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Publicado em Julho agosto

Os ambientes midiáticos do Catolicismo plural e fragmentado nas televisões católicas

Por Pe. Marlson Assis de Araújo

Introdução

 

Os estudos sobre televisão apresentam pouca produção analítica sobre o modo como os produtos televisuais comunicam, pois os programas de televisão são formas muito difíceis de caracterizar, por serem produtos seriados, muito misturados. Na análise da televisão, o que importa é o texto televisivo como produto cultural, pois a TV constitui um texto semiótico muito heterogêneo, existindo nela coisas positivas e negativas. No mundo da TV, tudo o que é adaptado para esse meio vira televisão. Passa a ser um produto televisual e deve ser analisado como tal.

A TV se inseriu de tal modo na vida cotidiana, que é impossível conceber algo sem a televisão, não se pode ignorá-la. A TV é hoje o palco privilegiado dos espetáculos cotidianos. Segundo Bucci, no Brasil, a TV reina praticamente sozinha, sem rivais, e é ela que molda o espaço público nacional para os brasileiros. É ela que faz a agenda nacional acontecer e se tornar realidade. Ela, a TV, é o lugar em si, onde as coisas realmente acontecem, transformando o espaço público em espaço expandido, só que de acordo com seus interesses e critérios, constituindo e conformando esse mesmo espaço. Desde a década de 60, é ela quem identifica o Brasil para os brasileiros (Bucci, 2004, p. 30-32).

Vivemos numa sociedade pós-industrial, midiática, uma nova etapa do capitalismo centrado na mídia. A sociedade é reestruturada em nome das novas tecnologias, produzindo novos ambientes, que passam a ser configurados de acordo com determinados aspectos, denominados pelo comunicólogo alemão Harry Pross (1989) de “ambientes midiáticos”. É um contexto marcado pela tirania das imagens e pela submissão alienante ao império da mídia, no qual a religião se transformou em mercadoria de consumo ou bens de salvação, na feliz expressão de Pierre Bourdieu (2005), que cada um busca na medida dos seus gostos e das suas necessidades.

É nesse contexto comunicacional complexo que abordamos a participação das televisões católicas. Que tipos de ambientes midiáticos são produzidos pelas televisões católicas no Brasil? Como esses ambientes midiáticos influenciam na consolidação da Igreja Católica no país? Como o catolicismo via televisão, de interfaces plurais, interfere e influencia na constituição da cultura contemporânea? São algumas questões que pretendemos suscitar para o debate e a reflexão. Neste artigo, apresentamos uma tipologização das televisões católicas no Brasil em ambientes midiáticos. É uma análise semiótica, e ao mesmo tempo propositiva, da mídia televisiva católica.

 

1. As televisões católicas no Brasil

 

Um dia, numa aula na PUC-SP, ao apresentar-nos e dizer que pesquisávamos as televisões católicas, o professor nos indagou surpreso: “Existem televisões católicas?” A pergunta dele nos deixou mais surpreso ainda com o seu desconhecimento sobre elas. Elas existem, sim, e estão aí, no cenário televisivo, consolidando-se. Se existe pouca produção de análises sobre televisão no Brasil, isso também pode ser afirmado muito mais em relação à produção de análises sobre televisões católicas. A Igreja Católica saiu atrasada no campo religioso da televisão no Brasil, como poderemos constatar neste breve percurso histórico do surgimento de suas televisões.

A Rede Vida de Televisão, fundada em 1º de maio de 1995 por um grupo independente, liderado por João Monteiro de Barros Filho, e mantida pelo Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (Inbrac), cobre aproximadamente 100% do território nacional e, com 325 retransmissoras, apresenta-se como o “canal da família” e também como o “canal da boa notícia”, recebendo, na atualidade, grande apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Sua sede geradora fica em São José do Rio Preto-SP.

A TV Canção Nova, fundada pelo padre paulista Jonas Abib em 8 de dezembro de 1989, com sede em Cachoeira Paulista-SP, é o primeiro canal de televisão católico carismático do país. Conta com cinco produtoras e atinge todo o território nacional por meio de antenas parabólicas, 127 operadoras de TV a cabo e 396 retransmissoras. Seu sinal ainda consegue atingir o continente americano, a Europa Ocidental, a África do Norte e o Oriente Médio por meio do sistema de satélites e TVs a cabo.

A TV Século 21 também se configura como outro braço da Renovação Carismática Católica. Foi criada em 11 de junho de 1999, com sede em Valinhos-SP, pelo padre carismático Eduardo Doughert, jesuíta norte-americano, um dos que trouxeram o Movimento da Renovação Carismática Católica para o Brasil. É mantida pela ASJ – Associação do Senhor Jesus, também fundada pelo padre Eduardo na cidade de Campinas-SP em 1979. Essa TV é sintonizada, por meio de antenas parabólicas, em todo o Brasil e em diversos países por meio de satélites.

A TV Aparecida, já conhecida como “a TV de Nossa Senhora”, com sede em Aparecida-SP, foi criada em 8 de setembro de 2005 pelos padres redentoristas que cuidam do Santuário de Aparecida e pelo arcebispo local. Essa TV é sintonizada no canal 59 UHF em sinal analógico e digital e, como está em fase de expansão, faz aliança com a Rede Vida de Televisão para algumas de suas transmissões. É a TV católica mais recente e leva o culto de Nossa Senhora Aparecida a todo o Brasil e também a outros países, por meio da internet.

Destacamos, também, a TV Nazaré na região amazônica, que tem a sua sede geradora em Belém do Pará e foi fundada em 11 de maio de 2002 como TV educativa e com perspectivas amazônicas, por intermédio do canal 30E em UHF, alcançando aproximadamente 9 milhões de pessoas em toda a Amazônia Legal, com 79 retransmissores. Em 2004, foi inaugurado o sinal da TV Nazaré no satélite, através da New Skies Satellites, chegando a todo o continente americano, ao norte da África e a boa parte da Europa. É uma emissora da Arquidiocese de Belém do Pará mantida pela Fundação Nazaré de Comunicação.

 

2. Tipologias católicas na televisão e suas eclesiologias subjacentes

 

A Igreja Católica não optou por uma única TV dos católicos, de abrangência e força nacional. O que seria melhor para a Igreja no país: uma TV só, equivalente a um padrão Globo de qualidade,[1] ou várias TVs católicas, segmentadas em torno dos seus projetos televisivos de evangelização, como a realidade apresenta? Os bispos católicos optaram por deixar o campo televisivo de identidade católica à livre iniciativa, o que gerou a fragmentação, a dispersão e as diferenças de suas atuais TVs. Como cada canal de TV tem a sua própria direção e chefia, o que resulta no monopólio e controle de seus conteúdos e roteiros, a CNBB procurou contornar isso, tentando dar uma direção oficial a elas mediante a comissão episcopal encarregada pelo Setor das Comunicações Sociais da CNBB.

É com base na fragmentação e nas diferenças que podemos fazer uma tipologização das TVs católicas em três importantes blocos: as pentecostais, as tradi-institucionais e as marianas. Cada tipo de televisão compreende determinada eclesiologia[2] que, consequentemente, configura toda a grade de programação de suas emissoras, apresentando em imagens no vídeo algumas modalidades dos jeitos católicos de ser, por trás dos quais existem modelos estruturais de Igreja que repercutem em todo o corpo eclesial e social.

Segundo Libanio, a descrição e a análise desses modelos (que ele chama de cenários) nos ajudam a entender a realidade, mas sem manifestar preferência ou mesmo escolha por um dos modelos. O cientista que analisa esses cenários descreve-os com objetividade, destacando o posicionamento das forças dominantes, assim como a reação das forças sociais opostas. Diz o teólogo:

 

Um cenário não se escolhe. Impõe-se. Tem-se de viver dentro dele. As análises ajudam a elaborar as estratégias de resistências, caso triunfe um cenário adverso. Ou a organizar as próprias forças vitoriosas.

A Igreja, como Instituição, comporta-se dentro de determinado cenário, num duplo movimento: ad intra, ela organiza sua própria vida. Ad extra, tece relações com o mundo político-econômico, cultural e religioso circundante. Em cada cenário, essas relações, quer internas quer externas, se configuram de modo diferente. A análise procura descrevê-las (Libanio, 1999, p. 13).

 

Após essas considerações introdutórias, abordamos, em seguida, os ambientes midiáticos produzidos pelos modelos de Igreja que se expressam em imagens nas grades de programação das TVs católicas.

 

2.1. O ambiente midiático do catolicismo pentecostal na TV

 

Pelo que vemos nas TVs católicas, verificamos que elas optaram, em sua grande maioria, pelo catolicismo de cunho pentecostal. Constata-se isso em suas grades de programação, o que corresponde, por sua vez, às ideias explanadas pelos teóricos da sociedade do espetáculo (Debord, 1997; Bucci e Kehl, 2004; Chaui, 2006), na qual tudo se transforma em mercadoria, em fetiche e em espetáculo, também a religião.

É a configuração semiótica sobretudo da TV Canção Nova e da TV Século 21. A Rede Vida também transita por esse ambiente, preservando na sua grade de programação a presença do ícone do pentecostalismo católico, padre Marcelo Rossi.

As características centrais do ambiente midiático do catolicismo pentecostal com visibilidade nessas TVs:[3] a Igreja hierárquica e o Espírito Santo (Pentecostes) são os seus marcos principais. Nesse cenário pentecostal, apresenta-se uma explosão de movimentos religiosos, místicos e pentecostais. Também surgem grupos autoritários e fundamentalistas. As questões éticas são tratadas com ênfase numa moral subjetiva, centrada no indivíduo. No campo da exegese, a Bíblia é usada como fetiche e resgata-se o seu caráter iniciático e mistagógico. Na relação com o sistema, prima-se pela fuga e pela despreocupação com os problemas do mundo. Seus líderes simplificam ao máximo a mensagem evangélica, adaptando-a ao ambiente midiático. As liturgias são festivas, emocionais, espetacularizadas e realizadas em ambientes amplos. A teologia oficial é voltada para vivências emocionais, milagres, curas, batismo no Espírito Santo.

Dá-se visibilidade à hierarquia com o uso dos clergymen. Bispos, padres, seminaristas e religiosos assumem características desses movimentos de espiritualidade forte. A posição diante da pós-modernidade é de fechamento e de crítica voraz. Nas práticas religiosas, a religião emerge como solução de todos os problemas, desde os pessoais até os sociais, com predominância da subjetividade, da emoção, tendo como consequência a sua privatização e a anulação dos ideais comunitários. A experiência forte do Deus vivo é a palavra mágica. A conversão interior é suficiente e a conversão social é ignorada (Libanio, 1999, p. 49-67). Trata-se de ambiente pouco crítico e despolitizado.

O catolicismo pentecostal pode ser classificado como um catolicismo internalizado, por proporcionar ao indivíduo “percepção explícita e consciente dos valores religiosos. Pode consequentemente ocorrer coerência racional – em termos de meios e fins – entre esses valores e a conduta do indivíduo” (Camargo, 1973, p. 49). Assim, o católico pentecostal, internalizado, adota de modo consciente e deliberado os valores, normas e práticas da sua religião (Camargo, 1973, p. 77), sobretudo em seus aspectos pentecostais. É diferente do catolicismo tradicional, pois este não implica uma opção consciente dos fiéis.

 

2.2. O ambiente midiático do catolicismo tradi-institucional na TV

 

Na definição desse modelo de catolicismo, tradi-institucional, sintetizamos duas palavras: tradição e instituição. A Igreja Católica levou a sua imagem para a televisão por meio de dois de seus componentes determinantes: a religiosidade popular tradicional e a teologia institucional. É a instituição tutelando o catolicismo popular e tradicional, feito à sua imagem e semelhança na TV.

O marco principal desse ambiente de catolicismo televisual é a Igreja como instituição, a Igreja como sociedade perfeita, que busca direcionar o seu rebanho, também as práticas de piedade popular. Ao mesmo tempo em que resgata esse catolicismo popular, a instituição dita o formato em que ele é aceito e deve ser ritualizado à luz da tradição católica. Como exemplos do catolicismo popular ou catolicismo tradicional, vemos em suas TVs a reza do terço (tradicional e bizantino), a novena do divino Pai eterno, a novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, procissões nas festas de padroeiros, nas festas de Nossa Senhora, o culto aos santos (mediante a narração de sua vida e obras) e, em algumas missas televisionadas, as intenções pelas almas dos mortos, cujos nomes ficam passando no vídeo, assim como o culto ao Sagrado Coração de Jesus nas primeiras sextas-feiras do mês, entre outros. No catolicismo tradicional

 

o comportamento social e religioso fundamenta-se nos costumes e é legitimado pela tradição; observa-se pouca consciência quanto à natureza específica dos valores religiosos que inspiram normas e papéis sociais. Nota-se, ainda, a ausência de explicação racional, em termos de meios e fins, para a conduta religiosa (Camargo, 1973, p. 49).

 

Tudo isso conduzido e animado por padres, bispos ou leigos[4] de catolicismo internalizado. Esse modelo tradi-institucional pode também ser classificado numa das funções do catolicismo internalizado, a função tradicionalista. Segundo Camargo,[5] a função tradicionalista objetiva valorizar a religião e a sociedade, só que de forma saudosista, ou seja, a religião e a sociedade do passado, idealizadas como perfeitas. Assim, a função tradicionalista enfatiza o retorno às modalidades tradicionais, “isentas da corrupção do presente” (1973, p. 83).

Nesse modelo tradi-institucional, a instituição está no centro por meio do papa, da Cúria romana, das dioceses, dos bispos, dos padres e das paróquias. A visibilidade da instituição dá-se pela sua presença na mídia. As liturgias ficam circunscritas à instituição e se caracterizam por ser rápidas, ritualizadas e repletas de rubricas. A teologia que fundamenta esse ambiente é a teologia do magistério oficial, buscando a unidade doutrinal e institucional.

A hierarquia é obediente à instituição, pois são bispos e sacerdotes do bastão, do poder sacral, de paramentos prateados e sapatos engraxados. O clero é do altar, dos sacramentos, da organização paroquial, da burocratização; padres e bispos distantes do povo, mais burocratas e gerentes de uma instituição do que pastores e profetas, e as vocações apresentam-se como busca do “status clerical”.

A posição diante da modernidade é contracultural. Nas questões éticas, predominam os ensinamentos da encíclica Veritatis Splendor.[6] A exegese bíblica segue a linha da Tradição e do Magistério. A convivência com o Estado é pacífica, sem críticas proféticas contundentes, e a instituição, na relação com ele, defende os próprios interesses corporativistas. Também nesse modelo de catolicismo, mais uma vez a religião é relegada à esfera privada e a reação é o êxodo de seus membros mais críticos e de mentalidade pós-moderna (Libanio, 1999, p. 14-47).

Identificamos com esse modelo de catolicismo tradi-institucional a Rede Vida, a TV Aparecida e a TV Nazaré, embora estas duas últimas entrem também na terceira tipologização, a das TVs marianas, a seguir.

 

2.3. O ambiente midiático do catolicismo mariano na TV

 

Todas as emissoras de televisão católicas adotam o culto a Nossa Senhora em suas grades de programação, uma vez que o culto mariano é parte constituinte da identidade católica. Mas duas emissoras de televisão se apresentam estruturadas em torno do culto mariano. É o caso da TV Aparecida, no Vale do Paraíba, que é batizada com o título da padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, tem como logotipo a própria imagem da Virgem de Aparecida e é a caçula das televisões católicas no Brasil. A outra é a TV Nazaré de Belém do Pará, que, por sua vez, carrega o título de Nossa Senhora de Nazaré, considerada pelos católicos do norte do país como a Rainha da Amazônia. O culto mariano também faz parte do catolicismo tradicional. A novidade é que agora ele está na tela da TV e fortalecido desde o episódio intolerante e fundamentalista do “chute na santa” desferido pelo pastor Sérgio von Helder – na época, integrante da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) de Edir Macedo.[7]

O que caracteriza essas duas emissoras católicas de televisão é o forte culto mariano, em torno do qual são sustentadas suas grades de programação. Elas funcionam como catalisadoras do culto mariano em duas regiões diferentes e extremas do país, o Sudeste e o Norte. Alimentam o culto à virgem Maria e são alimentadas por ele. Aos santuários-basílicas, seja em Aparecida, seja em Belém do Pará – como o centro do mundo, conforme Mircea Eliade (1996, p. 35) –, atraem romeiros e peregrinos de todo o país em datas especiais, respectivamente em 12 de outubro e no segundo domingo de outubro.

Tais santuários-basílicas são confiados pelos arcebispos das respectivas arquidioceses, sedes marianas, a sacerdotes de congregações religiosas: na Arquidiocese de Aparecida, aos padres redentoristas da Congregação do Santíssimo Redentor e, em Belém do Pará, aos padres barnabitas.

Num país que caminha cada vez mais para ser um país plural, também no que concerne à expansão de outras religiosidades, é paradoxal que duas TVs católicas assumam identidades marianas. A força delas ainda está no grande contingente católico, que – apesar da sua comprovada diminuição, conforme o censo do IBGE no ano 2000 –[8] continua sendo significativo e expressivo. A aceitação delas pelo conjunto da sociedade brasileira dependerá da sua capacidade de dialogar não apenas com seu rebanho católico, mas com a cultura e seus cidadãos.

 

Considerações finais

 

Libanio ainda se refere a outros dois modelos, que consideramos também geradores de ambientes culturais, em seus aspectos eclesiais e sociais: o modelo de catolicismo centrado na Palavra, que ele denomina de “Igreja da pregação” por girar em torno da palavra de Deus, e o modelo que enfoca a centralidade da libertação, chamada pelo teólogo de “Igreja da práxis libertadora”, a Igreja surgida na década de 60, reforçada pelas Conferências de Medellín (1968) e de Puebla (1979). Trata-se da Igreja dos pobres ou, como ficou conhecida internacionalmente, do modelo de Igreja dos teólogos da libertação, decididamente ao lado dos oprimidos, auscultando-lhes os anseios de libertação e alimentando-lhes a fé nesse processo (Libanio, 1999, p. 69-131).

Esses dois ambientes do catolicismo, considerados por Libanio mais afinados com a proposta evangélica – e aqui concordamos com ele – não gozam de visibilidade nas grades de programação das televisões católicas. A extraordinária riqueza da caminhada das CEBs, o papel profético das pastorais sociais da CNBB, que tanto contribuíram e contribuem para o processo de redemocratização do país e da construção da justiça social, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, bandeiras da Igreja Católica, endossados pelo Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), o rico conteúdo da doutrina social da Igreja, potencial possível para o diálogo com a sociedade brasileira, terminam esquecidos e desprezados pelas emissoras de televisão católicas, não tendo visibilidade em seus textos culturais televisivos. Na sociedade da visibilidade mediática, o que não é visto é como se não existisse.

Constata-se, nas televisões católicas do Brasil, um catolicismo plural, predominantemente confessional e corporalmente fragmentado (tradi-institucional, pentecostal e mariano), pobre no diálogo com a sociedade e sua cultura, as quais pretendem influenciar e transformar. A construção da cidadania em seus diferentes âmbitos é um ambiente midiático possível de ser abraçado como bandeira pelo catolicismo televisivo no seu diálogo com a sociedade, pois as televisões católicas têm um papel irrenunciável na constituição da cultura contemporânea.

 

 

* Este artigo foi publicado originalmente como capítulo 19 do Livro Eletrônico do Mutirão de Comunicação da América Latina e do Caribe, realizado de 3 a 7/2/2010 em Porto Alegre-RS. O texto aqui publicado corresponde à primeira parte do artigo, reelaborado pelo autor e com algumas modificações para publicação nesta revista.

 

** Pe. Assis é bacharel em Teologia pelo Instituto de Pastoral Regional – Ipar (CNBB Norte II) com convalidação pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, SP; especialista em Comunicação e Cultura pelo Sepac/Cogeae – PUC-SP; mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP e doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, onde desenvolve pesquisa sobre o catolicismo nas televisões católicas do Brasil. É pesquisador do Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia (Cisc). Atua como vigário paroquial na Paróquia São Pio X e Santa Luzia, na Região Episcopal Belém da Arquidiocese de São Paulo, SP. marlson@uol.com.br

 

Bibliografia

ARAÚJO, Marlson Assis de. Comunicação e cultura nas televisões católicas em ambientes midiáticos. Disponível em: <http://www.muticom.org/internet/19.pdf>. In: GUARESCHI, Pedrinho A.; DEFFAVERI, Maiko (Org.). Mutirão de comunicação: textos acadêmicos. Porto Alegre: Abrapso Sul, 2010. Disponível em: <www.muticom.org/internet/index.htm>. Acesso em: 13 maio 2010.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2005.

BUCCI, Eugênio; KEHL, Maria Rita. Videologias: ensaios sobre televisão. São Paulo: Boitempo, 2004.

CAMARGO. Cândido Procópio Ferreira de (Org.). Católicos, protestantes, espíritas. São Paulo: Vozes, 1973.

CHAUI, Marilena de Souza. Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo: Perseu Abramo, 2006.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

ESTUDOS AVANÇADOS. Dossiê Religiões no Brasil. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, v. 1, n. 1, 1987.

LIBANIO, João Batista. Cenários da Igreja. São Paulo: Loyola, 1999.

PROSS, Harry. La violencia de los símbolos sociales. Barcelona: Anthropos, 1989.

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TAVOLARO, Douglas. O bispo: a história revelada de Edir Macedo. Com reportagem de Cristina Lemos. São Paulo: Larousse do Brasil, 2007.

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TV NAZARÉ. Disponível em: <www.fundacaonazare.com.br/modelo1_2006/Tv/index.php>. Acesso em: 12 fev. 2008.

 



2 Qualidade aqui entendida como investimento em tecnologias atuais e profissionalismo do seu pessoal. As TVs católicas têm uma contribuição potencial a dar em termos de qualidade nos conteúdos com a questão da ética.

3 Eclesiologia é a parte da teologia sistemática que estuda as configurações eclesiais – ou seja, os modos de a Igreja estruturar-se e organizar-se –  e a compreensão que esta tem da sua própria missão.

4 Utilizamos nesta abordagem semiótica das televisões católicas os instrumentais analíticos desenvolvidos pelo importante teólogo jesuíta João Batista Libanio no seu livro Cenários da Igreja (1999).

5 Constata-se fraca participação dos leigos de modo geral, com exceção das televisões carismáticas (TV Canção Nova e TV Século 21). Na Rede Vida e na TV Aparecida há uma inflação de padres e bispos em suas grades de programação, deixando explícita a força da instituição. Até ousaríamos chamar a Rede Vida de “a TV dos bispos”, sobretudo porque, na realidade, é ela quem melhor representa a presença institucional católica no ambiente midiático televisivo da sociedade brasileira.

6 Camargo apresenta também duas outras funções do catolicismo internalizado. A função modernizadora, que busca um reavivamento católico, propondo novos padrões de comportamento e dando ênfase a uma vida moderna, e a função contestatória, quando o catolicismo exerce influência nas transformações sociais na perspectiva da sua ética cristã. As comunidades eclesiais de base (CEBs), o Movimento de Educação de Base (MEB) e, na atualidade, as pastorais sociais da CNBB são, entre outros, exemplos da função contestatória do catolicismo.

7 “O esplendor da verdade”, encíclica do papa João Paulo II, de 6 de agosto de 1993, sobre questões fundamentais do ensinamento moral da Igreja.

8 O “chute na santa” aconteceu no dia 12/10/1995. “O maior erro da Iurd, um erro grave”, segundo Edir Macedo, chefe da Igreja, em declaração inédita 12 anos após o episódio. Erro que atrapalhou os planos de Macedo e de sua Igreja no Brasil e no exterior. Em 2006, Helder foi punido por maltratar pastores em Nova York, EUA, e desligou-se da Iurd (cf. TAVOLARO, 2007, p. 195-197).

9 Para análises profundas sobre o Censo de 2000, remetemos os interessados aos artigos “A diversificação religiosa”, de César Romero Jacob, e “Bye bye, Brasil: o declínio das religiões tradicionais no Censo 2000”, de Antônio Flávio Pierucci, na Revista de Estudos Avançados da USP (n. 52, Dossiê Religiões no Brasil, p. 9-28).

Pe. Marlson Assis de Araújo