Publicado em março-abril de 2026 - ano 67 - número 368 - pp. 26-35
Graciliano Ramos e personagens do drama social brasileiro
Por Prof. Dr. Faustino Teixeira*
Introdução
Graciliano era um ateu convicto, com simpatia declarada pelo comunismo, a ponto de filiar-se no Partido Comunista do Brasil em 1945, ano da publicação de seu romance Infância. Permaneceu no partido até sua morte, em 1953. Há que recordar, porém, que sua relação com o partido foi sempre marcada pela liberdade. Graciliano era ateu, mas não deixava de ler a Bíblia todas as noites, como lembra seu biógrafo, Dênis de Moraes. Tinha predileção pelo livro dos Provérbios e pelo Eclesiastes. Em suas observações e narrativas, estava sempre referindo-se ao Deus do céu ou Jesus Cristo (Moraes, 2012, p. 16). Tinha a mania de expressar-se com categorias religiosas: “graças a Deus”, “Deus meu”, “santo Deus”, “se Deus quiser” (Moraes, 2012, p. 45).
O crítico literário Antonio Candido tinha o maior apreço por Graça – outra forma de nomear o romancista – e o considerava “um dos maiores escritores” da literatura brasileira, bem como “um dos raros cuja alta qualidade parece crescer à medida que o lemos” (Candido, 2006, p. 13). Como indica Candido, Graciliano era um romancista profundamente atento ao que via, com capacidade singular de captar detalhes que escapavam ao olhar do cidadão comum. Sua literatura não deixa espaço ao descanso. Estamos sempre convocados por ela para participar de eventos que provocam nossa atenção e sensibilidade.
O referido escritor é dotado de incrível poder “de penetrar nos sentimentos escondidos, esmiuçar consciências e corações como um bisturi implacável separando carnes e vísceras” (Lebensztayn; Salla, 2014, p. 89). Seus romances trazem, de forma límpida para os leitores, o impacto da dolorosa vida social no mundo interior de seus personagens. Apesar de sua áspera prosa, o romancista tem uma alma “cheia de misericórdia”, como bem lembrou Otto Maria Carpeaux
(Brayner, 1978, p. 30).
As obras de Graciliano Ramos são marcadas por forte teor psicológico. Nas micronarrativas que subjazem nas macronarrativas, evidencia-se a grande maestria do ficcionista, que não consegue disfarçar a “imaginação enraivecida do apaixonado” (Santiago, 2021, p. 313). Em romances peculiares, como Angústia, vemos emergir um “bicho subterrâneo” que nos habita, que expressa “o homem interior, com seus desejos recalcados, suas frustrações, seu sentimento de impotência” (Bueno, 2008, p. 80).
Esse “bicho subterrâneo” nos faz recordar a presença do “vapor do mal”, como expressa Guimarães Rosa no Grande sertão: veredas. É quando emergem os “avessos” do humano, vindos de lados sombrios, que tensionam com a “vozinha” do bem. A mão humana é capaz de atos de ternura, mas também de atos estranhos, marcados por um ódio que não carece de razão (Rosa, 2019, p. 284, 338).
1. A reificação em “São Bernardo”
Graciliano Ramos é um escritor sempre atormentado pela questão do bem e do mal. Ele tem consciência, assim como Guimarães Rosa, de que o mal está presente no humano e só há saída positiva para a humanidade no dia em que puder ocorrer uma mudança substantiva no ser humano (Brayner, 1978, p. 40).
No romance São Bernardo, constatamos – assim como ocorre nos outros romances de Graça – que a preocupação essencial do autor não é tanto com o ambiente ou a sociedade, mas com o impacto disso tudo no personagem. Assim acontece com Paulo Honório, o personagem-chave do romance de Graciliano. O escritor busca marcar literariamente o caráter perverso de Paulo Honório, cujo processo vital foi delineado pela dinâmica da reificação (Lima, 1969, p. 50).
Paulo Honório é alguém que nasceu em condições de carência e pobreza, mas foi sendo tomado pela vontade de poder, com vigorosa ambição na vida. O traço que rege sua atividade é a busca por propriedade, tanto das coisas como dos homens (Coutinho, 1967, p. 153). O fito do personagem vai ser, a qualquer custo, adquirir a propriedade de São Bernardo. Não foi uma trajetória fácil, mas envolveu muita luta, ambição e empenho (Ramos, 1974, p. 37).
Paulo Honório não é alguém interessado na natureza ou nas pessoas como tais, mas, sim, enquanto significam possibilidade de ser rendosas. Para ele, todas as criaturas que o serviam eram vistas como “bichos” (Ramos, 1974, p. 189). Até o casamento com Madalena foi pensado como um negócio. Foi uma ideia provocada não “por um rabo de saia”, pois não estava preocupado com amores, mas pelo desejo de “preparar um herdeiro para as terras de S. Bernardo” (Ramos, 1974, p. 77; Lima, 1969, p. 65).
Em suas mãos, tudo se transforma em quantidade. Essa é a lógica de sua paixão. E vai ser esse mundo “quantificado” que o esmagará e destruirá, fazendo-o terminar sozinho, com sua dor e insensibilidade, incapaz de qualquer modificação, sobretudo após os tempos que se sucederam ao suicídio de Madalena, sua mulher.
Impressionante na narrativa de Graciliano, quando fala de Paulo Honório, é a descrição de suas mãos. Elas são “enormes, calosas, cabeludas”. Ao final do romance, o personagem encontra-se só na casa deserta e o que constata é que sua figura se transformou. Ao se ver no espelho, percebe não alguém humano, mas um “algo” com dureza na boca e nos olhos. Ao buscar “descascar fatos” de sua existência, dá-se conta de que estragou sua vida com a vontade de poder.
Lamenta-se que nem sequer consegue modificar-se, uma vez que endureceu por dentro. Dá-se conta de que os sentimentos e propósitos possíveis esbarram em sua brutalidade e egoísmo (Ramos, 1974, p. 193). E relata, ao final: “Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes” (Ramos, 1974, p. 188).
2. Os sinais de ressurgência em “Vidas secas”
Para alguns críticos literários, o romance Vidas secas revela-se uma obra-prima de Graciliano Ramos. Como indicou Antonio Candido, o gênero literário do livro situa-se entre romance e livro de contos. Ele vem constituído “por cenas e episódios mais ou menos isolados, alguns dos quais foram efetivamente publicados como contos” (Candido, 2006, p. 63). Ao contrário de outros romances de Graça, este vem narrado na terceira pessoa do singular.
O último livro de ficção de Graciliano Ramos guarda um traço distinto com respeito aos anteriores. Diferentemente da brutalidade que encontramos em outros romances do autor, deparamo-nos agora com um ritmo mais esperançoso, expresso pelo personagem Fabiano de Vidas secas. Mesmo esmagado pelos outros e pela natureza, Fabiano guardava em seu ser mais íntimo, de “primitivo”, uma dimensão de pureza (Candido, 2006, p. 63).
Na visão de Otto Maria Carpeaux, esse é o livro relativamente mais sereno e, talvez, até mais otimista de Graciliano, deixando anunciado um toque de ressurgência vital (Brayner, 1978, p. 32), não obstante o traço oprimido de Fabiano que se manifesta na obra. Com efeito, a desgraça estava sempre por perto do personagem, provocando o risco do desânimo, mas uma pequena chama permanecia acesa, revigorando a caminhada.
Talvez não seja sem razão que Graciliano tenha optado por não fazer um romance sobre a seca. As vidas, sim, são secas, mas a terra não. Como apontou Luís Bueno, “o ambiente em que circulam os personagens não é o de seca, com a exceção óbvia do capítulo inicial. Por incrível que possa parecer, a maior parte do enredo se passa em tempos de fartura” (Bueno, 2015, p. 662).
Há no romance momentos de alegria, como os representados pela presença amiga e constante da cachorra Baleia na vida dos retirantes. São bonitos igualmente os momentos em que a família está reunida em casa junto ao fogo, simbolizando “descanso e aconchego”, com a presença de todos, também dos dois meninos sem nome: o mais novo e o mais velho.
São momentos de alegria que ocorrem na casa, onde todos estão juntos: “a fogueira acesa, as pessoas se aquecendo umas nas outras, as histórias incompreensíveis e contraditórias de Fabiano, tudo é sinal de segurança, de alegria, que só é possível no espaço restrito da vida familiar” (Bueno, 2015, p. 654). Na visão de Rui Mourão, outro grande estudioso de Graça:
Como além da seca não acontece nada naquele recanto do sertão, existir para a família significa apenas fugir com medo e, nos tempos de calmaria, prover a subsistência ou simplesmente se deixar estar dentro no mundo – contemplar uma paisagem, movimentar-se dentro dela, não com determinação, com pressa ou ansiedade, mas descansadamente, largadamente, porque os minutos prometem ser sempre os mesmos em qualquer parte que se encontre […] (Mourão, 1969, p. 126).
Podemos visualizar, no último capítulo, um aceno à seca vindoura. Ao examinar o céu, Fabiano vislumbrava o mau agouro da seca por vir e conjecturava misérias (Ramos, 2018, p. 230). Não havia como afastar os receios que prenunciavam o novo tempo, mas isso não impedia a presença de sonhos benfazejos, como manifestava Sinhá Vitória: “Ela ainda se agarrava a fantasias”, e a família mantinha a esperança de que “o mundo é grande” (Ramos, 2018, p. 238 e 236).
Segundo Luís Bueno (2015), o que caracteriza Vidas secas é a “representação do outro”; também da esperança de outro tempo, de mais fartura. Mesmo impossíveis, as fantasias estão presentes, como as de Sinhá Vitória, com o sonho da cama de “lastro de couro”, e não aquela de varas em que dormiam. O sonho de um futuro melhor para as crianças, numa ocupação diferente daquela dolorosa de Fabiano.
Apesar de não ser um escritor muito dado aos animais, Graciliano conseguiu brindar seus leitores com uma das mais impressionantes personagens, a cachorra Baleia. Desde o início do romance, vemos Baleia à frente do grupo, “arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas que se retardavam” (Ramos, 2018, p. 30). Não havia tempo ruim para Baleia, sempre agitando o rabo com alegria, sem se incomodar de ser a última a sorver os ossos sobrantes. Não tivera o mesmo destino infeliz do papagaio, que morrera para aplacar a fome da família.
Graciliano Ramos destina várias páginas, das mais belas da literatura, para descrever a morte de Baleia. Ela ficou doente e estava condenada à morte. Tinha emagrecido, com perda dos pelos em várias partes do corpo, e feridas brotavam por toda parte, cobertas de moscas. Foi quando Fabiano resolveu então apressar a morte com sua espingarda.
Sinhá Vitória e os meninos resistiram à decisão. Não queriam que ninguém bulisse com a cadela. Entretanto, não havia jeito, o tempo dela estava definhando. Quando os meninos ouviram o barulho da bala, estremeceram de dor, como se o mesmo ocorresse com eles. Aconchegaram-se junto à mãe, e esta “pegou-se à Virgem Maria”. Rolaram então “na cama, chorando alto”, enquanto Fabiano se recolheu (Ramos, 2018, p. 169).
Ferida com tiro de morte, Baleia tentou ainda fugir, escapar precipitada, buscando um lugar de segurança. Em recanto perto dos juazeiros, viveu seu último drama. Buscou agarrar-se aos seixos miúdos, cravando as unhas no chão, até ir aquietando-se. Em momento de desespero, tentou morder Fabiano, mas recolheu-se, mantendo-se, mesmo ao final, numa fidelidade extrema ao seu dono. Ainda sentia “o cheiro bom dos preás”, mas o faro já não era o mesmo, nem a possibilidade de ir-lhes ao encalço.
Era-lhe difícil entender o que acontecera: “o estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio” (Ramos, 2018, p. 179). Tudo agora não passava de “insensibilidade e esquecimento”. O que queria era apenas dormir e acordar feliz “num mundo cheio de preás”. Poderia então lamber “as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme” (Ramos, 2018, p. 181).
Nessa cena da agonia de Baleia, como em outras cenas do livro, assistimos, impactados, à beleza e à riqueza da narrativa de Graciliano Ramos – ou, como diz Antonio Candido, toda a “pureza do livro”, que provoca admiração e comoção. O livro também vem permeado pelo silêncio, pelo “drama de uma impossibilidade de comunicação humana” (Mourão, 1969, p. 121-122; Brayner, 1978, p. 315).
O romance começa com uma fuga, quando os infelizes retirantes caminham até encontrar guarida numa casa de fazenda aparentemente abandonada. Tinham passado por muitos sofrimentos sob aquele terrível céu azul da seca. O último capítulo também vem pontuado por nova fuga e pela presença ameaçadora da seca (Candido, 2006, p. 67).
Como indica Antonio Candido, “entre a seca e as águas, a vida do sertanejo se organiza, do berço à sepultura, a modo de retorno perpétuo” (Candido, 2006, p. 67). O começo e o fim fecham-se num círculo de dor, em que os personagens se encontram “sufocados pelo meio”, mas nada disso impede a presença da esperança. Ela é vigorosa entre os retirantes.
Conclusão
O que mais impressiona na produção de Graciliano Ramos é a precisão literária e o cuidado com a narrativa. Certamente um dos mais rigorosos escritores brasileiros, sempre se mostrou insatisfeito com o resultado de seus trabalhos. De nossa parte, nós, leitores, regozijamo-nos com sua preciosa escrita, que abre veredas inusitadas para a reflexão sobre a realidade social e o mundo subjetivo. Na última fase de sua vida, Graciliano abandonou a ficção, dando lugar ao mundo da memória. Foi o momento em que se deu a passagem da ficção para a confissão. Foi quando buscou evocar sua infância, num livro de beleza ímpar, e depois relatar suas memórias do tempo da prisão, ocorrida em março de 1936.
Graciliano Ramos foi um dos mais importantes escritores dos anos 1930, e não há dúvida sobre a riqueza de sua presença no âmbito geral dos romancistas brasileiros. Foi alguém que conseguiu, como poucos, expressar toda a virulência do sofrimento dos excluídos no Brasil, particularmente dos nordestinos, e o impacto dessa dor na vida de cada um dos personagens que ele escolheu para suas narrativas. Revela, como poucos escritores nacionais, a psicologia do homem-humano, sobretudo os meandros de sua vida subterrânea, daquela parte que vem reprimida ou ocultada na padronizada dinâmica do ser social.
Referências bibliográficas
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SANTIAGO, S. Posfácio. In: RAMOS, G. Angústia. 87. ed. Rio de Janeiro: Record, 2021. p. 307-321.
Prof. Dr. Faustino Teixeira*
*é professor titular aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), tendo trabalhado no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião. Hoje ministra cursos de literatura e cinema no Instituto Humanitas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), bem como atua no Portal Paz e Bem. E-mail: [email protected]

