Artigos

Publicado em Julho-Agosto de 2001 (pp. 23-30)

Grito de uma jovem escrava (At 16,16-18)

Por Enilda de Paula Pedro, cbp; Maristela Tezza, cic; Shigeyuki Nakanose, svd (Centro Bíblico Verbo)

Bernadete, uma jovem de 22 anos, prostituta muito procurada na praia de São Sebastião, litoral norte de São Paulo, era muito comunicativa e alegre, apesar de ser portadora do vírus HIV. Bebia muito e conseguia obter um considerável lucro para a casa, pois aprendera até algumas palavras e expressões em grego para atrair os turistas e marinheiros de regiões da Grécia, que chegam em quantidade ao cais. A jovem começou a frequentar o Centro de Convivência, local de reunião, oração e estudo profissional do bairro. Bernadete quis fazer catequese para a primeira comunhão. Esse dia era muito esperado por ela. Marcos, um jovem do grupo de reflexão bíblica, ia todas as tardes ensinar-lhe o catecismo. Ela se arrumava com gosto para esperá-lo.

Pouco a pouco, Bernadete foi tomando consciência da proposta de vida em abundância que Jesus lhe oferecia na comunidade dos irmãos e irmãs que se dispunham a acolhê-la em seu meio. Não podia mais continuar na situação de morte na qual estava mergulhada. A dona da boate, percebendo que ia perder “a menina” e com ela o lucro que obtinha, deu fim na garota. Da noite para o dia mandou-a para a zona de Santos e nunca mais descobriram onde ela estava. E os agentes de pastoral da área foram impedidos de dar continuidade ao seu trabalho naquele local.

Bernadete era mantida como escrava. Ela não dispunha do dom de sua vida, pois não podia fazer nada que prejudicasse os lucros da gerente da casa. Situação semelhante é vivida por tantas outras mulheres, nas mais diferentes realidades. Pessoas que, de muitas formas, vivem submetidas àqueles e àquelas que assumem a função de ser seus donos. Manipulam suas vidas, decidem suas ações, administram seus lucros, sua forma de ser, enfim, condicionam até mesmo sua forma de pensar e de agir.

Tal realidade de escravização também esteve presente na sociedade das primeiras comunidades cristãs. O livro dos Atos nos relata uma história muito parecida no capítulo 16,16-40, mais precisamente nos versículos 16 a 18. É a história de uma jovem escrava explorada por seus patrões.

 

1. Olhando o conjunto da história narrada em At 16,16-40

A história da jovem escrava está inserida no bloco de textos onde se encontra a segunda viagem missionária de Paulo (15,36-28,31). Nessa viagem Paulo fundou, na cidade de Filipos — colônia romana —, a primeira comunidade da Macedônia e da Europa (16,11-15).

Filipos, principal cidade da região da Macedônia, tinha uma população constituída, em sua grande maioria, de militares aposentados. Esses homens possuíam a cidadania romana, que lhes dava muitos privilégios, como, por exemplo, a isenção de impostos. Além do mais, Filipos era uma cidade de cultura grega e seguia a religião imposta por Roma. O império romano respeitava o politeísmo de cada cidade desde que o imperador fosse obedecido como o único “Senhor” ou “Kyrios”. As pessoas que não se submetiam ao esquema estabelecido eram perseguidas.

Por isso os judeus foram hostilizados em várias cidades do império. Em Filipos, a aversão aos judeus pode ter sido um dos motivos pelos quais eles não conseguiram edificar uma sinagoga — cuja exigência era a participação de, pelo menos, dez homens. Tradicionalmente os judeus, bem como aqueles e aquelas que seguiam a fé judaica, se não conseguiam manter uma sinagoga por falta de membros ou por outro motivo, faziam suas orações em locais abertos — como às margens de um rio, por exemplo. Assim, na história narrada no capítulo 16 do livro dos Atos, encontramos Paulo e Silas se dirigindo a um local perto do rio para fazer suas orações diárias (At 16,13).

Nessa cidade, Paulo e Silas se encontram com um grupo de mulheres tementes a Deus. A comunidade nasce a partir desse grupo, e sua principal liderança é Lídia (At 16,14.40), uma comerciante de púrpura que, ao se converter, leva toda a sua casa a participar da comunidade cristã. Esta mulher demonstra profunda fraternidade e solidariedade. Ela não só força Paulo e Silas a permanecerem em sua casa quando estes chegam a Filipos (At 16,12), mas ainda lhes dá todo apoio nas dificuldades encontradas na missão (At 16,15.40).

Paulo e Silas permanecem alguns dias nessa cidade. Um dia, quando iam para a oração, foram abordados por uma jovem escrava que possuía um espírito de adivinhação denominado pitônico. O trabalho de adivinhação realizado pela jovem era muito rentável para os seus patrões.

A jovem escrava seguiu os missionários por vários dias, gritando: “esses homens são servos do Deus Altíssimo e anunciam o caminho da salvação para todos vocês” (At 16,17). Paulo, irritado com esse modo de agir, que deve ter atraído muitos curiosos e oponentes, criando assim perigos para seu trabalho missionário na cidade que era colônia do império, expulsou o espírito de adivinhação. Os patrões da jovem, por sua vez, furiosos por perderem sua fonte de renda, arrastaram Paulo e Silas até a ágora — a praça principal onde aconteciam os julgamentos e os debates dos filósofos. Ali os dois missionários foram acusados de perturbar a cidade e, como judeus, de propagar costumes que não eram lícitos aos romanos (At 16,21). Os membros dó tribunal mandaram despir Paulo e Silas, torturá-los, colocá-los na prisão (At 16,22-23).

 

2. A jovem escrava desaparece no meio da narrativa de At 16,16-40

O capítulo 16 do livro dos Atos, versículos 16 a 40, conta a história da jovem escrava possuída pelo espírito pitônico e a história da missão de Paulo e Silas na cidade de Filipos. A primeira história está nos versículos 16 a 18, onde temos a expulsão do espírito que a jovem escrava possuía. A partir daí a moça desaparece de cena e o texto deixa no ar o que aconteceu com ela depois[1]. O livro de Atos não a menciona mais. A segunda história (v. 19-40) relata os seguintes fatos: a perseguição e a prisão de Paulo e Silas (v. 19-24); a noite dos dois missionários na prisão (v. 25-34) e a sua libertação (v. 35-40).

Por trás desse texto percebemos a preocupação da comunidade dos Atos com a ação missionária de Paulo e os desafios decorrentes dessa missão. Basta considerar que os capítulos 15 a 28 do livro dos Atos se dedicam a Paulo e sua missão apostólica. No texto em estudo, a jovem aparece, proclama seu oráculo, é destituída do espírito de adivinhação, desaparece do texto e do conjunto do livro dos Atos. A reflexão continua sobre a missão de Paulo e Silas e os problemas enfrentados pelos dois missionários.

Eles foram arrastados à praça pública, acusados injustamente pelos patrões de perturbarem a cidade e também de estarem propagando costumes judeus. A multidão enfurecida se joga contra Paulo e Silas. Os chefes jurídicos assumem o mesmo comportamento dos patrões. Sem interrogar os acusados e sem fazer nenhum processo de averiguação dos fatos, eles são violentamente castigados e presos.

Depois de tanto sofrimento, o texto descreve, de maneira extraordinária, a noite dos dois missionários na prisão: “À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus; os outros companheiros de prisão escutavam. De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram” (At 16,25-26). O carcereiro, pensando que os prisioneiros tivessem fugido, sente medo das autoridades e quer se suicidar. Paulo e Silas acalmam-no e ele acaba pedindo o batismo para si e para toda a sua casa (At 16,27-34).

Como se pode observar na descrição de At 16,16-40, o encontro da jovem escrava com os missionários parece tratar-se de uma inserção no texto que fala da missão de Paulo e seus companheiros, mas nem por isso a presença dessa mulher e sua situação perdem sua importância. A história esta aí, a jovem faz parte deste enredo. A realidade de escravidão no império romano era um fato e, possivelmente, a sorte dessa escrava era a mesma de muitas outras. A situação dela, o seu contexto, bem como o seu grito proclamando o caminho de salvação, ajudam-nos a perceber, um pouco mais, a situação das mulheres do tempo das primeiras comunidades cristãs. Nesse breve relato pode-se entrever a angústia e, ao mesmo tempo, o conflito vivido pelas mulheres e homens daquela época ao se defrontarem com situações desse gênero.

Então, o que de fato o texto deixa transparecer sobre a jovem escrava? Vamos juntos tentar ler a história de Atos 16,16-18 com os olhos e os sentimentos de Bernadete e de tantas outras mulheres, que com seus gritos, muitas vezes sufocados, denunciam situação de escravidão e desejo de liberdade e vida plena (cf. Jo 10,10).

 

3. Olhando atentamente a história da jovem escrava de At 16,16-18

A personagem central da história narrada em At 16,16-18 é a jovem “escrava”. O termo escrava, em grego “paidiske”, aparece treze vezes no Novo Testamento, duas das quais no livro dos Atos. Esse termo pode ser traduzido também por serva, moça, criada, como em Lc 12,45 e At 12,13. Mas quando, num mesmo texto temos a palavra “paidiske” e o termo “kyrios”, patrão, dono, senhor, como é o caso de nosso texto (v. 16.19), o significado de “paidiske” é escrava.

Na sociedade romana o escravo ou escrava ocupava uma posição social inferior. Eles e elas pertenciam a um patrão que podia dispor deles conforme achasse melhor ou desejasse (Mc 14,66). O patrão ou o senhor tinha poder ilimitado sobre suas escravas e escravos, tanto para premiar (Mt 18,27), como para castigar (Mt 18,34; 25,30). Elas e eles não eram considerados pessoas. Em At 16,16-18, a jovem escrava aparece duplamente explorada: por ser escrava e por ter o dom de adivinhação, usufruído por seus patrões.

Ela possuía um espírito de adivinhação chamado de “pitônico”, que possibilitava às pessoas fazerem oráculos e profetizar. Esse espírito pertencia ao oráculo do Templo de Delfos. Delfos era um pequeno vilarejo cujos habitantes veneravam uma antiga deusa chamada Geia — a mãe terra. A deusa Geia e seu Templo eram protegidos pela serpente Píton, que proferia oráculos e profetizava.

Conforme conta a lenda, Apolo — deus greco-romano, o mais belo dos deuses —, querendo dominar o Templo de Delfos e adquirir os poderes de fazer oráculos e profetizar, mata a serpente e incorpora os poderes desta, denominando-se Apolo-Pythias, tomando-se assim senhor do Templo.

A intérprete de Apolo chamava-se Pitonisa, ela proferia os seus oráculos sentada na pele da serpente Píton, que fora derrotada por Apoio. No princípio havia somente uma Pitonisa no Templo de Delfos, mais tarde todas as pessoas que incorporavam um espírito de adivinhação eram caracterizadas como possuidoras do espírito pitônico[2]. Este espírito atuava especialmente nas mulheres agricultoras empobrecidas e oprimidas. O espírito de píton garantia certa ascensão social às mulheres por causa do interesse que despertavam nas outras pessoas.

A jovem escrava, apresentada em At 16,16-18, por ter o espírito de adivinhação, era alguém que atraía atenções e despertava interesse. Podemos suspeitar que para os seus patrões era um grande privilégio ter uma escrava com esses dons. E, ao mesmo tempo, era uma fonte certa de lucro. Isso combinava perfeitamente com a mentalidade grega, cujo grande interesse era o comércio e o lucro.

O texto diz que a jovem começou a seguir Paulo e Silas gritando… O verbo “seguir”, em grego, “katakoloutheo”, significa mais do que simplesmente caminhar atrás de uma pessoa. Ele expressa o seguimento como desejo de aprender, de ser discípula, de comprometer-se com o mesmo projeto. Esse verbo aparece apenas duas vezes no Novo Testamento, e em ações praticadas por mulheres. A primeira vez é em Lc 23,55. Neste texto, as mulheres não falam, apenas seguem Jesus, da Galileia até Jerusalém. A segunda vez é em At 16,17. Aqui a jovem segue os dois missionários “gritando” algo muito significativo, como veremos mais adiante.

O verbo “gritar” ocorre muitas vezes na Bíblia, sobretudo na boca do pobre, do oprimido, do excluído: “No meu aperto invoquei Javé, ao meu Deus lancei o meu grito” (Sl 18,7). Junto com o grito está a certeza de que o Deus da vida escuta e liberta. “Não maltrate a viúva nem o órfão, porque, se você os maltratar e eles gritarem a mim, eu escutarei o grito deles” (Ex 22,21-22). O grito dos excluídos e excluídas evidencia a busca e o desejo de sair da opressão. É o que percebemos, por exemplo, no grito dos dois cegos que se puseram a seguir Jesus: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de nós” (Mt 9,27 e 20,30); e no grito da mulher cananeia: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim, minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio” (Mt 15,22).

Em Atos encontramos vários gritos de pessoas e de grupos contra Paulo e seus companheiros de missão (At 19,28.32.34) — grito de perseguição contra a nova proposta de vida. Mas também deparamos com o grito de fé de Estêvão, que à semelhança de Jesus, clama e se entrega a Deus no momento supremo de sua vida (At 7,60). Em nossa história, a jovem escrava grita por vários dias, reconhecendo em Paulo e Silas os servos de Deus que oferecem a todos o caminho da salvação.

Paulo e Silas são chamados de “servos”. O Novo Testamento usa muitas vezes a palavra servo para designar o relacionamento de obediência que todas as pessoas devem ter em relação a Deus, em oposição à servidão do pecado (Rm 6,16). Essa é, fundamentalmente, a ação libertadora de Jesus Cristo, da qual Paulo fala: “Quem serve a Cristo nessas coisas, agrada a Deus e é estimado pelos homens” (Rm 14,18). Por outro lado, o termo servo também é usado para falar do serviço apostólico do testemunho (Cl 4,7) e do serviço de uns aos outros no amor (Gl 5,13). Em At 16,17 parece que o sentido da palavra servo está relacionado, de maneira especial, com esse serviço apostólico do testemunho e do amor que salva e liberta.

Assim sendo, da maneira como a comunidade contou o fato, o grito da jovem torna-se um anúncio profético: “Esses homens são servos do Deus Altíssimo…”. A expressão “Deus Altíssimo” era comum no contexto politeísta — até o deus romano Júpiter (Zeus para os gregos), era chamado de “Deus Altíssimo”. Os judeus, por sua vez, também empregavam a mesma expressão para falar de seu próprio Deus. A história do povo de Israel se esforça em mostrar que, entre os muitos deuses venerados, o único e verdadeiro Deus é o Deus Altíssimo, o Deus vivo de Israel: “Celebrai o Deus dos deuses, porque o seu amor é para sempre! Celebrai o Senhor dos senhores, porque seu amor é para sempre!” (Sl 136,2-3).

A jovem escrava dizia que os servos do Deus Altíssimo anunciavam o caminho da Salvação. O termo caminho, no Antigo Testamento, significa a conduta da pessoa, sua maneira de viver e de agir, sua experiência humana com seus sucessos e desgraças (cf. Is 30,21; Pr 15,10; Jó 31,4). No Novo Testamento, essa mesma palavra designa o caminho da Vida, indicado por Jesus (Mt 7,13). Jesus mesmo se coloca como o Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). No livro dos Atos, esse termo aparece com um novo significado. Ele designa os cristãos (At 11,26) porque eles seguem o caminho do Senhor (At 9,2; 19,9), anunciam o caminho da salvação para todos, sem exclusão (At 16,17).

Ou seja, ser cristão ou cristã não é simplesmente ter fé. É uma forma de viver que vai além das normas e princípios morais. É assumir no concreto da vida a vontade revelada por Deus que se manifesta na prática histórica de Jesus de Nazaré, pela ação do seu Espírito (Lc 4,18-19). Em nosso texto a jovem escrava se dispõe a trilhar o mesmo caminho de tantas outras mulheres que seguiram Jesus e seu projeto. Ela acredita na força da vida presente nas comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus e vê aí a possibilidade de salvação para si e para os outros. E… vai atrás! Persegue a chance convocando os outros e as outras a entrar nessa: “… o caminho da salvação para vocês” (At 16,17)!

Paulo ordena ao espírito: “em nome de Jesus Cristo eu te mando” (Mt 12,17; Lc 10,17). A expressão “em nome de Jesus Cristo” é paralela às formulas comuns de exorcistas que utilizavam nomes considerados mais poderosos do que os espíritos que deveriam deixar suas vítimas (At 19,13). O nome de “Jesus Cristo” é um título dado a Jesus que só tem paralelo em At 5,31; Hb 2,10 e 12,2. O sentido básico desse título para as comunidades é que, em Jesus, nós temos a fonte geradora de vida, capaz de combater os poderes da morte e, ao mesmo tempo, restituir a vida (Jo 10,10). Nosso texto conclui: “E o espírito saiu no mesmo instante” (v. 18).

O texto diz que a jovem escrava seguiu Paulo e Silas por vários dias, gritando: “esses homens são servos do Deus Altíssimo e anunciam o caminho da salvação para vocês!” (At 16,17). Esse grito persistente da jovem nos revela seu desejo de sair da situação que ela estava. Concretamente o que significava ser escrava no contexto do império romano?

 

4. Escravos e escravas

Os escravos e as escravas eram pessoas desprovidas de liberdade. Ou seja, seus direitos e seu trabalho dependiam de outra pessoa, que era seu dono-senhor (kyrios, dominus). Eles deviam obediência absoluta e exclusiva a seus patrões (Mt 6,24; 8,9). Entretanto, existiam várias formas de escravidão: os filhos de escravos e escravas; os que eram tomados como escravos para pagar suas dívidas, como narra o evangelho de Mateus (Mt 18,16-34); havia ainda os que se entregavam à escravidão para melhorar de vida — um tipo de contrato de trabalho escravo por tempo determinado em função de algum benefício.

O costume de vender-se como escravo, por um tempo limitado, transparece na prática dos cristãos que se vendiam como escravos para ganhar comida para os irmãos e irmãs de caminhada, ou para resgatar aqueles e aquelas que viviam na escravidão. Essa maneira de agir nos oferece fortes elementos para entender o contexto e o compromisso dos primeiros cristãos. É possível perceber isso nas palavras de Paulo aos coríntios: “Alguém pagou alto preço pelo resgate de vocês: não se tornem escravos de homens” (1Cor 7,23).

Não podemos nos esquecer que havia também os escravos capturados nas guerras ou pelos piratas, ou ainda na escravização militar. Conta-se que algumas guerras chegaram a produzir mais de 30 mil escravos em uma única batalha! Esses escravos eram colocados à venda em grandes feiras. Dependendo do seu local de origem, os escravos e escravas subiam de valor. Por exemplo, os escravos provenientes da Grécia valiam mais do que os escravos(as) da Germânia, Gália e Sardenha.

Embora existam alguns indícios de trabalho escravo nas fazendas e na agricultura em geral, a sua maior concentração estava nas cidades, em trabalhos domésticos, nas cortes, nos serviços mecânicos dos transportes etc. Eles conduziam e gerenciavam casas, pensões e negócios para seus senhores (Mt 25,14-30). Muitos libertos tinham seus próprios escravos. Mas jamais podiam assumir uma função de governo. Os escravos que mais sofriam eram os que trabalhavam nas minas, pois o trabalho era muito arriscado e a insalubridade do ambiente diminuía consideravelmente o tempo de vida dessas pessoas (cf. Ap 15,1-3).

Toda a organização social e familiar estava centrada no pai que exercia poder total e legal sobre os membros de sua família e sobre seus escravos e escravas. Praticamente um poder absoluto. Pode-se dizer poder de vida e morte. Os escravos e escravas eram considerados como coisas, mercadorias, propriedades de seus donos (Ap 18,11-14). Além do mais, possuíam poucos direitos perante a lei. Não havia o casamento legal para eles e elas, por isso não tinham direitos sobre suas esposas, filhos e filhas. Os filhos que nascessem de pais escravos eram propriedades dos donos a quem pertenciam os seus pais. Isso possibilitava ao patrão aceitar ou rejeitar, da forma como quisesse, a gravidez de uma escrava. Acredita-se que eles até incentivavam a gravidez de suas escravas para aumentar a mão de obra e mercadoria de lucro.

Os vários casamentos que aconteciam entre patrões e escravas produziam uma sociedade com uma grande maioria de escravos ou descendentes de escravos. Por isso a legislação romana havia decretado que nenhum senhor “podia cruzar” com mais de cem escravas até sua morte. Quando um escravo era vendido dificilmente se levava em conta a sua família, eram comercializados como objetos de um proprietário ou de um senhor.

Uma prática muito comum era o abandono das crianças recém-nascidas para controlar o número de escravas e escravos. Mas quando essas eram encontradas vivas poderiam ser criadas como escravas. Já com as crianças mais velhas era diferente. Elas eram vendidas como escravas por seus pais para pagar dívidas ou para favorecer um futuro melhor para a criança.

O proprietário de escravos e escravas era dono de seus trabalhos e, mais ainda, de seus corpos. Isso significava que essas pessoas estavam à disposição de seus senhores, sem restrições! (Mt 18,25). Essa situação era tão comum dentro do império que o apóstolo Paulo chega a alertar os senhores cristãos, donos de escravos e escravas, para não assumirem esse tipo de comportamento: “a vontade de Deus é que vivam consagrados a ele, que se afastem da libertinagem, que cada um saiba usar o próprio corpo na santidade e no respeito” (1Ts 4,3-4).

A história conserva uma antiga sátira que revela a atitude dos romanos em relação aos escravos:

— “Ordeno que crucifique aquele escravo.

Mas o que ele fez para merecer tal castigo? Quem o viu fazendo alguma coisa errada? Quem lhe trouxe alguma informação sobre ele? Pense bem: a vida do ser humano não é tão curta?

— Que perguntas são essas? Desde quando escravo é ser humano? Você enlouqueceu! Ele não fez nada de mal, mas simplesmente este é o meu desejo, a minha ordem. E o meu desejo é razão suficiente para matá-lo”[3].

Por trás dessa sátira podemos sentir o gemido e o grito dos escravos e, sobretudo, das escravas. Eles e elas podiam ser envenenados, torturados, crucificados de acordo com a vontade absoluta de seus senhores e não tinham a quem se dirigir. Isso transparece na parábola que encontramos no evangelho de Mateus: “Senhor, eu sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste, e recolhes onde não semeaste. Por isso fiquei com medo…”. Disse o patrão: empregado inútil. Joguem-no lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes” (Mt 25,25.30).

Nesse contexto podemos entender o insistente grito da jovem escrava, que, no fundo, era e é o grito de tantas mulheres que não eram e não são consideradas como pessoas, nas mais diferentes situações sociais. Tendo isso no coração, vamos nos aproximar um pouco mais da vida da jovem escrava de Atos.

 

5. Aproximando-nos da jovem escrava vidente

A jovem escrava citada nos Atos 16,16-18 vivia em situação de escravidão por que sua vida era controlada por seus donos. Como vimos no texto, a jovem recebeu do deus Apolo o dom de proferir oráculos. Embora, naquela sociedade, a mulher que proferisse oráculos tivesse certo destaque e, no caso de ser escrava, um cuidado maior por parte de seus patrões, isso não diminuía em nada a sua situação de mulher explorada. Ou seja, tal ascensão social ou dispensa de bons tratos por parte dos seus patrões não eliminava em nada a exploração e a situação de inferioridade da mulher nessa sociedade patriarcal, onde ela, sendo escrava ou não, continuava como propriedade do dono da casa.

Ao contrário, os bons tratos podiam até criar a ilusão de que o mal maior fora eliminado, amortecendo assim o espírito crítico que produz a busca de libertação: Essa é a pior escravidão. Trata-se da escravidão da própria consciência da capacidade e dignidade de ser humano. Esse é o maior roubo que uma pessoa pode fazer a outra. Pois quem arranca ou controla a consciência de uma pessoa impede-a de ter uma visão crítica da sua situação de escravidão. Consequentemente, neutraliza o seu grito por vida.

Como vimos a jovem escrava sofria dupla exploração: a escravidão de seu corpo e de seus dons. Ela não se deixou comprar pelos benefícios que seus dons lhe atraíam por parte de seus patrões. Não se contentou com as migalhas que lhe eram oferecidas. Ela vê na prática das primeiras comunidades cristãs um espaço de vida.

“As comunidades cristãs — casas —, que constituem o espaço primitivo de socialização do cristianismo apresentam certas analogias com as associações voluntárias das diversas religiões do império. Porém, as diferenças são importantes. Em primeiro lugar não são centros de simples culto doméstico, local e individualista, mas mantêm um sentido de universalidade, enfatizam o aspecto comunitário, proporcionam uma relação interpessoal e a base estável para uma estrutura social mais ampla de Igreja”[4].

A atitude da jovem escrava de At 16,16­-18 não é passiva. Ela vê na comunidade cristã, por causa de sua proposta de vida (Gl 3,28), uma alternativa à tanta exploração. A prática dos servos e das servas do Deus Altíssimo é um testemunho vivo de novas relações baseadas na igualdade e na fraternidade: “Eu já não chamo vocês de servos, pois o servo não sabe o que seu patrão faz; eu chamo vocês de amigos, porque eu comuniquei a vocês tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). Tais relações despertam e desenvolvem a consciência da dignidade do valor de ser pessoa, filho, filha de Deus — agente da própria história e da história da humanidade (Is 42,6). Esse é verdadeiramente o caminho de salvação para todos e todas. Com tal convicção, a moça grita. Sua situação de escravidão e seu grito por libertação são, em si mesmos, um anúncio e uma denúncia:

Anúncio da prática das comunidades cristãs e denúncia das estruturas, sejam elas religiosas ou civis, que não levavam à salvação. Muitas mulheres, escravas ou não, estavam padecendo nas mãos de pessoas que se utilizavam delas como objeto, produto que se usa e joga fora. E, ainda, em nome de pequenos benefícios ou agrados, justificavam uma proposta de benevolência para com a situação da escravidão.

O grito da escrava expressa o reconhecimento de que o anúncio feito por Paulo e Silas é verdadeiro, é de salvação, conduz à vida. Por isso ela os segue de maneira persistente — “por vários dias”, diz o texto. A situação estava insustentável. Urgia mudança. Mais ainda. O clamor da jovem é um anúncio de salvação universal: “para vocês”, “para todas e todos”. Quem encontrou o caminho da Salvação é impulsionada ou impulsionado a se tornar missionária ou missionário. O encontro com a vida exige que sejamos portadoras e portadores de vida para todas e todos, pela ação do Espírito (Is 61,1-2).

 

6. Escravas ontem e hoje… Caminhos de libertação

Tanto na vida da jovem escrava dos Atos 16,16-18, como na vida de Bernadete, deparamos com uma dura situação de escravidão e a consequente busca de libertação.

E hoje, quais são os gritos que chegam até nossos ouvidos? A nossa sociedade continua fabricando escravos e, sobretudo, escravas. Pesquisas recentes nos revelam dados alarmantes. “Aproximadamente 1,5 bilhão de mulheres vivem com menos de 1 dólar por dia, demonstrando a existência de um fenômeno chamado pelos estudiosos de ‘feminização da pobreza’”[5].

Na educação os dados são ainda mais lastimáveis: “dos quase 875 milhões de analfabetos do mundo, 600 milhões são mulheres”. No mundo do trabalho não é diferente. A prioridade de oferta é para os homens. E, entre as mulheres, a prioridade é para as brancas, jovens e bonitas. Além disso, mesmo em um setor onde as mulheres são maioria (56,2%), como no caso da administração pública, 52,4% dos homens com nível superior completo ganham mais de 10 salários mínimos — e apenas 29,9% das mulheres, na mesma situação de escolaridade, ultrapassam essa faixa salarial”[6].

“O problema mais grave, no entanto, continua sendo o da violência do homem contra a mulher. As mulheres vivem uma situação de desigualdade em todas as esferas da sociedade e são consideradas subordinadas e dependentes. Como decorrência desses estereótipos e da socialização baseada nessas desigualdades, todas estão sujeitas a esse tipo de violência, que consiste em pressões psicológicas, maus-tratos físicos, espancamentos, assédio sexual, estupro e até assassinatos”[7].

A situação é alarmante e exige um posicionamento da sociedade. A partir de 1999, a ONU decretou que o dia 25 de novembro é o dia internacional de luta pela eliminação da violência contra a mulher — um dia de conscientização contra a violência sexista.

Essa é uma tomada de posição, entre tantas outras que estão acontecendo, na tentativa da eliminação do sistema de escravização sexista. Se de um lado, a situação de escravidão está presente na vida das mulheres de ontem e de hoje, de outro, o seu grito de libertação também se faz ouvir na sociedade de todos os tempos. Vemos em nossa sociedade o despontar de uma nova presença da mulher na casa, nos movimentos sociais e políticos, nas várias instâncias de poder, nas comunidades cristãs onde elas atuam, criam, lideram e forjam convicções. Essa nova presença não é uma simples busca de libertação só da mulher, mas trata-se do anseio de uma verdadeira parceria com os homens. Faz-se necessário insistir nas contribuições diferenciadas, mas igualmente importantes, de mulheres e de homens, nos seus mais diversos papéis e funções sociais — em todos os níveis, da sociedade e da Igreja — para que surja uma nova humanidade sem opressores e oprimidos.

Como na história da jovem escrava dos Atos, Bernadete e tantas outras jovens continuam gritando… Não sabemos qual foi o destino jovem escrava dos Atos, nem de Bernadete. Mas, a existência de todas elas e seu grito, muitas vezes abafado ou silenciado, continuam sendo uma denúncia e um anúncio — exatamente como o servo sofredor de Isaías (Is 42,1-9). Denúncia de uma sociedade que discrimina e trata as empobrecidas como objetos descartáveis. Anúncio que convoca a todas e a todos para somar forças na construção de um mundo justo, fraterno e solidário, de acordo com o projeto de Vida plena que Deus Pai-Mãe quer para a humanidade (Jo 10,10).

Tudo isso nos pede uma revisão: qual é a nossa posição diante dos gritos de milhões de mulheres e homens que vivem em situação de escravidão? O que fazer concretamente para que nossas comunidades, nossa maneira de viver e de se relacionar sejam um espaço de salvação, no qual elas e eles possam se sentir acolhidas e acolhidos, receber e partilhar seus dons?



[1] Existem várias teorias sobre o posicionamento de Paulo e o destino da jovem escrava. Por falta de tempo e de espaço vamos apenas mencionar duas teorias. Uma teoria considera que a moça foi acolhida na comunidade cristã. Cf. James Malcolm Arlandson, Women, class, and society in early Christianity: models from Luke-Acts, Peabody, Massachusetts, Hendrickson Publischers, 1997, pp. 198-199. Segundo outra teoria, ao libertá-la do espírito pitônico, Paulo intensificou sua situação de mulher explorada. Pois seus patrões podem tê-la enviado para fazer trabalhos pesados ou prostituir-se. Ela não possuía mais valor para eles. Era apenas mais uma escrava entre tantas outras. Cf. Pablo Richard, O movimento de Jesus depois da ressurreição — uma interpretação dos Atos dos Apóstolos, São Paulo, Paulinas, 1998, p. 137.

[2] Junito de Souza Brandão, Mitologia Grega, V. II, Vozes, Petrópolis, 1988, pp. 83-112.

[3] Amos Jones Jr., “Paul’s Message of Freedom”, in The Bible and Liberation — Political ad Social Hermeneutics, Editores Norman K. Gottwald e Richard A. Horsley, Maryknoll, Orbis Books, 1993, p. 516, citando Juvenal, Satires, VI, pp. 217-221.

[4] Esperanza Bautista, La mujer en la Iglesia primitiva, Estella (Navarra), Verbo Divino, 1993, p. 93.

[5] Revista Educação, ano 27, nº 234, outubro de 2000, Ed. Segmento, p. 32.

[6] Idem, p. 34.

[7] Idem, p. 34.

Enilda de Paula Pedro, cbp; Maristela Tezza, cic; Shigeyuki Nakanose, svd (Centro Bíblico Verbo)