Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 4-11
Breve olhar sobre o Censo Religioso de 2022
Por Prof. Dr. Robson Sávio Reis Souza*
A transição religiosa no Brasil não apenas reflete a dinâmica religiosa, mas também abre espaço para pensar sobre as transformações sociais, culturais e políticas que influenciam os modos de vida em nosso país. Este texto busca analisar, com base nos dados do Censo 2022, a complexidade dessa transição religiosa.
Introdução
O Brasil tem vivido uma transformação religiosa significativa nas últimas décadas. Em 2010, os católicos representavam 65,1% da população com 10 anos ou mais; em 2022, esse número caiu para 56,7%, uma redução de 8,4 pontos percentuais. Em contrapartida, os evangélicos cresceram de 21,6% para 26,9%, e os sem religião passaram de 7,9% para 9,3%.
Podemos, não obstante, afirmar que o catolicismo brasileiro tem perdido em quantidade, mas ganhado em pluralidade, dado que há uma diversidade interna que precisa ser considerada ao analisar a queda numérica dos católicos. Nosso país, assim como outros países da América Latina, viu emergir várias formas de expressão católica nos últimos cinquenta anos. A Teologia da Libertação, as pastorais sociais, movimentos “carismáticos” e reconfigurações de práticas devocionais ganharam força nas décadas de 1960 e 1970, no contexto pós-Vaticano II, e ajudaram a moldar uma paisagem religiosa em que o catolicismo não é monolítico. Assim, a diminuição no número de católicos pode ser, em parte, atribuída à mudança nas formas de vivenciar a fé, à busca por maior experiência espiritual e à desconexão de certos segmentos da população com a estrutura institucional da Igreja Católica Romana.
Por outro lado, o crescimento do protestantismo evangélico tem sido uma das principais características da transição religiosa no Brasil. É importante ressaltar a heterogeneidade dentro do universo evangélico. Em 1980, os evangélicos representavam cerca de 6% da população; em 2022, esse número subiu para 26,9%. Tal fenômeno está associado a uma série de fatores, incluindo o fortalecimento das Igrejas pentecostais e neopentecostais, que oferecem um modelo de vivência religiosa altamente experiencial e personalizada. Além disso, a ascensão de líderes evangélicos e a atuação política dessas Igrejas também têm contribuído para a visibilidade e a expansão desse grupo, o que não pode ser ignorado ao analisarmos a transição religiosa no Brasil.
O aumento dos sem religião também merece atenção. Embora esse grupo não represente necessariamente o ateísmo e o agnosticismo, inclui pessoas que rejeitam a filiação institucional, mas podem manter crenças espirituais ou práticas religiosas, até mesmo cristãs. Esse fenômeno está ligado à secularização, à crítica às instituições religiosas e à valorização da autonomia do indivíduo na contemporaneidade.
1. Uma análise dos dados do Censo Demográfico 2022
A religiosidade brasileira tem sido historicamente marcada pela predominância do catolicismo, herança da colonização portuguesa e da forte presença da Igreja Católica na sociedade. Com base nos dados divulgados pelo IBGE, referentes à pergunta sobre religião feita à população com 10 anos ou mais, é possível identificar tendências e variações do pertencimento religioso ao longo do tempo.
A análise quantitativa, embora reveladora, não é suficiente para compreender a complexidade da transição religiosa, que deve ser entendida à luz de fatores históricos, sociais e culturais. Desde os anos 1970, observa-se uma erosão da hegemonia católica, impulsionada por mudanças urbanas, migrações internas, crescimento das mídias religiosas e atuação proselitista de algumas poderosas Igrejas evangélicas.
A transição religiosa não pode ser explicada apenas por questões religiosas ou espirituais, pois está profundamente entrelaçada com mudanças que alteraram os valores, as práticas e as identidades religiosas no Brasil.
1.1. Fatores sociais
A secularização, um dos fatores sociais mais discutidos na literatura sobre a transição religiosa, tem sido elemento central na mudança do perfil religioso brasileiro. Esse processo tem sido acelerado por uma série de fatores sociais, incluindo o aumento da urbanização, a ampliação do acesso à educação e a crescente pluralidade religiosa (Vargas, 2015; Santos, 2017).
A migração do campo para as cidades gerou novas dinâmicas sociais e culturais. Nas periferias urbanas, Igrejas evangélicas pentecostais encontraram espaço para expansão, oferecendo redes de apoio, identidade comunitária e respostas práticas às dificuldades cotidianas.
A mobilidade geográfica e social, ou seja, o deslocamento populacional para novas fronteiras agrícolas e urbanas, criou espaços de baixa institucionalização religiosa, onde Igrejas evangélicas se estabeleceram com facilidade.
1.2. Fatores políticos
A Constituição de 1988 garantiu liberdade de culto e favoreceu a pluralização religiosa. Igrejas evangélicas passaram a atuar mais abertamente na esfera pública e política. A criação de um bloco evangélico no Congresso Nacional e, com o passar do tempo, nas assembleias legislativas e câmaras de vereadores, com a formação de uma “bancada evangélica”, e a crescente atuação de líderes religiosos na política brasileira, como o apoio a candidatos conservadores e reacionários, demonstram como a religião tem se entrelaçado com os movimentos políticos no Brasil.
Ao mesmo tempo, a Igreja Católica viu sua hegemonia enfraquecer, em parte devido à sua postura, algumas vezes, distanciada das questões políticas e sociais que vinham dominando a agenda pública. Esse afastamento entre a Igreja Católica e os setores mais progressistas da sociedade brasileira contribuiu para a desconexão com parte da população, especialmente nas áreas urbanas.
1.3. Fatores econômicos
A ascensão de novas classes sociais tem levado a uma mudança nos padrões de religiosidade, com novas demandas por serviços religiosos que combinem entretenimento, pertencimento social e promoção de qualidade de vida.
As Igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais, souberam se adaptar a esse novo cenário, oferecendo não apenas um espaço de culto, mas também um conjunto de práticas e serviços que atendem às necessidades materiais e espirituais de seus membros, como escolas, clínicas de saúde e programas de apoio psicológico. Essa adaptação ao contexto econômico, com forte presença nas periferias urbanas, é um dos fatores que explicam o crescimento dessas Igrejas entre as populações de classes baixas e médias.
Além disso, o uso de rádios, canais de TV e plataformas de redes sociais é exemplo de como as Igrejas evangélicas se tornaram empresas religiosas capazes de adaptar seu discurso às exigências de um público cada vez mais exigente e diversificado.
A expansão do setor de serviços e a informalidade, com a precarização do trabalho e o crescimento da economia informal, criaram ambientes propícios para Igrejas que oferecem suporte emocional, financeiro e comunitário.
1.4. Fatores demográficos
O crescimento populacional e a mudança nas estruturas familiares contribuíram para a mudança de padrões religiosos. A vida urbana tende a ser mais secularizada e individualista, e nela a maior diversidade religiosa é mais visível.
Além disso, a redução da taxa de natalidade e o envelhecimento da população brasileira também impactaram o cenário religioso. O declínio no número de filhos por família e o envelhecimento da população afetaram as práticas religiosas tradicionais, como o catolicismo, que historicamente teve forte base em comunidades familiares. Já o protestantismo evangélico, por sua vez, tem atraído uma população jovem e ativa, o que pode explicar, em parte, seu crescimento.
Ademais, as mudanças nas estruturas etária e educacional, com o aumento da escolarização e o acesso à informação, favoreceram o questionamento de dogmas religiosos e a busca por espiritualidades alternativas.
2. Os “católicos não praticantes” e os sem religião
É fato que o catolicismo ainda mantém forte presença cultural e identitária no país. Porém, um dos desafios centrais para a análise religiosa é a existência de amplo grupo de católicos não praticantes, cujas identidades religiosas nem sempre se manifestam por meio da participação regular em cultos, sacramentos ou práticas institucionais. Esses indivíduos mantêm uma identificação cultural e simbólica com o catolicismo, mas a prática efetiva da religião é esporádica ou inexistente.
Segundo Perea (2015), o catolicismo no Brasil incorpora uma dimensão de pertencimento que transcende a mera participação litúrgica, refletindo uma religiosidade que pode ser simbólica, afetiva e ritualística de maneira não institucionalizada. Assim, os católicos não praticantes representam um universo que desafia a interpretação simplista dos dados censitários que indicam apenas filiação religiosa, pois a frequência aos cultos e o engajamento religioso são variáveis independentes da autoidentificação.
Por outro lado, o grupo dos “sem religião”, embora tenha aumentado modestamente, representa uma tendência global de secularização e pluralização religiosa. Esse aumento reflete uma tendência crescente de individualização da fé, particularmente entre os jovens e nas grandes cidades, onde o acesso à educação e a novos modelos de pensamento tem desafiado as tradições religiosas.
Esses dois fenômenos – os “católicos não praticantes” e os “sem religião” – revelam que a religiosidade brasileira está se tornando mais fluida, subjetiva e desinstitucionalizada. A identificação religiosa não se dá apenas por adesão doutrinária, mas por vínculos afetivos, culturais e existenciais. O Censo 2022, ao captar essas tendências, convida-nos a repensar os modelos de análise religiosa para além da quantidade, incorporando as dimensões qualitativas e interpretativas.
3. Uma religiosidade fluida
Entende-se por “religiosidade fluida” a forma de vivência religiosa marcada pela autonomia individual, trânsito entre crenças e afastamento das instituições religiosas tradicionais. Reflete uma espiritualidade flexível, personalizada e, muitas vezes, desvinculada de dogmas ou filiações formais.
No Brasil, esse fenômeno é visível no crescimento dos “sem religião”, dos desigrejados e dos praticantes de espiritualidades alternativas.
As principais características desse tipo de religiosidade são:
a) Autonomia espiritual: o indivíduo escolhe livremente suas crenças, práticas e valores, sem depender de autoridades religiosas;
b) Trânsito entre tradições: há circulação entre diferentes religiões, como alguém que frequenta cultos evangélicos, mas também pratica meditação ou acredita em reencarnação;
c) Desinstitucionalização: rejeição ou afastamento das estruturas formais (Igrejas, dogmas, hierarquias), mesmo mantendo crenças religiosas;
d) Sincretismo e personalização: combinação de elementos de várias tradições religiosas em uma espiritualidade própria.
Essa fluidez é especialmente comum entre jovens urbanos, pessoas com maior escolaridade e indivíduos que passaram por experiências negativas com instituições religiosas. Ela também se manifesta em práticas como ioga, astrologia, terapias holísticas e espiritualidades ligadas ao bem-estar.
4. O crescimento do fundamentalismo cristão
Num cenário de intensa transição religiosa, é importante analisar o crescimento de grupos cristãos fundamentalistas como parte de um processo de reconfiguração religiosa, marcado pela desinstitucionalização, mercantilização da fé e instrumentalização política, que desafia os valores éticos do cristianismo.
Embora cerca de 80% dos brasileiros se declarem cristãos, os dados do Censo 2022 e estudos qualitativos revelam que essa identidade cristã abriga uma diversidade profunda – incluindo segmentos que reinterpretam a fé de forma individualista, mercantilizada e, em alguns casos, com discursos excludentes ou violentos.
Há uma ascensão de grupos evangélicos com perfil fundamentalista que se articulam com pautas políticas conservadoras e reacionárias, promovem uma leitura literal da Bíblia e rejeitam valores como pluralismo, justiça social e diálogo inter-religioso. No entanto, observa-se, também, a presença desses grupos dentro do catolicismo romano.
Podemos citar como características do cristianismo fundamentalista contemporâneo:
a) Desvinculação da ética cristã tradicional: valores como solidariedade, compaixão, justiça e paz são substituídos por discursos de prosperidade, guerra espiritual e condenação moral.
b) Individualismo religioso: a fé é vivida como um projeto pessoal de sucesso, cura ou ascensão, com pouca ênfase na coletividade ou no serviço ao próximo.
c) Mercantilização da fé: Igrejas operam como empresas religiosas, com forte apelo ao consumo espiritual, venda de produtos e promessas de bênçãos em troca de contribuições financeiras.
d) Discurso de ódio e exclusão: minorias religiosas, sexuais e culturais são frequentemente alvo de retórica agressiva, em nome de uma “defesa da fé”.
Essas práticas contrastam com tradições cristãs que, historicamente, se alinharam com movimentos de justiça social, solidariedade e cultura da paz, tanto no catolicismo como nas Igrejas evangélicas históricas.
Alguns fatores que podem explicar esse fenômeno do recrudescimento do fundamentalismo cristão são: a insegurança social e econômica, dado que, em contextos de crise, discursos religiosos que oferecem respostas simples e promessas de proteção divina ganham força; a radicalização de grupos políticos, considerando que o cristianismo fundamentalista se tornou um ator político relevante, mobilizando fiéis em torno de pautas morais e identitárias; o surgimento de líderes carismáticos com discursos radicais e sem controle doutrinário, em virtude da fragmentação institucional e da multiplicação de Igrejas independentes; e a ampliação das mídias religiosas, com o uso intensivo de redes digitais que permitem a disseminação rápida de mensagens polarizadas e emocionalmente apelativas.
Conclusão: a complexidade da transição religiosa no Brasil
A diversidade religiosa brasileira manifesta-se em uma rica multiplicidade de crenças que refletem a formação histórica e cultural do país. Além do cristianismo, convivemos com religiões de matriz africana, o espiritismo kardecista, o islamismo, o judaísmo, o budismo, o hinduísmo e outras tradições orientais trazidas por imigrantes, incluindo novas espiritualidades e movimentos sincréticos que integram elementos de diferentes crenças.
Do ponto de vista pastoral, a transição religiosa no Brasil não pode ser reduzida a simples troca de uma religião por outra. A queda no número de católicos e o crescimento de evangélicos e de pessoas sem religião refletem mudanças mais amplas na sociedade brasileira, que envolvem questões de classe social, educação, urbanização, políticas públicas e mudanças culturais mais globais. Além disso, há uma complexidade interna dentro do catolicismo e do protestantismo, o que exige uma análise mais cuidadosa e detalhada dos dados para entender as diferentes formas de religiosidade coexistentes no Brasil.
Outro ponto relevante é que o Censo 2022 reflete uma realidade em constante transformação. O dinamismo da religiosidade brasileira, com seu fluxo contínuo de conversões, mudanças de denominação e o crescimento das novas expressões de fé, exige uma abordagem mais flexível e pluralista para a compreensão da religião no Brasil. A transição religiosa no país, longe de ser um processo linear, está permeada por múltiplas narrativas e experiências que, ao se entrelaçarem, moldam a paisagem religiosa brasileira de forma única.
Portanto, os números do censo não capturam a totalidade da complexa transição religiosa. A diversidade interna, tanto do catolicismo quanto do protestantismo, e a multiplicidade de experiências de religiosidades no Brasil indicam que a compreensão da mudança religiosa deve ir além da estatística bruta, envolvendo uma análise mais profunda das dinâmicas sociais, culturais e políticas que influenciam a religiosidade.
Referências Bibliográficas
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Prof. Dr. Robson Sávio Reis Souza*
*é licenciado em Filosofia e doutor em Ciências Sociais. Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), é membro do Grupo de Análise de Conjuntura Sociopolítica da CNBB, do Observatório da Comunicação Religiosa e da Comissão Brasileira Justiça e Paz. E-mail: [email protected]

