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Publicado em Julho-Agosto de 1985 (pp. 33-34)

Rute, a força dos fracos

Por Ir. Rosana Pulga

O “Mês da Bíblia” (setembro) deste ano quer aprofundar a reflexão sobre o tema da Campanha da Fraternidade. Para isso propõe o estudo do Livro de Rute[1]. “No tempo em que os Juízes governavam, houve uma grande fome no País”. Aí começa a história de Rute (Rt 1,1).

 

O livro de Rute, uma história da Bíblia, começa como muitas histórias contadas por nossos avós. Mas há uma diferença entre elas. Rute parece uma história, mas é uma realidade. Parece uma novela, mas é o relato da força dos fracos. O livro de Rute é uma história popular com lição de organização. É uma joia da literatura judaica.

 

1. No tempo em que os Juízes governavam

Pelo seu início de conversa, diríamos que tudo se passou no tempo em que os Juízes governavam as doze tribos de Israel, na Palestina. Isso, por volta de 1250 a 1000 a.C. Contudo, não é bem assim. Analisando o texto descobrimos que o livro de Rute teve sua redação bem mais tarde, entre os anos 458-445 a.C. Portanto, mais próximo de nós do que pensávamos.

Por que os autores do livro de Rute o situam no tempo dos Juízes?

O povo da Bíblia gostava de olhar o passado e tirar lições para o presente. Assim fez com a história de Rute. É bem provável que algo muito semelhante à história de Rute tenha acontecido no tempo dos Juízes, época da organização do povo, após a saída do Egito. Nesse período as doze tribos de Israel estavam se organizando em torno de um projeto fraterno e igualitário. Por isso os autores de Rute olham o passado para iluminar o presente, época da reconstrução de Jerusalém, após a volta do Exílio na Babilônia.

 

2. A situação do povo

Por volta do ano 587 a.C., a cidade de Jerusalém é invadida. O Templo destruído. O povo disperso.

O pessoal mais importante e os líderes políticos do povo judeu foram levados para a Babilônia. Nabucodonosor tinha medo que eles, recuperando as forças, se reorganizassem contra a Babilônia. Levados para lá, permaneceram em exílio, durante 50 anos.

 

3. A suspirada volta à terrinha

Quando Ciro, rei da Pérsia, se apoderou da Babilônia começou uma nova política para o povo judeu. Para ele, convinha que os exilados voltassem à sua terra. Por isso concedeu uma anistia ampla e irrestrita. Todos os judeus da Babilônia, se o quisessem, podiam voltar para a sua pátria Judá, no sul da Palestina. Alguns já se haviam acomodado e preferiram ficar. Mas muita gente voltou mesmo. Ao regressarem à sua terrinha, com muita esperança e boa vontade começaram logo a reorganizar-se como Povo de Deus.

 

4. O sofrimento do povo em Judá

O povo que tinha ficado em Judá estava destroçado. Sem esperança. Empobrecido. Havia muita fome. Muita gente sofrida. Muita dívida. Uma grande desordem social. Para sobreviver havia quem emigrava para o estrangeiro e quem se vendia como escravo. Os babilônios haviam levado todas as riquezas do País. Sobretudo, tinham exilado os líderes do povo. Só um grupinho de gente humilde tinha ficado em Judá. Esse “resto de Israel” era como brasa escondida debaixo das cinzas.

Mesmo no Exílio, os profetas lutaram para segurar acesa a chama da esperança que ainda restava. Isso muita gente é capaz de compreender ainda hoje. Essa mesma chama continua ardendo, apesar dos pesares. Como diz o povo:

— Pobre vive de teimoso!

É verdade. O povo pobre da Bíblia fez essa experiência. Foi de tanta vontade de viver que eles conseguiram superar as cruezas do Exílio.

 

5. Projetos, projetos, projetos

De volta à terra de Judá, na Palestina, o povo judeu começou a reorganizar-se. Arregaçaram as mangas. Diante da situação de fracasso, surgem vários projetos de cima para baixo. Todos com o objetivo de enfrentar e resolver o problema do povo. Projetos criados por gente do governo. O povo, porém, que era o maior interessado, foi deixado de lado (Esd 3,1-13; 10,1-17; Ne 5,1-19).

Alguns homens do governo acharam que o sofrimento do povo era castigo de Deus por terem deixado o Templo em ruínas. Reconstruir o Templo seria então a solução. Outros pensaram que o sofrimento do povo era fruto da influência dos costumes pagãos, que entraram no país pelo casamento com mulheres estrangeiras. A solução seria então expulsar essas mulheres e observar melhor os mandamentos de Deus. Outros ainda achavam que o sofrimento do povo vinha da exploração dos pobres pelos ricos. A solução seria os ricos devolverem o que roubaram dos pobres, inclusive as terras. Esses projetos não tiveram grande êxito, pois a participação do povo era pequena e não havia fraternidade, nem igualdade como no tempo dos Juízes.

 

6. A força que vem dos fracos

É exatamente nessa época dos projetos de reforma que o livro de Rute é redigido, em torno do ano 458-445 a.C. E de onde vem a ideia? O livro nos conta que duas mulheres, Noemi e Rute, pobres, viúvas e uma delas estrangeira, exigem a organização do povo, a partir do povo. Não só exigem, mas até animam a luta. Deus guia Rute, a estrangeira, pelo conselho de Noemi (Rt 2,19). Elas não se deixam envolver pelo sistema e fazem valer seus direitos. Boás, rico, não explora, mas partilha. Até torna-se “goel”, isto, é “padrinho” de Noemi e Rute (Rt 4,1-8).

No diálogo que se estabelece entre eles podemos perceber três atitudes fortes:

  • voltar a Deus (Iahweh);
  • exigir o direito dos pobres;
  • reorganizar a sociedade a partir do povo.

Voltar a Iahweh significa converter-se. Não fazer distinção de pessoas. Quem são os bons? Só os que pertencem ao povo judeu? Se Deus é Pai, então, somos todos irmãos. O que é isso? Alguns com tudo e muitos sem nada?! Voltar a Iahweh significa fazer triunfar a fraternidade.

Exigir o direito dos pobres. “Respigar” é o direito que o pobre tem de exigir que o rico partilhe com ele. Partilhe tudo, como irmão: subsistência, cultura, felicidade, fé. Ou seja, que lhe deixe seu espaço na construção da história. O livro de Rute sugere uma situação econômica onde alguns têm em abundância, outros trabalham para viver, outros (mais numerosos) nada têm, precisam respigar (catar resto do tolho, catar lixo). Não é mais o tempo do projeto fraterno e igualitário que começou a ser vivido no “tempo em que os Juízes governavam”.

Reorganizar a sociedade a partir do povo, da comunidade. Uma organização que se faz sem a participação do povo é muito frágil. No livro de Rute a importância não é dada à letra da Lei, mas à consciência que o povo tem de seus valores. A novidade nasce do povo.

 

7. A esperança é a última que morre

O povo pede que Rute seja como Raquel e Lia, mães das tribos de Israel (Rt 4,11). Então o amor entre Boás e Rute é visto como um novo começo do povo, a partir do qual as tribos de Israel serão reconstruídas. No livro de Rute percebemos o comprometimento histórico do povo e vislumbramos o prenúncio da esperança messiânica. Rute e Boás são os pais de Obed, avô do rei Davi. Eles encarnam a esperança do povo. Obed significa “servo” (cf. Is 42,6-7). O novo Davi não virá como dominador. Não será opressor como os reis do passado. O novo Davi virá como descendente de Obed. Será filho do Servo! O serviço será seu distintivo. Jesus, o novo Davi, dirá: “Não vim para ser servido, mas para servir!” (Mt 20,28).

 

8. Atualidade do livro de Rute

Rute encarna o povo disperso, doente, sem raiz, sem futuro. O livro de Rute é como espelho de cristal. A gente vê bem o que precisa ser reorganizado. É uma luz para clarear a nossa realidade. Mostra a caminhada de hoje. Ele começa e termina fazendo renascer a antiga profissão de fé que dizia: “Elimeleque!”, isto é, “MEU DEUS É REI!”. Somente um povo que pratica a justiça e anda na fraternidade pode dizer “Elimeleque!”.



[1] A lição do livro de Rute foi desenvolvida por frei Carlos Mesters, no livrinho Rute, uma história da Bíblia. É de grande interesse pastoral e serve tanto para leitura pessoal quanto para reflexão em grupos.

Ir. Rosana Pulga