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Publicado em novembro - dezembro de 2014

Catequese com jovens: desafios e esperanças

Por Solange Maria do Carmo / João Ferreira Júnior, ofmCap

Apesar de algumas conquistas, permanece precária e descuidada a catequese com jovens. Nossa juventude ficou à margem da Igreja faz tempo e, ainda que alguns tentem incrementar movimentos para essa faixa etária, o esforço empreendido não tem dado os resultados desejados. Importa saber se temos acompanhado as necessidades dos jovens e os processos de evolução humana pelos quais eles têm passado.

Muitos estabelecem uma diferença entre catequese e evangelização. Dizem que evangelização é um processo querigmático, o primeiro anúncio da fé a pessoas que não fizeram ainda a experiência cristã de Deus. A catequese seria mais doutrinária e significaria o aprofundamento do primeiro anúncio. Mas hoje já se entende que a própria catequese é querigmática, apresentando seus conteúdos de modo a aprofundar não um conhecimento, mas uma experiência de Deus. E que todo anúncio querigmático é também catequético, pois não é possível anunciar Jesus a não ser de forma situada, com base na fé que professamos. Por isso, as palavras catequese e evangelização já aparecem juntas, com sentido análogo, em quase todos os documentos mais recentes da Igreja. Neste artigo, esses termos serão usados como sinônimos. Para nós, é catequese toda a ação evangelizadora da Igreja que se empenha em formar o discípulo para seguir Jesus. Uma tarefa nada fácil, especialmente quando diz respeito aos jovens.

1. Desencontros entre a Igreja e a juventude

Apesar das conquistas observadas, permanece precária e descuidada a catequese católica com jovens. Nossa juventude tem ficado à margem da Igreja já faz tempo e, ainda que alguns tentem resgatar a pastoral da juventude ou incrementar movimentos para atingir essa faixa etária, basta um pouco de honestidade para concluir que o esforço empreendido não tem dado os resultados desejados. Citemos apenas alguns pontos que mostram como se tornou difícil o diálogo entre a fé cristã católica e o mundo da juventude: a moral sexual da Igreja, as celebrações litúrgicas, a linguagem da fé e o modelo de comunidades eclesiais que prevalece em nossas paróquias. 

1.1. A moral sexual

Segundo a opinião de vários especialistas, a moral sexual da Igreja diz muito pouco a nossos jovens, para quem o que nossa Igreja ensina a esse respeito se tornou motivo de ironia. E enquanto a moral sexual deságua dos púlpitos e dos documentos do magistério numa lista não enumerável de pecados ligados à sexualidade – desde a masturbação até a prática homossexual –, nossos jovens descobrem o amor e o sexo à revelia do que diz a moral católica. Vivem sua própria moral sexual, tendo sua consciência formada pela mídia – e não pela Igreja, salvo exceções.[1] São poucos os que dão conta de viver a castidade ou os que nela acreditam como valor.

Além do mais, escandaliza nossos jovens a incoerência entre a moral que a Igreja ensina e a que vem a público na mídia, envolvendo seus representantes. Diante de tantos escândalos por parte do clero (pedofilia, abusos sexuais, pornografia e prostituição), parece absurdo que o magistério da Igreja não perceba que endurecer o discurso sobre a sexualidade não resolve os problemas ligados ao assunto – nem os do clero, menos ainda os da juventude. Enquanto a Igreja escreve para uma juventude ideal (fiel, obediente, casta, pura, quase angelical), nossa juventude real (cheia de desejos e libido que a mídia insiste em despertar precocemente) fica entregue à própria sorte e encontra no campo da moral sexual sua própria maneira de sobreviver ao abandono catequético.

1.2. A liturgia católica

Apesar dos esforços do Concílio, a liturgia católica permanece engessada e se apresenta aos jovens como maçante e tediosa. Acostumados ao barulho e ao agito dos ambientes juvenis, os jovens ficam estarrecidos diante do ritual silencioso e mimético de nossas celebrações. No geral, as liturgias têm o ritmo de uma assembleia que não aprecia o movimento próprio da juventude nem o deseja.

É difícil admitir, mas a maioria de nossos jovens tolera os ritos litúrgicos em nome da piedade e da obrigação cristã, mas não os saboreia ou aprecia. Então, quando não criam um caminho alternativo dentro da própria Igreja Católica, por meio de algum movimento que lhes ofereça a fé cristã de modo mais apetecível – ainda que questionável teologicamente –, nossos jovens evadem para igrejas neopentecostais ou escolhem manter a fé cristã a seu modo, mas sem vínculos de pertença a nenhuma instituição.

1.3. A linguagem da fé

Salta aos olhos a caducidade da linguagem religiosa que prevalece no ambiente católico. Utilizando uma linguagem inacessível, o discurso cotidiano da fé cristã não favorece o encontro com Jesus Cristo. Emilio Alberich, dando voz ao povo, atreve-se a dizer que a catequese “utiliza linguagens que ninguém entende, se dirige a auditórios que já não existem e responde a questões pelas quais ninguém se interessa” (ALBERICH, 2005, p. 24). Segundo Yves Congar, “a crise atual vem em grande parte do fato de que a Igreja, tendo criado um maravilhoso conjunto de expressões da fé na cultura latina, se apegou a ela em demasia: inclusive na atividade de sua expressão missionária” (CONGAR, 1976, p. 41). Também Torres Queiruga tem levantado essa bandeira (TORRES QUEIRUGA, 1998), e o assunto não foi ignorado pelo Documento de Aparecida (n. 100d) nem pela CNBB (cf. Estudos da CNBB 97, n. 107).

Parece que o nó da questão não está no vocabulário adotado, mas no conteúdo comunicado. Não basta trocar as palavras, dizer “Deus é dez”, “Jesus é o cara”, confeccionando uma espécie de vocabulário juvenil religioso, repleto de gírias religiosas. Não basta também tatuar o corpo e cantar rock ou funk gospel. A pergunta é: “O que está sendo proposto faz sentido, gera vida nova? O evangelho anunciado é, para os jovens, força para viver?” Mais que a adequação das palavras, importa saber se o complexo sistema comunicacional da fé acompanha as necessidades dos jovens e os processos de evolução humana pelos quais eles têm passado.

1.4. As comunidades eclesiais

Nossas comunidades correm reconhecido risco de frieza quando unidas mais por vínculos contratuais que afetivos. Mais que pertença institucional, a juventude quer o direito de peregrinar em busca de um espaço que favoreça sua própria identidade. Muitas vezes, porém, encontram comunidades eclesiais que cumprem obrigações, exigem presença, instituem regras, impõem condições, cobram o dízimo… mas oferecem muito pouco no que se refere ao crescimento humano e ao exercício da liberdade responsável. Quase sempre, os jovens se veem tratados como crianças, para quem as regras decidem, em nome de Deus, o que podem ou não fazer de sua vida. Há comunidades que ainda difundem a teologia do medo e o puritanismo moral, não sem hipocrisia. É, pois, legítimo que muitos jovens se perguntem: ser cristão e pertencer a uma comunidade de fé favorece a minha formação, o meu desabrochar como pessoa humana, ou inibe e veta minhas potencialidades?

Diante disso, parece honesto que nós, catequistas e catequetas, nos perguntemos: a comunidade cristã pode ser uma mediação favorável para a experiência pessoal com Jesus Cristo ou se tornou espaço de transmissão automática da fé, sem exigência de personalização dessa mesma fé? Ainda que consigamos responder teologicamente a essas questões, pode ocorrer que nossa prática pastoral desminta nossa teologia. Oferecemos aos nossos jovens – e ao cristão em geral – comunidades que os convençam das vantagens da pertença? O quadro é frequente: nossos jovens, ainda que participem de algum evento na Igreja (como a Jornada Mundial da Juventude), ainda que não tenham abandonado totalmente os ritos católicos, não têm mais laços afetivos nem efetivos com a comunidade eclesial na qual foram inseridos pelo batismo quando crianças.

Salvo poucas exceções, nossa catequese paroquial foi totalmente pensada para a infância (MARTÍNEZ ÁLVAREZ, 2004, p. 130-154). A constatação de peritos no assunto, como o catequeta espanhol Donaciano Martínez Álvarez, causa preocupação: “Em relação ao processo de iniciação à fé dos adultos, ao catecumenato em seu sentido mais verdadeiro, creio que estamos em situação de inexpertos” (idem, p. 133, grifos do autor). Em geral, entendemos de catequese, mas não de jovens, de seus anseios, de seus sonhos, de sua vida neste novo tempo chamado pós-modernidade. Então, precisamos nos debruçar sobre esse tema.

2. Características da pós-modernidade

Vivemos um momento muito especial. São tantas as mudanças, que já nem falamos de tempo de mudanças, mas de mudança de tempo ou mudança epocal. Diante dessa mudança epocal, nós nos perguntamos: como comunicar a fé ao indivíduo pós-moderno, especialmente aos jovens? A primeira condição para que retomemos nosso trabalho evangelizador com um mínimo de eficácia é entender um pouquinho o tempo em que vivemos.

A multirreferencialidade: bem diferente da cristandade e da modernidade, a pós-modernidade não dispõe de apenas um referencial; é plural, multirreferencial. A sociedade atual reage à razão instrumental positiva da modernidade e abre espaço para a razão do coração, “que a própria razão desconhece”, admitindo possibilidades antes impensadas. Uma multiplicidade de significados conquista espaço e, ainda que sejam contraditórios e opostos – segundo a razão moderna –, esses significados não se excluem devido às escolhas do coração.

A relação com o espaço e o tempo: a relação do indivíduo contemporâneo com o tempo e o espaço transformou-se radicalmente. Hoje, tudo anda depressa demais, fica impossível dar tempo ao tempo. Nossa prioridade número um tornou-se gerir a urgência. Exauridos por tantos compromissos urgentes, já não temos tempo para refletir sobre a construção do futuro. Queremos ser felizes no presente e pronto! Nossa relação com o espaço também já não pode ser descrita como antes. As pequenas aldeias e vilas do passado cederam espaço às aglomerações e teias urbanas. As pessoas se movem de um lugar a outro sem maiores sacrifícios. E mesmo os que não têm acesso à rápida mobilidade física têm sua subjetividade formada pela mobilidade da comunicação e das informações. Uma proximidade comunicacional e imaterial anula distâncias e gera onipresença virtual. Mas a onipresença virtual paga seu preço, pois, ao estar em toda parte, não se está em lugar nenhum. O espaço foi desmaterializado e agora, como um andarilho errante, vagueamos por labirintos sem achar a saída. Nesse nomadismo, restou-nos apenas o próprio corpo como “última morada possível” (VILLEPELET, 2003, p. 19). Talvez por isso o corpo seja tão cultuado neste tempo e tão cuidadosamente preservado. É ele a casa na qual habitamos e condição de possibilidade de ser um com os outros, de entrar em relação, de fazer comunhão.

A primazia da tela: se, no passado, fomos marcados pela cultura da transmissão, da narrativa, as novas gerações são configuradas pela cultura da tela, da imagem. Tudo acontece diante da tela da televisão, do cinema, do computador, do celular ou de tantos outros aparelhos, cada vez mais eficientes. Mais que um instrumento, eles se tornaram uma mediação que muda nossa maneira de pensar, de perceber o mundo e de nos situar, nossa maneira de simbolizar, de imaginar, de criar. Uma mediação comunicacional transforma a mensagem comunicada. Ganha força e conquista espaços o mundo virtual, a ponto de a juventude se tornar totalmente dependente dele, já não saber existir fora dele.

A psicologização do social: nas décadas de 1960 a 1980, nós nos sentíamos como um agente social totalmente necessário para a mudança do mundo. Acreditávamos na utopia de um mundo novo, sem dor nem mazelas, construído sobre as bases da fraternidade que sustenta a fé cristã. Mas o tempo mudou. O Reino sonhado não veio; caímos na descrença de que um dia ele será real. Nossa razão foi capaz de coisas horríveis, e os desmandos do ser humano nos fizeram entender que não somos tão bons e abertos para Deus como pensávamos. A utopia social perdeu sua força. Nossos projetos são mais modestos e dizem respeito, normalmente, à nossa vida pessoal, nossa realização, nossa família, nossa carreira. Essa mudança de foco do social para o subjetivo coloca a sociedade pós-moderna sob a égide dos indivíduos. O indivíduo atual quer, antes de mais nada, ser um agente livre de tudo para poder dispor absolutamente de seu tempo. As ideologias sociais do universo foram desmascaradas, e o desejo de um mundo melhor foi transportado para mundos bem menores: da vida privada e da subjetividade.

3. Desafios catequéticos

Diante das características da pós-modernidade mencionadas, apresentamos alguns desafios que a catequese não pode evitar, a não ser a preço de ver a fé cristã ignorada pelos jovens e pelas gerações futuras.

3.1. Desafio da interioridade

O indivíduo pós-moderno já não pode fiar-se numa ordem das coisas, como nos tempos de outrora. Vivemos hoje no terreno da incerteza identitária. Nossos jovens se encontram alienados das antigas pertenças familiares, sociais, religiosas ou políticas. Para a maioria dos jovens hoje, o desafio não é tornar-se um agente sociotransformador (como na modernidade), mas assumir-se inteiramente como sujeito, construindo uma identidade confiável para si, numa verdadeira fidelidade a si mesmo (VILLEPELET, 2009, p. 64). Trata-se de assumir sua singularidade, sua individualidade, ou ainda, sua unidade, sua integridade e sua diferença, tornando-se sujeito de si mesmo. Num mundo complexo, onde as pessoas podem ser o que elas quiserem ser, nossos jovens se encontram expostos a todos os ventos, pois seus alicerces axiológicos se apresentam abalados.

A catequese não está sem recursos no trabalho de desenvolvimento da interioridade. A experiência de Deus que a catequese comunica – especialmente por meio da meditação, da oração, da acolhida da palavra de Deus, do mergulho no mistério – possibilita ao cristão transitar nesse ambiente sem receios. O amor de Deus revelado em seu Filho, que o ato catequético dá a conhecer, mostra-se como grande aliado nessa construção. Deus é íntimo ao coração e se revela a nós nas profundezas de nossa interioridade. A catequese não deve, pois, ter receio de trabalhar a dimensão espiritual da relação com Deus por meio da oração e da contemplação, as quais permitem perceber sua presença no mais íntimo do ser.

A catequese enfrenta então o desafio de proporcionar aos jovens essa experiência humanizante da fé, que pode ajudá-los na construção de sua identidade. O amor de Deus é energia para viver; é força vivificante. Cada jovem, interpelado por Deus, pode acolher sua palavra no profundo de si mesmo como uma palavra atual e viva que Deus lhe dirige, graças ao seu amor sem medidas. A catequese se faz lugar propício para essa interatividade construtora e desconstrutora. Deus toma a palavra nas palavras humanas e provoca um deslocamento naquele que aceita ser interpelado por ele. A catequese não trabalha com a simples transmissão de uma informação sobre Deus ou com a simples comunicação de verdades intangíveis. Ela comunica a palavra de Deus, que “é um acontecimento ao mesmo tempo que faz acontecimento” (LACROIX; VILLEPELET, 2008, p. 34).

3.2. Desafio querigmático

A secularização da sociedade moderna hoje observada impele a Igreja a dar uma orientação resolutamente mais querigmática à catequese. A crescente secularização fez que o mistério cristão – a vida, morte e ressurreição de Jesus – fosse exilado do horizonte de compreensão do indivíduo pós-moderno. Para muitos de nossos jovens, a proposta cristã não passa de “lenga-lengas por longo tempo remoídas, de velhas histórias desgastadas e estéreis” (VILLEPELET, 2000, p. 83). O caminho de vida que o cristianismo propõe se encontra sob suspeita de impertinência.

Uma catequese mais querigmática requer uma volta ao centro da fé cristã, o mistério pascal: Jesus foi crucificado, mas Deus o ressuscitou, e do Ressuscitado vida nova jorra para os seres humanos. A ressurreição de Jesus não é, pois, um detalhe que se acrescenta ao resto da fé, mas seu núcleo mais fundamental. O paradoxo da vida que vence a morte não pode passar em brancas nuvens. Nossos jovens precisam conhecer Jesus de Nazaré, o Crucificado que se encontra Ressuscitado entre nós, e saber por que motivo foi crucificado: sua práxis. No mistério pascal, o distanciamento entre Deus e a humanidade fica anulado, pois Deus se deixa reconhecer na figura de seu Filho, que se fez homem e foi fiel até a cruz. É no Crucificado que Deus mostra quem é: puro amor. É na vida entregue de Cristo que ele se deixa conhecer como amor-gratuidade. O conhecimento da verdade cristã não se dá por via natural, mas no escândalo da cruz, pois o Deus totalmente outro é pura gratuidade revelada em Jesus, que ele ressuscitou dos mortos. A catequese precisa recuperar seu fôlego e anunciar aos jovens o mistério pascal.

3.3. Desafio pedagógico

Eis que o grande sinal dos tempos hodiernos – a desconstrução da razão clássica – se faz visível: as igrejas que adotam certo estilo espiritualizante estão repletas de fiéis; os movimentos religiosos alternativos atraem numerosos adeptos; grupos religiosos de todo tipo estão abarrotados de gente; as Jornadas Mundiais da Juventude, em torno da figura do papa, congregam multidões de todos os recantos do mundo. Todos querem Deus, ainda que não saibam que Deus é esse. Por meio da busca alucinada por algo que console o ser humano e o arranque de sua própria insignificância, revela-se que a palavra de Deus quer ser ouvida: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28).

Diante dessa sede de Deus, percebemos que novo desafio se impõe ao ato catequético: proporcionar a experiência cristã de Deus, pois a catequese já não pode pressupor a familiaridade das pessoas com o mistério cristão nem pode se contentar em ensinar a fé como se a adesão a Jesus Cristo se limitasse ao problema do conhecimento. Nosso Deus é um Deus que fala ao coração bem mais que à cabeça. Esse coração se entusiasma, apaixona-se e se rejubila, mas não sem razão, é claro. Então, perguntamos: que pedagogia é mais apropriada para proporcionar a experiência cristã de Deus?

Na cristandade, a pedagogia do ensinamento encontrou seu espaço. Ela deu seus frutos em tempos de controvérsias doutrinárias entre os pensadores da fé, permeada pela ignorância religiosa das multidões. Mas a fé ficou encarcerada na cela da doutrina e da transmissão de um saber. Na modernidade, a pedagogia da aprendizagem alçou voos na catequese. Fez conquistas no campo da experiência, unindo fé e vida. Mas ela copiava a pedagogia humanista da escola: seus ritmos, seu modo de gerar aprendizagem, sua concepção de conhecimento etc. Ao adotar a pedagogia humanista do mundo escolar ocidental, em que a razão é situada no centro e o conhecimento é construído em vista da figura do aprendiz, a catequese eliminou do seu dinamismo o mistério.

Na pós-modernidade, porém, a experiência de Deus em Jesus Cristo, que os contemporâneos ainda não fizeram, ultrapassa todo entendimento, apesar de pressupô-lo. A catequese atua no campo da acolhida do mistério, e não no campo da racionalização da fé, apesar de todo esforço para dar suas razões. No ato catequético, a categoria de mistério se apresenta inegociável; ela é seu cerne, seu cume. Na humilde atitude de acolhida, o mistério é vivido.

Em razão da estranheza das novas gerações diante do mistério pascal, insistimos na urgência de uma pedagogia que se distancie da pedagogia escolar e proporcione a experiência do Deus misterioso que ultrapassa todo entendimento: a pedagogia da iniciação. Trata-se de propor o evangelho como força para viver; de apresentar o mistério pascal sem rebaixar o que ele tem de exigente, de abrupto e de desconcertante. E propor não é ensinar, nem impor verdades, nem apenas construir a fé por indução com base em realidades terrenas. É crer que o indivíduo pós-moderno pode fazer seu encontro pessoal com o Deus de Jesus Cristo e que esse encontro é o começo de longo discipulado. O jovem contemporâneo é capaz da experiência de Jó, que, depois de lutas homéricas com Deus, rende-se a ele, exclamando: “Eu te conhecia só por ouvir dizer, agora, vejo-te com meus próprios olhos” (Jó 42,5). É tarefa urgente da catequese, em dias atuais, propor a fé.

3.4. Desafio comunitário

A nova gramática da existência que orienta o indivíduo contemporâneo se apresenta, à primeira vista, como alheia a todo instinto gregário, a todo laço de pertença. Percebe-se hoje, especialmente no meio dos jovens, a tentação de dispensar todo laço de pertença religiosa, de querer viver sem entraves institucionais: cada um construindo para si uma religião à sua imagem e semelhança, numa atitude de subjetivação da crença. Para muitos, ser cristão já não significa necessariamente ter uma pertença estável, recebida em herança dos familiares ou da sociedade, nem mesmo uma pertença alicerçada nas bases do engajamento solidário na missão. A adesão, nos dias atuais, é fortemente personalizada, mas móvel.

Apesar de essa procura ser subjetiva, ela não é solitária, não é isolada, mas se dá no interior de comunidades nas quais o clima de união e de convívio facilita o consenso. A experiência da transcendência é atingida quando a vida se transforma em momentos de intensidade emocional partilhados com outros irmãos de fé. A pertença depende de uma escolha que diz respeito ao campo de investimento pessoal, do retorno que esse engajamento pode proporcionar. Como lidar com isso? Teria a fé cristã, cuja índole é de natureza comunitária, algo a oferecer a este mundo pós-moderno, onde os laços fraternos se encontram tão fragilizados?

Para enfrentar esse desafio, o primeiro passo importante é ajudar nossos jovens a resolver o mal-entendido que opõe Igreja a comunidade. Esse mal-entendido indispõe os cristãos com a Igreja institucional e cria a ilusão de ser possível participar de uma comunidade ideal, onde os afetos transbordam e a convivência fraterna é natural. Normalmente, a palavra Igreja remete a instituição, normas, leis, regras, hierarquia, obediência, ritos. A palavra comunidade, ao contrário, quase sempre faz referência a laços de solidariedade, fraternidade, adesão, sem contratos e normas que estabeleçam essas relações. São ambientes de oração, partilha e diálogo onde a solidariedade se assenta por afinidade, por comunhão de interesses.

A Igreja não é, entretanto, nem uma sociedade fria, organizada hierarquicamente, nem uma comunidade quente, sem nenhuma legislação, que vive ao sabor dos afetos. Ela é a família dos filhos de Deus, uma comunidade de irmãos, onde os membros não se escolhem mutuamente, mas são dados uns aos outros como irmãos, filhos de um mesmo Pai. Essa irmandade, que se dá em torno do único Pai, ensina os irmãos a se aceitar uns aos outros sem que tenham se escolhido mutuamente, pois têm a mesma filiação. Ela ensina a Igreja a viver relações verdadeiramente fraternas em meio a relações assimétricas e hierárquicas. Ela ordena a vivência do amor sem medidas e do serviço aos mais fracos. Ela, apesar de não eliminar os laços contratuais (a hierarquia, a obediência, as normas etc.), ressignifica esses laços.

O apelo de Deus para que vivamos fraternalmente corre o risco de ser malcompreendido, como se a fraternidade eliminasse toda diferença e toda especificidade das funções e serviços assumidos. A Igreja pode ser idealizada como uma comunidade quente, de relações afetivas, onde reina a espontaneidade e o desejo de estar junto. Mas viver fraternalmente não é, antes de tudo, experimentar relações afetivas e calorosas, apesar da importância dos afetos. “Não é a intensidade ou o calor dos sentimentos que fazem a fraternidade, mesmo que isso contribua fortemente” (VILLEPELET, 2003, p. 74). A relação fraterna não se estabelece só na esfera da afetividade, mas na esfera da ética. Ela é criada por um terceiro, Deus, que nos congrega.

Encerrando nossa reflexão, voltemos aos desencontros entre a Igreja e os jovens mencionados no começo deste artigo: a moral sexual da Igreja, as celebrações litúrgicas, a linguagem da fé e o modelo de comunidades eclesiais que prevalece em nossas paróquias. O que esses pontos levantados têm a ver com os desafios catequéticos acima apresentados? Vejamos.

  • A moral sexual: na sociedade pós-moderna, em que a afirmação já não vem dos valores transmitidos por outrem, mas da construção laboriosa da interioridade de cada pessoa, parece inútil dar aos jovens a receita pronta acerca dos comportamentos morais, também no campo da sexualidade. Ou a Igreja educa os jovens para a responsabilidade, ajudando-os, por meio da boa-nova do evangelho, a tomar decisões éticas e morais compatíveis com a vida cristã, ou estará falando para ninguém. Sua moral sexual não será acolhida por meio da força e da teologia do medo, pois esses argumentos já não são aceitos pelos jovens de hoje, libertos da culpa e do medo do castigo eterno. Enfrentar o desafio da interioridade, ajudando os catequizandos a construir para si uma identidade que não seja fútil, será o caminho mais penoso, porém mais eficaz para que a moralidade cristã tenha respaldo entre a juventude.
  • As celebrações litúrgicas: se nossos jovens não receberam a fé no berço familiar e por isso não conhecem Jesus e não fizeram sua experiência cristã de Deus, é hora de promover esse encontro. A liturgia é o lugar ideal para essa experiência transformadora. Mas com as celebrações ritualistas e tímidas de nossas igrejas não conseguiremos promover esse encontro. Nosso povo católico, mesmo os mais afastados da vida eclesial, gosta de celebrar, cantar, rezar, meditar… As celebrações litúrgicas, a começar das missas, precisam ser repensadas. O “rubricismo” precisa dar lugar ao bom senso, a monotonia à criatividade, a linguagem formal e técnica à linguagem do coração, o cumprimento dos ritos ao mergulho no mistério pascal, a frieza das celebrações ao calor juvenil e à participação alegre dos jovens.[2]
  • A linguagem da fé: quando falamos que a linguagem da fé diz bem pouco a nossa gente juvenil, lembramos que essa linguagem não se refere apenas ao vocabulário, mas ao mundo de significações dos jovens, ou seja, à gramática existencial deles, tão marcada pelo afeto e pela subjetividade, enquanto a nossa geração foi marcada pela razão e pela utopia social. Nosso desafio hoje não é ensinar a fé, mas ser iniciado nela. Para atrair os jovens, teremos de vencer preconceitos pedagógicos antigos; haveremos de deixar para trás os caminhos pedagógicos já conhecidos e precisaremos nos aventurar em construir com os próprios jovens uma pedagogia mais ousada.
  • O modelo eclesial: participar de comunidades fraternas, com exigências éticas até a doação radical da vida, pode ser ótima alternativa para ajudar o sujeito à cata de si mesmo a se encontrar. Mas essa participação já não se dá por convenção, tradição ou obrigação, mas porque é um investimento importante na construção da interioridade. O encontro entre identidade cristã e pertença eclesial se instaura na e pela iniciação à fraternidade, que se dá em comunidades cristãs que procuram viver essa fraternidade. A catequese deveria, pois, ser vivida como um âmbito criador de relações fraternas; fraternidade essa que ultrapassa até mesmo o ambiente eclesial. Enquanto nossas comunidades eclesiais não se tornarem esse espaço fraterno que afirma o sujeito, nossos jovens vão se recusar a construir seus laços de pertença.

 

Bibliografia

ALBERICH, Emilio. A catequese tem futuro? Revista de Catequese, São Paulo, v. 28, n. 109, p. 22-28, 2005.

AMADO, Joel Portella. Uma Igreja em mudança de época: pontos relevantes para a compreensão da Igreja na segunda década do século XXI. Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, v. 70, n. 279, p. 565-579, 2010.

CONGAR, Yves. Cristianesimo come fede e come cultura. Il Regno – Documenti, Bologna, n. 21, p. 41, 1976.

GONÇALEZ-FAUS, José Ignacio. Sexo, verdades e discurso eclesiástico. São Paulo: Loyola, 1999.

LACROIX, Roland; VILLEPELET, Denis. Une question à la foi: la catéchèse, écho d’une parole de vie. Paris: L’Atelier, 2008.

LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastian. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2005.

MARTÍNEZ ÁLVAREZ, Donaciano et al. Mesa redonda. Catequética, Cantabria, v. 45, n. 3, p. 130-154, 2004.

TORRES QUEIRUGA, Andrés. Recuperar a criação. São Paulo: Paulus, 1998.

VILLEPELET, Denis. Catéchèse et crise de la transmission. In: ______; GAGEY, Henri Jérôme (Org.). Sur la proposition de la foi. Paris: L’Atelier, 2000. p. 77-92.

______. L’avenir de la catéchèse. Paris: L’Atelier: Ouvrières, 2003. p. 19. (Tradução brasileira: O futuro da catequese. São Paulo: Paulinas, 2007.)

______. Crise de la transmission et proposition de la foi en France. In: MULLER, Hadwig Ana Maria; VILLEPELET, Denis (Org.). Risquer la foi dans nos sociétés: Églises d’Amerique Latine et d’Europe en dialogue. Paris: Karthala, 2005. p. 137-145.

______. Transmettre: initier, intérioriser e fraterniser. Les Cahiers de l’Atelier, Paris, n. 517, p. 6-11, 2008.

______. La centralité du présent. Les Cahiers de l’Atelier, Paris, n. 523, p. 56-64, 2009.

[1] Em recente pesquisa, o Datafolha entrevistou peregrinos católicos presentes no RJ para a JMJ. Dos entrevistados, 65% defendem o uso de preservativos nas relações sexuais e 53% defendem a pílula anticoncepcional. Já no que diz respeito à “pílula do dia seguinte”, o respaldo é menor, de 32%. É bom observar que essa pesquisa foi feita com jovens frequentadores da Igreja e admiradores do papa. Entre os jovens não participantes, a opinião da Igreja simplesmente nem é levada em conta. Cf. <http://m.g1.globo.com/mundo/noticia/2013/07/pesquisa-mostra-que-peregrinos-se-mostram-mais-liberais-que-a-igreja-catolica.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.

[2] Não estamos defendendo certamente que a missa seja transformada em espetáculo. Hoje há tanta missa alegre que não comunica o mistério… Muitos trouxeram para a missa a lógica do auditório, da festa, do shopping… Não se trata disso, mas de fugir do engessamento litúrgico, que não permite que a celebração seja, em primeiro lugar, expressão da vida e cultivo da amizade com Deus.

Solange Maria do Carmo / João Ferreira Júnior, ofmCap

* Solange Maria do Carmo é leiga, filósofa e teóloga, mestre em Teologia Bíblica e doutora em Teologia Catequética pela Faje (BH). Leciona disciplinas na área de catequese e Bíblia na PUC-Minas e no Ista em Belo Horizonte (MG). Publicou pela Paulus a coleção Catequese permanente. E-mail: solangedocarmo@ig.com.br

*João Ferreira Júnior é frade capuchinho da Província de Minas Gerais, bacharel em Filosofia pela Faculdade Católica de Uberlândia e bacharelando em Teologia pelo Ista, em Belo Horizonte (MG).