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Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 12-23

Entre dados e a Pastoral: lições do Censo 2022

Por Pe. Me. Eliseu Wisniewski*

O texto analisa as transformações no campo religioso brasileiro, com ênfase nos dados do Censo 2022 e em suas implicações para a atuação pastoral da Igreja Católica.

Vivemos tempos de crises, de mudanças e de desafios. É indiscutível que o mundo está se transformando a uma velocidade que supera nossa capacidade de acompanhá-lo e entendê-lo. Também é evidente que, para acompanhar essas mudanças, quem recebeu o mandato de anunciar o Evangelho a toda criatura (Mc 16,15) precisa estar atento às transformações que serão exigidas em sua atuação pastoral, para que a mensagem possa manter, pelo menos, um alcance e uma eficácia mínimos. Sabemos que evangelizamos ao enfrentar os diversos desafios que surgem, reconhecendo a realidade ao nosso redor, atentos aos sinais dos tempos, e, com discernimento, mergulhamos nela iluminados pela fé.

As rápidas e contínuas mudanças socioculturais ocorridas nas últimas décadas exerceram intenso impacto sobre a Igreja Católica em nosso país. Já não temos a mesma serenidade de um catolicismo intrínseco à identidade brasileira, presente e ativo nos mais diversos setores de uma sociedade homogênea, com a instituição garantindo uma maioria expressiva de cristãos batizados. A cultura uniforme facilitava a aceitação de doutrinas e referências morais, mesmo quando não eram praticadas.

Naquela época, falar de Igreja equivalia a referir-se à hierarquia, enquanto o laicato era visto como parte passiva; a pastoral limitava-se à conservação por meio dos sacramentos, e a ação missionária propriamente dita era desconhecida. Portanto, aquilo que anteriormente era fornecido de forma única por uma cultura homogênea agora impõe ao indivíduo o dever de escolher. Diante da variedade de fontes de sentido para a vida, culturais e religiosas, cada pessoa deve exercer sua liberdade e decidir qual caminho seguir.

No Brasil, a fé católica, que por décadas ocupou uma posição hegemônica, enfrenta hoje desafios que não decorrem tanto do ateísmo ou do agnosticismo, mas sim da crescente diversidade religiosa. Esse novo panorama abrange a expansão dos movimentos pentecostais e neopentecostais, a presença de tradições orientais, o surgimento de religiões tipicamente brasileiras e a disseminação de práticas espirituais voltadas à autoajuda e à busca de sentido existencial. Nesse contexto, observa-se uma crise na vivência comunitária e na comunhão de fé, que vêm sendo substituídas por grupos formados com base em afinidades e interesses específicos, muitas vezes marcados por atitudes sectárias, polarizadoras e até hostis em relação aos outros. Cada pessoa ou grupo tende a se fechar em seu próprio conteúdo, mostrando pouca disposição para o diálogo e para o encontro com o diferente.

O Censo Demográfico 2022, ao investigar dados básicos da população brasileira como características dos domicílios e de seus moradores, incluindo sexo, idade, raça/cor, etnia, nível de instrução, emprego e renda, bem como informações sobre migração, religião e a presença de pessoas com deficiência, evidenciou, no que se refere à religião, a consolidação dessas mudanças no perfil religioso do Brasil.

Sabemos que os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), especialmente do Censo Demográfico, são essenciais para a Igreja, pois descrevem o tamanho, o ritmo de crescimento e as características da população religiosa em cada região do país, permitindo identificar desafios e planejar projetos de evangelização. Neste texto, vamos concentrar nossa análise nos dados de religião do Censo 2022.

Primeiramente, discutiremos a expressão teológica “sinais dos tempos”, que aponta para a necessidade de observar continuamente o mundo e a realidade em que vivemos para, acima de tudo, reconhecer as expressões positivas ou negativas nele presentes e, em seguida, discernir as direções que ele assume, a fim de fazer penetrar nele a força provocadora e renovadora do Evangelho. A partir disso, no segundo momento, apresentaremos qual é o perfil religioso da sociedade brasileira com base nos dados censitários. Por fim, à luz dessas constatações, debateremos as implicações para a ação evangelizadora em um Brasil cada vez mais plural e diversificado.

1. Perscrutar os sinais que os tempos revelam e interpretá-los à luz do Evangelho

Para viver e desempenhar sua missão, a Igreja tem o dever permanente de investigar os sinais dos tempos, dando-se conta de que o processo histórico, particularmente a história em curso, tem algo para dizer à fé. Ela é a manifestação de Deus e o lugar da realização da fé. A fé é proclamada e vivida dentro de um contexto histórico específico. Para que possa encarnar-se na história e, assim, transformá-la, a fé precisa, antes, compreender a própria constituição desse núcleo histórico. O que justifica uma leitura de fé sobre a história atual é o fato de que esta vem envolvida na história da salvação. Essa história, que carrega uma significação muito particular, é história de salvação. Por isso, é sempre interpretada, isto é, acompanhada de palavras que revelam seu sentido salvífico. A história humana é a história da salvação, no sentido de que esta é o sentido profundo daquela (Boff, 1979, p. 149-156).

A contínua atenção do Evangelho à história e à forma como nos relacionamos com ela gera, teologicamente, o tema dos sinais dos tempos. Essa categoria, que orienta o confronto permanente entre os dados contidos na Palavra e as realidades com as quais a Igreja se depara no tempo e no espaço, é, ao mesmo tempo, antiga e atual. Sua raiz evangélica ressalta a exigência de o cristão vigiar continuamente o mundo em que vive, para compreender primeiro as expressões positivas ou negativas que o cercam; analisando, em seguida, as direções que este assume, a fim de fazer ressoar nele a força transformadora do Evangelho.

O uso da categoria “sinais dos tempos” é muito recente no magistério da Igreja. Após sua presença nos Evangelhos, pela boca de Jesus (Mt 16,1-4; Lc 12,54-56), seu silêncio se faz presente até reaparecer nas reflexões magisteriais do século XIX, sem negar a possibilidade de ter sido utilizada antes sob outros títulos, intenções ou sentidos (Comblin, 2005, p. 527-540). O emprego teológico-pastoral desse conceito revela uma nova percepção histórica da Igreja. Devemos à atuação profética de João XXIII a redescoberta dessa categoria para a vida e para a reflexão teológica da Igreja. O referido papa, no documento de convocação do Concílio Vaticano II, Humanae Salutis (25 de dezembro de 1961), afirma de forma textual: “Apropriando-nos da recomendação de Jesus, de saber distinguirmos sinais dos tempos, acreditamos descobrir, em meio a tantas trevas, numerosos sinais que nos infundem esperança sobre os destinos da Igreja e da humanidade”. E não passa despercebida a atenção desse Concílio às condições históricas e socioculturais de então.

Uma contribuição mais significativa do Vaticano II em relação aos ensinamentos anteriores da Igreja está em sua determinação de entender a condição dos homens e mulheres no mundo atual. Essa postura ficou evidente, especialmente, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, provocando uma transformação metodológica que refletia uma nova compreensão da Igreja sobre si mesma e uma nova forma de pensar a fé. Em nenhum dos vinte concílios anteriores a Igreja havia imposto a si mesma o desafio de compreender o mundo em que vivemos, com suas esperanças, suas aspirações e seu caráter tantas vezes dramático, e desta forma “mundo e história não são excluídos do território salvífico nem da vontade salvífica de Deus, do qual a Igreja é um sinal visível” (Suess, 2015, p. 895).

Diante disso, segundo Fisichella (1991, p. 59-60), a leitura dos sinais dos tempos exige que a Igreja, em seu ensino, esteja atenta constantemente às variadas situações de vida e às diferentes culturas que moldam as estruturas das sociedades. À medida que o mundo e a história se modificam com avanços do progresso, da tecnologia e de uma comunicação que aproxima povos distantes, o Evangelho precisa ser proclamado e compreendido também nesses contextos, para que todas as pessoas possam alcançar a mensagem da salvação.

À luz dos sinais dos tempos, a Igreja é provocada a cumprir sua função profética, engajando-se na leitura desses sinais e emitindo o juízo de Deus sobre eles. Dentro do âmbito profético que caracteriza a comunidade cristã, o julgamento terá sempre como objetivo a salvação, pois emerge do coração da revelação, que apresenta o Crucificado como o marco definitivo da salvação, sendo a expressão suprema do amor do Pai. Ao proferir esse juízo, a Igreja afasta-se dos vários profetas do infortúnio e reconhece, enfim, a bondade da criação em todas as suas expressões, bem como as conquistas positivas de homens e mulheres quando orientadas para o bem de todos. Consequentemente, ela reintegra cada uma dessas expressões no quadro mais amplo da Palavra de Deus, para que possam ser plenamente iluminadas e finalizadas.

O princípio e o método dos sinais dos tempos tornaram-se, de fato, um dado e uma exigência na busca contínua de aprofundar a missão da Igreja no mundo. Eles criaram, tanto na teoria quanto na prática, uma circularidade que busca compreender a fé a partir da realidade e, ao mesmo tempo, entender a realidade a partir da fé. No tempo e no espaço, entram coisas boas e ruins de forma entrelaçada. É preciso discernir, dentro dessa ambiguidade, a presença salvadora e misericordiosa de Deus. O exercício hermenêutico envolve o confronto concreto entre os conteúdos da fé e a realidade ambivalente, o que implica estudo, oração e docilidade, guiados pelas Escrituras e pela sensibilidade à realidade, além da compreensão desta com a ajuda das ciências modernas.

2. O mosaico religioso do Brasil: resultados do Censo 2022

Ao longo de 150 anos de levantamentos censitários sobre religião (1872-2022) no Brasil, foram registradas inúmeras mudanças. Nesse período, o catolicismo apostólico romano, que fora a religião do Império, a religião da grande maioria da população brasileira e a religião oficial do Estado até a Constituição da República de 1891, deixou de manter seu status hegemônico, abrindo espaço a diversas outras religiões e se posicionando em um cenário multirreligioso no país.

Ainda que parcialmente e com algum atraso (três anos depois de coletados), os resultados sobre as religiões do Censo 2022 foram anunciados pelo IBGE em 6 de junho de 2025. Como é de conhecimento, esse censo abrange todo o território nacional, sendo a maior operação estatística do país, realizada a cada dez anos, com a coleta de dados em todas as unidades domiciliares do território brasileiro. Trata-se do instrumento mais objetivo disponível no Brasil para compreender o país, conhecer sua realidade e, no que tange aos dados sobre religião, oferecer uma fonte com o maior grau de objetividade para fundamentar reflexões e ações.

A divulgação do Censo Demográfico 2022 – Religiões: resultados preliminares da amostra (2025) – apresenta o perfil religioso da população residente no país, com base nas informações do Questionário da Amostra do Censo Demográfico 2022. O item “Qual é sua religião ou culto?” foi aplicado a todas as pessoas com 10 anos ou mais. Nas terras indígenas e nos setores censitários de agrupamentos indígenas, porém, para melhor capturar as informações desse grupo, o enunciado foi adaptado para: “Qual a sua crença, ritual indígena ou religião?”De acordo com os dados do Censo Demográfico, entre 2010 e 2022 ocorreu uma queda no percentual de católicos apostólicos romanos (de 65,1% para 56,7%) e houve aumentos nos evangélicos (de 21,6% para 26,9%) e na parcela sem religião (de 7,9% para 9,3%), grupo em que a maioria são homens. Entre os católicos, houve uma queda de 8,4 pontos percentuais (p.p.) em comparação com 2010. Por outro lado, a proporção de evangélicos e de pessoas sem religião no país aumentou, respectivamente, 5,2 p.p. e 1,4 p.p. A religião espírita (1,8%) registrou uma queda de 0,3 p.p. em relação a 2010 (2,2%). Já a umbanda e o candomblé passaram de 0,3% em 2010 para 1,0% em 2022, mirando um aumento de 0,7 p.p. As religiosidades de tradições indígenas representaram 0,1% das declarações.

Em 2022, o catolicismo predominou em todas as grandes regiões do país, com maior presença no Nordeste (63,9%) e no Sul (62,4%). Já os evangélicos estavam mais presentes no Norte (36,8%) e no Centro-Oeste (31,4%). A maior parcela de pessoas que se declararam espíritas estava no Sudeste (2,7%), enquanto umbandistas e candomblecistas tinham maior presença no Sul (1,6%) e no Sudeste (1,4%). O Sudeste também concentrou a maior proporção de indivíduos sem religião (10,5%). Embora os católicos apostólicos romanos fossem maioria em todos os grupos de idade, a proporção desse grupo variou entre 52,0%, na faixa etária de 10 a 14 anos, e 72,0% na faixa etária de 80 anos ou mais.

O catolicismo prevaleceu em todas as categorias de cor ou raça, alcançando 60,2% entre as pessoas brancas. Entre as pessoas de cor ou raça indígena, a maior proporção foi de evangélicos (32,2%). As maiores proporções de espíritas (3,2%), outras religiões (13,6%) e sem religião (16,2%) foram observadas entre pessoas de cor ou raça amarela.

As maiores taxas de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais ocorreram entre os indivíduos que se identificaram com tradições indígenas (24,6%) e com o catolicismo (7,8%). Por outro lado, as menores taxas foram observadas entre pessoas que se declararam espíritas (1,0%) e entre os adeptos de umbandismo/candomblé (2,4%). Os espíritas foram os que apresentaram a menor proporção de indivíduos sem instrução e com ensino fundamental incompleto (11,3%), e o maior percentual de nível superior completo (48,0%).

Fica perceptível que o Brasil atravessa uma fase de transição religiosa, apresentada por quatro tendências: queda do catolicismo, crescimento das adesões evangélicas, ampliação das religiões não cristãs e aumento de indivíduos que se declaram sem religião.

Dentre as novidades do Censo 2022, destaca-se uma queda do catolicismo menos abrupta do que nos censos anteriores. Ainda assim, o catolicismo continua em declínio, agora de 7,9 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior. Em 2000, 73,8% se declaravam católicos; em 2010, eram 64,6%; hoje, são 56,7%. Quanto aos evangélicos, o crescimento foi menor do que o previsto por pesquisadores ou pela mídia, que indicavam a possibilidade de os evangélicos ultrapassarem os católicos por volta de 2030. Um detalhe relevante é a presença dos evangélicos entre os mais jovens: os católicos aparecem mais entre os mais velhos, enquanto os evangélicos apresentam um perfil mais jovem, com a maior proporção entre 10 e 14 anos (31,6%) e com diminuição da porcentagem conforme o aumento da idade, chegando a 19% na faixa de quem tem 80 anos ou mais. Esse perfil jovem também é observado entre os sem religião. Observa-se que, com o passar das décadas, vem se fortalecendo o grupo dos chamados sem religião, ou seja, daqueles que, embora mantenham a crença em Deus, optam por não se associar a religiões ou tradições institucionalizadas.

A constatação mais significativa é que o Brasil está se tornando mais plural e diverso do ponto de vista religioso e deverá ampliar essa diversidade nas próximas décadas. Com o avanço dos evangélicos e o crescimento do grupo sem religião, o país tende a vivenciar uma transformação histórica na qual o catolicismo pode deixar de ocupar o papel de religião majoritária. Esse movimento provoca uma reflexão sobre a importância da fé tanto na vida pessoal quanto na vida social, sobre os desafios da convivência plural e sobre as maneiras atuais de buscar o sentido da existência em uma sociedade cada vez mais complexa e em constante transformação. Diante desse cenário plural, em constante mudança, centrado no sujeito e voltado para o aqui e agora, surge uma questão essencial: como transmitir e viver a experiência cristã nesse contexto multiforme, individualizado, dinâmico, diverso e imanente? Que respostas pastorais são possíveis?

3. Indicações pastorais à luz do discernimento da realidade

É evidente que o catolicismo no Brasil, assim como as demais tradições religiosas, atravessa um momento crítico. Embora não se trate do primeiro em sua trajetória histórica, o contexto contemporâneo apresenta características e proporções inéditas, que permitem antever transformações significativas em sua configuração. Considerando que o catolicismo constituiu, ao longo do tempo, um dos elementos fundamentais da identidade nacional brasileira, é inevitável que seja afetado pelas mudanças estruturais e culturais que incidem sobre a sociedade, conforme atesta sua própria história.

Em consonância com as análises realizadas pelo Instituto Nacional de Pastoral (Inapaz), das quais extraímos as ideias que apresentamos a seguir e cujas fontes indicamos nas referências bibliográficas, a forma como os brasileiros se relacionam com a religião tem passado por transformações profundas. Essas mudanças estão diretamente ligadas a processos socioculturais de alcance global, embora se manifestem de maneiras distintas em cada contexto.

No caso do Brasil, podemos afirmar que vivemos hoje um momento significativamente diferente daquele que, por séculos, sustentou a prática pastoral e moldou a vivência religiosa no país. Essa diferença pode ser compreendida como o resultado de algumas “passagens”: aspectos que, em períodos históricos anteriores, eram predominantes cedem agora espaço a novas formas de religiosidade e vivência da fé. Isso não significa o desaparecimento completo desses elementos, mas sim uma diminuição de sua influência. Essa reconfiguração torna a compreensão da realidade mais complexa, pois os elementos tradicionais ainda estão presentes, mas com pesos e significados diferentes na experiência do crer.

Nosso país vive um tempo caracterizado por diversas passagens. Pelo menos cinco delas precisam ser consideradas se quisermos dialogar com a mentalidade contemporânea e anunciar o Evangelho de forma significativa, pois a fé só adquire sentido quando é vivida dentro desse horizonte cultural. Essas passagens são: a da primazia do uno para a valorização do múltiplo; do estático para o dinâmico; da homogeneidade para a diversidade; da autoridade da instituição e da tradição para a centralidade do indivíduo; e do predomínio da transcendência para a urgência da imanência.

Vivemos atualmente um agudo processo de desinstitucionalização da vida em geral e, por consequência, da experiência religiosa. Isso significa que, ao praticarem sua fé e suas crenças, as pessoas tendem a se distanciar das estruturas e das normas impostas pelas grandes instituições, como – em nosso caso – a Igreja Católica. As instituições religiosas, assim, têm visto sua influência sobre os indivíduos e suas escolhas diminuir, enquanto o sujeito se torna o protagonista de sua própria vivência espiritual. Desse modo, é possível afirmar que desinstitucionalização e individuação são dimensões complementares de um mesmo fenômeno.

A gestão da experiência religiosa passa a ser orientada principalmente pelo próprio indivíduo, que, de acordo com seus interesses e critérios pessoais, escolhe os elementos que considera mais significativos. O controle das crenças deixa, assim, de depender de instâncias externas e institucionais, tornando-se um processo interno e subjetivo, baseado na vivência pessoal. A individuação das crenças diz respeito, portanto, à maneira como cada pessoa constrói suas convicções, valores e visões religiosas de forma autônoma e personalizada, muitas vezes à margem ou em oposição às práticas estabelecidas por tradições específicas. Dessa forma, os indivíduos tendem a reinterpretar e adaptar suas crenças conforme suas próprias experiências, necessidades e percepções. Os conteúdos que passam a ser acolhidos e praticados tornam-se cada vez mais seletivos: de um lado, observa-se uma resistência à aceitação de princípios morais e sociais; de outro, há crescente adesão a propostas religiosas voltadas a aspectos individuais, afetivos e patrimoniais.

No processo de evangelização, é fundamental distinguir a individuação da fé do individualismo. A individuação é um aspecto positivo e necessário, que merece maior atenção e cuidado pastoral. O perigo de uma pastoral predominantemente voltada para as massas é grande, pois pode sufocar a necessidade que cada pessoa tem de encontrar referências concretas e próximas. Já o individualismo, por sua vez, é sempre negativo, especialmente em sua dimensão religiosa. Assim, embora seja importante valorizar o atendimento pessoal, é igualmente essencial garantir que os processos de individuação promovidos pela ação evangelizadora conduzam à vivência comunitária da fé.

É nesse ponto que se deve concentrar nossa preocupação evangelizadora, pois corremos o risco de enfraquecer o sentido originário do cristianismo. Antes de ser uma religião no sentido institucional, o cristianismo se apresenta como uma experiência fundamental de sentido para a existência humana, que supõe acolhimento e adesão. O ponto de partida dessa experiência é o dom, a eleição, o movimento de aproximação ao mistério. Ao ser humano cabe o segundo momento: a resposta. A experiência cristã é, portanto, essencialmente exógena; ela vem de fora e, ao propor aliança, seguimento e discipulado, desacomoda o sujeito do seu autocentramento e o conduz a uma relação viva com o mistério de Deus e com os outros. Assim, a experiência cristã não se reduz à subjetividade fechada, excludente ou dominante, nem implica a anulação dessa subjetividade. Trata-se, antes, de um encontro, uma relação de comunhão, de unidade na diversidade, de reconhecimento do outro.

A pluralidade do mundo atual convida cada pessoa a reconhecer, na própria vida, que o princípio orientador de sua existência é Jesus Cristo. Por isso, é fundamental insistir, pastoralmente, em processos catequéticos inspirados no modelo catecumenal, nos quais o essencial não é apenas a transmissão de conteúdos doutrinais, mas sobretudo a promoção de verdadeiro encontro com a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. O núcleo da iniciação à vida cristã está na descoberta do amor de Deus e na resposta, livre e consciente, a esse amor. A diminuição do número de católicos observada no censo reflete uma crise nos processos tradicionais de evangelização e transmissão da fé, impulsionando a Igreja a priorizar a iniciação à vida cristã em sua ação pastoral.

Desse modo, a ação evangelizadora, como já destacado, precisa ser pensada de forma a questionar o individualismo sem, contudo, restringir a liberdade pessoal de cada pessoa. Esse equilíbrio se realiza por meio de verdadeira experiência comunitária. Por isso, é fundamental valorizar a configuração eclesial em pequenas comunidades, onde a fraternidade vivida no cotidiano se torna força capaz de enfrentar as polarizações e hostilidades tão presentes em nossa época. Em pequenas comunidades, o impacto que um grupo reduzido de pessoas exerce sobre a experiência religiosa tende a ser mais profundo do que o provocado por grandes multidões. Elas são fornecedoras de proximidade, senso de pertença e contato com a Palavra de Deus.

No contexto da sinodalidade, essas pequenas comunidades assumem papel decisivo na concretização das orientações do último Sínodo. Nelas florescem o afeto, a ajuda mútua e a solidariedade entre os membros e, além disso, manifestam-se a partilha de responsabilidades, o compromisso com a missão evangelizadora e a dedicação a um serviço socioambiental transformador. Ainda que sujeitas às limitações próprias das relações humanas, tais comunidades configuram-se como espaços privilegiados de escuta, convivência e participação.

4. Será possível concluir?

Conforme revelam os dados do Censo 2022 sobre religião, a evangelização no Brasil encontra-se diante de um desafio amplo, complexo e urgente. O país mostra-se cada vez mais plural, marcado por experiências religiosas que se distanciam das instituições que, historicamente, orientaram a vivência da fé. Observa-se contínua diminuição no número de católicos e um crescimento entre os evangélicos; ainda que em ritmo mais lento, a tendência permanece. Destaca-se também o aumento expressivo do grupo dos sem religião, expressão mais evidente desse processo de transformação. Nesse contexto de crescente individualização e desinstitucionalização, é essencial evitar que a mensagem cristã seja reduzida a um produto do individualismo ou do consumismo religioso.

Pelo contrário, somos chamados a buscar novos caminhos para a transmissão da fé e para que a vida em comunidade, fundada nos vínculos humanos essenciais e nutrida pela Palavra de Deus, pela oração e pelos sacramentos, seja fonte viva de missionariedade.

Referências bibliográficas

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Pe. Me. Eliseu Wisniewski*

*é presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). E-mail: [email protected]