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Publicado em Março-Abril de 1989 (pp. 23-29)

Meio e mensagem rádio e evangelho

Por Pe. José Dias Goulart

É o mais simples e prático meio de comunicação social. Acessível a todas as classes sociais. Vai até onde os outros — livro, jornal, revista, cinema, tevê — não conseguem chegar. Tal é o rádio. Ele não impede, no mesmo horário, outras atividades. Ao contrário, pode até animá-las. Por isso, o rádio se parece muito com a mensagem do Evangelho, que não substitui ideias diferentes; convive com elas, como “fermento na massa” (cf. Mt 13,33), transformando, sem destruir. O rádio dá mais gosto a qualquer ocupação. O Evangelho desperta cada pessoa e cada povo a descobrir, em si por si, os tesouros que já possui sem perceber. O rádio é meio. O Evangelho é mensagem.

 

1. O óbvio que é preciso dizer

O mundo da comunicação social parece, à primeira vista, uma “selva escura”, onde a gente se perde. Não sabe por onde entrou, perde-se no cipoal, enfrenta feras e não consegue encontrar a saída.[1]

Pois bem. Estranhamente, convém começar dizendo o óbvio a respeito do rádio. Algo que todo mundo já está cansado de saber, mas que vale a pena repetir:

— Que o rádio canta, noticia, informa, distrai e diverte.

— Que o rádio é o meio de comunicação social mais barato.

— Que o rádio vai aonde não chegam o livro, o jornal, a revista e a tevê.

— Que o rádio pode ser ouvido o dia inteiro, ao contrário dos outros meios.

— Enfim, que o rádio é apenas instrumento, e por isso, indiferente por si: nem bom, nem mau. Depende de quem o utiliza, transmitindo ou recebendo. O rádio pode libertar o pensamento, como pode oprimir quem pensa.

 

 

2. Uma força positiva

E onde está o atrativo maior do rádio, que pode fazer dele o campeão dos meios de comunicação social?

Em vários pontos. Na programação agradável. No som limpo e constante. Na arte e capricho das atrações, que prendem os ouvintes, sem contudo impedi-los de atender a outras ocupações.

Para não deixar que o botão mude a onda, é bom lembrar o provérbio latino: “A variedade alegra o coração da gente”. O ouvinte se liga onde se sente bem!

Não se há de esquecer que o rádio, acima de tudo, é música e informação. A música fala ao coração e desperta a inteligência. A informação faz viver o mundo real..

No rádio, acontece outro particular digno de nota: ele é um chamarisco para o jornal e a revista. Os breves noticiosos quase forçam o ouvinte a procurar melhores esclarecimentos na leitura. O que, porém, não autoriza o radialista a uma simples apresentação de manchetes. Porque, se o rádio, como a tevê, “manda” ler e aprofundar os fatos, convém lembrar que a grande maioria não tem condições de procurar revista ou jornal, por não saber ler ou não ter com que comprar. Por isso, que a emissora não deixa ninguém na doce ilusão de estar bem informado.

 

3. Rádio, instrumento de democracia

O rádio que é rádio de verdade não impõe ideias, apenas propõe. Porque democracia na comunicação social é isto: prender a atenção, deixando correr o pensamento.

E do pensamento, que por si é livre, começa a realização do maior de todos os sonhos humanos: viver em comunidade com os semelhantes. É na comunidade que todos podem sentir-se construtores de uma convivência participante: é o que se chama democracia. Aí não existem oprimidos, porque não há opressores.

Na autêntica democracia — “governo do povo pelo povo” — todos querem participar de tudo: conhecimentos, debates, decisões e realizações. E na criação desse ideal humano, o rádio é, sem dúvida, entre os demais meios de comunicação social, aquele que mais longe pode chegar.

No rádio, notícias, informações, comentários, tudo ajuda os ouvintes a refletir. Hoje, preguiçosamente, o telespectador não se esforça para pensar e criar na mente a sua novela, porque a tevê já mostra tudo feito e colorido nos mínimos detalhes. Talvez por isso, desapareceram as novelas de rádio, onde os ouvintes eram os criadores de contornos, figuras e cores. Bem mais democraticamente, o rádio propõe e faz pensar. Que os ouvintes discutam as ideias e possam criar novas.

 

4. A grande dominação

O sonho democrático é difícil de alcançar. Quase utópico. Tão atropelado por interesses individualistas, egoístas.

Costuma-se dizer, ainda hoje, que a imprensa é o quarto poder, depois do legislativo, executivo e judiciário. Ilusão. A imprensa é o primeiro, o poder insuperável. Não a imprensa propriamente, que não passa de instrumento, mas aquela força anônima que se esconde por detrás dela. Chama-se poder econômico, o poder do dinheiro, que através de redações e direções tenta dominar, impondo ideias e comportamentos.

Assim, os meios de comunicação social vão sendo utilizados como veículos dessa opressão. Meios criados pelo homem para comunicar liberdade, fazem dele um escravo de sua própria criatura. O que nasceu para sustentar diálogo, para troca de ideias, torna-se meio que oprime até o pensamento.

De fato, por detrás de notícias, comentários, documentários, músicas, atrações diversificadas, há sempre alguém — ideologias e até religiões, empresas e governos — querendo dominar e forjar opiniões. “Forçando a barra” e tentando “fazer a cabeça” da gente. E isso, de mil maneiras. Por exemplo:

— Mascarando a verdade, mediante cortes e acréscimos.

— Mentindo, enganando, até quando apresenta um fato real, porém com meias-verdades, que induzem a engano.

— Caluniando, e assim afastando as pessoas, em lugar de aproximá-las para o diálogo.

— Forjando opiniões erradas e imagens falsas a respeito de pessoas, instituições, movimentos, grupos e comunidades.

— Alienando os ouvintes, para que não se preocupem com a situação, nem procurem de alguma forma transformá-la.

 

Esta, infelizmente, é a realidade antiga e sempre atual: o erro, o engano, a desinformação e incomunicação, a mentira propositada ou involuntária fazem dos meios de comunicação verdadeiras cadeias e algemas, que não deixam pensar com liberdade.

São as tais “forças ocultas” manobrando os meios, para criar, junto ao público, imagens completamente distorcidas a respeito de pessoas ou sobre acontecimentos. Criando mitos e ídolos, que o público acaba venerando fanaticamente, sem saber exatamente por quê.

Cada emissora de rádio procura “vender o seu peixe”. Não se trata apenas de uma ideia. É quase sempre algum produto que o patrocinador do programa radiofônico procura fazer o povo consumir cada vez mais. Desse consumismo, nasce o lucro para o patrocinador. E o lucro faz atiçar maior publicidade. E com a publicidade vem novo consumo.

Está formado o círculo vicioso. E a cadeia vai prendendo sempre mais o público. Vai criando uma opinião, nem sempre correta, a respeito do produto a ser consumido, que é frequentemente mais do que supérfluo. É o poder econômico, através dos meios de comunicação, criando necessidades.

Nessa luta para vender, formam-se verdadeiros lobbies, ou grupos de pressão. Tentam-se monopólios, exclusividades que destroem a liberdade de opinião e ação. Esses monopolizadores de produtos e ideias fazem verdadeiras lavagens cerebrais, forçando os ouvintes a não terem opinião. A comprarem aquilo que a empresa impõe através do rádio e outros meios.

Esses veículos, que deveriam sempre ajudar o povo a pensar livremente, acabam sendo destruidores da consciência e da convicção. Consequentemente, a opinião pública se vê deformada, adulterada pelo consumismo de produtos inúteis e ideias alienantes.

 

5. Opinião pública

Dessa constatação, é fácil concluir: que o rádio fale, mas deixe o povo pensar. Que as pessoas possam ter o seu modo de julgar. Que elas possam ter opinião própria a respeito do mundo é seus acontecimentos.

É o que pode uma boa comunicação radiofônica: despertar essa opinião, primeiro pessoal, depois pública. Ou fazer que ela se torne mais esclarecida, sempre mais próxima da verdade real.

Mas, afinal, o que é opinião pública?

É o pensamento, o julgamento que a maioria da população tem e faz sobre determinado assunto ou pessoa.

E como se forma essa opinião pública?

De muitas e muito variadas formas: Pela observação direta. Através de notícias e comentários. Com base nas informações de testemunhas oculares. Na reflexão e no debate. Na comunicação.

Lembramos aqui a pergunta do Mestre de Nazaré aos seus discípulos mais próximos: O que o povo diz a meu respeito? Qual é a opinião pública sobre mim?

E os discípulos falaram de vários pareceres, nenhum plenamente de acordo com a realidade. Então, o Mestre tornou a perguntar: E vocês, o que pensam? Um deles, Pedro, afirmou o que pensava. E o Mestre confirmou, acrescentando algo mais (cf. Mt 16,13-17; Mc 8,27-29; Lc 9,18-20).

Isto é comunicação: do diálogo nasce a clareza e se aperfeiçoa uma opinião.

Não há dúvida que o público tem direito de melhorar e até mudar completamente o seu modo de pensar. Seu opinar pode ter sido influenciado por mentiras e calúnias, enganos ou conclusões precipitadas. Então, o povo precisa refletir, discutir, colocar lado a lado opiniões diferentes, até contrárias, para livremente tirar novas conclusões. A comparação entre ideias pode chocar, mas ilumina e desperta para outras.

Dizia o filósofo Tomás de Aquino: “Eu tenho medo dos leitores de um livro só”. Claro! Porque, na realidade, não existe escritor, jornalista ou equipe totalmente imparcial, independente. Suas teorias e afirmações são sempre limitadas. E nos seus meios de comunicação eles procuram espalhar, nem sempre democraticamente, suas próprias opiniões. Por isso, cada meio tem a sua “linha editorial”, a sua orientação, que pode tornar-se opinião do seu público preferido.

 

6. Só a verdade liberta

Diante do perigo constante de poderosas forças oprimirem o pensamento, criando falsas opiniões públicas, os meios de comunicação social precisam ser utilizados de tal forma que possam democratizar o pensamento. Mas como?

Deixando os fatos falarem por si. Permitindo o livre curso da verdade, pois “a verdade liberta” (cf. Jo 8,32). Não há dúvida, a verdade é libertadora. Ela conscientiza, esclarece, incentiva para novas descobertas. A verdade procurada acaba com a mentira e o engano, que oprimem e escravizam quem propaga e, quem recebe a mensagem.

Democratizar, pois, o rádio consiste em deixar que os ouvintes tirem suas conclusões, de cabeça fria e livre.

Por isso, o rádio, veículo de comunicação que é, há de falar só a verdade.

Mas, “o que é a verdade?” (cf. Jo 18,38). Essa pergunta de Pilatos, pouco interessado em obter resposta, poderia ter uma bem simples: A verdade é a realidade. A transparência dos fatos, que falam mesmo sem comentários. Ou, como Jesus pouco antes disse ao sumo sacerdote Caifás: “Se você quer saber quem sou, pergunte a quem me conhece!” (cf. Jo 18,19-21).

É na “selva escura” sem horizonte de tantas ideias tão diferentes, que o rádio há de apresentar a realidade, com sinceridade transparente, sem mentiras, censuras ou enganos mais ou menos velados.

E a verdade simples, a verdade “bendita”, sempre “dita bem”, liberta os ouvintes, cada vez mais, da mentira e do engano.

O pensamento é livre. Não deve ser dominado nem oprimido. Por isso é que o rádio precisa ser o meio que solta as asas do pensamento. O emissor transmitindo sua mensagem, sem subterfúgios. E o receptor ouvindo e refletindo. Os dois se comunicam num espontâneo vaivém, que vai corrigindo ideias e modos viver.

Porque o público vive ansioso por conhecer sempre por o que é certo, a fim de sentir-se cada dia mais livre. Enquanto que a outra ânsia, a do poder, tenta iludir para dominar. Daí o duelo entre verdade e mentira, entre liberdade e dominação. Colocado entre uma e outra, o meio de comunicação pode libertar ou escravizar. O meio que diz a verdade, deixa livres pensamento e ação. E aquele que propaga a mentira, torna-se arma de suicídio, que o faz morrer por si, tirando-lhe aos poucos o crédito e os ouvintes.

De novo a pergunta que aflige: Mas, o que é a verdade?

Talvez seja a procura constante de um ideal. Daí porque a livre troca de ideias não pode sofrer jamais o medo da censura. Venha de onde vier. De autoridades que temem perder o prestígio e o controle. De poderes econômicos que não querem perder o lucro. De puritanismos que se apavoram vendo o povo discutir verdades aparentemente indiscutíveis e jamais plenamente ortodoxas.

A censura ideológica, partidária e mesmo religiosa só faz envelhecer a inteligência na sua procura natural, persistente, da verdade sempre distante. Verdade que só se encontra passo a passo, no debate livre, sem medos e sem opressões ou imposições. É para repetir: o pensamento é livre, como Deus que o criou. E Deus, a Verdade plena, comunica-se através da inteligência humana, que o vai descobrindo aos poucos, mediante a comunicação com outras inteligências.

Surge aí um problema seriíssimo. Será que existe censura em regime democrático? E como existe! Veja o rádio, como todos os outros meios de comunicação social. Se ele divulga fatos reais, pouco favoráveis, as empresas e governos ameaçam cortar publicidades, e sem elas o rádio não se sustenta. Se ele põe em questão verdades consideradas inabaláveis, então os zelosos guardadores ameaçam com penas morais. Em regimes de ditadura, detalhes que ameaçam o poder reinante são censurados. E nos regimes que se dizem democráticos, existe a censura econômica: Os meios, para sobreviver, fazem autocensura, cortando até o que não é preciso cortar. O mesmo acontece diante da pretensa verdade total. Surgem desse medo as meias-verdades que oprimem até mais que a mentira declarada. Medo que não tinha Jesus ao dizer aos fariseus, pretensos zeladores do cofre da verdade: “Vocês se apoderam das chaves do saber. E nem vocês o possuem, e não deixam encontrá-lo aqueles que o procuram” (Mt 23,13).

 

7. Meio e mensagem

Contrastando abertamente com qualquer opressão ao pensamento humano, Jesus de Nazaré se apresenta como Evangelho ou Boa-Notícia. A notícia daquela verdade que Pilatos não se interessou por conhecer.

Jesus é o seu Evangelho. Ele é a Verdade sempre aberta para ser pesquisada continuamente. Ele é a sua mensagem.

Essa mensagem, “os meios de comunicação social podem espalhar indefinidamente, quase ao infinito, fazendo-a chegar a milhões de pessoas”[2].Ela precisa ser divulgada “acima dos telhados” (cf. Lc 12,3) e ser propagada “até os confins do mundo” (cf. Mt 28,19; Mc 16,16; Lc 24,47).

Essa mensagem é fortemente penetrante, “como espada de dois gumes” (cf. Rb 4,12) que atravessa mentes e corações. No entanto, não deixa de ser profundamente democrática. Ela não impõe nada. Ela tudo propõe, para ser livremente debatido. Ela se apresenta somente com a força da verdade, que liberta o pensamento diante de qualquer imposição. Ela desperta a reflexão. Ativa novas ideias. Faz tirar novas conclusões, que produzem comportamento novo.

O Evangelho de Jesus é a sua mensagem. E o rádio é o meio que a espalha “quase ao infinito” (cf. nota 2), sem fronteiras, além do horizonte. Meio e mensagem. Rádio e Evangelho. Por sua natureza, as duplas se confundem[3].

 

8. Rádios católicas: Anúncio inicial

Agora, uma pergunta bem localizada: E aqui no Brasil, a Igreja católica, para ser fiel à missão de anunciar o Evangelho, até que ponto reconhece e utiliza a força do rádio?

Ainda não suficientemente. Mas algo já se faz.

De fato, o Brasil tem cerca de 1.800 emissoras, para mil gostos e estilos: FM, AM, Tropical, Ondas Curtas. A maioria são emissoras neutras, sem cor religiosa e sem partido político. São comerciais.

Dessas 1.800, apenas 110 são católicas, por pertencerem a entidades de Igreja: dioceses, paróquias, ordens ou congregações religiosas e grupos leigos. Das católicas, algumas são declaradamente “confessionais”, ou seja, quase ou totalmente constituídas de programas catequéticos, de instrução e orientação estritamente religiosa. As demais seguem a tendência atual de não transformar a emissora católica em repetição ou ampliação do “púlpito”, com sermões e homilias. E por quê? Simplesmente pelo fato de que o rádio é um meio de comunicação de massa: dirige-se a um grande público heterogêneo, quase massa diversificada, com diferentes ideias e comportamentos.

Donde se conclui: A rádio católica não tem função de substituir a catequese, que é uma evangelização mais aprimorada. Esta, só na comunidade familiar, escolar e eclesial, é que se pode transmitir convenientemente.

Na amplidão de seus ouvintes de tantas cores ideológicas, partidárias ou religiosas, a rádio católica tem no máximo a força de comunicar uma pré-evangelização ou encaminhamento inicial para o Evangelho. E a força está na técnica e arte próprias que tornam atraente esse anúncio primeiro. Somente assim o ouvinte pode sentir-se movido a buscar, na comunidade, o aprofundamento catequético.

 

9. Programação e programas

Estamos falando de emissoras pertencentes a entidades ou grupos católicos. Mas, é preciso repetir que, para ser católica, a rádio não tem necessariamente que ser “confessional”, com programação inteira de instrução e orientação religiosa.

É claro que a programação, toda ela, há de ser humanizadora. Quer dizer: que esteja de acordo com a verdade e com os valores humanos. Afinal, o Evangelho é isto: mensagem de Deus na vida humana.

Músicas populares ou clássicas, noticiários, esporte, debates, comentários e outras muitas atrações fazem parte de uma boa rádio católica. Isso não exclui; antes, pode até exigir programas religiosos, no sentido comum da palavra. Afinal, esses também têm seu público cativo. No entanto, não se pode esquecer que rádio não é púlpito: tem o seu código, o seu estilo diferente do código da homilia. A linguagem é bem outra. Sotaque de sermão não tem aceitação no rádio.

Como na programação global, também nos programas religiosos é sempre conveniente ouvir o resultado de pesquisas de audiência, consultar profissionais, confiar em locutores que tenham traquejo, orientar-se por uma produção técnica e artística apropriadas ao meio rádio.

 

10. Comunicação para a verdade e a paz

Chegamos a um fato concreto: 1989 é o ano da comunicação social para a Igreja no Brasil. Comunidades, grupos, movimentos, paróquias e dioceses escolheram o momento forte de evangelização que é a Campanha da Fraternidade, para estudar neste ano o problema da comunicação social e assumir atitudes novas.

É hora de convidar a refletir, com destaque, sobre dois aspectos que parecem da maior importância hoje: o processo da comunicação e o uso dos seus meios.

Primeiro: processo é caminho, é aprendizado. Para cumprir a missão evangelizadora, os cristãos precisam aprender a se comunicar. Segundo: até que ponto e de que maneira os cristãos podem assumir os pequenos e grandes meios de comunicação social, na apresentação do Evangelho. São os dois questionamentos centrais da Campanha da Fraternidade 1989. Na procura de respostas para cada um deles, predomina o método já comum, e talvez o mais prático: ver, julgar, agir.

Durante a Campanha, que se estende por toda a Quaresma para terminar na Páscoa, há um esforço concentrado para conhecer a nossa realidade brasileira e católica, no campo da comunicação social e no uso de seus meios. Ao mesmo tempo, essa realidade é analisada à luz do Evangelho, ou seja, comparando-a com o ensinamento e exemplo de Jesus e dos apóstolos. Como resultado dessa visão realista e desse julgamento, nasce espontaneamente a pergunta: O que fazer?

O lema da Campanha tenta ser uma resposta bem positiva: “Comunicação para a verdade e a paz” (texto-base da CF 1989).

Caminho difícil de percorrer. Mas não impossível. Para a busca dessa meta ambiciosa, o texto-base da CF 89 indica diversas pistas. Seguem algumas:

Diante dos sérios desafios que a comunicação apresenta, cada dia mais fortes para a evangelização, os católicos sentem o impulso de grandes esperanças. Muito já vem sendo feito no esforço de aprender a se comunicar. Numerosos meios são utilizados pela Igreja, inclusive muitos pertencem a ela. Programas sem conta são feitos em outros veículos neutros de comunicação. Cresce o interesse para melhorar ainda mais esses programas e programações evangelizadores.

Aqui, um aspecto se destaca na realidade do Brasil e da Igreja católica entre nós: é o impulso para criar no povo uma consciência crítica, a fim de ele não sofrer as influências e opressões feitas através dos meios de comunicação social. Tal formação da consciência inclui também as pequenas iniciativas que se espalham para despertar uma comunicação alternativa, diferenciada, que seja realmente educadora. Entre esses meios alternativos, destacam-se os folhetos, audiovisuais, boletins paroquiais, serviços de alto-falantes, rádios populares. São meios grupais de comunicação, onde as pessoas em grupo participam ativamente, educando-se e educando sempre mais, ao sacudirem as consciências, para não se afogarem diante da inundação produzida pelos grandes meios, em suas “cascatas” sedutoras. Acima de tudo, esses pequenos meios colaboram para preparar profissionais que poderão atuar também nos grandes, e aí deixar o seu recado. Porque todo cristão tem este sério compromisso: na procura da verdade na comunicação, encontrar a paz.

 

11. UNDA — União de radiodifusão católica

O sugestivo título latino UNDA quer dizer onda. É a união de radiodifusão congregando rádios católicas em todo o mundo.

De sua parte, a UNDA-Brasil procura prestar serviços técnicos e artísticos, particularmente às emissoras católicas do país.

Cada regional da UNDA acompanha as dificuldades de suas emissoras, tentando juntas sempre novos caminhos. Há permuta de informações, experiências e iniciativas. Uma colaboração mútua sempre mais intensa.

No esforço de “comunhão e participação” com a Igreja local e nacional, a UNDA procura incentivá-las a valorizar e usar sempre mais a força indispensável do rádio na pastoral de conjunto.

 

12. CEPAV — Central Paulina de Audiovisuais

Na teia de rádios católicas, unidas pela UNDA, parece interessante uma iniciativa bastante prática, até o momento produzindo bons resultados. É a rede dos Paulinos. Cinco emissoras atualmente. Além de uma programação humanizadora através da música popular, a rede procura prestar serviços também a outras emissoras, tanto católicas como neutras. Música popular é o destaque principal. Por quê? Simplesmente porque a rede — que procura atrair com sua linguagem todas as classes sociais — assumiu como lema a expressão que diz tudo: “Os pobres optaram pelo rádio. E a rede optou pelos pobres”.

Dessa opção nasceu a CEPAV: Central Paulina de Audiovisuais. Para produzir e distribuir programas já gravados, ou apenas em script. Uns mais, outros menos, são veiculados atualmente por cento e cinquenta emissoras de todo o Brasil, católicas ou neutras. Emissoras cuja contribuição consiste em levar à frente a mensagem humanizadora do Evangelho, através dos seguintes programas:

Assim falou Jesus: 15 minutos diários de conversa sobre a vida e mensagem de Jesus na história de ontem e de hoje. Com três canções da atualidade.

Palavra amiga: 15 minutos diários conversando com o padre Lucas.

Um olhar sobre a cidade: 5 minutos diários com análise franca e otimista sobre fatos do momento.

O sucesso em sua vida: 20 minutos diários. Cinco canções de sucesso, com diálogo descontraído sobre suas mensagens.

Ave Maria: 2 minutos diários. Um pensamento atual sobre a Virgem Maria, seguido de uma prece.

Mensagens: 30 segundos de hora em hora.

O nosso comentário: sobre algum dado político e social, diariamente em 2 minutos.

Notícias da Igreja no mundo e no Brasil: eram levadas em programa especial da rede paulina: A Igreja é notícia. Mas a opinião pública demonstrou que o título era muito pretensioso. Além do mais, que não seja excessivo repetir: A Igreja há de ser “fermento na massa” (cf. Mt 13,33). Por isso, as notícias dela e sobre ela não podem separar-se das notícias do mundo.

 

13. Conclusão

O rádio, obviamente o meio de comunicação mais acessível a todos, tem a sua indiscutível força democratizadora. Promovendo a libertação do pensamento frente à opressão do poder econômico e à pressão de qualquer censura, o rádio vai formando uma opinião pública sempre mais esclarecida. Nessa luta insana, o rádio faz com que a opinião do povo se liberte de dominações alienantes e consumísticas. É um esforço coletivo para alcançar sempre mais de perto a verdade, e com ela a paz na convivência. Tal esforço há de ser livre de qualquer lavagem cerebral. Nesse vaivém da comunicação, quem ouve e quem fala se envolvem na mesma procura da verdade, ninguém fazendo a cabeça de ninguém.

Há para todos o modelo perfeito de comunicador: Jesus de Nazaré. Ele propõe a Verdade livre e libertadora, sem nada impor.

E a Igreja católica, consciente de sua missão e comprometida com essa Verdade, sente cada dia mais a força evangelizadora do grande meio que é o rádio. Daí a convocação geral para o momento forte que é a Campanha da Fraternidade 1989: Comunicar-se para alcançar a verdade e a paz.



[1] Dante Alighieri. Divina Comédia, Inferno, I, 1.

[2] Paulo VI. Evangelii Nuntiandi, nº 45.

[3] Cf. Marshall McLuhan. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1971, Ia,1.

Pe. José Dias Goulart