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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 1992 (pp. 21-25)

Juventude, caminho aberto?

Por Maria Elci S. Barbosa

“Todos nós, num determinado momento, temos visão de nossa existência como sendo especial, muito preciosa e intransferível. Essa transforma­ção se dá quase sempre na adolescência” (Robert Johnson, He, Ed. Mercúrio, São Paulo).

 

1. Época de descaminhos

Decididamente não é fácil ser jovem neste final de século. Uma crise generalizada, de proporções nunca vistas antes, assola a humanidade, acelerando profundamente e em curtíssimo prazo todas as crenças, instituições e valores. Vivemos crise na economia, nas religiões, na política, na moral e também na família, no trabalho e nas profissões. É longa e árdua a estrada que o jovem precisa percorrer para aventurar-se num caminho próprio.

A juventude é um estágio de passagem entre o Ser criança e o Ser adulto. É uma passagem que define toda uma vida, um modo de ser e estar no mundo, mas que traz em si sementes já plantadas na infância, época em que o ser é apresentado ao mundo pelos adultos que o rodeiam. Na apresentação da criança ao mundo, os adultos lhe passam valores, crenças, hábitos, conceitos e basicamente afetividade e emoção que serão os instrumentos com os quais o jovem vai enfrentar sua jornada.

Há vinte ou trinta anos, muito provavelmente, a maioria dos pais e educadores sabiam que mundo mostrar às crianças; ou pelo menos achavam que sabiam, e não se questionavam muito acerca de seus princípios. O mundo adulto parecia ter uma estrutura de valores e normas éticas conhecida e respeitada por todos. O que vemos agora, porém, é que a maioria ou quase a totalidade dos valores foram ou estão sendo questionados e relativizados. A sociedade e nós dentro dela estamos passando por uma revisão de ideias e conceitos há muito não colocados em dúvida. E, ao mesmo tempo, há uma busca bastante ativada de um mundo mais significativo que responda aos anseios da alma humana.

É desnecessário dizer que o relativismo moral, que se instaura quando todos os valores são questionados, é tão desastroso quanto a rigidez moral e institucional, pois fracassa em fornecer quaisquer padrões de certo e errado, e de oferecer a primeira e indispensável orientação para o ser que se forma. Parece mesmo que os adultos temem ser criticados, chamados de “caretas”, e assim se eximem de emitir opiniões, como se não as tivessem de fato. Muitos, por temerem se expor, “abrem o diálogo”, que aparentemente lhes confere a persona de democratas, mas que, na verdade, esconde o modo como veem o mundo, e o temor de arcarem com suas ideias, que, eventualmente, podem mesmo não ser as melhores. Infelizmente, por temerem ser, eles acabam não permitindo que o jovem possa ser. Eles falham em fornecer aquela primeira e indispensável orientação que servirá de confronto para o jovem.

É certo que o humano (e a vida no seu sentido mais amplo) é um eterno vir a ser, mas é certo também que a gente vai sendo à medida que se vive. E, ainda mais, aquilo que o adulto teme expor em palavras, acaba por expor nas atitudes e comportamentos. O vir a ser não significa viver em constante caos, mas é ir colocando os tijolos necessários para a nossa estruturação, que não precisa ser rígida, sempre igual e sem transformações, muito ao contrário; porém precisa, sim, ser sólida.

Encontramo-nos, pois, numa época em que há uma grande desorientação nos adultos e, consequentemente, nos jovens. Estamos inseridos num meio social completamente ambíguo. Existe uma permissividade aparente para as crianças e jovens, mas essa liberdade se refere muito mais ao consumo dos produtos veiculados pela mídia, do que a real liberdade de ser no mundo. Assim nos defrontamos com restrições básicas, como habitação, lazer, educação, cultura, alimentação, falta de espaço etc. E isso acontece em todos os níveis sociais!

Tanto as necessidades criadas pelo consumo como as restrições da realidade atingem todas as pessoas, de alguma maneira. Assim, o jovem tem a aparente liberdade de comprar um sapato da moda, e nenhuma de andar com o mesmo pelas ruas, pois corre o risco de ser assaltado e até mesmo assassinado. O menino da favela não tem casa para morar e vive pelas ruas, e o da classe média tem casa para morar, mas ela se torna uma prisão cheia de grades, e a ele não é permitido viver e brincar nas ruas.

O que encontramos é uma mídia responsável por todos os conceitos humanos de liberdade, felicidade, alegria, e moral. Os princípios mais gerais da ética e respeito humanos parecem ter sido esquecidos pelas pessoas, ao se deixarem levar pela propaganda. Felicidade, alegria e outros valores ficaram confinados no TER, ou seja, na ilusão de que a posse de determinados bens confere uma existência significativa. Os adultos, agindo assim, abriram mão do SER. O que ensinarão aos seus filhos? Que exemplos darão aos jovens?

 

2. A incorporação na sociedade e na vida

As formas de relacionamento entre crianças, jovens e adultos nem sempre acontecem dessa maneira, muito pelo contrário. É o que observamos ao estudar sociedades primitivas, ou as civilizações antigas. Ao estudarmos esses povos, vemos que a época da juventude — passagem da infância para a maturidade — era vivenciada através dos ritos de iniciação e comemorada através de festivais. Encontramos ainda em algumas tribos de índios brasileiros os rituais iniciáticos na época da puberdade. Eles consistem em várias provas em que o jovem precisa mostrar sua força, coragem, persistência, disciplina, entre outras qualidades que o capacitam à entrada no mundo adulto. De fato, a estrutura social e religiosa das tribos “primitivas” sempre se mostrou muito continente para a aceitação das forças vitais que irrompem na juventude. A importância e reverência que toda a sociedade juntamente com os jovens prestava aos mistérios da vida, tornavam suas formas de existência mais significativas e mais sagradas.

“Quando passamos… à consideração dos numerosos rituais estranhos das tribos primitivas e das grandes civilizações do passado, cujo relato chega até nós, torna-se claro que o propósito e o efeito real desses rituais consistiam em levar as pessoas a cruzarem difíceis limiares de transformação que requerem mudança de padrões, não apenas da vida consciente, mas também da inconsciente. Os chamados ritos (ou rituais) de passagem, que ocupam um lugar tão preeminente na vida de uma sociedade primitiva (cerimoniais de nascimento, de atribuição de nome, de puberdade, de casamento, morte etc.), têm como característica a prática de exercícios formais de rompimento normalmente bastante rigorosos, por meio dos quais a mente é afastada de maneira radical das atitudes, vínculos e padrões de vida típicos do estágio que ficou para trás”[1].

Como atualmente quase nada resta desses rituais integradores, a criança é forçada a resolver sozinha os conflitos morais que envolvem os mais profundos mistérios da vida, qual seja a sua incorpora­ção na sociedade e na vida de maneira significativa. Nesta época, o jovem adolescente passa por um processo também conhecido como crise de identidade — isso porque aquela que ele (ou ela) possuía quando criança já não serve mais, e a que está por vir, ele (ou ela) desconhece. A identidade, ou percepção do eu, ocorre em três níveis basicamente.

Nível corporal. O jovem percebe em si a grande transformação que se processa no seu corpo: novos impulsos, novas sensações, além das mudanças em nível sexual, cujas características aparecem mais claramente.

Nível interno ou psicológico. O jovem percebe que seu humor varia, aumenta sua irritabilidade, suas emoções são fortes, apaixona-se, confronta-se consigo mesmo, com os outros, rebela-se etc. Enfim grandes mudanças, que na maioria das vezes não entende, ocorrem desde seus pensamentos e ideias, até emoções.

Nível social. O jovem percebe que precisa corresponder aos anseios do seu grupo social; percebe que ele mesmo tem alguns sonhos acerca da sociedade; percebe que precisa afirmar-se como um ser social; precisa pertencer a um grupo. É a época em que escolhe (ou é escolhido por) seu grupo, em que define sua profissão, sua história, sua vida.

 

Os três aspectos são importantíssimos, e qualquer proposta que leve o adolescente a definir sua identidade escamoteando um desses aspectos é tomar a parte pelo todo e destiná-lo à mediocridade.

 

3. Jornada do herói

Dentre as mais diversas características que o adolescente apresenta neste período de passagem, podemos destacar a vulnerabilidade e a ambiguidade diante das situações que se lhe apresentam. A ambiguidade é típica de todo o período de transição, e a vulnerabilidade também. É só lembrarmos do mito de Hércules, o herói grego.

Em seu primeiro trabalho de uma jornada de doze, ele tem que matar o Leão de Nemeia, cuja pele é invulnerável. Depois de aniquilar o monstro, Hércules retira-lhe a pele, e depois passa a usá-la, simbolizando com isso a necessidade de conquista da autoconfiança e da autodefesa como o primeiro passo para enfrentar a multiplicidade de estímulos que o mundo apresenta.

A confiança dá ao Ego a capacidade de integrar o mundo interno, pois o jovem aprende que as situações podem ser reversíveis e as perdas, temporárias; ainda mais, é através da autoconfiança que se desenvolve a capacidade de resistência a frustrações, tão necessária à jornada do Herói. Assim, ele aprende a discernir, a prever e a esperar.

Diante da multiplicidade de situações, o jovem vai precisar optar. OPTAR significa “matar”, sacrificar as múltiplas possibilidades em favor daquela que é escolhida. A busca de integração de sua identidade caminha para a necessidade de opções, e o jovem só poderá fazer isso se, no seu caminho de aprendizagem, na sua jornada heroica, aprendeu a abrir mão de seus desejos infantis de onipotência. Muitos jovens não conseguem fazer suas escolhas, nem mesmo as profissionais, por paralisarem-se diante do fato de que ao escolherem algo deixam de escolher outras tantas coisas. Estão ainda presos ao mundo infantil, ao mundo in­consciente de fantasias onde tudo podem. Aguentar a condição humana parece muito mais difícil para eles, preferem identificar-se com algum deus todo-poderoso a enfrentarem as duras provas que podem lhes trazer frustrações.

A trajetória humana é árdua, é necessário disciplina, força, garra, muito empenho, e até mesmo a ajuda dos deuses, como observamos em todos os mitos dos mais diversos povos. E o resultado não é imediato. Somente anos mais tarde, quando o indivíduo tiver seus 30 ou 40 anos, é que ele vai confrontar-se consigo mesmo e ver se sua jornada foi a do herói, ou se ele desistiu da mesma. Se ele não percorreu seu caminho, terá que fazê-lo agora; o que é sempre muito difícil. O tempo é inexorável e a vida requisita o ser humano para cumprir sua parte.

 

 

 

4. Significado dessa jornada hoje

Hoje em dia o objetivo é não envelhecer. Permanecer eternamente jovem. O contexto social parece contribuir enormemente para esse fato, dificultando os jovens na sua passagem, e fixando-os ainda mais nesse momento da vida. Será que ninguém quer crescer? Será que vivemos no mundo de Peter Pan, o herói sem sombra, o eterno menino — puer aeternus — sempre voando pelos ares, sem concretude nem densidade? Poderíamos mesmo nos perguntar o que foi trazido da infância e qual é a expectativa da vida adulta que faz tão grande número de pessoas de nossa sociedade manterem-se fixadas nessa fase, fazendo da juventude o ponto focal, ou talvez um mito em si mesma.

“A função primária da mitologia e dos ritos sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se àquelas outras fantasias humanas constantes que tendem a levá-lo para trás. Com efeito, pode ser que a incidência tão grande de neuroses em nosso meio decorra do declínio, entre nós, desse auxílio espiritual efetivo. Mantemo-­nos ligados às imagens não exorcizadas da nossa infância, razão pela qual não nos inclinamos a fazer as passagens necessárias da nossa vida adulta”[2].

Ser jovem ou estar jovem, na verdade, é algo muito bom. Tão bom que Ponce de Leon passou sua vida procurando a fonte da juventude. O que será que se busca ao querer permanecer jovem? Poderíamos enumerar várias coisas. Por exemplo, o princípio do prazer, trazido da infância; a irresponsabilidade que ainda não é imbuída de culpa; o princípio vital pulsante; o distanciamento da morte (ou pelo menos a ilusão de); as críticas e questionamentos constantes, sem que se precise tomar posição; a esperança do sempre vir a ser, mas nunca sendo; a onipotência do “tudo posso”, mas nada faço. Enfim, poderíamos seguir longe nessa enumeração. Certo é, porém, que o jovem, na sua passagem para a maturidade, vai ter que se confrontar com todos esses aspectos, entre outros. E se travará uma luta do inconsciente como consciente.

No menino, por exemplo, a força do arquétipo materno representa não só a mãe nutriente e acalentadora, mas também a força da inércia, da preguiça, do comodismo, do “deixar para depois”. O jovem que não luta para superar essas forças, que não tem exemplos que o empurrem para a disciplina, a autodisciplina, para assumir as consequências dos seus atos, nunca será um Homem. Será sempre um puer, procurando desculpas para si mesmo. O mesmo ocorre com as meninas que precisam lutar para sair do estágio do “jardim da infância”, de fantasias cor-de-rosa, onde não há sombra nem mal, e também se empenharem para o caminho da maturidade.

Ainda é importante ressaltar que, para muitos jovens, fazer essa passagem significa tornar-se carrancudo, cético em relação à vida e mal-humorado (à semelhança de tantos adultos que ele vê à sua volta). No entanto, fazer a passagem não significa matar a criança interna, nem secar a fonte da juventude e da vida. O que acontece é que os adultos que trazem esse amargor pela vida não fizeram a passagem, simples­mente reprimiram dentro de si suas infâncias e juventudes, copiando modelos estereotipados de adultos que conhecem e que consideram “bem-sucedidos”.

Quando há a passagem através da jornada do herói, pode-se perceber a firmeza e a força estrutural que se desenvolve no indivíduo sem com isso compro­meter a espontaneidade, a alegria e o lado lúdico que fazem da vida uma bela aventura. “A aventura é sempre e em todos os lugares uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer”[3].

 

5. Para concluir

O efeito da aventura bem-sucedida do herói é a abertura e a liberação do fluxo de vida não só no indivíduo, mas em todo o seu mundo circundante. Esse é o indivíduo que está sempre aberto às coisas novas, sem medo das transformações que daí podem surgir, porque ele mesmo as viveu e reconhece nelas a evolução da vida. Ele não precisa se apegar ao passado e às instituições como únicas formas, de ser, mas reconhece nelas a história da humanidade e a sua história. Ele superou o passado, porque está além dele, mas reconhece sua importância; ele não reprime nem destrói o passado, como não destrói a sua criança interna.

O herói é aquele que aprende. Ele aprende com seu passado e com o passado de sua sociedade. Aprende com cada faísca do novo que possa surgir na sua jornada. Nesse sentido, o indivíduo que faz a passagem é sempre jovem. A vida se descortina para ele a cada manhã com um empreendimento criativo. Ele enfrentará novos obstáculos (e muitas vezes velhos, mas com roupagens novas), aprenderá algo mais sobre si mesmo e o mundo, e, assim, a vida será cada vez mais plena.

Talvez essa seja a verdadeira fonte de juventude procurada por Ponce de Leon. A fonte está dentro e não fora do indivíduo. Descobri-la é integrar-se consigo mesmo e com o mundo. Mas é preciso buscar, aventurar-se, enfrentar a passagem… “Ou pensais que entraeis no Jardim da Bem-aventurança sem passardes pelas provações que passaram aqueles que vieram antes de vós?”[4].



[1] Compbell, Joseph, O herói de mil faces, Ed. Cultrix, São Paulo, 1988.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Alcorão 2,214.

Maria Elci S. Barbosa