Atualidades

Símbolos de passagem e as Portas Santas

05/02/2026

Por: Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior, assistente doutor da PUC-SP

Eis o artigo:

As portas nos povos ancestrais:

Em grande parte de cidades e aldeias, a única praça ou lugar aberto localizava-se dentro da porta (Neemias 8,16). Nesse lugar central, que os gregos chamam de Ágora, se vendia e se compravam os mantimentos e animais. Também na porta ou logo além dela, se decidiam as questões jurídicas e normativas (2 Samuel 15,2). Há registro de 15 juízes nas portas das cidades semitas registrados na Bíblia Hebraica. Entre os juízes da porta, emerge o profeta Miquéias, na aldeia de Moresete, ao sudoeste de Jerusalém. Ele vocifera contra os juízes corruptos e os ricos que esmagam os pobres. Diz em alta voz: “Escutai magistrados da casa de Israel: não compete a vós conhecer o Direito? Vós que odiais o bem e amais o mal, que arrancais a pele dos ossos e a carne, de seus ossos… quando clamarem ao Senhor, este não lhes responderá (Miqueias 3,1-4)”. A porta, portanto, era o centro da vida social do povo, é o tribunal da Justiça essencial em favor dos pobres (Jeremias 17,19 e Provérbios 1,21). Para aqueles que viviam nos campos e eram pastores de ovelhas havia um lugar cercado nas cidades, reservado para seus rebanhos. Nos campos, era comum construir um curral improvisado, onde o pastor mantinha o rebanho quando o tempo estava bom. Esse tipo de aprisco nada mais era do que um círculo áspero de pedras empilhadas em uma parede com um pequeno espaço aberto para entrar. Por essa “porta”, o pastor conduzia as ovelhas ao anoitecer. Como não havia portão para fechar – só essa abertura -, o pastor mantinha as ovelhas dentro e os animais selvagens fora, e ele mesmo (pastor) deitava-se sobre a abertura. Dormia ali e, tornava-se literalmente a porta para as ovelhas, ou seja, quem cuidaria das vidas do rebanho situando-se entre os lobos e animais selvagens e o rebanho. Jesus Cristo afirma ser essa porta personalizada: “Eu Sou a porta das ovelhas (Evangelho de João 10,7)”. Essa é uma das sete declarações “Eu sou” de Jesus registradas no Evangelho de João. Ele é a porta pela qual podemos entrar e ser salvos (João 10,9). Há grande semelhança com a palavra Páscoa, Pesach em hebraico, que remete à passagem ou salto da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. Porta é sempre um símbolo arquitetônico de passagem e segurança. Sempre diante de portas, portais, portões e porteiras somos convidados a diferenciar os espaços dentro e fora, luz e trevas, insegurança e acolhida. Portas e entradas frequentemente aparecem na literatura e nas artes como presságio de mudança. Para os egípcios, porta se explicita com o uso do conceito filosófico egipcio “AHT” que simboliza o horizonte e o lugar por onde irrompe a luz por trás da montanha. A porta é a abertura ao mistério da vida e da morte. É comum ver o desenho de portas entre o mundo visível e o mundo inferior. Portas dão acesso ao mundo do invisível. Os antigos sempre construíram portas sólidas para impedir invasões e saques. E no alto deles ou ao redor das paredes havia esculturas de monstros ou seres angelicais para protegê-las, como os querubins em Babel, a porta dos leões de Micenas, portas de Korsabad. Em procissões e peregrinações religiosas, se finaliza um longo trajeto com a passagem do peregrino por uma Porta Santa. Toda porta é sempre um convite dinâmico para passar ao outro lado. Atravessar a porta. Os judeus inclusive colocam pedaços da Torah no batente da porta como sinal de consagração e presença do Eterno. Em casas dos povos do interior do Brasil, sempre há sobre a porta uma capelinha de algum santo ou de Nossa Senhora. Nas casas russas um ícone a ser saudado. Nos templos sagrados cristãos, as portas de catedrais e no Japão os “Torii”. Em conventos e mosteiros é essencial a função de porteiro. Muitos santos católicos foram produzidos nas portas! Por exemplo, São Benedito, Santo Frei Galvão, São João Macias e São Conrado de Parzham. Não esqueçamos que temos dentro do próprio corpo humano uma veia chamada “porta”, que drena o sangue dos órgãos digestivos para o fígado. Para os povos tupis guaranis, porta é “okena”, caminho de acesso. Em termos religiosos, transpor a porta de um templo ao final de romaria significa alcançar as graças divinas e cumprir a revisão de vida depois de longa caminhada e percalços. De certa forma, quebrar a porta simbolicamente que havia aprisionado a pessoa e alcançar um novo lugar e espaço espiritual. Assim, nos emocionamos quando saímos de um hospital depois de dias internados. Também há emoção quando voltamos à casa materna depois de anos de viagem ou exílio. Nem sempre a porta é monumental, mas é porta estreita que exige conversão (Mateus 7,13-14). Sem porta, temos devassidão e riscos desconhecidos. Com portas sempre fechadas, há também exclusão, depressão e solidão. Não há mãe que não diga aos seus filhos: “se uma porta se fechar, outras vão abrir-se!”.

Chaves das portas:

Sempre tem uma tríplice função simbólica: a. poder e autoridade; b. imagem da vida nova que se abre atrás de uma porta; c. objeto doméstico que todos carregam diariamente conectando a pessoa ao lar e à família, mesmo se estiver trabalhando fora ou em viagem. Há tantas chaves nos molhos de cada pessoa, que às vezes nem sabemos que portas estas podem abrir. Sempre há as chaves para portas aqui na Terra e aquelas que abrem o Reino Celeste. São as chaves que tornarão São Pedro o porteiro celestial. Temos registros de portas e chaves em toda literatura judaico-cristã. Há conexão sempre entre porta e justiça como lemos no Salmo 118: “Abram as portas da justiça, eu entrarei, darei graças ao Senhor Eterno. Aqui está a porta do Senhor, por meio da qual os justos entrarão”. A Virgem Maria é chamada de “Ianua coeli (porta celestial)”. Há também conexões entre porta e nicho, como caverna do mundo e lugar de acolhida do Deus Pai. Jesus diz: “O Filho do homem está às portas (Mc 13,29)”.

Gonzos ou pivôs cardeais das portas:

O que sustenta muitas vezes portas imensas e pesadas são alguns pinos ou pregos pequeninos, articulados nas dobradiças. Sem estes dois ou três eixos a porta fica desengonçada. Uma bela lição de que nem as portas se auto sustentam, necessitando de pontos de apoio e movimento. Pessoas que ficam muito fechadas se assemelham às portas que precisam de óleo lubrificante e movimento, para evitar ficar emperradas evitando desgastes e corrosão das relações comunitárias.

Portas santas nos anos jubilares católicos:

Aconteceu o trigésimo ano jubilar ou Ano Santo em 2025: Jubileu da Esperança. Seu tema central foi: “Peregrinos da Esperança”. Proclamação do jubileu ordinário pela bula pontifícia Spes no confundit – A esperança não decepciona, de 09/05/2024. Inaugurado o Ano Santo em 24/12/2024, com a abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro pelo papa Francisco. No domingo, 28 de dezembro do ano de 2025, houve o fechamento de três portas Santas. O término efetivamente foi em 06/01/2026 na Basílica de São Pedro, em Roma. Também celebramos os 1700 anos do Concílio de Niceia. O próximo já está marcado para 2033. Os bispos de Roma batem nas portas com seus cajados de pastores para abrir e fechar os Anos Santos. Houve em 2025, ao menos 3.196 portas da misericórdia, em todas as catedrais católicas do mundo. Também dezenas de missionários para visitar doentes e presos em todas as cidades, prisões, hospitais e lugares periféricos do mundo. Portas santas consagradas para os fieis que desejaram peregrinar em sua própria cidade e país concedendo indulgências. Indulgência não é mercadoria. É graça, portanto gratuita. Não se compra nem se vende. Em Roma, adentraram pelas quatro Portas Santas um total de 33.475.369 peregrinos. Desafio permanente das Igrejas HOJE nestes tempos de xenofobia e perseguição aos imigrantes: “Ser sempre e alegremente portal de acolhida”. Também nos portais da Internet e redes globais do mundo virtual. Manter-se humano, demasiadamente humano.