Artigos

Publicado em Março-Abril de 1994 (pp. 23-27)

A relação pastoral

Por D. Ângelo Domingos Salvador (Comissão Nacional do Clero — 4)

Introdução

1. No grande catecismo da evangelização do mundo moderno, a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (EN), o Papa Paulo VI dedica um número especial ao diálogo pastoral, como forma de proclamação do evangelho. Trata-se, diz ele, de transmissão da Boa-Nova, de pessoa a pessoa, comunicando a outrem a própria experiência de fé, para atingir a consciência pessoal de cada ser humano (EN 46). A importância do diálogo pastoral decorre do fato de que a mensagem evangélica deve ter a capacidade de penetrar na consciência de cada um, de se depositar no coração de cada um, como se cada um fosse de fato único, com tudo aquilo que tem de mais singular e pessoal, visando obter uma adesão, um compromisso realmente pessoal (cf. EN 45).

2. As Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil (1991-1994), levando em conta a emergência da subjetividade — uma das características da modernidade, que postula a valorização da pessoa e da experiência subjetiva —, recomendam algumas atitudes e práticas pastorais, como acolhimento, aconselhamento e acompanhamento (cf. 177-181).

3. Não obstante o reconhecido valor do contato pessoal, através do diálogo pastoral, parece que estamos privados cada vez mais de verdadeiros orientadores de consciência. É evidente a grave crise do sacramento da reconciliação bem como da direção espiritual, enquanto está aumentando o mercado de trabalho nos consultórios psicanalíticos e psiquiátricos.

 

I. Natureza da relação pastoral

1. Para entender a natureza da relação pastoral, é necessário partir da consideração da natureza do próprio cristianismo. Ora, o cristianismo tem caráter profundamente profético: é de sua índole a interpela­ção da vida humana à luz de uma vontade divina. O dinamismo básico da existência cristã é dado pelo processo de transcendência: trata-se sempre de ir além de si mesmo. A maturidade cristã é definida como “constância na transcendência”.

Pode-se dizer que cristão é aquele que — em suas relações consigo mesmo, com os outros e com o mundo —, permite a intervenção de um terceiro, que é sempre o primeiro: Deus. O cristão, diante das variadas situações da vida, faz sempre três perguntas: Qual é o problema? Qual a solução? Tal solução está de acordo com a vontade de Deus?

Pode-se afirmar que a vida do cristão, inclu­ída sua definição vocacional, envolve sempre um confronto fundamental: O que eu quero? O que Deus quer? Há no interior da existência humana, do ponto de vista cristão, uma luta fundamental: mudança de posição do quadro de existência. Ao natural, cada um de nós situa-se no centro do quadro, e tudo o mais, incluindo Deus, está na moldura. Trata-se de inverter as posições: Deus no centro do quadro, e todos nós em sua moldura.

2. Toda relação pedagógica é relação ternária. A índole do cristianismo faz com que tal relação ternária seja fortalecida. A relação pastoral é evidentemente uma relação pedagógica e, por isso, uma relação ternária: intervém sempre um terceiro.

Em se tratando da relação pastoral, é de sua natureza remeter sempre para um terceiro já conhecido: Deus. Quando uma pessoa procura o padre, a propósito de problemas humanos ou religiosos, não busca soluções tão somente científicas, de ordem sociológica ou psicológica. Busca algo mais. Pergunta-se como Deus pode ser encontrado ou visto nessa situação humana ou religiosa. É função da relação pastoral remeter para Deus.

Quando informaram a Jesus: “Aí fora estão sua mãe, seus irmãos e suas irmãs”; ele, fixando o olhar nos presentes, disse: “Minha mãe, meus irmãos e minhas irmãs são aqueles que fazem a vontade do Pai que está no céu”. Nesse episódio, Jesus teve com seus discípulos uma relação pastoral. A todos remeteu, de uma relação de filiação natural para uma relação de filiação religiosa ou divina. Exemplos como esses são incontáveis na prática pastoral de Jesus.

 

 

II. Percurso da relação pastoral

Há vários tipos de relações pastorais. Esses tipos podem também ser considerados como níveis de maior profundidade nas relações entre as pessoas. Igualmente, podem ser considerados como passos ou etapas de aprendizagem da relação pastoral.

 

2.1. Relações cosmocêntricas

São relações humanas centradas em “assun­tos”. Algumas pessoas procuram “informações” sobre determinados assuntos; outras pessoas passam “informações” sobre os mesmos assuntos, e, pela mediação de assuntos, de forma indireta, relacionam-se entre si. Exemplo típico de relações cosmocêntricas é a de professor x aluno, com vistas ao ensino-aprendizagem.

Na prática pastoral, o padre tem inúmeras ocasiões para relações pastorais cosmocêntricas, quer no atendimento de perguntas informativas individuais, quer nas várias ocasiões e formas de cursos de forma­ção. As pessoas não procuram propriamente o padre, mas seus conhecimentos especializados sobre religião e cristianismo.

Nas relações pastorais cosmocêntricas, o padre tem excelente ocasião para o que se denomina “ensino concomitante”, através do testemunho de sua vida. Nós nunca ensinamos uma coisa só de cada vez. As pessoas, por sua vez, também não aprendem uma coisa só de cada vez. Enquanto o padre responde à pergunta informativa, e as pessoas aprendem a informação solicitada, pode dar-se uma “transfusão anímica” entre a alma do padre e a alma do fiel. A forma de acolher as pessoas, o tom de voz ao falar, o jeito de olhar e de escutar… tudo isso pode ensinar muito mais sobre a vida cristã do que todas as informações transmitidas. É da experiência que esquecemos conhecimentos, mas lembramos pessoas que nos marcam por aquilo que são, mais do que por aquilo que nos ensinam.

 

2.2. Relações antropocêntricas

É um nível bem mais profundo de relações humanas, também pedagógico-pastorais. Neste nível ou etapa, o padre presta mais atenção à pessoa que o procura do que a seus assuntos, e quem procura o padre igualmente pode estar prestando mais atenção à pessoa do padre do que às suas respostas informativas. É o “olhar um para o outro”, próprio das relações entre educador x educando.

Às vezes, as pessoas que nos procuram insistem em continuar a conversa, mesmo depois que obtiveram a resposta à pergunta. É sinal de que buscam outra coisa além da informação. Outras vezes, percebe-se que o problema apresentado não é proporcional ao estado de espírito que demonstram. É sinal evidente de que não é esse o problema que os atormenta.

O padre deve exercitar-se em escutar mais a pessoa do que seus assuntos, e só deve discutir assuntos quando estiver seguro de que são realmente dúvidas intelectuais que moveram o consulente. Dizendo de outro modo, o padre, na relação pastoral, deve procurar escutar mais os estados de espírito das pessoas do que os assuntos de suas queixas e lamentações. Esse exercício deve ser feito precisamente quando as pessoas apresentam mais queixas e lamúrias do que pedidos de informações. Nesses casos, devem prestar atenção à pessoa, e não perder-se em esclarecer pretensas queixas e decepções.

Quando procedemos assim, as pessoas geral­mente reagem dizendo: o padre me entendeu. E o padre entendeu precisamente porque, indo além das aparências, alcançou o coração.

 

2.3. Relações teleocêntricas

Este nível ou etapa nas relações pastorais corresponde ao que ensina Saint-Exupéry: “O amor não consiste em olhar um para o outro, mas ambos na mesma direção”, como ocorre nas relações entre mestre e discípulo. Mestre é aquele que, no percurso da existência humana, encontrou a resposta à grande e decisiva interrogação: “Se morremos, por que vivemos?” E encontrou uma resposta nos valores universais, absolutos e eternos. Em face disso, não obstante o escoar-se da existência, é um apaixonado pela vida, porque a vive na plenitude de seu sentido e de seu valor. Quando alguém encontra um mestre assim, torna-se seu discípulo, vivendo numa profunda comunhão espiritual, rumo aos valores que atraem ambos. Há profundo encontro espiritual no qual se tornam secundárias as coisas perecíveis de ambos.

Quando as pessoas alcançam este nível, suas relações estabelecem-se para além do sexo, do status social e do grau cultural. É a comunhão de espíritos, de que há tantos exemplos, sobretudo, entre os santos de ambos os sexos.

No meio de tanta luta pela sobrevivência, pode parecer que este nível de relações não é mais de nosso tempo. Victor Frank montou todo o seu sistema psicológico, até mesmo de terapia, sobre a busca do sentido não só biológico e psíquico, mas também espiritual da existência. Segundo ele, atualmente a grande causa da neurose não é mais a repressão da libido, conforme a teoria de Freud, mas é o vazio existencial, isto é, a ausência de sentido para a vida.

Aqui entra, em todo o seu esplendor, a razão da religião. Função determinante das religiões é a de auxiliar as pessoas na busca do sentido último da existência. Aqui está, pois, o lugar próprio do padre no grande mercado das profissões humanas. Alguém disse que os “profissionais” da religião no tempo de Cristo não fizeram a ele nenhuma pergunta interessante que se referisse às razões finais da existência humana. Essa era a razão da rejeição de Jesus aos “fariseus” de seu tempo.

Nas relações pastorais, o padre não só deve habilitar-se a dialogar no nível dos grandes valores universais e absolutos da existência, mas até mesmo a provocar interesse nesse nível. Há hoje não poucas queixas de que o padre tornou-se incapaz de sustentar uma conversa séria por mais de 10 minutos. Sendo assim, por mais revolucionária que seja sua pregação, não passa de fogo de palha, que o tempo imediatamente extingue

 

2.4. Relações teocênticas

Na experiência religiosa, a descoberta de valores absolutos e universais conduz, mais cedo ou mais tarde, à descoberta de que tais valores são mais do que ideias e ideais. São uma pessoa: Deus. Lonergan, em sua teoria do método teológico, descreve com pormenores os vários caminhos da descoberta do absoluto.

O padre é um profissional do absoluto. Deve ter percorrido o caminho teológico da descoberta de Deus. Assim, torna-se mestre de consciências em sua busca e descoberta de Deus.

A relação pastoral é, especificamente, uma relação teocêntrica. O padre realiza a relação teocêntrica não somente quando alcança os altos níveis da mística, mas também nos trabalhos habituais de cada dia. O padre é chamado a ajudar as pessoas a perceber os passos de Deus nos passos da história. E isso de forma não afetada, mas ao natural.

Como vimos anteriormente, são inúmeros os casos em que Jesus ensinou, por palavras e exemplos, os discípulos para a interpretação religiosa dos acontecimentos. Aliás, profeta é precisamente aquele para quem é habitual a interpretação religiosa dos acontecimentos.

 

III. Critérios cristãos da relação pastoral

Podem ser apresentados muitos critérios indicadores das boas relações pastorais. Privilegiamos alguns deles, que julgamos decisivos.

1. Prioridade da pessoa humana em relação a quaisquer coisas. Relação pastoral madura é aquela que antepõe a pessoa humana a todas as coisas, mesmo que essas sejam as mais sagradas, como o sábado e o templo, entre os judeus. O que Jesus disse do sábado vale para todas as coisas: “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado, de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Mc 2,27-28).

2. Prioridade da pessoa do outro sobre a própria pessoa. Daí nasce o amor ao próximo, tendo como medida o amor a si mesmo, tantas vezes mencionado, quer no Antigo, quer no Novo Testamento. Jesus colocou, porém, uma medida mais exigente: “Assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (Jo 13,34; 15,12).

3. Prioridade da causa sobre a própria pessoa ou sobre a própria vida. Jesus disse: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mt 20,28). Sua grande causa é o resgate de muitos: em favor dela deu a própria vida. Esse é também seu comportamento, enquanto pastor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas” (Jo 10,11).

 

Tendo em vista tudo o que se disse até agora, em especial os critérios propostos, pode-se deduzir o seguinte axioma, regulador de toda relação pastoral: “Eu sou o terceiro”. Nas relações pastorais, Deus é o “primeiro”; o próximo é o “segundo” e eu sou o “terceiro”. Na conjugação do verbo da vida, ao modo cristão, deve-se inverter a ordem natural da gramática: Ele vive, tu vives, eu vivo. Na relação pastoral, a iniciativa da conversão cabe a Deus: consulente e padre estão à sua escuta. E na relação consulente e padre, o padre deve estar na escuta do consulente. O padre só deve intervir em terceiro lugar.

Para quem formou a consciência de que foi enviado por Deus para evangelizar, isto é, para comunicar a boa-nova, não é fácil colocar-se à escuta e “aprender”. Na relação pastoral, o “ide e ensinai”, deve ser lido assim: “Ide, escutai e ensinai”. A atual reflexão sobre a “inculturação” do evangelho vai nos ajudar no que acima afirmamos.

 

IV. Relação diretiva e não diretiva

Sabe-se que há duas formas principais de relação pedagógica e pastoral: a forma diretiva e a forma não diretiva. Na forma diretiva prevalece a ação do orientador, que interroga, interpreta e orienta. Na forma não diretiva prevalece o orientando, que toma a iniciativa de falar, ocupando o maior espaço e a maior parte do tempo da entrevista, cabendo ao orientador acima de tudo clarificar as situações expostas, com o objetivo de provocar nova intervenção do orientando.

Não cabe propor uma das formas e condenar a outra. Aqui também vale a regra do bom senso: cada caso é um caso, e deve ser tratado diferentemente. Há casos em que é mais indicada a forma diretiva, especialmente quando se trata de perturbações circunstanciais passageiras, na qual os mais jovens necessitam da experiência dos mais velhos ou do conhecimento especializado de profissionais.

Nos casos mais profundos, que implicam orientação geral de vida, ou em casos de distúrbios existenciais, que não postulam propriamente trata­mentos especializados, e situam-se no nível da orientação educacional ou pastoral, é mais indicada a forma não diretiva.

A relação não diretiva parte do pressuposto de que toda pessoa humana, não obstante suas situações conflitivas, é capaz de autorregular-se e de autocontrolar-se, de modificar seu sistema de valores e determinar os próprios rumos. Cabe ao orientador dar oportunidade às pessoas de, ao falar, escutarem a própria voz, tomarem consciência de si mesmas, por si mesmas, e, finalmente, para se autorregularem. A tarefa do orientador, além de escutar com empatia, é a de clarificar as situações, chamando a atenção sobre elementos ou circunstâncias, aos quais o orientando parece não dar importância. O orientando, à medida que vai falando, vai se autorregulando. Ao orientador, além de clarear situações e de ser caixa de ressonância, cabe animar o orientando no seu processo de auto-orientação.

 

V. Condição sine qua non

Há um princípio universal, válido em todas as circunstâncias, no campo da educação humana e na educação da fé, ou seja, na relação pedagógica e na relação pastoral, que deve ser lembrado aqui: ser nós mesmos o que desejamos que os outros sejam.

Jesus formulou esse princípio assim: “Santifico-me, a fim de que os outros também se santifiquem” (cf. Jo 17,19). O Sínodo dos Bispos de 1971 afirma que essa é “a norma suprema da vida sacerdotal”.

Quando o padre é um mestre de vida, não necessita de muita argumentação nem de muitas palavras. Sua própria vida exerce influxo determinante, até mesmo em seu silêncio, vivido com empatia, como fruto de sua profunda caridade pastoral.

Nada produz mais frutos na orientação das pessoas do que o esforço, mesmo interior, no sentido de vivermos, nós mesmos, o que propomos aos outros.

 

VI. Conclusão

Como conclusão, valha a palavra do Papa Paulo VI: “Nós não poderíamos dizer nunca e enaltecer bastante todo o bem que fazem os sacerdotes que, através do sacramento da penitência ou através do diálogo pastoral, se demonstram dispostos a orientar as pessoas pelas sendas do evangelho, a ajudá-las a firmar-se nos seus esforços, a auxiliá-las a reerguer-se se, porventura, caíram; enfim, a assisti-las continuamente, com discernimento e com disponibilidade” (EN 46).

D. Ângelo Domingos Salvador (Comissão Nacional do Clero — 4)