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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 2010 (pp. 22-27)

Estratégias e metodologia pastoral de Paulo nas grandes cidades do seu tempo: inspirações para a evangelização hoje

Por Pe. José Ademar Kaefer, svd

Introdução

Falar da estratégia e metodologia pastoral de Paulo é, em grande parte, falar da pessoa de Paulo, do seu entusiasmo, do seu caráter, da sua mística, do seu sonho, da sua paixão… Tem a ver com o modo pelo qual ele se relacionava com as pessoas, como as cativava com o seu ensinamento e com a sua prática. Paulo não pregava a si mesmo. Anunciava a Jesus de Nazaré, o crucificado. Não se vangloriava, ao contrário, considerava-se o último dos chamados por Jesus. Não hesitava, porém, em se propor como exemplo a ser seguido; não como mérito, mas para mostrar que seguir a Jesus crucificado exige transparência, desapego e coerência. Falar das estratégias pastorais de Paulo é falar de como ocupava o seu tempo e envolvia as pessoas que trabalhavam com ele, como as respeitava e encorajava, como planejava, como rezava, como amava as comunidades… Toda a sua vida estava voltada para a missão. Parece que não descansava nunca. Paulo respirava evangelho. Era um apaixonado pela mensagem de Jesus.

 

1. As grandes cidades da missão de Paulo

Importante estratégia de Paulo foi ir aonde o povo está, nas grandes cidades do seu tempo. As maiores ficavam junto às principais vias comercias, marítimas ou terrestres. Boa parte eram cidades portuárias, localizadas no mar Mediterrâneo, Egeu e Adriático, como Éfeso e Corinto. O número de seus habitantes variava entre 100, 200, 300 e até 500 mil. Outras cidades eram próximas de importantes vias terrestres, como é o caso de Filipos, uma colônia romana, que ficava junto à via Egnatia. Construída entre os anos 146 e 120 a.C., a via Egnatia ligava Roma à Ásia Menor e ao Oriente. Por ali passavam grande parte dos tributos e espólios que vinham dos povos subjugados e iam para Roma. Ao contrário do comércio por mar, o comércio por terra era viável o ano todo.

Portanto, as cidades por onde Paulo andava eram essencialmente comerciais. Ali se comprava e se vendia praticamente tudo. Ap 18,11-13 nos apresenta bom resumo do que se comercializava nesses grandes centros. Assim diz o autor do livro das Revelações a respeito dos mercadores postados a distância, vendo a queda de Roma, “a grande Babilônia” que embriagava as nações:

E os mercadores da terra choram e pranteiam sobre ela porque ninguém mais compra os seus carregamentos: carregamentos de ouro e de prata, de pedra preciosa e de pérolas, de linho fino e de púrpura, de seda e de escarlate; toda madeira aromática, todo objeto de marfim e de madeira preciosa, de bronze, de ferro e de mármore; canela de cheiro, especiaria, incenso, mirra e perfume; vinho, azeite, flor de farinha, trigo, gado, ovelhas, cavalos, carros, escravos e vidas humanas.

 

Esse é o texto do Novo Testamento mais denso, abrangente e expressivo sobre o tipo de comércio realizado nas cidades do império romano. O movimento nos portos era intenso. Neles, além do comércio, que incluía escravos e escravas, era grande o fluxo de pessoas, pois o transporte marítimo era importante meio de locomoção. Consequentemente, nessas cidades havia sempre muita diversidade cultural, pessoas que iam e vinham de diferentes regiões, com diferentes costumes e crenças, quase todas em busca de melhores condições de vida.

O que movia essas cidades era o fator econômico, e neste caso, o comércio. Herdado dos gregos, o sistema econômico do império romano se sustentava no seguinte tripé: o modo de produção escravagista, o livre comércio e a intensificação do uso da moeda como elemento de troca. Esse sistema permitiu o surgimento de uma nova classe, a classe comercial, que, independentemente de sua origem, aristocrata ou não, podia enriquecer e adquirir poder — algo muito raro no sistema anterior, movido pelo modo de produção tributário. Em última instância, o interesse dessa classe mantinha o atual sistema.

Para manter esse sistema, o império investia fortemente em propaganda no intuito de convencer os povos de que o mundo estava vivendo grande momento de paz: a pax romana. Dizia-se: “Não há nada que o homem possa desejar dos deuses que Augusto, o rei de Roma, não possa conceder ao mundo”. Completavam o círculo o culto às divindades greco-romanas e ao imperador, que em tempos de crise se intensificava, e um poderoso e bem treinado exército.

Se, por um lado, o modo de produção escravagista respondia pelos produtos para o livre comércio, por outro, produzia uma multidão cada vez maior de pobres, doentes e famintos. Como indica o próprio nome desse modelo, era sustentado sobretudo por escravos. Uma multidão insatisfeita à espera e à procura de propostas alternativas. Essa insatisfação se manifestava nas constantes revoltas, sempre reprimidas com extrema violência: torturas, humilhações públicas, crucificações etc. As principais vias eram os lugares prediletos para expor os corpos crucificados dos revoltosos.

 

2. Paulo e a opção pelos excluídos e excluídas

Assim como muitos dos seus compatriotas, Paulo se movia com muita desenvoltura nesse ambiente comercial greco-romano. Nascido em Tarso, na Cilícia, conforme os Atos dos Apóstolos (At 22,3), viveu grande parte da sua vida nas cidades greco-romanas. Por isso devia saber falar muito bem a língua grega e conhecer os meandros desse mundo.

Uma das marcas do apóstolo foi a transformação que ele sofreu em sua vida pessoal (cf. Gl 1,13-24; At 9,1-9; 22,1-11; 26,9-18), normalmente conhecida como “a conversão de Paulo”. Mudanças são comuns em grandes homens e mulheres — lembremo-nos, por exemplo, de Oscar Arnulfo Romero. Como se deu essa mudança em Paulo? Certamente não foi uma surpreendente “queda do cavalo” (At 9,1-9). O mais exato é considerar que o testemunho dos cristãos perseguidos, particularmente os martírios, como o de Estêvão (cf. At 6,8-8,4), causaram grande impacto na vida de Paulo. No entanto, a maior mudança que ele sofreu não foi a de judeu zeloso para cristão fervoroso, mas a de posição social. De homem respeitado, da tribo de Benjamim, educado aos pés de Gamaliel, cheio de zelo pela Lei e possível cidadão romano e membro do Sinédrio (cf. Fl 3,5-8; At 16,37; 22,1-3.35; 26,10), Paulo assumiu a condição de desempregado, pobre, perseguido, humilhado, sem segurança, sem casa, membro de uma seita que vivia à margem da sociedade. Para garantir seu sustento, sujeitou-se ao trabalho manual (1Cr 4,12; At 20,34) relegado aos escravos e considerado vergonhoso pela mentalidade greco-romana. Enfim, a maior mudança que ele sofreu foi a mudança sociológica.

Essa mudança sociológica, obviamente, influenciou muito a Paulo em sua estratégia pastoral. Em At 17,16-34 ocorre um episódio curioso. Paulo se encontra em Atenas e, enquanto espera a chegada de Silas e Timóteo, percorre a cidade no intuito de anunciar Jesus. Atenas era um centro cultural grande e famoso pela presença das mais variadas correntes filosóficas. Paulo vai primeiro à sinagoga, como era seu costume, e depois à praça pública ou ágora, onde os filósofos debatiam entre si e outros buscavam aí as últimas novidades. Ele também vai à praça para “vender seu peixe”, à moda dos filósofos. Então estes o convidam a expor a sua nova doutrina no areópago, que outrora era o tribunal de Atenas, mas nesse momento, ao que parece, se tornara um espaço de debates filosóficos e religiosos. Em nossos dias, é como se o apóstolo fosse convidado ao anfiteatro da universidade. Ele, então, como um “bom filósofo”, fundamentando bem os seus argumentos, inicia o seu discurso diante dos magistrados. No entanto, sua estratégia de convencer os cidadãos atenienses em seu terreno e fazendo uso de suas premissas filosóficas não dá resultado. Nem lhe permitem terminar o discurso. Foi um fracasso. Frustrado com Atenas, Paulo se dirige à cidade de Corinto e vai morar com o casal Priscila e Áquila, exercendo a mesma profissão que eles (At 18,1-3). Em Atenas, Paulo queria ser filósofo; em Corinto, vai ser fabricante de tendas.

Em Corinto, Paulo tem sucesso. Tendo aprendido a lição em Atenas, em Corinto ele não se apresenta com o “prestígio da palavra ou da sabedoria para anunciar o mistério de Deus… sua pregação nada tinha de discurso persuasivo da sabedoria… a fim de que a fé da comunidade não se fundasse sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1Cor 2,1-4). Em Corinto, diferentemente do ocorrido em Atenas, muitos acolhem e entendem a mensagem de Jesus crucificado. Ali, Paulo consegue organizar uma grande comunidade, algo que não conseguiu em Atenas. Obviamente, nessa comunidade, não há muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos ou de famílias de prestígio, pois, diz Paulo, o que é loucura no mundo Deus escolheu para confundir os sábios, e o que é fraqueza no mundo Deus escolheu para confundir os fortes (1Cor 1,26-27). Nesse quesito, nossas comunidades hoje estão muito bem, as coisas não mudaram.

Paulo começa a conhecer Jesus crucificado, de fato, quando vai morar com as famílias, trabalhar com e como elas, passar fome, insegurança, sofrer desprezo e perseguição. As pessoas começam a entendê-lo quando ele começa a entender as pessoas. Ou seja, quando se torna pobre entre os pobres e excluídos. Aí está o segredo da estratégia pastoral de Paulo. Os pobres entendem a linguagem da cruz, sem a necessidade de grandes filosofias. Aliás, a sabedoria da linguagem e a cruz não são compatíveis: “Cristo me enviou para anunciar o evangelho sem recorrer à sabedoria do discurso, para não tornar inútil a cruz de Cristo” (1Cor 1,17). Os pobres e marginalizados têm necessidades diferentes das apresentadas pelos que estão bem instalados: “os judeus pedem sinais e os gregos procuram sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,22-23). Para chegar a essa conclusão, Paulo teve de viver primeiro a experiência do fracasso no areópago de Atenas e do desprezo de seus compatriotas nas sinagogas, para então sentir-se acolhido em igual condição pelos sofredores do mundo, pelos “descartáveis” da humanidade. Teve de passar por grande mudança de vida para poder dizer o que diz em 1Cor 4,11-13: “Até a presente hora sofremos fome, sede e vestimos trapos. Somos esbofeteados e não temos morada certa; nos afadigamos trabalhando com as próprias mãos; somos insultados e bendizemos, perseguidos e suportamos; somos difamados e consolamos. Até agora nos tornamos como o lixo do mundo, a escória de todos”.

 

3. A mística da gratuidade e do serviço

O que conduzia e mantinha Paulo na missão era a sua mística, uma mística da gratuidade. Ele era um apaixonado pelo evangelho, e um apaixonado não mede esforços. É capaz de ir até o fim do mundo para alcançar o seu objetivo, sofrer privações, fome, frio, humilhações, prisões… não importa. Paulo gostava do que fazia, estava totalmente convicto da sua missão, não exigia pagamento ou qualquer tipo de remuneração. Nem sequer quando estava em situações de dificuldade extrema ele permitia que as comunidades o ajudassem, exceto Filipos, uma de suas comunidades mais queridas (cf. Fl 4,15-16). Como ele mesmo diz: “aprendi a adaptar-me às necessidades, sei viver modestamente… tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,12-13).

Este é um princípio que, nas pastorais de hoje, está se tornando cada vez mais escasso: a gratuidade. Mais e mais pessoas a serviço do evangelho exigem remuneração. Isso desvirtua o sentido da obra, pois o anúncio do evangelho é essencialmente gratuito. Também nesse particular Paulo tem muito para nos ensinar. Entre os vários exemplos, tomemos o de Fl 2,1-17. A querida comunidade de Filipos passa por uma tensão interna, pois entre os seus membros havia uma competição para saber quem era superior ao outro. Esse era um problema comum nas primeiras comunidades cristãs. No caso de Filipos, o fato se dava principalmente pela influência externa. Filipos era importante colônia romana, e grande parte dos seus moradores eram cidadãos romanos, funcionários aposentados, militares, latifundiários etc. A cidade se orgulhava de viver à moda de Roma. A competição por status social estava na ordem do dia. Essa mentalidade invadia também a pequena comunidade cristã de Filipos, que não conseguia ficar isenta da influência do resto da sociedade. Paulo chama a sua atenção, apresentando como exemplo o próprio Jesus, e para isso faz uso de um dos hinos mais bonitos de suas cartas: Fl 2,6-11. O hino mostra como Jesus, sendo Deus, não se apegou a essa condição, mas esvaziou-se a si mesmo, tomou a condição de servo, assemelhou-se aos homens, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,6-8). Esse exemplo de Jesus desarma qualquer argumento. Não há como não entender isso. Aqui Paulo nos põe em sintonia com o Servo Sofredor do Segundo Isaías e com um dos gestos mais bonitos e marcantes de Jesus, o lava-pés (Jo 13,1-15). Fazer-nos servos ou — segundo outra tradução possível — escravos é a atitude mais leal que podemos ter no seguimento de Jesus. O servo sofredor, o lava-pés e o hino da carta aos Filipenses deveriam ser o guia de cabeceira em nossas pastorais.

 

A mística do martírio

Paulo, além da mística da gratuidade e do serviço, viveu a mística do martírio. Não é difícil perceber isso nas entrelinhas de suas cartas. Na carta aos Filipenses, certamente escrita na prisão, ele manifesta isso claramente. Assim diz a certa altura da carta: “Para mim, pois, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se o viver na carne é para mim motivo de trabalho frutífero, não sei o que escolher. Estou entre dois desejos, o de partir e estar com Cristo, que é incomparavelmente melhor, mas permanecer na carne é mais necessário por causa de vocês” (Fl 1,21-23).

Na prisão, Paulo se encontra num dilema: morrer ou viver. De um lado, encontra-se diante da morte e chega a desejá-la. É um fato real, pois na prisão, diante das ameaças e torturas, as esperanças vão se esvaecendo. A morte parece não assustar, pois, para quem busca viver cada minuto em Cristo, o morrer é o encontro pleno e definitivo com ele: “se viver é Cristo, o morrer é lucro”. No entanto, pela causa do evangelho, é mais importante permanecer vivo e assim continuar a serviço da comunidade. Mas, diz Paulo, “se o meu sangue for derramado em libação, em sacrifício e serviço de vossa fé, me alegro e me rejubilo com todos vocês; e vocês também se alegrem e se rejubilem comigo” (Fl 2,17).

A Igreja dos primórdios levava como marca inerente o martírio. Dar a vida pela causa de Jesus Cristo era o testemunho mais autêntico que um cristão podia dar. Também na Igreja da América Latina, o martírio deixou marcas profundas e permanentes. Hoje em dia, porém, o martírio parece estar fora de moda. Até soa antiquado falar em morrer pela causa do evangelho. Será que se acabaram as injustiças no mundo? Será que já estamos chegando à plenitude dos tempos? Não será que nos estamos desviando da senda que Jesus trilhou?

 

4. A casa

A Igreja nasceu na casa. Isso é evidente nas cartas de Paulo. É comum vê-lo dirigir-se às lideranças das comunidades com a seguinte frase: “À Igreja que se reúne em sua casa” (cf. Rm 16,3.5; 1Cor 16,19; Fm 2; Cl 4,15; At 2,46). Paulo não se deu bem nas sinagogas. Como ele as conhecia bem e falava a mesma linguagem dos frequentadores, começou ali o seu anúncio. Mas, ao ver que seu trabalho não avançava, mudou de estratégia e começou a se dirigir às casas. Continuava indo às sinagogas para falar de Jesus, mas a comunidade nascia fora dela, na casa. Assim, também, Jesus gostava de frequentar as casas. Ia às sinagogas e ao templo para denunciar e enfrentar as autoridades, mas depois se retirava e entrava nas casas, onde ensinava, curava, comia e celebrava. É numa casa onde Jesus celebra a última ceia, na parte superior dela (cf. Mt 26,17-18; Mc 14,12-16; Lc 22,7-12). É também às casas que os discípulos são enviados (cf. Mt 10,12-13; Mc 6,10). A casa dá um contorno próprio à comunidade. A hospitalidade, o afeto, o carinho da casa permitem que as pessoas se sintam à vontade. Nela se conhece como a pessoa é, o que ela faz, como vive, o que come… diferentemente do templo, onde se conhece a aparência da pessoa. Na casa as relações não passam necessariamente pelo poder, mas pela fraternidade, pela irmandade e pela filiação. Paulo gosta de usar a linguagem da casa quando se dirige às comunidades. É comum vê-lo chamar as pessoas de irmãos, irmãs, filhos e pais, assim como o próprio Jesus (cf. Jo 13,33). É também comum vê-lo pedir que todos se tratem como irmãos e irmãs. Entre os primeiros cristãos, casa, lar e Igreja se misturavam. Na Igreja da casa, não são nem os apóstolos nem Paulo que determinam as relações, mas a família. A autoridade, em última instância, é do homem, do pai da casa. Mas, no dia a dia, é a mulher, a mãe, quem tem o comando. Em muitos casos, ambos, o casal, são também os fundadores da igreja.

Em nossos dias é preciso resgatar a pastoral da casa, a igreja da casa. Do contrário perderemos o sentido comunitário da Igreja e seremos apenas templo. No templo o celebrativo torna-se rito, o poder se concentra e as relações entre os participantes não existe.

 

5. Lideranças leigas

É impressionante a participação de lideranças leigas nas primeiras comunidades cristãs. Aliás, o cristianismo nascente, na sua essência, é leigo, nasce dentro do judaísmo como uma espécie de “seita”. Os primeiros seguidores e seguidoras de Jesus não pertencem ao clero do judaísmo. São pescadores, em sua maioria. Quando a Igreja primitiva começa a criar pequena estrutura, tendo à frente os apóstolos, particularmente Tiago, Pedro e João, são os não pertencentes à hierarquia os principais responsáveis pela divulgação do evangelho. Diz o livro dos Atos dos Apóstolos que houve um conflito entre as duas comunidades cristãs em Jerusalém, a dos hebreus e a dos helenistas. Estes reclamavam que suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária (At 6,1-6). Para que os apóstolos possam se dedicar exclusivamente à Palavra, são escolhidos sete homens, todos gregos, para servir à mesa. O curioso é que os sete diáconos não se atêm ao serviço à mesa, mas em seguida se dedicam à Palavra, que, aliás, será a causa da morte de Estêvão, primeiro na lista dos escolhidos e primeiro mártir da Igreja. Depois da morte de Estêvão, começa forte perseguição aos cristãos helenistas de Jerusalém e todos, exceto os apóstolos, se dispersaram (At 8,1-2). “Entretanto, os que haviam sido dispersos iam por toda parte anunciando a Palavra” (At 8,4). E, assim, segundo o livro dos Atos dos Apóstolos, com os cristãos helenistas nascem as comunidades cristãs. E as comunidades vão dando o contorno à Igreja. O cristianismo, portanto, não se vai formando de dentro para fora, mas de fora para dentro. Ou seja, os cristãos que se dispersaram para os diferentes lugares, cidades e países encontraram culturas e religiosidades distintas e, no contato com elas, formaram as comunidades, cada uma com sua própria experiência. Isto é, a mensagem de Jesus não vem pronta e empacotada, mas vai sendo gestada com base nas culturas aonde os dispersos chegam. Isso obviamente gerou grandes conflitos entre as comunidades nascentes, coordenadas pelo novo discipulado, e a comunidade mãe de Jerusalém, encabeçada pelos apóstolos. Basta ver os atritos que Paulo, um cristão helenista, teve com os que ele chamava de “as colunas da Igreja” (cf. Gl 2,1-14; At 15,1-21). O novo, porém, sempre gera conflito. O importante é superá-lo sem romper.

Enfim, as lideranças leigas tiveram papel decisivo na formação da Igreja primitiva. Paulo foi um dos seus principais promotores. Podemos dizer que contar com leigos e leigas foi uma de suas principais estratégias pastorais. Ele andava sempre com muitas pessoas, deixava-se ajudar por elas na missão, valorizava seu trabalho, incentivava-as e compartia responsabilidades. Silas, Barnabé, Timóteo, Lídia, Dâmaris, Tabita, o casal Priscila e Áquila etc. estão entre os seus principais companheiros e companheiras de caminhada. Em suas cartas, sempre faz questão de saudar muitas lideranças, mencionando seus nomes. A carta aos Romanos apresenta incrível lista de 30 pessoas saudadas por Paulo (cf. Rm 16,1-16). Ainda que haja grande questionamento sobre se essas pessoas realmente pertenciam à comunidade de Roma — pois como Paulo poderia conhecer tanta gente sem nunca ter estado lá? —, tudo indica tratar-se de pessoas conhecidas pelo apóstolo, provavelmente da comunidade de Éfeso, onde ele morou muito tempo, e mencionadas na carta aos Romanos. O interessante é que, das 30 pessoas que Paulo saúda ou recomenda, 11 são mulheres. Além do já conhecido casal de lideranças, Priscila e Áquila, há entre elas uma mulher de nome Febe. Ela é diaconisa da Igreja de Cencreia e é enviada por Paulo para expor e debater, em seu lugar, o conteúdo da carta com a comunidade. Na lista ainda chama a atenção um casal, Andrônico e Júnia. Eles são apóstolos, precederam Paulo na fé e foram seus companheiros de prisão.

Na América Latina, leigos e leigas tiveram e têm papel determinante dentro da Igreja. É possível dizer que sem eles e elas a Igreja na América Latina não existiria. No entanto, ainda são um potencial a ser descoberto. É preciso investir mais na formação de leigos e leigas e permitir que seu raio de ação e participação nas decisões se multiplique, principalmente no caso das mulheres.

 

6. A comunidade cristã: um projeto alternativo

Outro aspecto decisivo da ação pastoral de Paulo é a insistência no projeto alternativo que a comunidade cristã deve construir. Enquanto o modelo do império exclui, marginaliza, escraviza, divide a sociedade em classes, prioriza o lucro, a luta pelo poder e por status social, a comunidade cristã deve incluir, integrar, partilhar, promover a igualdade social, a fraternidade, a solidariedade e o amor. Para Paulo, está muito claro que o projeto alternativo do evangelho de Jesus crucificado passa necessariamente por essas novas relações sociais. Em 1Cor 6,1-8, Paulo chega a exigir uma ruptura com a sociedade opressora e corrupta. A comunidade de Corinto passava por rixas internas, e por isso alguns membros denunciavam os seus próprios irmãos nos tribunais iníquos da cidade. Paulo condena severamente essa atitude: “como vocês podem constituir juízes àqueles que a Igreja despreza?” (1Cor 6,4). Como é que um tribunal corrupto pode julgar a causa dos santos? Paulo diz à comunidade que rompa com esses tribunais e ela mesma escolha pessoas entre os seus para julgar as causas da comunidade.

Outra experiência que expressa a diferença entre a comunidade cristã e o resto da sociedade é a Ceia do Senhor. Enquanto, nos banquetes aos ídolos, as pessoas mais importantes ocupavam os primeiros lugares e comiam as melhores comidas, na Ceia do Senhor todos os membros da comunidade participavam sem distinção e preferência. Mesmo os que não tinham com que contribuir, como os mais pobres, os escravos, também sentavam à mesa e partilhavam do alimento. Obviamente isso não era muito fácil. Imaginemos um senhor de escravos tendo de sentar-se à mesa e comer com o seu escravo. É o caso de 1Cor 11,17-34: por influência da sociedade, algumas pessoas da comunidade, que tinham melhores condições, não queriam se misturar com os demais e comiam sua própria ceia à parte; “enquanto um se embriagava, o outro passava fome” (1Cor 11,21). Paulo critica duramente essa atitude, pois a Ceia do Senhor é o momento alto em que a comunidade vive já a plenitude da fraternidade, da partilha e da fé e todas as diferenças sociais devem desaparecer. Por isso Paulo insiste tanto para que os cristãos não participem dos banquetes oferecidos aos ídolos (cf. 1Cor 10,14-22): se a Ceia do Senhor é a expressão máxima do projeto da solidariedade e do amor anunciado por Jesus Cristo, os banquetes aos ídolos são a expressão máxima do sistema opressor que matou Jesus Cristo e persegue as comunidades.

Assim como as primeiras comunidades, é fundamental que nossas pastorais tenham claro o projeto que buscam construir. Que as novas relações sociais manifestas essencialmente na Ceia do Senhor tenham o mesmo impacto transformador de outrora.

 

Pe. José Ademar Kaefer, svd