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Publicado em Março-abril

Dicas práticas para economizar energia e preservar o Planeta

Por Fernanda Zulzke Galli

“O mundo não é mais como antigamente.” Quantas vezes já ouvimos lamentos como esse? A grande ironia é que geralmente são pronunciados por aqueles que viveram em épocas de grande disponibilidade de recursos naturais e escassez de recursos materiais. Ora, se vivemos em uma era de grande desenvolvimento econômico, limites de crédito a se perder de vista, tecnologia de ponta e produção em grande escala, deveríamos estar satisfeitos, em vez de nos lamentarmos por tempos como de outrora, certo? Errado! Esses pilares foram construídos sobre um modelo de vida insustentável para o nosso planeta e para a vida.

 

1. Refletindo sobre nossos hábitos de consumo

 

Se achamos que evoluímos cada vez mais como humanidade, esquecemo-nos de avaliar como utilizamos os recursos naturais imprescindíveis para esses avanços e de que forma e em que medida evoluímos. A ideia de que podemos continuar a viver tal como vivemos hoje é insustentável; se todas as pessoas do mundo consumissem como as pessoas dos países desenvolvidos consomem – na atualidade, cerca de 20% acima do que o planeta pode suportar –, entraríamos em colapso. Assim, se os países em desenvolvimento estabelecerem como meta tal modelo e o atingirem, precisaríamos de três planetas, em média, para suprir o nível de consumo![1] Qual é a questão, então? Que cada qual permaneça em seus índices de desenvolvimento humano sem pensar em condições melhores de vida para toda a população? Ou mudarmos a direção de nossas ações cotidianas e individuais, a fim de criar a grande rede restauradora que alinhe seus valores a uma sociedade mais justa e sustentável?

 

Sustentável é a sociedade ou o planeta que produz o suficiente para si e para os seres dos ecossistemas onde se situa; que toma da natureza somente o que ela pode repor; que mostra um sentido de solidariedade generacional, ao preservar para as sociedades futuras os recursos naturais de que elas precisarão. Na prática, a sociedade deve mostrar-se capaz de assumir novos hábitos e de projetar um tipo de desenvolvimento que cultive o cuidado com os equilíbrios ecológicos e funcione dentro dos limites impostos pela natureza (Boff, 1999, p. 137[f1] ).

 

Com base na reflexão de Leonardo Boff, retornamos ao início deste artigo. É voltar ao passado que queremos ao dizer que “nada mais é como antigamente”? Ou seria melhor questionarmos e reformularmos o nosso modelo de desenvolvimento? As estatísticas do desmatamento em todo o mundo, o degelo nos polos, os verões e invernos fora de época nos dizem que não se trata de saber se queremos ou não encontrar alternativas para o modelo de sociedade em que hoje vivemos; nós teremos de fazê-lo!

 

2. Por que combater o consumo desenfreado de energia?

 

O importante é trazer para o dia a dia nova maneira de pensar nossos atos, com destaque para a redução do consumo de energia. O consumo de energia é o principal foco dessa proposta de transformação, porque ela está embutida em tudo que consumimos. Está presente em todos os processos de transformação que ocorrem em nosso organismo, no ambiente terrestre ou no espaço sideral. Ou seja, para produzirmos todos os nossos bens de consumo, utilizamos energia. Para a produção do papel e dos alimentos que consumimos, para o fornecimento de água, descarte de dejetos etc., utilizamos energia.

Nesse sentido, tal proposta contempla ações amplas que envolvem a redução do consumo energético em todos os setores envolvidos, não só na energia que chega a nossas casas em forma de eletricidade. A reciclagem, por exemplo, que vem sendo proposta há algum tempo, além de reduzir a quantidade de lixo, serve para economizar energia. Assim como a produção de vidro reciclado, que gasta apenas dois terços da energia necessária para sua produção inicial. O mesmo vale para a reciclagem do alumínio, a qual pode economizar até 95% da energia gasta para produzir alumínio novo, resultando não apenas na economia de recursos naturais, como também na redução de poluentes emitidos durante a fabricação. A energia gasta para produzir uma tonelada de alumínio novo poderia servir para fabricar 20 toneladas de alumínio reciclado!

 

3. “Pondo a mão na massa”: dicas práticas

 

Uma mudança radical nos princípios que regem nossos hábitos de consumo seria o ideal – como dizemos popularmente, “o melhor dos mundos”; porém, se queremos que cada pessoa os incorpore realmente, temos de começar pelo que é viável para cada um. Não é necessário incorporar todas as ações ecologicamente corretas ao mesmo tempo.

Após a fase de adaptação, as mudanças se tornam cada vez mais naturais, abrindo espaço para novas práticas e assim por diante. Quando menos esperamos, a coleta seletiva que fazemos em nossa casa estende-se ao vizinho, mais pessoas no supermercado começam a utilizar as sacolas retornáveis ao nos verem usando as nossas, que, além de “boas” para o planeta, ainda podem ser visualmente atraentes, e assim vamos formando uma grande rede transformadora, capaz de tornar possível a construção de um futuro que contemplará a real conservação de nossos recursos naturais e será mais sadio para as futuras gerações.

 

Em casa:

Você sabia que, no Brasil, cerca de 40% da água tratada é desperdiçada? Um homem que faz a barba com a torneira aberta pode chegar a gastar 65 litros de água. Ao escovar os dentes ou fazer a barba, abra a torneira somente quando precisar lavar a escova ou a lâmina de barbear.

– Verifique sempre sua conta de água e observe a média gasta a cada mês. Uma variação acentuada pode indicar vazamento ou uso indevido, com desperdício desse precioso bem.

– Sempre verifique o encanamento e as torneiras de sua casa, para evitar vazamentos. Uma torneira pingando pode desperdiçar até 16 mil litros por ano!

– Instale torneiras com aerador (aquelas peneirinhas localizadas no local de saída da água), mecanismo que reduz o desperdício.

– Se precisar regar as plantas de seu quintal na época de seca, não o faça durante as horas mais quentes do dia. Muita água será perdida antes de atingir as raízes.

– Aproveite a água da chuva para regar as plantas. Você pode armazená-la em recipientes colocados na saída das calhas, lembrando-se apenas de tampá-los para evitar a propagação de focos de mosquitos transmissores de doenças.

– Nunca use a mangueira para lavar a calçada. Prefira sempre uma vassoura.

– A reutilização de papel é importante para reduzir o número de árvores derrubadas e o consumo de energia durante a sua fabricação; por isso, use sempre os dois lados do papel, mantendo um bloco como rascunho.

– Revise textos na tela do computador antes de imprimi-los.

– Não jogue fora alimentos que ainda possam ser aproveitados. Busque novas receitas para aproveitar ao máximo tudo o que você comprou, como talos, folhas, sementes e cascas, que podem ter grande valor nutritivo.

– Não use produtos descartáveis, como copos, pratos e talheres. Prefira os que possam ser reutilizados.

– Faça a coleta seletiva de material diariamente, separando papéis, vidros, plástico e metais. Atualmente, existem muitos locais, como supermercados, que recolhem o material para encaminhar para a reciclagem.

– Não acenda as luzes de sua casa ou escritório durante o dia, a menos que seja extremamente necessário. Abra as janelas e cortinas, tentando aproveitar ao máximo a luz natural.

– Quando o tempo não estiver frio, deixe de usar o chuveiro elétrico com a chave na posição de “inverno” (água mais quente), já que essa posição consome mais energia. Tome um banho frio ou morno. Independentemente da estação, tente limitar seus banhos a cerca de cinco minutos. Se possível, fechando a torneira enquanto se ensaboa.

– Sempre apague as luzes e desligue aparelhos, como o rádio ou a TV, quando não estiver nos recintos onde eles estão, e escolha lâmpadas fluorescentes, compactas ou circulares. Elas consomem menos energia e duram mais que as comuns.

– Ao usar o ferro de passar, grande quantidade de energia é gasta para aquecê-lo. Tente juntar a maior quantidade possível de roupas antes de utilizá-lo e passe todas de uma só vez, aproveitando o calor do ferro. O mesmo raciocínio vale para a máquina de lavar. Ligue-a somente quando ela estiver com toda a sua capacidade preenchida.

 

Ao fazer compras:

– Carregue sempre uma bolsa de pano para levar o que comprou, em vez de usar sacos descartáveis de plástico ou papel.

– Quando comprar produtos de madeira e papel, procure sempre os que trazem selos de certificação, como o do Conselho de Manejo Florestal (FSC).

– Prefira produtos que contenham ingredientes biodegradáveis e não tóxicos.

– Dê preferência a produtos com embalagens retornáveis, como de vidro, aço ou madeira. Assim, além de contribuir para a redução do consumo de energia, você estará ajudando a diminuir o acúmulo de resíduos tóxicos nos rios e mares e, principalmente, evitará jogar fora um material como o plástico, que demora centenas de anos para se decompor.

– Tente comprar somente a quantidade necessária daquilo que vai consumir. Assim, você evita jogar fora coisas que poderiam acabar poluindo o ambiente.

– Compre geladeiras, freezers e eletrodomésticos em geral levando em conta a eficiência energética, que pode ser observada em selos certificados pelo Programa de Combate ao Desperdício de Energia Elétrica (selo Procel de economia de energia).

– Embrulhos de presentes podem ser bonitos, mas o papel normalmente é jogado fora pouco depois de a pessoa ser presenteada. Pense na quantidade de papel e plástico gasta anualmente em embalagens com finalidade decorativa. Se você for o presenteado, tente reutilizar o papel do embrulho.

– Antes de abrir a geladeira, decida o que vai pegar, retirando todos os objetos selecionados. Ao abrir e fechar a porta várias vezes, há aumento da temperatura interna e consequente aumento da energia consumida pelo motor da geladeira para manter sua refrigeração.

 

Ao descartar o lixo:

– Não jogue pilhas e baterias antigas no lixo; existem farmácias, supermercados e lojas de operadoras de celulares que recolhem esses materiais.

– Lugar de lixo é na lixeira. Qualquer coisa jogada nas ruas, praças ou parques, entre outros, não apenas deixa a cidade mais feia, como entope bueiros e ralos, aumentando o potencial de enchentes em época de chuva.

– Não jogue pneus velhos na natureza. Ao serem queimados, os pneus geram uma substância cancerígena. Se ficarem abandonados a céu aberto, tendem a acumular água e tornam-se local propício para a proliferação de insetos. Além disso, levam mais de 600 anos para se decompor. A alternativa é encaminhá-los a centros de reciclagem.

 

Pedagoga formada pela PUC-SP, especialista em Gestão Ambiental pelo Senac-SP.



[1]Dados retirados do texto Pegada Ecológica Global, publicado pela WWF – Brasil. Disponível em: <http://www.wwf.org.br/wwf_brasil/pegada_ecologica/pegada_ecologica_global/>.


 [f1]A autora não apresentou as referências bibliográficas completas necessárias para o leitor saber qual obra do autor Boff ela está citando. Solicitar à autora do artigo as referências e incluí-las aqui.

Fernanda Zulzke Galli