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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 1988 (pp. 33-37)

Meditações bíblicas sobre a Eucaristia

Por Pe. Luís Alonso Schökel, sj

(As meditações I-II, III-IV, V-VI, VII, VIII-IX e X foram publicadas em 1987, respectivamente, nos números 132, 133, 134, 135, 136 e 137 de Vida Pastoral.)

 

XI. COMUNHÃO

1. Costumamos chamar “comunhão” o ato de tomar ou receber ou ingerir o pão e o vinho eucarísticos: é parte substancial de um banquete. De tudo o que expliquei nas reflexões anteriores resulta que tal interpretação é verdadeira, mas um tanto estreita. A comunhão pode ser um momento, um ato da eucaristia, e pode considerar-se também como um aspecto. Assim vou expô-la, utilizando as seguintes categorias: comunhão, comunicação, participar, partilhar. E para isto começamos lendo um relato sobre Elias: “Elias se levantou e foi para Sarepta. Chegando à porta da cidade, eis que estava lá uma viúva apanhando lenha; chamou-a e disse: ‘Por favor, traze-me num vaso um pouco d’água pa­ra eu beber!’ Quando ela já estava indo para buscar água, ele gritou-lhe: ‘Traze-me também um pedaço de pão na tua mão!’ Respondeu ela: ‘Pela vida de Iahweh, teu Deus, não tenho pão cozido; tenho apenas um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Estou ajuntando uns gravetos, vou preparar esse resto para mim e meu filho; nós o comeremos e depois esperaremos a morte’. Mas Elias lhe respondeu: ‘Não temas; vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com o que tens um pãozinho e trazemos depois o prepararás para ti e para teu filho. Pois assim fala Iahweh, Deus de Israel:

A vasilha de farinha não se esvaziará

e a jarra de azeite não acabará

até o dia em que Iahweh enviar

a chuva sobre a face da terra’.

Ela partiu e fez como Elias disse e fizeram uma refeição ele, ela e seu filho. A vasilha de farinha não se esvaziou e a jarra de azeite não acabou, conforme a predição que Iahweh fizera por intermédio de Elias” (1Rs 17,10-16).

A viúva e seu filho vão repartir os últimos bocados, como a comida dos condenados à morte. Elias pede que primeiro partilhem o alimento com um estrangeiro, que só pode oferecer um oráculo divino. Elias quer acelerar a morte ou prolongar a vida? A viúva escuta o oráculo como palavra Deus, confia na promessa e reparte o único, o último que tem. Muito mais do que as moedinhas da viúva do Evangelho.

Exemplo supremo de partilha. Não só uns punhados de farinha, um pouco de azeite, mas neles sua vida e a vida de seu filho. É que os três já estavam partilhando a mesma fé e esperança em Deus. E continuarão repartindo a promessa-palavra de Deus feita pão e azeite.

Relato singelo, essencial, que poderia bastar para uma meditação sobre a comunhão eucarística. Jesus, que dá e reparte até o último de sua vida em seu sangue, para poder tornar-nos participantes de sua vida glorificada. Mas é necessário que participemos também de sua palavra, para partilhá-lo depois como pão.

 

2. Partilhar é dar ao outro parte do meu, ou repartir entre vários um bem, mesmo sem dividi-lo. Uma mesma raiz soa em partir, repartir, partilhar e participar, partidário…

Os israelitas partilham muitas coisas. Em primeiro lugar, a terra prometida, entregue e repartida por Josué. Cada família deve ter sua parte, parcela ou porção estável, para que se realize e se perpetue a participação de todos na terra, dom de Deus. Mas há açambarcadores cobiçosos “que juntam casa a casa, que acrescentam campo a campo até que não haja mais espaço disponível, até serem eles os únicos moradores da terra” (Is 5,8). Não partilham e não comunicam, condenados à solidão.

E os que não recebem uma parcela hereditária? Migrantes, levitas. Com o fruto da terra é preciso prover às suas necessidades: “Tirei da minha casa o que estava consagrado e o dei ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, conforme todos os mandamentos que me ordenaste” (Dt 26,13). E os pobres? Pelo empréstimo ou a esmola, também eles devem participar dos bens da terra: “Abre a mão em favor do teu irmão, do teu humilde e do teu pobre em tua terra” (Dt 15,11).

Os israelitas partilham os mesmos pais: Abraão, Isaac e Jacó. Uma mesma história, que começa com a libertação do Egito: a contam e cantam em comum. Partilham o gozo das festas nacionais; mas também a carga dos pecados, que confessam em comum. Portanto, partilham responsabilidades e tarefas: Neemias atribuirá a cada família ou grupo um lanço de muro de Jerusalém para a reconstrução em comum da cidade.

Os israelitas partilham o mesmo rei, desde Davi. Podem até surgir disputas sobre quem tem mais direito ao rei: “Por que os nossos irmãos, os homens de Judá, se apossaram de ti, e fizeram passar o Jordão ao rei, à sua família e a todos os homens de Davi com ele?

Então todos os homens de Judá responderam aos homens de Israel: É porque o rei é mais aparentado comigo! Por que te irritas por isso? Comemos nós a expensas do rei? Ou nos trouxe ele alguma porção?

Responderam os homens de Israel aos homens de Judá: Eu tenho dez partes no rei, e, além disso, sou teu primogênito: por que me desprezaste?” (2Sm 19,42-44).

Quando acontece o cisma, o grito de rebelião soa assim: “Que parte temos com Davi?

Não temos herança com o filho de Jessé!” (1Rs 12,16).

Os israelitas partilham o mesmo Deus, a quem chamam o Senhor nosso Deus: “Não temos todos um só pai? Não nos criou um mesmo Deus?” (Ml 2,10). Sobre este fundo amplo, que poderia ser enriquecido, é preciso ler os casos particulares.

 

3. Estes casos particulares serão textos em que figura o tema do banquete ou da refeição, como expressão do participar ou partilhar.

No primeiro texto parece-nos assistir a uma protoeucaristia. Um protagonista conta as recentes façanhas do Deus salvador e libertador; um sacerdote responde com uma bênção (beraká) ao Senhor por seus benefícios; são oferecidas vítimas em sacrifício e celebra-se um banquete de comunhão:

“Moisés contou ao sogro tudo o que Iahweh havia feito a Faraó e aos egípcios por causa de Israel, assim como todas as tribulações que encontraram pelo caminho, das quais Iahweh os livrara.

Jetro alegrou-se por todo o bem que Iahweh tinha feito a Israel livrando-o da mão dos egípcios.

Então Jetro disse: ‘Bendito seja Iahweh que vos libertou da mão dos egípcios e da mão de Faraó, e libertou o povo da submissão aos egípcios. Agora sei que Iahweh é maior do que todos os deuses…’.

Jetro, o sogro de Moisés, ofereceu a Deus um holocausto e sacrifícios. Vieram Aarão e todos os anciãos de Israel, para comerem pão com o sogro de Moisés diante de Deus” (Ex 18,8-12).

A coisa começa como assunto de família: a esposa e os filhos, que vieram com o pai e o avô, Jetro, saem para receber Moisés; no final, uma representação de Israel participa do banquete sacrifical. Mas o relato e a bênção parecem restritos à família.

Menos sugestivo, mais comunitário, é o episódio em que Davi faz transportar a arca a Jerusalém, sua capital. Ao narrador interessa muito a dança litúrgica do rei e se contenta com uma informação breve sobre o resto: “A Arca de Iahweh foi levada e depositada no seu lugar, na tenda que Davi tinha feito armar para recebê-la, e Davi ofereceu holocaustos na presença de Iahweh, bem como sacrifícios de comunhão. Assim que Davi terminou de oferecer holocaustos e sacrifícios de comunhão, abençoou o povo em nome de Iahweh dos Exércitos. Depois distribuiu a todo o povo e à multidão toda de Israel, homens e mulheres, a cada um, um pedaço de pão, uma massa de tâmaras e um doce de passas secas, e em seguida foram-se todos, cada qual para a sua casa” (2Sm 6,17-19).

Mais que o caráter sacrifical de um banquete, aparece o caráter festivo e a munificência régia. Todos devem alegrar-se nesse dia de festa, e a alegria se exprimirá na participação igualitária em uma refeição substanciosa por conta do rei. A bênção do povo tem caráter conclusivo; não é a bênção de ação de graças a Deus.

 

4. Sobre esses dois incidentes episódicos sobressai uma recordação que alimentou a fantasia religiosa e a reflexão teológica do Antigo e do Novo Testamento: trata-se do maná. Prodigioso alimento no deserto, pouco apreciado pelos beneficiários imediatos (Nm 11), transformado na visão poética do tardio livro da Sabedoria: “A teu povo, ao contrário, nutriste com um alimento de anjos, proporcionando-lhe, do céu, graciosamente, um pão de mil sabores, a gosto de todos. Este sustento manifestava a teus filhos tua doçura, pois servia ao desejo de quem o tomava e se convertia naquilo que cada qual queria” (Sb 16,20-­21).

Uma referência importante no evangelho de João (6,31.49) e outras três alusões (1Cor 10,3; Hb 9,4; Ap 2,17) asseguraram ao maná seu valor de símbolo ou tipo, graças ao qual passou à tradição cristã e fez fortuna na teologia e na espiritualidade. Vou fixar-me no aspecto de alimento, já que o maná nem é banquete, nem se relaciona com o culto e os sacrifícios. Mas representa muito bem o caráter comunitário e provisório do produto.

Começamos com o caráter comunitário e igualitário: “Disse-lhes Moisés: ‘Isto é o pão que Iahweh vos deu para vosso alimento. Eis que Iahweh vos ordena: Cada um colha dele quanto baste para comer, um gomor por pessoa. Cada um tomará segundo o número de pessoas que se acham em sua tenda’. E os filhos de Israel assim fizeram: e apanharam, uns mais, outros menos. Quando mediram um gomor, nem aquele que tinha juntado mais tinha maior quantidade, nem aquele que tinha colhido menos encontrou menos: cada um tinha apanhado o quanto podia comer” (Ex 16,15b-48).

O pão que “Deus envia do céu” (Ex 16,4) basta para satisfazer a necessidade de cada um, e não serve para criar ricos e pobres. É dom de Deus, chuva celeste, e aos homens só cabe recolhê-lo. O caráter provisório o liga ao preceito do sábado: “Moisés disse-lhes: ‘Ninguém guarde para a manhã seguinte’. Mas eles não deram ouvidos a Moisés, e alguns guardaram para o dia seguinte; porém deu vermes e cheirava mal. E Moisés indignou-se contra eles. Colhiam-no, pois, manhã após manhã, cada um o quanto podia comer, e quando o sol fazia sentir o seu ardor, se derretia. Ora, no sexto dia colheram pão em dobro, dois gomores por pessoa: e todos os chefes de comunidade foram comunicá-lo a Moisés. Ele lhes disse: ‘Eis o que disse Iahweh: Amanhã é repouso completo, um santo sábado para Iahweh. Cozei o que quiserdes cozer, e fervei o que quiserdes ferver, e o que sobrar, guardai-o de reserva para a manhã seguinte’. Fizeram a reserva até a manhã seguinte, como Moisés ordenara; e não cheirou mal e nem deu vermes. Então disse Moisés: ‘Comei-o hoje, porque este dia é um sábado para Iahweh; hoje não o encontrareis nos campos. Durante seis dias o recolhe­reis, mas no sétimo dia, no sábado, não o haverá’” (Ex 16,19-26).

Cada dia se recolhe e se consome a ração diária; na sexta-feira recolhe-se também a ração da manhã seguinte, que é dia de descanso. Esta pista nos leva ao Pai-Nosso, que recitamos antes da comunhão. Um adjetivo enigmático do grego, epiousion, foi traduzido em um caso por “cotidiano”, em outro por “supersubstancial”. Uma tradição semítica antiga o entendeu como “iminente, de amanhã”. Isto nos dá duas leituras, que concordam com a nossa eucaristia: é o pão de cada dia e é o pão do amanhã. Isto é, o pão diário de nossa peregrinação, o pão do amanhã celeste, que se antecipa para alimentar-nos com a vida futura imortal. Porque o amanhã é o dia de descanso: descanso definitivo, que se antecipa na celebração periódica do dia do Senhor.

 

5. Outro texto favorito da tradição é o banquete da Sabedoria apresentado em Provérbios 9. Sabedoria ou Sensatez aparece personificada como dama nobre que convida a um banquete. O capítulo 9 fecha a seção inicial do livro e se abre ao que segue; dessa forma, o resto do livro é como o banquete rico e variado, preparado para o gozo e consumo: “A Sabedoria construiu a sua casa, talhando suas sete colunas. Abateu seus animais, misturou o vinho e pôs a mesa. Enviou as suas criadas para anunciar nos pontos que dominam a cidade: ‘Os ingênuos venham aqui; quero falar aos sem juízo: Vinde comer do meu pão, e beber do vinho que misturei. Deixai a ingenuidade e vivereis, segui o caminho da inteligência’” (Pr 9,1-6).

Também a Sabedoria de Eclo 24 convida com seus frutos: “Vinde a mim todos os que me desejais, fartai-vos de meus frutos. Porque a minha lembrança é mais doce do que o mel, minha herança mais doce do que o favo de mel. Os que me comem terão ainda fome, os que me bebem terão ainda se­de” (Eclo 24,19-21).

Como Paulo chamou a Cristo “Sabedoria de Deus” (1Cor 1,30), a tradição secular aplicou a Cristo os textos citados, referindo-os especialmente à eucaristia. Ele nos oferece sua sabedoria paradoxal e superior, e se nos oferece como sabedoria consumada. É preciso refletir sobre este último dado.

 

6. O banquete eucarístico. Espero que agora possamos dilatar a nossa visão. Uma das finalidades da recente reforma litúrgica era favorecer a participação. Participar e partilhar são nossos verbos condutores. Celebrar missa e não só ouvi-la. Comungar e não só assistir. Na comunhão culmina o partilhar, mas não se limita a ela.

A comunidade partilha antes as leituras ou a audição da palavra de Deus. Já Agostinho observou o fato de que uma palavra única, que soa em boca de um, se reparte sem partir-se, chega a todos por igual, e por convergência cria um círculo de atenção. Todos partilham o pão da palavra, cada um segundo a sua capacidade e necessidade; nem a um sobra nem a outro falta. E partilhando-o, estreitam sua unidade. A palavra não é monopólio de alguns escolhidos (como podiam dar a impressão as leituras em latim). Nas leituras se nos entrega essa sabedoria ou sensatez de Cristo, que deve ir modelando o nosso pensar e sentir cristão. Mais do que teorias uniformes, precisamos assimilar a sensatez do Evangelho, todos e cada um, até que se converta em nosso “senso comum” cristão. É um processo que na eucaristia tem seu tempo privilegiado.

Respondendo à proclamação, podemos recitar unânimes a nossa profissão de fé e cantar em uníssono ou em harmonia nosso comum sentir (também o contraponto poderia apresentar-se como modelo de unidade na variedade das vozes). Há melhor imagem da unidade desejada do que a música? Há uma partitura, cada um canta sua parte, um dirige, e o espaço inteiro que nos envolve ajusta e acopla suas vibrações, invade-nos gozosamente, transporta-nos pelo som para um mundo do espírito. Também a escuta silenciosa de uma peça instrumental pode unir e fundir a todos.

Na celebração eucarística há outra comunhão paradoxal, que é a confissão de pecados. Além da carga pessoal de pecados que cada um carrega, há culpas da comunidade compartilhadas. Vimos como os israelitas se sentiam unidos na confissão de pecados comuns. É que confessar dessa forma é aceitar responsabilidades comuns e partilhadas. Se partilhamos uma responsabilidade, também partilhamos solidariamente os erros consequentes. E se houve responsabilidades comuns no passado, elas existem no futuro próximo: são as tarefas comuns. A eucaristia pode desenvolver em nós também esse sentido comunitário.

Para a comunhão em sentido estrito bastará recolher coisas já ditas ou apontadas. Uma só carne se reparte a todos (como Davi na festa da Arca). Um único sangue circulando pelo corpo da comunidade, levando o oxigênio do Espírito a cada célula. Como o ar que nos envolve e respiramos sai modelado em palavra e propaga a vibração e é mediador de comunicação verbal. Como a luz que nos envolve e atua em nós, refletindo-se revela nossa figura pessoal e é mediadora de presença mútua. Assim o corpo glorificado de Cristo se faz meio de comunicação e comunhão. Entra ele em nós? Ou antes entramos nós nele? Com esta realidade superamos a memória partilhada sem anulá-la.

 

7. Os textos litúrgicos não são muito generosos em expor ou explicar esse aspecto; como se à palavra sucedesse finalmente a ação e o silêncio. O texto desta parte da eucaristia é simples: Pai-Nosso com seu prolongamento, a paz, apresentação do “Cordeiro de Deus”, palavras do centurião. Alguns têm a impressão de que a coisa se precipita. Melhor seria dizer que se remansa, no silêncio. Também o silêncio pode ser partilhado como uma plenitude: porque estão todos “cheios do Senhor, como as águas enchem o mar” (Is 11,9).

Terei que buscar no próprio do missal para aduzir alguns textos pertinentes. Do segundo domingo do Tempo Comum: “Penetrai-nos, ó Deus, com vosso Espírito de caridade, para que vivam unidos no vosso amor os que alimentais com o mesmo pão”.

Do quinto domingo do Tempo Comum: “Ó Deus, vós quisestes que participássemos do mesmo pão e do mesmo cálice; fazei-nos viver de tal modo unidos em Cristo, que tenhamos a alegria de produzir muitos frutos para a salvação do mundo”.

Do décimo primeiro domingo: “Ó Deus, esta comunhão na eucaristia prefigura a união de todos os fiéis em vosso amor: fazei que realize também a comunhão na vossa Igreja”.

Do vigésimo sexto domingo: “Ó Deus, que a comunhão nesta eucaristia renove a nossa vida, para que, participando da paixão de Cristo neste mistério, e anunciando a sua morte, sejamos herdeiros da sua glória”.

Parece-me significativo que justamente na liturgia para a união dos cristãos se encontrem textos tão significativos sobre comunhão e união. Pede-se que se “forme uma só família com o vínculo do amor e da fé verdadeira”, que trabalhemos por “unir todos os crentes com o vínculo da paz”; que “superando toda divisão entre os cristãos, vossa Igreja se recomponha em comunhão perfeita”. Uma pós-comunhão diz assim: “Que esta comunhão eucarística, sinal de nossa fraternidade em Cristo, santifique a vossa Igreja com o vínculo do amor”.

Conscientes de que a união é uma tarefa, uma oração pede o dom do Espírito “para que a busca sincera e o compromisso comum, reconstruam a unidade perfeita de vossa família”. E um dos intróitos recolhe o texto clássico da carta aos Efésios 4,4-6: “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como há uma só esperança da vocação com que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos”.

 

8. A comunhão da eucaristia prolonga-se no antes e no depois. Antes, porque já deve haver comunidade para que haja comunhão; porque é preciso partilhar muitos bens antes de partilhar o corpo e o sangue de Cristo. Depois, porque a comunhão eucarística é exemplo e impulso para continuar partilhando e comunicando.

Em última instância, é o egoísmo que nos impede ou dificulta o partilhar e comunicar. Aferramo-nos a nossas posses, também às espirituais, fechamo-nos em nós mesmos. Hoje temos tantos meios de comunicação; será que aumenta na mesma proporção a comunicação entre as pessoas? Na melhor das hipóteses, estes meios nos comunicam apenas informações, e até podem impedir que as pessoas se comuniquem entre si. O que em geral acontece é que ficamos afogados e sepultados em dados, até ficarmos incomunicáveis.

É verdade que comunicar informações é uma forma de partilhar, pois a informação pode ser muito valiosa. Mas não é tudo. É verdade que um pudor espontâneo nos move a esconder nossa interioridade. Por isso é mais preciosa a comunhão do íntimo.

A comunhão eucarística pode ser escola de comunhão. Partilhamos o corpo e o sangue glorificados de Cristo porque o Pai nos comunicou seu Filho: uma pessoa, não uma simples informação. “Quem não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós, como não nos haverá de agraciar em tudo junto com ele?” (Rm 8,32). Mais ainda, o Pai nos comunica o Filho, que é comunicação. Porque em Deus tudo é comunicação da totalidade do ser, a comunicação do ser é o ser ou consistência das pessoas. O Pai, tornando-nos participantes de seu Filho inteiro, nos dá o exemplo e a capacidade de comunicar: “Nesse dia compreendereis que estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós” (Jo 14,20). “Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós” (Jo 17,21).

 

Pe. Luís Alonso Schökel, sj