teologia. No entanto, é preciso educar os adultos para essas linguagens, para que não se decepcionem ou tomem a metáfora pela realidade, caindo em leitura fundamentalista, mágica, ingênua.

 

III. Abordagens e desafios — A leitura bíblica que queremos

A Bíblia nasceu de uma leitura da realidade — foi o veículo que Deus preferiu para a sua revelação. Ela não nos ensina só o que Deus revela, mostra-nos como Deus costuma se comunicar. Nesse sentido ela aponta para uma leitura bem articulada da vida, o primeiro livro onde Deus se manifesta. Vamos à Bíblia com o que sabemos e com o que nos interpela na vida; lá percebemos como um povo leu a presença de Deus na sua história e somos provocados a construir também nós nova história dentro do projeto de Deus.

Para isso precisamos de uma leitura adulta, madura, atualizada, apoiada numa boa hermenêutica. Como católicos, lemos a Bíblia dentro da nossa Igreja, iluminados também pela tradição e pelo magistério. Essa Igreja nos pede uma leitura inteligente, mobilizadora, orante e fiel ao projeto global de Deus.

Ao orientar adultos, será importante conjugar a interpretação moderna, atualizada, não mágica, com uma profunda reverência por essa palavra divina. Ler tendo em vista o contexto e as características das mediações humanas não é deixar na sombra o fato de que o próprio Deus se comunica conosco na Palavra inspirada e nos fatos que geraram essa Palavra.

 

1. Os riscos do fundamentalismo

Após uma época de predomínio da racionalidade, onde se chegou a anunciar como inevitável o declínio final do sagrado, eis que vemos ressurgir com força as manifestações religiosas de vários tipos. Houve até quem chamasse isso de “revanche do sagrado”. Relatos de milagres se tornam comuns e multidões proclamam, de diferentes maneiras, sua confiança no sobrenatural. Nesse cenário, a Bíblia tem um grande destaque. Descobrem-se nela profecias escondidas, códigos misteriosos, promessas imediatistas. A mídia dá cobertura a tudo o que parecer sensacional. A leitura ingênua, mais fácil e mais poderosa para mobilizar as massas, aparece com força.

Vemos então, em plena época dos satélites artificiais, do computador, da tecnologia mais avançada, um renascimento de antigos fundamentalismos. Não é o que queremos como leitura bíblica. O excelente documento A Interpretação da Bíblia na Igreja alerta com toda a razão:

“A abordagem fundamentalista é perigosa, pois s é atraente para pessoas que procuram respostas bíblicas para seus problemas de vida. Ela pode enganá-las oferecendo-lhes interpretações piedosas, mas ilusórias, em vez de lhes dizer que a Bíblia não contém necessariamente uma resposta imediata a cada um desses problemas. O fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento. Ele infunde na vida uma falsa certeza, pois confunde inconscientemente as limitações humanas da mensagem bíblica com a substância divina dessa mensagem”.

 

2. Progredir gradualmente para uma leitura melhor

A relação de um adulto com a Bíblia, seja ele catequizando, catequista ou outro tipo de agente de pastoral, tem raízes emocionais. Quando abaladas, essas raízes dão lugar a uma insegurança dolorosa, provocam as chamadas crises de fé. É o que vemos acontecer com muitos adultos que procuram cursos de teologia com aprofundamento bíblico e ficam perplexos com o que para eles é inaudita novidade, embora já seja dado como reconhecido e firmado na Igreja há bastante tempo. Todo cuidado aí é pouco. A crise deve ser vivida como uma coisa positiva: é difícil ter crescimento sem algum tipo de crise. Mas precisa ser dosada. Quem vai com muita sede ao pote acaba matando o doente com o remédio. Se a pessoa chega com uma leitura ingênua ou até fundamentalista, o caminho de transformação precisa ser gradual e adaptado ao que cada um aguenta. Não vale a pena derrubar uma interpretação antes que outra melhor tenha condições de tomar o seu lugar. Indo devagar e ouvindo muito os sentimentos de cada pessoa, temos mais possibilidades de acertar.

 

3. Leitura popular — contribuições e cuidados

Nas últimas décadas, no Brasil, vimos acontecer uma revolução na leitura bíblica, com cursos e livros simples que querem educar o povo para uma leitura melhor. Sem os termos acadêmicos que tornariam essa formação inacessível, biblistas de grande sensibilidade para a cultura popular têm oferecido trabalhos de inegável valor na compreensão do texto da Bíblia e dos contextos que estão por trás de sua formação.

Como acontece com toda simplificação, às vezes se corre o risco de não equilibrar bem os diferentes aspectos da leitura que integram a complexidade da questão. Outro risco é ter uma formação atualizada no cursinho bíblico, transformar seu modo de compreender a fé e depois ter de viver numa comunidade que não fez tal avanço e rejeita a nova postura do agente de pastoral que progrediu. A própria pessoa terá de ter, além dos seus novos conhecimentos bíblicos, paciência e caridade com outras formas de abordar o texto. Não obstante, a leitura bíblica popular foi e continua sendo um grande impulso na formação de adultos mais conscientes e preparados para viver com realismo as exigências do compromisso cristão.

 

4. Destaque para alguns desafios atuais

 

a) A distância entre a hermenêutica e os catecismos

É certo que não se pode ensinar no âmbito da catequese, como doutrina já consagrada, teses que ainda estão em discussão ou posições particulares deste ou daquele teólogo. A catequese lida com o que tem um apoio de consenso do magistério. No entanto, é frequente que posturas oficiais, incluindo algumas do Concílio Vaticano II, ainda não se tenham integrado aos manuais catequéticos. É o que acontece, por exemplo, com dados do ecumenismo e com algumas conquistas já pacíficas da hermenêutica bíblica.

 

b) A formação dos educadores

Quem vai acompanhar adultos nos caminhos da Bíblia precisa ter conhecimentos sólidos e atualizados. Por causa dos muitos problemas que o texto apresenta, e por uma tradição de sermos há séculos mais litúrgicos e sacramentais do que bíblicos, temos pouca gente bem preparada para dar conta dessa missão. Os leigos gostam da Bíblia, cultivam carinhosamente seus trechos prediletos, mas raramente detêm chaves de leitura que lhes possibilitem um progresso maior. O próprio clero nem sempre tem a paixão e a atualização esperadas. Além disso, o leigo, por sua vez, dificilmente confia em outro leigo bem preparado se o sacerdote não estiver em sintonia com o mesmo tipo de preparo.

 

c) Um livro instigante que pode questionar até a Igreja

A Bíblia não é meramente um edificante manual de piedade. Ela sacode nossas acomodações e questiona nossas posturas. Tem autoridade máxima para isso. É palavra de Deus. Lemos o texto bíblico, como católicos, orientados pela Igreja, é verdade. Mas a própria Igreja, na qualidade de santa e pecadora, é chamada a ser ouvinte e seguidora da Palavra. É uma Palavra muito exigente. Não é de espantar que, em certos aspectos, a leitura da Bíblia nos inspire cobranças diante de atitudes eventualmente menos fiéis dentro da própria Igreja. Gente pouco madura poderá transformar isso numa simples reclamação ou revolta contra a instituição. Gente mais equilibrada, que também se sente Igreja, pode optar por um trabalho responsável para fazer a parte que lhe cabe, com firmeza, mas igualmente com paciência, compreensão e amor à sua comunidade de fé. Tudo isso requer pessoas muito bem formadas, amadurecidas, também do ponto de vista humano.

 

5. Inspiração para a Igreja que queremos construir com os adultos

O Projeto Ser Igreja no Novo Milênio foi buscar na Bíblia, mais especificamente no livro de Atos dos Apóstolos, as bases para uma reflexão educativa que sirva de estímulo para ir em frente com criatividade e fidelidade. A Bíblia tem condições de ser esse tipo de inspiração. Ela mesma nos mostra o caminho, quando lê a ação de Deus na história, encara a vida com realismo, valoriza a graça e utiliza a mediação humana. Ela nos convida a refazer o processo que nos é apresentado no episódio de Jesus com os discípulos de Emaús: ir ao encontro das pessoas, ouvir sua situação de vida, apresentar uma palavra que aquece os corações, caminhar juntos, reconhecer os outros como irmãos no partir do pão, retomar o caminho como missionários da boa nova fortalecidos pela refeição eucarística.

A Bíblia é um livro emocionante, provocador. Numa catequese com adultos, ela tem um potencial fantástico para provocar o crescimento humano e de fé, tanto de catequizandos como de catequistas e da própria comunidade que por ela se deixar interpelar.

Grupo de Reflexão Catequética (Dimensão Bíblico-Catequética da CNBB)