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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 2005 (pp. 12-18)

Diversidade e diálogo

Por Pe. Mário de França Miranda

A atual sociedade pluralista apresenta grande diversidade de visões da realidade, de concepções de vida, de marcos comportamentais que acabam resultando num grande problema pastoral para a Igreja — como confirmam os embates em torno da pastoral urbana. Não mais dispomos de uma linguagem comum, por meio da qual seria possível proclamar a salvação de Jesus Cristo. Dispomos apenas de fragmentos de linguagens e nos perguntamos então como pode a Igreja, em tal situação, realizar sua missão evangelizadora.

 

1. A inevitável diversidade

Todos sentimos o desafio desta moderna sociedade pluralista. Mais do que um desafio, certo mal-estar. Quando pensamos em catolicismo, quer queiramos quer não, estamos ainda presos a um imaginário eclesial do passado. Partimos sempre da unidade fundamentada na homogeneidade, própria dos tempos da cristandade. O modo de entender e de praticar a fé católica era comum a todos e garantia a identidade do católico. Mesmo que a sociedade se apresentasse heterogênea e plural em suas concepções do mundo, com suas correspondentes práticas de vida, ainda assim o católico encontrava um meio tranquilo nos diversos contextos católicos criados pela Igreja (colégios, hospitais, universidades, associações etc.), onde todos falavam a mesma língua e se entendiam facilmente.

O importante evento que foi o Concílio Vaticano II pôs fim ao fechamento eclesial não só com relação aos outros cristãos, e mesmo aos não cristãos, como também com relação à sociedade. O diálogo que se instaurou desde então entre Igreja e mundo não só levou a comunidade eclesial para fora de si, mas também trouxe a sociedade para dentro da Igreja. Nesse momento a heterogeneidade plural da sociedade tornou-se também uma heterogeneidade plural no interior do povo de Deus. E é o que hoje presenciamos, vivemos e, em parte, sofremos.

Por detrás de toda essa transformação eclesial está a emergência do indivíduo na modernidade, que quer ser respeitado no que tem de próprio, no que constitui sua própria identidade. A emancipação da pessoa diante das tradições do passado, as quais não são mais aceitas apenas por serem tais, implica necessariamente uma releitura desses dados transmitidos pelas gerações anteriores, tornando a atual sociedade múltipla e diversa, em decorrência da pluralidade de leituras nela efetuadas. O pluralismo que hoje experimentamos veio para ficar. Não adianta sonharmos com o passado. Não podemos evitar sentir-nos um pouco estrangeiros em nosso próprio país, tal a quantidade de linguagens e práticas que nos são estranhas.

De fato, a massa enorme do saber, a qual ninguém consegue sozinho dominar, tornou a sociedade complexa, com recantos onde nos sentimos pouco à vontade, com setores que nos são estranhos, com mentalidades que nos surpreendem. Esse pluralismo se encontra também no interior da comunidade eclesial, pois cada um se encontra com Jesus Cristo, lê o evangelho e vive sua fé sempre com base no que é, em sua pessoa, em sua história, em suas experiências, em sua mentalidade, em sua cultura, em suas interrogações, enfim, em sua perspectiva.

Esse fato não é novo, já que se encontra presente nos textos do Novo Testamento bem como ao longo, sobretudo, do primeiro milênio do cristianismo. O que é inédito é a viva e forte consciência que hoje temos dele. Mais ainda, estamos convencidos de que essa situação pluralista é um direito que não mais poderá ser suprimido — também no interior da Igreja. Daqui deslancha o atual discurso sobre a inculturação da fé, sobre o papel próprio e indispensável das Igrejas locais, sobre a maioridade do leigo na Igreja, sobre a configuração plural da fé cristã, hoje na agenda da reflexão teológica. O anseio de povos e etnias de viver sua fé sem terem de renunciar às próprias identidades culturais encontra-se também, em grau não tão acentuado, nos indivíduos e grupos menores no interior da sociedade pluralista.

Trata-se não apenas de contextos vitais diversos, mas da correspondente linguagem e, sobretudo, das práticas de vida aí presentes. Dada a íntima conexão entre visão teórica e comportamento prático, torna-se sumamente difícil simplesmente viver a fé cristã prescindindo do próprio contexto vital. Além disso, o sujeito moderno, que goza de amplo espaço de liberdade para se informar, fazer suas opções e escrever sua biografia, não aceita mais receber pronta, por parte dos que não conhecem seu meio e não experimentam seus desafios, a configuração concreta que deve dar à sua vida de fé.

Nunca a humanidade foi tão sensível aos direitos das minorias, outrora simplesmente ignoradas, nem tão respeitosa diante do diferente, visto com desconfiança no passado. Embora reconheçamos que nem tudo pode ser aceito e aprovado, sem dúvida respiramos hoje um ar diverso. Naturalmente a complexa sociedade moderna, com sua enorme oferta de sentidos, representa um ganho para o indivíduo construir a própria biografia conforme lhe pareça melhor. Mas implica também um pesado ônus, ausente nas sociedades tradicionais, de dever ele mesmo escolher, entre os elementos oferecidos generosamente pela sociedade, aqueles componentes que constituirão a sua personalidade e a sua identidade social.

Nesse sentido, o pluralismo trouxe consigo o imperativo da escolha. Essa, porém, supõe critérios, referências alicerçadas em sólidas convicções, que orientem, avaliem e motivem as opções. Na falta desses critérios, tal como hoje se experimenta, advém uma submissão inconsciente aos padrões de uma cultura neoliberal, marcada pelo individualismo e pelo consumismo. Estar bem, sentir-se feliz, evitar tensões, produzir e ganhar muito, poder consumir à vontade são algumas palavras de ordem que explicam as reações de muitos em nossos dias. Como esta sociedade neoliberal não responde aos anseios mais profundos do ser humano, deixando sem resposta questões existenciais pertinentes a qualquer mortal, o devido respeito à liberdade de cada um acaba resultando hoje num clima de insegurança e angústia, de egocentrismo e solidão.

A diversidade é, portanto, ambígua. Não está aí para ser aceita sem mais, como um dado inevitável da atual sociedade. Impõe um trabalho de discernimento — pois pode estar sendo produzida artificialmente pelos manipuladores da opinião pública em vista de seus interesses ou pelos produtores de bens de consumo para aumentar suas vendas. Nesse caso, a diversidade se constrói na superfície da funcionalidade, no solo da racionalidade utilitarista. É uma diversidade sem raízes, instável, descartável, frágil. Aqui, entretanto, nos referimos sempre a outra diversidade. Ela brota de fontes de sentido, corretas ou não — não vem ao caso —, que se defrontaram com questões significativas propostas pelo ser humano. Hoje tais fontes não só são múltiplas na sociedade, como também se apresentam em diversas versões adaptadas à formação cultural dos receptores.

Essas fontes de sentido nasceram de desafios existenciais enfrentados pelas pessoas em determinadas situações de vida. Suas raízes são sempre contextualizadas. É o modo como o ser humano se defende das ameaças, torna possível a vida social, afugenta o desconhecido e ordena o caos das experiências sucessivas. Estamos diante de uma interpretação da realidade que se demonstra útil e sensata, por nos dar explicações e nos orientar em paragens desconhecidas. Naturalmente nosso comportamento, nossas ações e nossas práticas sociais espelharão essa visão da realidade que nos foi transmitida e que assumimos com maior ou menor consciência. E o fato de seguirmos vivendo orientados por tais consignações acarreta uma confirmação, com base na própria prática, de que elas são corretas e verdadeiras.

A complexidade da sociedade atual tornou inviável a existência de somente uma fonte de sentido, por todos aceita por responder às suas questões e orientar suas trajetórias vitais. Os contextos vitais são múltiplos e, em geral, desconhecem uns aos outros e requerem leituras adequadas, bem como práticas e comportamentos específicos.

Tais leituras bem determinadas são óbvias para os que vivem imersos em seu contexto, embora de difícil acesso e aceitação na perspectiva dos de fora. O mesmo deve ser afirmado das práticas sociais contextualizadas. E como a moderna sociedade não se simplifica, mas, pelo contrário, se torna cada vez mais complexa pelo aumento constante das novas tecnologias, das linguagens e das problemáticas, podemos afirmar que o pluralismo não é um desafio passageiro e episódico. Os que teimam em ignorá-lo são logo castigados pelo fracasso e pela ineficácia de seus esforços.

De fato, hoje temos consciência de que não podemos transmitir às novas gerações o patrimônio do passado como aquela totalidade que um dia acolhemos. Prestamos mais atenção na pessoa concreta que temos diante de nós; procuramos entrar em seu mundo, escutar suas expectativas, aprender sua linguagem, solidarizar-nos com suas aflições e remediar suas frustrações. Esse fato de levarmos a sério nosso interlocutor veta-nos um discurso uniforme e universal para com nossos ouvintes. Nossa fala será sempre contextualizada, se pretender ser significativa, e será sempre específica, se quiser ser pertinente. A época das cosmovisões abrangentes, das ideologias iluminadoras, dos grandes sistemas de sentido já passou.

O discurso universal ainda acontece no campo de uma racionalidade funcional e utilitária, como vemos nas diversas especializações do saber nas universidades. Os alunos buscam conhecimentos para se tornarem peritos nas áreas respectivas. O objetivo é de ordem operacional. A ele jamais chegarão se começarem a questionar o que lhes é transmitido e ensinado. Podem mudar os métodos de ensino, mas há uma continuidade de conteúdo que se mantém e proporciona a identidade de cada disciplina. Esse discurso pode vir mesmo de outros países, como acontece frequentemente na área das ciências exatas e da tecnologia, das ciências sociais e mesmo das ciências humanas.

Assim que as questões não funcionais, mas de sentido, entram em cena, cada aluno já dispõe de sua visão da realidade, a saber, já vem equipado com modos de ver, critérios de juízo, linguagens próprias e comportamentos correspondentes. Qualquer discurso sobre o sentido da vida, do sofrimento, da felicidade, do amor — dos temas substantivos da nossa vida, enfocados científica ou religiosamente — experimenta certa resistência por parte do auditório. Este o vê, consciente ou inconscientemente, como um discurso regional e particular, fundamentado em premissas que não aceita, estranho a seu mundo, sujeito a ser contestado e rejeitado. Essa é a experiência feita diariamente pelos professores de cultura religiosa nas universidades católicas ou evangélicas do nosso país.

O mesmo fenômeno acontece em nossas paróquias nas grandes metrópoles. Dada a diversidade cultural e humana dos fiéis, torna-se sumamente difícil elaborar um discurso que seja pertinente para todos. Afinal, esse discurso simplesmente não existe, pois também ele representa uma leitura determinada da Palavra de Deus, uma interpretação que reflete os conhecimentos, as experiências, os interesses, os objetivos do próprio pregador — que não são universais, mas bem particulares. Tomando consciência desse fato, só lhe resta optar por uma faixa de seu diversificado auditório. Nesse momento ele estará, queira ou não, selecionando sua assistência, pois em nossos dias, felizmente, uma boa pregação é decisiva para a assiduidade dos fiéis. Cada pregador cria e constitui seu auditório. Essa afirmação comprova, por outra via, a impossibilidade do discurso universal em nossa sociedade pluralista.

Enfim, estamos vivendo uma realidade que é tão antiga quanto o cristianismo, só que nunca se apresentou tão radicalmente como hoje. Em todas as épocas sempre houve distância entre o conjunto da fé cristã, do ponto de vista doutrinal e ético, e a assimilação e apropriação desse conjunto por parte de cada fiel. Conforme a formação cultural, as experiências passadas, os problemas concretos, as ocupações profissionais, os diversos graus de evangelização real, sempre esteve presente no cristianismo uma diversidade inevitável na vivência da fé cristã. Basta lembrar as diversas e múltiplas expressões da religiosidade popular ao longo da história.

A incidência dessa diversidade encontrada entre os fiéis se encontrava limitada pelo meio sociocultural, por uma sociedade ainda bastante simples, por um saber reservado a poucos, pela força das autoridades, por sujeitos sociais não emancipados e por outras razões que ressaltam o caráter inédito da situação hodierna. A realidade da pluralidade no interior do cristianismo apenas continuou, mas o contexto sociocultural de nossos dias a radicalizou, tornando-a sério desafio para o cristianismo. Esse fato constitui, sem dúvida, ótima chave de leitura para muitas tensões que atravessam a Igreja atualmente.

 

2. A unidade na diversidade

No momento em que a moderna sociedade pluralista não pode mais ser ignorada pela Igreja e ainda é acolhida em seu seio, emerge forte e urgentemente a questão da unidade da instituição, ou, com outras palavras, a preocupação com sua própria iden­tidade. A busca da unidade é própria do espírito humano, que só entende quando ordena racionalmente os múltiplos dados que a experiência lhe oferece. Ordenar e unificar são aqui sinônimos. Naturalmente, a multiplicidade das experiências de fé realizadas no interior do cristianismo, algumas mais e outras menos autênticas, com suas respectivas compreensões e expressões, ameaça dissolver aquilo mesmo que caracteriza o cristianismo como uma religião que se distingue de outras.

A primeira ideia que nos ocorre é fixar em formulações o que vem a ser a fé cristã em toda a sua amplitude. Trata-se de procedimento necessário e sensato, de forte poder de identificação, utilizado outrora com êxito, mas que hoje, mesmo reconhecidas suas vantagens, não dispõe da força que gozava no passado. Primeiramente porque hoje estamos conscientes da impossibilidade de uma linguagem universal, de tal modo que as formulações denunciarão sempre o solo regional de onde brotaram, o qual lhes priva da áurea de universalidade. Além disso, mesmo que se apresentassem como universais, tal qual ainda acontece em nossos dias, esses pronunciamentos iriam necessariamente ser lidos e compreendidos na ótica sociocultural de cada um, gerando significados diversos ou, ao menos, acentuações e impostações diversas. Mesmo que todos apelem para a mesma formulação cristã, doutrinal ou ética, a diversidade permanece, o que revela a insuficiência da expressão ou do enunciado para salvaguardar a unidade da fé. Dizer insuficiência não implica deixar de reconhecer sua importância e até sua necessidade.

João Paulo II percebeu o problema no prefácio ao Catecismo da Igreja Católica, ao recomendar que fosse adaptado posteriormente a cada região pelas autoridades eclesiásticas (o que, infelizmente, não aconteceu) e não fosse simplesmente traduzido e impresso (o que, infelizmente, aconteceu). Esse catecismo constitui uma tentativa de trazer à unidade a diversidade reinante em nossos dias. Embora tenha sido e continue sendo útil para muitos, de fato, não resolveu o problema de fundo que nos ocupa.

Na mesma linha estão as formulações breves da fé, que procuravam ressaltar o mais central e específico do cristianismo, constituindo assim base sólida na qual todos estariam de acordo, embora a vivessem e expressassem diversamente em seus próprios contextos socioculturais. Não questionamos a intenção de seus defensores nem a necessidade e urgência dessa base comum, apenas observamos que essas sínteses da fé cristã não podem prescindir de uma teologia e de uma linguagem determinada, que serão inevitavelmente particulares. Confirma-o a polêmica que desencadearam no mundo teológico.

Também não vale a pena apelar para o texto neotestamentário ou à Tradição da Igreja, pois as circunstâncias atuais oferecem outro quadro interpretativo no interior do qual a Palavra de Deus ou os tesouros da Tradição serão recebidos, interpretados e traduzidos em vida. Só assim essa Palavra poderá ser significativa, pertinente e eficaz; será Palavra de salvação para os que a ouvem e praticam. Podemos afirmar o mesmo do que nos é legado pela Tradição. E como avaliar, então, essas necessárias leituras atualizadoras da mensagem?

Se quisermos obter uma resposta, devemos ir mais longe. Nossa fé é em si teologal, pois se dirige a Deus, mas sua modalidade é essencialmente eclesial. De fato, confessamos a fé da Igreja, sujeito primeiro da fé. Tudo o que temos, dela recebemos. Nela se encontra a plenitude da fé, que nenhum de nós pode ter em tal alcance. E, uma vez que cremos limitadamente, sempre podemos crescer na fé. O que nos garante a totalidade da fé é o fato de que acolhemos, como nossa, a fé de toda a comunidade eclesial. Não se trata, como veremos já, de somar e contabilizar a fé de cada um numa perspectiva quantitativa. Trata-se de acolher o que acolhe essa Igreja, esse povo de Deus ao qual pertencemos.

E o que vem a ser essa Igreja? A comunidade dos que acolheram o próprio Deus, que nos comunica a si próprio. Pela ação do Espírito, confessam Jesus Cristo como Filho de Deus Salvador enviado pelo Pai. Acolhem, assim, o mistério infinito que nos envolve como Amor, invocando-o como fez Jesus. Acolhem a pessoa de Jesus como o sentido último de suas vidas, como o caminho para a realização plena da existência humana. Acolhem o Espírito Santo, deixando-se por ele guiar, obedecendo às suas inspirações, experimentando sua força. Pois, no fundo, é o Espírito que possibilita à Igreja ser Igreja, tocando os corações quando ouvem a história de Jesus e se voltam para Deus. Sem ele não haveria fé em Cristo, nem comunidade dos que creem, nem Igreja.

Essa verdade implica que todos são atingidos interiormente pelo Espírito, fazendo dele certa experiência, sendo por ele ensinados e tendo um sentido da fé — mesmo que não consigam tematizá-la num discurso, como o faria um letrado. Mas a percepção dela, como que instintiva, não se lhes pode negar, pois a ação do Espírito não se situa para além da consciência. Desse modo tanto o Novo Testamento quanto a Tradição, cada qual a seu modo, representam sedimentações dessa ação salvífica de Deus, acolhida por homens e mulheres, no início do cristianismo e ao longo de sua história. Sua linguagem é inevitavelmente contextualizada, decorrendo disso a necessidade de a atualizarmos continuamente — mas, como resulta da ação do Espírito, indica uma realidade que transcende a própria história.

Aqui está o coração da Igreja, o seu centro místico que dá sentido a toda a sua configuração externa que, muitas vezes, infelizmente, nos ocupa e preocupa demasiadamente. A promessa de Cristo de estar conosco até o fim dos tempos é levada a cabo por seu Espírito, sempre presente e atuante no povo de Deus. A garantia última da unidade é, portanto, o próprio Deus pela ação do seu Espírito. Por ser Espírito do Filho, ele nos leva à Palavra de Deus encarnada como instância última de nossa fé. Obedecer ao dinamismo do Espírito, que nos abre sempre mais as riquezas de Cristo, constitui um imperativo de todo e qualquer cristão, qualquer que seja o grau e a posição que ocupe na comunidade eclesial.

Esse Espírito, responsável último pela unidade e pela identidade da Igreja, fala a todos os seus membros. A serviço desse Espírito, que santifica e ilumina, salva e estimula os fiéis, estão todos os demais componentes da Igreja que a determinam como específica comunidade humana. Os diferentes ministérios, as instâncias magisteriais, as entidades de ensino e de governo, a administração dos sacramentos, a regulamentação jurídica, as atividades assistenciais, as várias espiritualidades e seus respectivos adeptos, enfim, tudo o que constitui a Igreja em sua realidade visível recebe vida e sentido, sintoniza com Deus e realiza concretamente sua vontade à medida que capta a ação do Espírito e obedece a ele.

Mesmo os órgãos mais responsáveis pela manutenção da unidade da fé no interior da comunidade, como o magistério eclesiástico, não estão isentos de ouvir o Espírito, de discernir o que deve ser ou não acolhido, o que realmente expressa ou não a verdade salvífica. Pois existe sempre a tentação de descansar em formulações do passado, de se contentar com estruturas mentais obsoletas, de se satisfazer com expressões doutrinais não mais acessíveis. A fidelidade à verdade acontece só literalmente, já que cada um interpreta (mal) a expressão que não entende bem. Temos de reconhecer o sentido e a importância do magistério eclesiástico, presente e atuante desde o início do cristianismo, mas nos perguntamos se não deveria ser exercido diversamente, mais próximo de como foi exercido nos primeiros séculos. Essa indagação se reforça pela impossibilidade, anteriormente descrita, de dispormos hoje de um discurso universal acessível a todos.

 

3. O necessário diálogo

A eclesiologia de comunhão presente no Concílio Vaticano II, que retomou uma compreensão da Igreja vigente no primeiro milênio, fornece a base teológica que urge uma nova maneira de se relacionar no interior da Igreja. Poderíamos caracterizá-la numa palavra: diálogo. Este implica que ambas as partes dialogantes saibam escutar uma a outra, aprender uma da outra, aceitando-se em sua diferença e buscando comunitariamente a verdade. O diálogo pressupõe uma consciência comum em seus interlocutores, a saber: nenhum deles tem a posse plena da verdade.

É fundamental em nossos dias, sem cair num relativismo que evoca o niilismo, que todos reconheçam ter acesso à verdade sempre por meio de uma linguagem, de um contexto e de uma perspectiva. Desse modo não se nega que conheçam a realidade, mas, que a conheçam plenamente — de modo que excluam qualquer palavra posterior sobre ela ou qualquer leitura diferente da sua. A realidade não se entrega passivamente, mas sempre é captada no interior do horizonte de quem a conhece, nos limites de seu quadro interpretativo, em seu contexto linguístico e nas coordenadas de sua problemática. Sem esse pressuposto dificilmente haverá autêntico diálogo.

Outra condição para o diálogo verdadeiro na Igreja vem a ser a busca sincera da verdade de Cristo e do Reino de Deus. O diálogo aparece aqui como um serviço, uma colaboração do indivíduo ou de um grupo à missão da Igreja de proclamar e realizar a salvação trazida por Jesus Cristo. Para isso é fundamental que os interlocutores sejam realmente pessoas livres, que buscam somente cumprir a vontade de Deus para determi­nada situação ou procuram apenas captar e expressar a ação do Espírito em seus corações. Qualquer motivação espúria — autoafirmação, consciência de superioridade, defesa da própria opinião, destruição do outro que me ameaça por ser diferente, aumento de prestígio e de poder, só para citar algumas — destrói o diálogo.

O diálogo no interior da Igreja se impõe hoje mais do que nunca, dado o pluralismo reinante na atual sociedade. A multiplicidade de linguagens, de situações existenciais, de perspectivas de leitura da realidade, juntamente com uma complexidade inédita resultante da fragmentação do saber e do agir, sem que seja possível adequado controle social de tudo isso, inviabiliza a proclamação da boa nova como palavra dotada de universalidade, à semelhança do que ocorria no passado. Para isso, faz-se mister novo aprendizado por parte de todos: membros da hierarquia e fiéis. Pois todos estão acostumados à oferta da solução pronta, definitiva, sejam autoridades ou fiéis.

Aos que têm o carisma do governo e do pastoreio compete saber escutar o povo de Deus, sem abdicar de sua autoridade como referência capital para a comunidade. O Concílio Vaticano II procurou criar estruturas de participação e de diálogo na Igreja, que devem ser valorizadas e promovidas. Mas os pastores devem ser formados para estimá-las, fomentá-las e empregá-las, se não quisermos que fiquem apenas no papel. A cultura do diálogo não pode estar ausente nos seminários. Naturalmente, aceitar o atual imperativo do diálogo implica séria formação humana, espiritual e teológica, que afugente os medos, as falsas seguranças, assim como o fundamentalismo e o imobilismo.

Além disso, implica uma mudança radical nos fiéis, que devem se comportar como adultos não só na vida familiar e profissional, mas também como membros da comunidade eclesial. Vale aqui o que foi acima afirmado da formação humana, espiritual e teológica. Não deixa de ser um sinal da ação do Espírito em nosso país a demanda sempre crescente dos fiéis por uma formação espiritual e teológica mais profunda e consistente, sem negar o papel desempenhado aqui pelo atual pluralismo religioso. Porém, mais importante parece-nos a mudança da mentalidade entre os leigos. Eles devem ter consciência de que são membros plenos da Igreja, também responsáveis pela proclamação da Palavra de Deus, mediadores da experiência salvífica feita com Jesus Cristo.

Há ambientes, setores e pequenos mundos da atual sociedade pluralista onde jamais pisou um sacerdote. E, se lá chegasse, teria grande dificuldade para se fazer entender. Os fiéis que vivem em tais meios representam a Igreja e fazem-na presente aí. Só eles dispõem da linguagem adequada, conhecem bem a problemática local e estão aptos a anunciar o Reino de Deus de modo pertinente e significativo. Se o fizerem, estarão criando uma nova linguagem e sugerindo as práticas cristãs convenientes. Porém, dificilmente conseguirão tais objetivos se não estiverem inseridos em pequenos grupos nos quais suas preocupações, angústias, aporias, soluções, vivências e experiências possam ser expressas e compartilhadas. Entretanto, como tais linguagens e práticas não têm a pretensão de ser universais, deverão ser confrontadas com outras linguagens e práticas presentes na comunidade eclesial, cabendo a última palavra à autoridade competente, consciente da enorme riqueza que tais grupos podem aportar à Igreja.

Se a comunhão última que constitui a todos como membros da Igreja consiste no acolhimento da própria Trindade, nossa salvação e felicidade definitiva, e se a finalidade última da Igreja é levar pela história afora essa salvação, manifestada e realizada na vida de Jesus de Nazaré, então toda a Igreja é igualmente chamada à santidade e à missão. E essa santidade e missão se apresentam hoje numa sociedade pluricultural com configurações diversas, que devem ser respeitadas e fomentadas. Só assim, no respeito à diversidade, poderemos chegar à universalidade — ou à catolicidade, como se diz em jargão teológico. Unidade não é uniformidade, razão pela qual se pode conciliar unidade e diversidade como unidade na diversidade.

Puebla já havia cunhado a expressão “comunhão e participação”. De fato, esses termos se implicam mutuamente. A participação garante a universalidade da comunhão e esta assegura a unidade da participação. A grande tarefa que resta para a Igreja hoje é concretizar esse objetivo da Igreja latino-americana nos vários níveis da vida eclesial: nos grupos leigos de todo gênero, na vida religiosa, nos movimentos, nas múltiplas iniciativas e atividades paroquiais, nas estruturas de participação da paróquia, da diocese, do regional, do nacional e do continental. É toda uma autêntica conversão que o Espírito pede de sua Igreja, no sentido de nova consciência (metanoia) e de nova vida (conversão).

Julgamos que aqui esteja possível saída para a enorme dificuldade de uma pastoral urbana. A diversidade plural das situações e das linguagens pede também um anúncio plural e diversificado. Dada a inevitável particularidade de cada proclamador da Palavra, torna-se, hoje, uma condição sine qua non — para que a Palavra chegue realmente a todos na Igreja e na sociedade — que todos possam participar de seu anúncio e expressar a vivência cristã em sua própria linguagem, enriquecendo assim a grande comunidade e tornando-a mais apta a ser o que deve ser, a saber: sacramento de salvação para o mundo.

O diálogo não se limita apenas ao interior da Igreja, pois na senda aberta pelo Concílio Vaticano II essa mesma atitude dialogal deve se dar diante da sociedade civil. A Igreja não se encontra fora do mundo, mas está nele inserida. Este mundo não significa apenas o reino das trevas e do pecado, mas também a sociedade humana que busca construir a história, fomentar a paz e a concórdia, diminuir os sofrimentos, lutar pela justiça, buscar a verdade. Aí estão os diferentes setores do saber, as diferentes atividades profissionais, as diferentes culturas e subculturas aí estão as novas problemáticas, as novas linguagens, circulando pela complexa e pluriforme sociedade moderna. E é exatamente nessa sociedade que nossos contemporâneos vivem, membros ou não da Igreja, respirando esse mesmo ar, imbuindo-se dessa mesma cultura, assimilando seu linguajar, valores, angústias e problemas.

Escutar a sociedade, aprender sua linguagem, sofrer suas angústias, conhecer suas soluções, participar de suas lutas e, por ser parte dela, denunciar seus erros, tudo isso pede da Igreja também uma atitude de diálogo. Não só temos algo a dizer, mas também a aprender. Apesar do egocentrismo que o habita interiormente, o ser humano está sob contínuo influxo de Deus, que o leva a buscar o Bem, a Verdade, a Beleza. Essa afirmação é importante numa sociedade secularizada como a nossa, onde nem tudo o que é autenticamente cristão aparece com essa etiqueta.

Dialogar com a sociedade significa colaborar com ela na construção da história, oferecer-lhe a leitura cristã dos acontecimentos, os critérios evangélicos para os desafios éticos, pôr sua sabedoria milenar a serviço do bem comum, aceitar ser uma voz entre outras, sem laivos de superioridade e de intolerância. Trata-se, sem dúvida, de tarefa árdua para mentalidades habituadas a um tempo de cristandade, mas tarefa urgente que só aumentará a credibilidade e a irradiação da Igreja nesta atual sociedade. Só assim ela poderá fazer frente à diversidade e ao pluralismo que caracterizam o mundo hoje, conseguirá levar a todos a salvação de Jesus Cristo e fará chegar sua mensagem universal aos mais diversos fragmentos que constituem a sociedade onde vivemos.

Pe. Mário de França Miranda