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Publicado em Maio-Junho de 2008 (pp. 22-26)

Igreja e internet: para um diálogo entre cultura e evangelização

Por Pe. Silvio Sassi, ssp

O Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais publicou em fevereiro de 2002 os documentos Igreja e a internet e Ética na internet. Por que dois documentos sobre o mesmo tema? Apresentando cada um dos textos, veremos o ponto de vista peculiar que os caracteriza. Quando um dos documentos remete ao outro, recorre-se à formulação “documento adjunto a este”. São, pois, complementares, porém autônomos, sem uma continuidade interna.

 

O específico de Igreja e a internet é a consideração das “implicações que a internet tem para a religião, especialmente a Igreja católica” (n. 2). A introdução enfoca essa reflexão (nn. 1-4): o interesse da Igreja pela internet é um aspecto particular de sua preocupação por todos os meios de comunicação, considerados em forma positiva e como verdadeiros dons de Deus; o conjunto dos meios de comunicação são fatores culturais que concorrem para o progresso do reino de Deus na história; a internet introduz mudanças que influem “não só no modo como as pessoas se comunicam, mas também no modo como compreendem sua vida” (n. 2).

A Igreja, ao considerar os meios de comunicação, tem duplo objetivo. O primeiro: “fomentar o correto desenvolvimento e uso com vistas ao progresso humano” (n. 3), dialogando com os responsáveis dos meios para colaborar na elaboração de uma política adequada e para compreender bem a natureza mesma dos meios. O segundo: a Igreja se preocupa também com a “comunicação na e pela própria Igreja” (n. 3), já que a comunicação eclesial não se reduz a questões técnicas, mas, fundando-se na comunicação da Trindade, chega a ser uma qualidade essencial tanto na evangelização como na prática eclesial interna (cf. nn. 3-4).

Os católicos estão convidados a não “ter medo de abrir as portas dos meios de comunicação a Cristo” (n. 4). No capítulo 2, “Oportunidades e desafios” (nn. 5-9), afronta-se o fenômeno dos meios e da internet em relação à própria missão da Igreja. Dado que anunciar Jesus Cristo “às pessoas formadas por uma cultura dos meios de comunicação requer considerar atentamente as características especiais dos próprios meios, a Igreja precisa agora compreender a internet. Isso é preciso para comunicar-se eficazmente com as pessoas, de maneira especial com os jovens, que estão imersos na experiência dessa nova tecnologia” (n. 5).

Os meios de comunicação oferecem importantes benefícios e vantagens à Igreja; particularmente “a internet é importante para muitas atividades e programas da Igreja: a evangelização, que inclui tanto a reevangelização como a nova evangelização e o tradicional labor missionário ad gentes, a catequese e outros tipos de educação; as notícias e informações; a apologética, o governo e a administração; algumas formas de assessoria pastoral e direção espiritual” (n. 5). A Santa Sé está já presente na internet e, aos grupos vinculados à Igreja que ainda não deram esse passo, anima-os a considerar a possibilidade de fazê-lo quanto antes (cf. n. 5).

A internet deve servir também para a comunicação interna da Igreja, e, sublinhando a diferença entre o atual modelo de comunicação em rede e o do passado, “em uma só direção, de cima para baixo” (n. 6), o texto recorda outros documentos eclesiais já publicados que tratam da necessidade de “um fluxo bidirecional de informação e de opinião na Igreja entre pastores e fiéis” (n. 6).

Para um uso correto da comunicação na Igreja, o texto recorda a necessidade da formação: “a educação e a formação relativas à internet podem integrar programas globais de educação para os meios de comunicação acessíveis aos membros da Igreja. Na medida do possível, o planejamento pastoral para os meios de comunicação deveria prover essa formação aos seminaristas, sacerdotes, religiosos e às pessoas leigas, como professores, pais e estudantes” (n. 7).

A comunicação na internet apresenta à Igreja alguns problemas especiais, que põem em evidência alguns aspectos negativos. Em geral, a cultura dos meios de comunicação e da internet está impregnada “de uma mentalidade tipicamente pós-moderna” (n. 8); particularmente, a internet possui alguns sites que atacam e difamam alguns grupos religiosos e étnicos, sites pornográficos e violentos, sites que abusam da religião cristã, aplicando-lhe inclusive interpretações excêntricas da fé e práticas devocionais extravagantes.

Ademais, “a realidade virtual do ciberespaço tem algumas implicações preocupantes tanto para a religião como para outras áreas da vida. A realidade virtual não substitui a presença real de Cristo na eucaristia, nem a realidade sacramental dos outros sacramentos, tampouco o culto compartilhado em uma comunidade de carne e osso. Não existem os sacramentos na internet” (n. 9). É necessário considerar “como levar as pessoas do ciberespaço a uma autêntica comunidade” (n. 9).

Nas recomendações e conclusões (nn. 10-12), o texto contém uma exortação às pessoas presentes em todos os setores da Igreja para usarem a internet, já que “não é aceitável ficar atrás timidamente por medo da tecnologia ou por qualquer outra razão” (n. 10). Depois se oferecem palavras de alento para motivar positivamente, com relação à internet, diversos grupos: os dirigentes da Igreja, os agentes de pastoral, os educadores e catequistas, os pais, as crianças e os jovens (cf. n. 11). O último convite se dirige “a todas as pessoas de boa vontade”, para que vivam o fenômeno da internet sob a guia de algumas virtudes: prudência, justiça, fortaleza e valentia, temperança (cf. n. 12).

 

O texto Ética na internet foi redigido com o desejo de “expor o ponto de vista católico sobre a internet, como um ponto de partida para a participação da Igreja no diálogo com outros setores da sociedade, especialmente outros grupos religiosos, com relação ao desenvolvimento e ao uso desse admirável instrumento tecnológico” (n. 2).

A introdução (nn. 1-6) apresenta a reflexão, chamando a atenção para uma análise em torno da comunicação, que supõe, “mais que uma simples revolução técnica, a completa transformação daquilo por meio do qual a humanidade capta o mundo a seu redor e que a percepção verifica e expressa” (n. 1). O aparecimento e desenvolvimento da internet confirmam que ela “tem enormes consequências para as pessoas, para as nações e para o mundo, as quais aumentam diariamente” (n. 2). O interrogante ético se formula com base nessa explosão da comunicação e de seus influxos: “Como consequência de tudo isso, as pessoas são melhores e mais felizes?” (n. 1).

A Igreja contribui na resposta ao interrogante ético sobre a comunicação na internet com “seu compromisso em favor da dignidade da pessoa humana e sua larga tradição de sabedoria moral” (n. 2). “Como acontece com os outros meios de comunicação, a pessoa e a comunidade de pessoas são o centro de valorização ética da internet… O princípio ético fundamental é o seguinte: a pessoa humana e a comunidade humana são o fim e a medida dos meios de comunicação social; a comunicação deveria realizar-se de pessoa a pessoa, com vistas ao desenvolvimento integral delas” (n. 3).

O segundo princípio fundamental para uma ética da comunicação é o bem comum integral perseguido com solidariedade.

O fenômeno da comunicação, sobretudo com a consolidação da internet, vê-se envolvido em duas consequências importantes: a globalização, que põe em evidência uma disparidade entre as nações com relação ao desenvolvimento comunicativo (cf. n. 4), e a descentralização, que permitiu a passagem do poder sobre a comunicação dos Estados nacionais para companhias privadas (cf. n. 5).

O capítulo 2, “Sobre a internet” (nn. 7-9), apresenta a reflexão ética em conexão com alguns fenômenos técnicos e com os fundamentos ideológicos da internet. “A internet tem um conjunto de características impressionantes. É instantânea, imediata, mundial, descentralizada, interativa, capaz de estender ilimitadamente seus conteúdos e seu alcance, flexível e adaptável em grau notável. É igualitária, no sentido de que qualquer um, com o equipamento necessário e modestos conhecimentos técnicos, pode ser uma presença ativa no ciberespaço, anunciar sua mensagem ao mundo e buscar audiência. Permite às pessoas permanecer no anonimato, desempenhar um papel, fantasiar e também entrar em contato com outros e compartilhar. Segundo os gostos do usuário, a internet se presta a uma participação ativa e a uma absorção passiva em um mundo narcisista e isolado, com efeitos quase narcóticos. Pode-se empregar a internet para romper o isolamento de pessoas e grupos ou, pelo contrário, para aprofundá-lo” (n. 7).

As possibilidades tecnológicas se fundam em uma ideologia na qual confluem a descentralização da rede, o livre intercâmbio, a independência de toda regulamentação, a exaltação plena do indivíduo, a liberdade de expressão e as oportunidades de desenvolvimento de todo tipo de comércio.

As contribuições positivas da internet para as pessoas e a sociedade são múltiplas quando se baseiam em princípios éticos que conduzem a “construir a civilização do amor” (n. 9); porém, ao mesmo tempo, essa comunicação pode favorecer a alienação, o egocentrismo e se pôr a serviço de um comportamento agressivo, “do ciberterrorismo” (n. 9).

As possibilidades de comunicação com a internet põem em evidência também alguns motivos de preocupação (nn. 10-14) para a reflexão eclesial.

Uma injustiça que é preciso superar é a desigualdade digital, a discriminação entre países ricos e pobres também com relação à comunicação em rede: “a Igreja deseja uma globalização que esteja a serviço de toda a pessoa e de todas as pessoas” (n. 10).

Os conteúdos que a internet põe à disposição constituem um desafio para a Igreja: os meios de comunicação social e a internet “transmitem e ajudam a inculcar um conjunto de valores culturais — modos de pensar sobre as relações sociais, a família, a religião e a condição humana — cuja novidade e fascinação podem questionar e destruir as culturas tradicionais” (n. 11).

A liberdade de expressão na internet corresponde às exigências do direito humano de buscar a verdade e da livre expressão da opinião pública; são inadmissíveis “as tentativas das autoridades públicas de bloquear o acesso à informação — na internet ou em outros meios de comunicação social —, considerando-o ameaça ou obstáculo, para manipular o público mediante a propaganda e a desinformação ou para impedir a legítima liberdade de expressão e de opinião” (n. 12).

Particular atenção merece a informação jornalística on-line, já que a internet é “um instrumento muito eficaz para transmitir rapidamente notícias e informações às pessoas. Mas a competitividade econômica e a índole do jornalismo na internet de funcionar 24 horas por dia também contribuíram para o sensacionalismo e a circulação de rumores, para uma mescla de notícias, publicidade e espetáculo e para a aparente discriminação das reportagens e comentários sérios” (n. 13). Na informação on-line, o jornalismo se inspira na ideologia da liberdade radical: tudo se pode dizer (cf. n. 14).

Nas recomendações e conclusões (nn. 15-18) se propõe de novo a virtude da solidariedade como medida do serviço que a internet presta ao bem comum, recordando que “muitas pessoas e grupos partilham a responsabilidade nessa matéria”: todos os usuários de internet, os pais, as escolas, os centros e programas educativos (cf. n. 15).

Também a comunicação pela internet deve submeter-se ao respeito de algumas leis; no entanto, “deveria evitar-se a censura prévia por parte dos governos” (n. 16), recorrendo à formulação de novos regulamentos para problemas específicos (por exemplo, a difusão de vírus). “A regulamentação da internet é desejável e, em princípio, a autorregulação é melhor” (n. 16), completada pelos códigos éticos da indústria e, em casos extraordinários, até pela censura pública.

Tendo presente o caráter transnacional da internet, o documento sublinha a necessidade da “cooperação internacional com vistas à formação de critérios e ao estabelecimento de mecanismos para promover e proteger o bem comum internacional” (n. 17).

A última reflexão se dedica a chamar a atenção “sobre o uso da internet por parte da Igreja e sobre o papel da internet na vida da Igreja” (n. 18), em cujo centro está sempre a pessoa do Cristo e a certeza da fé de que também a internet atua dentro dos limites do reino de Deus.

Depois de haver percorrido o desenvolvimento temático dos documentos e haver sublinhado os argumentos principais com a citação de alguns parágrafos significativos, como avaliar a exposição metodológica dos argumentos e os conteúdos, tanto em perspectiva eclesial quanto em referência ao estudo e à investigação sobre o fenômeno da internet?

O mérito principal desses textos é a visão positiva que inspira a reflexão da Igreja nos três âmbitos: colaboração, especialmente na consideração ética, com todos os que se ocupam com a internet, uso da comunicação em rede na evangelização e recurso à internet para a comunicação dentro da Igreja. Os que são sempre solícitos em reclamar com insistência a obediência ao magistério estão convidados a descobrir que existe um magistério também para a comunicação midiática e em rede: o que se exige em outros campos não se deveria ignorar no campo da comunicação. É simplesmente impossível justificar a falta de conhecimento e de compromisso cristão na comunicação, tanto para a evangelização como para a vida eclesial interna, usando como escudo inexistentes proibições do magistério.

Vale a pena, além disso, pôr em evidência a enunciação metodológica de fundo de ambos os documentos: primeiro é necessário estudar a fundo o fenômeno da comunicação midiática e pela internet para depois elaborar propostas significativas tanto do ponto de vista de estudo e investigação (sobretudo no campo ético) como em referência à vida e à missão da Igreja. Às vezes, sobretudo em ambientes eclesiásticos, trata-se a comunicação como uma espécie de deformação profissional: o constante ponto de observação continua sendo uma visão preocupada com o aspecto moral, que, olhando bem, assume logo as características de um moralismo apressado, mas onisciente.

Insiste-se, em vários pontos de ambos os documentos, no caráter dos conteúdos expressos: tendo em conta a complexidade do fenômeno comunicativo em geral e o rápido e permanente desenvolvimento da internet, não se quer dizer uma palavra definitiva que corra o risco de ser superada em pouco tempo, mas mobilizar a Igreja em um esforço de reflexão e de prática, partindo de um reconhecimento geral dos problemas assim como se apresentam neste momento. Poderíamos dizer que se trata de textos “abertos”, que exigem a generosidade de todos os que queiram aprofundar e melhorar seu estudo.

Precisamente com vistas a essa colaboração construtiva, podemos pôr também em evidência, em ambos os textos, a carência de consequências operativas e uma ausência de fundo. No texto Igreja e internet, falando da necessidade de mudar o modelo de comunicação (não mais um fluxo “em uma só direção, de cima para baixo”, n. 6), o documento recorda com razão: “É nova a tecnologia, mas não a ideia” e cita oportunamente outros documentos eclesiais em que se afirma a importância para a vida da Igreja de “um fluxo de comunicação bidirecional”. Precisamente dentro da comunicação eclesial é necessário conjugar, de forma harmônica, as possibilidades que nos oferecem as tecnologias, a veracidade das ideias expressas nos textos e a práxis consequente. A veracidade das ideias deve submeter-se à prova dos fatos, do contrário não se chega a ter credibilidade nem mesmo no âmbito externo, quando se fala de uma legítima “opinião pública” e do direito à “liberdade de expressão”.

A eleição temática e o desenvolvimento argumentativo de ambos os documentos se apoiam no esquema consolidado de “aspectos negativos e positivos”; é hora de deixar as “margens” para ir “mar adentro” também na reflexão sobre a comunicação, a fim de desenvolver um diálogo de fundo entre nova evangelização e cultura da comunicação, adotando a inculturação. Necessita-se, talvez, de um salto epistemológico para um novo modo de pensar.

 

Pe. Silvio Sassi, ssp